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Capítulo 18 de 57

Parte 17 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Caim e Abel E falou Caim com seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra seu irmão Abel, e o matou. E saiu Caim de diante da face do Senhor, e habitou na terra de Nod, da banda do oriente do Eden. E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e teve a Enoque; e ele edificou uma cidade, e chamou o nome da cidade pelo nome de seu filho Enoque. (Gên. IV, 8, 16, 17) Quem quer que raciocine um instante verá nos versículos acima a destruição completa da lenda de nossos "primeiros pais". Se Adão e Eva foram os primeiros habitantes da Terra, como é que se explica o fato de haver o filho, Caim, depois do assassínio de seu irmão, fugido para uma cidade chamada Nod, onde se casou? Daí se conclui que Adão e Eva não foram os nossos "primeiros pais". Moisés, ou antes, os autores do "Pentateuco", algumas vezes plagiários, copiavam as lendas de outros povos, sem o cuidado de evitar contradições.

Assim é que, conhecedores da mitologia hindu, eles transferiram para o judaismo a lenda de Ádima e Heva, sem preocupação da lógica que esta continha, e deu nesta triste confusão que somente os espíritos desprevenidos deixaram passar. Em toda a narração de Caim e Abel não há nada de alegórico. Deus rejeita positivamente aquilo que Caim lhe oferece e aceita as ofertas de Abel. O primeiro se enraivece e mata o irmão, apenas, a alguns passos de Deus. O que há de extraordinário nesta história, salientam os críticos, é o perdão imediato que Deus concede a Caim, é o fato de o Senhor tomálo sob sua proteção a ponto de dar-lhe uma ressalva contra todos aqueles que o pudessem matar, quando na Terra restavam, apenas, três pessoas, Adão, Eva e o seu filho fratrícida. O admirável, ainda, é que Deus protege um assassino, quando puniu para a eternidade e condenou aos tormentos do inferno todo o gênero humano, só porque Adão e Eva comeram da árvore da ciência do bem e do mal.

Não podemos deixar de salientar que o "Pentateuco" nunca faz referência a esta condenação do gênero humano, nem ao inferno, nem à imortalidade da alma, nem a nenhum desses dogmas criados muito tempo depois, querendo transformar uma narração clara da Escritura, em um amontoado de alegorias. Afirmam os esoteristas que não devemos tomar ao pé da letra a lenda de Adão e Eva, bem como a história de seus descendentes e sim, como uma simples alegoria, onde existe filosofia e da boa. O que há a salientar em tudo isto é que Saint Ives, Eliphas Levy, Fabre d'Olivet e outros nomes mais ou menos famosos nos anais da iniciação, tecem comentários felizes em torno dessa lenda, como se ela pertencesse ao mosaismo. Malgrado o profundo respeito que nos merecem essas personalidades citadas, não nos pomos de acordo com elas.

Não porque procurassem explicação para a lenda de nossos "primeiros pais" num terreno puramente filosófico, mas porque deveriam explicá-lo à luz da Filosofia, como alegorias vindas de épocas mais remotas, da mitologia hindu, como já foi dito, para que não se tirasse o mérito daqueles que, na realidade, foram os seus criadores. Mas, infelizmente, relegaram a plano secundário a origem dos fatos. Admitindo-se, porém, a premissa de que Adão e Eva foram os nossos primeiros pais, não se encontrará nunca, mesmo à luz da Filosofia ou dos mais admiráveis artifícios, argumentos para mencioná-los como o primeiro casal existente na Terra, uma vez que seu filho Caim, depois de cometido o assassínio, fugiu para Nod, onde se casou. Todas essas lendas vêm de tempos mais distantes do que aqueles vividos por Moisés. Foram transcritas ou inspiradas em religiões mais antigas, sem o devido cuidado, talvez por se destinarem a homens de nenhuma ou quase nenhuma ilustração, para quem a lógica pouco significava.

Tanto isto é verdade, que hoje, qualquer pessoa semi alfabetizada, que se dedique a um estudo sério do Velho Testamento e que não possua a cegueira dogmática, descobrirá, por certo, entre as suas páginas, contradições de tal monta que uma razão normal não poderá admitir. Referimo-nos às Bíblias católicas e protestantes, as únicas que conhecemos e que são largamente ensinadas por estas duas correntes do Cristianismo e que, ainda, hoje, são adotadas e aceitas por espíritas desavisados. Ora, se os esoteristas explicam as alegorias das lendas bíblicas, muito embora elas não promanem de tal fonte, já os católicos, esquecidos da época em que vivemos, não admitem hipóteses filosóficas e no-las apresentam com a nudez com as quais as encontramos no Velho Testamento. Mas, ainda mesmo os esoteristas, quando têm que falar aos leigos, isto é, àqueles que não possuem, segundo afirmam, a chave com a qual pretendem abrir o entendimento à compreensão de seus inúmeros versículos, os citam emprestando-lhes o sentido literal e nunca de outra forma.

A conclusão a que podemos chegar, é que, só se recorre à chave, quando os textos são obscuros ou incompreensíveis. Passemos a outras considerações, uma vez que, divagando, muito nos afastamos de nosso assunto principal: Então Abel foi pastor e Caim agricultor e, entretanto, está provada a preferência do Senhor por Abel. Vamos raciocinar um momento: qual dos dois filhos de Adão obedeceu a Deus na escolha de sua profissão? Foi Caim, pois, Deus tinha ordenado à humanidade de cultivar a terra e de alimentar-se exclusivamente do produto dos

campos. [ ] Caim depois de seu crime vergonhoso foi castigado por Deus que lhe disse: Quando lavrares, a terra não te dará mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na Terra. (Gên. IV, 12) O que mais nos surpreende é a cidade fundada por Caim. É coisa inacreditável poder um vagabundo construir uma cidade. Com que obreiros teria ele contado, considerando-se a lenda de nossos "primeiros pais"? Quais os instrumentos de que se serviu para a construção das casas? Onde foi Caim recrutar os cidadãos para povoar a cidade de Enoque? Seja como for, o fato a salientar é mais uma vez o pouco caso com que eram recebidas as ordem do Senhor. A determinação divina foi que Caim vivesse fugitivo e vagabundo, e Caim, não só se revelou trabalhador, como também não quis ser fugitivo, uma vez que morava em uma cidade por ele construida. Procurando, iremos encontrar mais contradições. Eis que me lanças da face da Terra, e da tua face me esconderei; e serei fugitivo e vagabundo na Terra, e será que todo aquele que me achar me matará?

E O Senhor porém disselhe: Portanto qualquer que matar Calm sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não ferisse qualquer que o encontrasse. (Gên. IX, 14 e 15) Mas, quem poderia encontrar Caim sobre a face da Terra; quem o poderia matar se só Adão e Eva existiam além dele? Os animais ferozes? Deus, por certo, não falaria às feras, ameaçando castigá-las sete vezes. Eis como se conta mal a história. E há quem afirme que foi Deus que ditou isso que aí está a Moisés! Os herejes são os que não acreditam nesta história mal contada...

Longevidade incrível Analisemos agora a genealogia dos Sete: Este é o livro da geração de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez macho e fêmea os criou, e os abençoou; e chamou o seu nome Adão, no dia em que foram criados. E Adão viveu 130 anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e chamou o seu nome Sete. E foram os dias de Adão depois que gerou Sete, 800 anos; e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias que viveu Adão 930 anos; e morreu. E viveu Sete 105 anos, e gerou Enos. E viveu Sete depois que gerou Enos 807 anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Sete, 912 anos; e morreu. E viveu Enos 90 anos, e gerou Quenã. E viveu Enos depois que gerou Quenã, 815 anos; e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enos, 905 anos; e morreu. E viveu Quenã 70 anos, e gerou Maalalel. E viveu Quenã depois que gerou Maalalel, 840 anos e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Quenã, 910 anos; e morreu. E viveu Maalalel 65 anos e gerou Jarede. E viveu Maalalel depois que gerou Jarede, 830 anos; e gerou filhos e filhas. E foram Todos os dias de Maalalel, 895 anos; e morreu.

E assim nesta seqüência assustadora, chegaremos a Matusalém, que gerou a Lemeque; e foram os dias de Matusalém, 969 anos; a Lemeque que gerou a Noé e que viveu 777 anos. Por fim, vemos a Noé, que gerou Cão, Sem e Jafé. Há fatos tão extraordinários que dispensam comentários. Por mais poesia que se encontre nesta narrativa absurda, não podemos dispensar a ela senão aquilo que dispensamos a uma boa anedota. Ora, Matusalém que bateu o record de longevidade, viveu em estado de continência até a idade de 187 anos e achou meios de continuar vivendo, ainda, 782, dando até o fim sinais evidentes da mais perfeita virilidade, pois, depois que gerou Lemeque, continuou a viver por espaço de 782 anos, sempre e sempre gerando. Noé, por sua vez, passou 500 anos sobre a Terra, antes de gerar Sem, Cão e Jafé. Fez-se correr muita tinta a propósito da longevidade extraordinária do patriarca do Gênesis. Os doutores católicos, percebendo o quanto eram indigestas essas frivolidades, tentaram salvar do ridículo estes versículos do Espírito Santo e acharam que era necessário interpretar anos por lunações, insinuando que nesta época o tempo era contado por luas. De acordo com este modo de contar,

Matusalém teria morri do octogenário. Eis tudo. [ ] O cônego Rorhbacher, entre outros, em sua "História Universal da Igreja, diz que os anos do Gênesis são, na realidade, de doze meses e cita como exemplo Abraão que, segundo a Bíblia, "morreu em velhice tranqüila, com muita idade e já farto de viver, pois, contava 175 anos”. (Gên., XXV, 7 e 8) Na realidade, se fossemos contar por luas, Abraão não teria vivido mais de 14 anos e sete meses, e continua Rorhbacher, seria discordante das expressões empregadas pelo autor sacro. O mesmo teólogo, para provar que os anos indicados no Gênesis, são de 12 meses, cita, ainda, vários personagens cujo texto divino faz conhecer a idade, na ocasião do nascimento de seu primeiro filho. Assim, temos Enos, Quenã e Maalalel, que tiveram filhos com a idade de 90, 70 e 65 anos. Contando por luas, diz o cônego, seria necessário admitir que eles tivessem tido filhos com a idade de 7 anos e 5 meses, 5 anos e 10 meses e 5 anos e 5 meses, respectivamente.

E Nahor que pariu com 29 anos, conforme o bíblico, pergunta exaltado e lógico o respeitável teólogo e cônego católico, como Nahoq poderia ter parido com a idade de 2 anos e 9 meses? Não, bom Rorhbacher, sois vós que possuís a razão; os anos de que fala o Gênesis são na realidade de 12 meses. Também nada é mais divertido do que o caso do cidadão Noé que esperou 500 anos para cumprir a ordem divina do crescer e

multiplicar-se. [ ]

Seria o judaísmo a primeira religião monoteísta Em 1909, diz Sigmund Freud, O. Rank, que então trabalhava comigo, publicou, por sugestão minha, uma memória intitulada "O Rito do Nascimento dos Heróis". Trata-se do fato de que "quase todos os povos cultos importantes, tiveram em tempos primitivos, seus heróis, seus reis, e príncipes fabulosos, fundadores de religiões, de dinastias, de impérios, cidades, em suma, seus heróis nacionais, exaltados em poemas e lendas". Especialmente a história do nascimento e da juventude desses heróis tem sido descrita de modo fantástico, com semelhanças tão desconsertantes que até as palavras concordam, ainda que se trate de países diferentes, em ocasiões muito distanciadas e sem relação alguma, coisa observada por inúmeros investigadores. Se se constrói, segundo propõe Rank, aproximando-se da técnica de Galton "a fábula termo médio, no que concerne aos traços mais essenciais de todas as histórias", obteremos o seguinte esquema: O herói é filho de pais muito nobres, geralmente filhos de reis.

Seu nascimento foi precedido de dificuldades, como a abstinência, ou a esterilidade dos pais, separação deles, devido à proibição ou obstáculos externos. Durante o embaraço ou pouco antes de produzir-se o parto, ouvem-se predições alarmantes (sonhos ou oráculos), que geralmente significam um perigo para os pais. Devido a isso, os pais ou pessoas chegadas determinam matar ou eliminar o recémnascido; de ordinário é lançado à água dentro de um cesto. Logo são salvos por animais ou por pessoas de modesta condição, pastores, e criados por um animal, ou por uma mulher humilde. Já homem, seguindo caminhos variados, volta a encontrar-se com os seus progenitores, vinga-se do pai, e logo, ao ser conhecido, é exalçado, alcançando sua

grandeza e sua glória. [ ] Os mais antigos personagens históricos, ligados a este mito do nascimento, é Sargão de Agade, ou Sargão I, o fundador de Babilônia (aproximadamente no ano 2.000 antes de Cristo). "Eu sou Sargão, o poderoso rei de Agade. Minha mãe era uma vestal; não conheci meu pai, embora o seu irmão vivesse na montanha. Em minha cidade, Azupirami, situada às margens do Eufrates, fui engendrado no ventre de minha mãe, a vestal. Do parto, nasci eu. Colocou-me em uma cesta de vime, fechada com asfalto e me lançou à corrente que não chegou a afogar-me. A corrente me conduziu a Akki. O juiz das águas me acolheu com a bondade de seu coração. Akki me considerou como seu próprio fliho e me fez seu jardineiro. Em meu ofício consegui Istar que

me amou; fui rei e durante 45 anos exerci o meu reinado". [ ] Na série iniciada por Sargão de Agade, seguem-se os nomes de Moisés, Ciro e Rômulo. No Mahabarata, diz Leterre, lê-se uma lenda idêntica da India, escrita muito anteriormente à existência de Sargão I, e, portanto, de Moisés: Kunti ou Pritha, filha de um rei, foi amada pelo Deus Sol que lhe deu um filho. Envergonhada e receiosa da cólera do pai e da mãe, de cumplicidade com a serva, colocou o menino sobre um travesseiro mole, numa cesta de vime, estanque, coberta de fazenda e, com lágrimas nos olhos, o abandonou no rio Asva. A cesta seguiu o curso do Ganges e aportou na cidade de Champs, no território de Suta. Um casal sem filhos que por alí passava, vendo a cesta a recolheu, tirando dela um lindo menino, belo como o Sol, revestido de uma armadura de ouro, com as orelhas ornadas de ricos brincos, e o criaram. O rapaz, ao qual deram o nome

de Kama, se tornou poderoso rei. [ ] S. Freud diz que o fundamento histórico dos acontecimentos que despertam o nosso interesse é o seguinte: devido às conquistas da dinastia XVIII, o Egito se transformou em um império que se estendeu pelo mundo. O novo imperialismo se concentrou no desenvolvimento dos conceitos religiosos, se não em todo o povo ao menos nas classes dominantes mais esclarecidas. Sob a influência do sacerdote do deus Sol (Heliópolis), robustecida, talvez, pelas incitações asiáticas, surgiu a idéia de um Deus universal, Aton, desaparecendo sua limitação a um país, a um povo. Ao subir ao trono, o jovem Amenhotep IV, aparece um faraó, cuja idéia dominante é o desenvolvimento desse conceito religioso. Estabelece a religião de Aton, como religião do Estado, considerando-o como o Deus universal, o Deus único e dá como embustes e mentiras, as demais deidades. Com grande energia reprimiu todas as tentativas em defesa da magia e da feitiçaria, negando a verdade, tão acariciada pelos egípcios, de uma vida depois da morte.

Com uma surpreendente visão dos conceitos científicos, que mais tarde haveriam de desenvolver-se, reconhece nas energias das radiações solares a fonte e a origem de tudo o que vive sobre a Terra, e adora o Sol como o símbolo do poder de seu Deus. Exalta a alegria da criação e da vida em Matt (verdade e justiça). Assim, na opinião de um homem profundamente reverenciado em todo o mundo, por inúmeros partidários de suas teorias, não foi Moisés o primeiro fundador de uma religião monoteista. Vivendo nesta mesma época, inteligente e astuto, aproveitador dos conceitos alheios, principalmente quando deles surgisse algo de notável, possivelmente, mais uma vez o legislador judeu se aproveitou da idéia magnífica de seu contemporâneo. Infelizmente, não nos é dado transportar para o nosso trabalho o pensamento integral do criador do "complexo de Édipo", de quem discordamos profundamente, mas cujos conhecimentos históricos não podem, de forma alguma, ser desprezados. Deixemos, porém, de lado, todas as considerações do fundador da escola psicanalista.

Consideremos, mesmo, que tudo o que nos adiantou Sigmund Freud e outros eminentes vultos citados, não exprimam a verdade; perguntamos, querendo admitir que Moisés foi o criador do monoteísmo, que vantagens representa a religião hebraica, se a sua crença não ultrapassa as raias dos castigos e das recompensas terrenas? E a imortalidade da alma? O monoteísmo, como todos conhecemos, baseia-se na lei de Moisés. Há, porém, diferentes espécies de monoteísmos. Em certo sentido, todas as religiões antigas foram monoteistas. Todas ensinaram a existência de um Ser Supremo. Usualmente, entretanto, este Ser Supremo não era objeto de culto popular e caía no esquecimento, enquanto que os deuses inferiores eram em geral e realmente

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