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Capítulo 40 de 57
Eloista — parte 9 de 26
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
já cobriu o mundo de ruínas e de mártires. [ ] Proibição de comer carne Assim encontramos no Levítico: E, qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinarem entre eles, que comer algum sangue, aquela alma que comer sangue eu porei a minha face, e a extirparei de seu povo. Porque a alma da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar; para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pelas almas. Portanto tenho dito aos filhos de Israel: nenhuma alma dentre vós comerá sangue, nem o estrangeiro, que peregrine entre vós, comerá sangue. Também, qualquer homem dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinem entre eles, que caçar caça de animal ou de ave que se come, derramará seu sangue e o cobrirá com pó. Porquanto é a alma de toda a carne; o seu sangue é pela sua alma; por isso tenho dito aos filhos de Israel; não comereis o sangue de nenhuma carne, porque a alma de toda a carne é o seu sangue; qualquer que o comer será extirpado. (C. XVII-v. 10 a 14).
Proibição relativa aos animais mortos E toda a alma entre os naturais, ou entre os estrangeiros que comer corpo morto ou dilacerado, lavará os seus vestidos, e se banhará com água, e será imundo até à tarde; depois será limpa. Mas se os não lavar, nem banhar a sua carne, levará sobre si a sua iniqüidade. (Levítico C. XVII - vs. 1 e 16). Proibição de comer sangue de animais e a carne morta, segundo as instituições brahmânicas O homem que come o sangue de um animal não proscrito pelo Veda, isto é, do qual se possa alimentar, é considerado filho de um psotchas (sorte de demônio vampiro) e perecerá, pois ninguém deve se alimentar de sangue. Aquele que come o sangue de um animal proscrito pelo Veda, isto é, do qual não se possa comer, morre de lepra, e sua alma deve reviver no corpo de um chacal imundo.
O sangue é a vida, é o divino licor que banha e fecunda a matéria da qual é formada o corpo, como os cem braços do Gange fertilizam e fecundam a terra sagrada; e da mesma forma que seria insensato ensaiar de esgotar a fonte do rio imenso, assim seria o de exaurir as fontes da vida inutilmente, nem profaná-las se alimentando. É pelo sangue que o fluido puro emanado do grande Todo, e que é a alma, vem unir-se ao corpo. É pelo sangue que o feto se atém à mãe; é pelo sangue que temos a Deus. Não se come a seiva das árvores, que é seu sangue e que produz o fruto. Da mesma forma não se deve comer o sangue dos animais que é a sua seiva. O sangue encerra os segredos misteriosos da existência; nenhum ser criado pode viver sem ele. Comer sangue é profanar a grande obra do Criador. Que aquele que dele se nutrir tenha receio de não poder deixar, nas migrações sucessivas, o corpo do animal imundo, no qual sua alma deve renascer.
O brâhmane sacrificador sangra o boi, o cordeiro e a cabra, antes de os oferecer no altar, que isto vos sirva de exemplo. Quando desejardes vos alimentar da carne de animais puros e que não seja proibida, seja de ruminantes com os cascos fendidos, seja de outro tomado à caça, voadores ou quadrúpedes, fareis um buraco na terra e fechai-o depois de haver espalhado o sangue do animal que quiserdes comer. Fora as penas do outro mundo, a elefantíasis, a lepra e as doenças mais humilhantes esperam aqueles que transgridem estas proibições. Proibições relativas a animais mortos Todo o animal que morra por si, ou por acidente, é impuro, mesmo que não seja daqueles proibidos pela Santa Escritura, porque o seu sangue se conserva em seu corpo e ninguém o fez correr na terra. Aquele que come deste animal, come seu sangue e sua carne, o que é proibido, e ele se torna impuro como animal de que se alimentou.
Se a maior parte das pessoas de classes misturadas morrem de lepra e de doenças humilhantes, que fazem de seus corpos a presa dos vermes, mesmo antes de cessarem a vida, é porque comem todos os animais mortos que encontram. Aquele que comeu desses animais deverá ir à piscina destinada a lavar as sujeiras vergonhosas, e depois de aí haver lavado os seus vestidos, mergulhará seu corpo n'água e fará três abluções prolongadas, e, ainda, assim, ficará impuro até o segundo levantar do sol. Moisés quando proibe comer o sangue dos animais, só dá um motivo a esta proibição: "porque a vida da carne está no sangue" e nada mais esclarece, como é sempre de seu hábito. Como se observa ele se dirigia a um povo que tinha mais necessidade de ser dominado que esclarecido e que, pela sua ignorância, aceitava as proibições sem cogitar de suas causas.
Na índia, ao contrário, a mesma proibição sente a necessidade de desenvolver-se, de dirigir-se à inteligência, de fazer compreender porque ela foi ditada, e então, as considerações de que ela se envolve se elevam a uma altura que a Bíblia não alcançou, mesmo porque, nela não há mais que uma lembrança enfraquecida. O sangue é a vida, é o divino licor que fertiliza e fecunda a matéria de que é formado o corpo, como os cem braços do Ganges fertilizam e fecundam a terra sagrada. É pelo sangue que o fluido puro (agasa) emanado do Grande Todo e que é a alma, vem se unir ao corpo. E Moisés, diz, ainda, Jacolliot, não faz mais que abreviar estas lembranças quando escreve esta simples explicação da regra que ele impunha: "Porque a vida da carne está no sangue". Está mais uma vez provado que a Bíblia não é mais que um eco da India, ou um eco que não permite contradita das instituições do Oriente.
Nos cinco livros atribuidos a Moisés, diz o historiador citado, se encontram a cada passo, detalhes dos hábitos, dos costumes dessas cerimônias, da forma de sacrifícios, das leis, que dadas sem a menor explicação, não podem encontrar sua razão de ser, senão na imitação das civilizações antigas, e quanto mais avançarmos nestes estudos comparativos, mais nos persuadiremos de que Moisés não fez mais que abreviar, para uso dos hebreus, as instituições dos egípcios, que estes últimos haviam recebido da India. O sangue de todos os animais deve trazer-se à porta do tabernáculo O Levítico assim se exprime: Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Fala a Arão e a seus filhos, e a todos os filhos de Israel, e dize-lhes: Esta é a palavra que o Senhor ordenou, dizendo: Qualquer homem da casa de Israel, que degolar boi, ou cordeiro, ou cabra, no arraial, ou quem os degolar fora do arraial; E os não trouxer à porta da tenda da congregação, para oferta ao Senhor diante do tabernáculo do Senhor; será culpado de morte e morrerá no meio do povo, como se tivesse derramado o sangue de um seu semelhante; Eis porque os filhos de Israel devem apresentar ao padre os animais que querem imolar em vez de sacrificarem nos campos, a fim de que eles sejam santificados pelo Senhor e os ofereçam como sacrifícios pacíficos diante do tabernáculo.
E o sacerdote espargirá o sangue sobre o altar do Senhor. à porta da tenda da congregação e queimará a gordura por cheiro suave ao Senhor. E nunca mais sacrificarão os seus sacrifícios aos demônios, após os quais eles se prostituem; isto ser-lhe-á por estatuto perpétuo nas suas gerações. Dize-lhe pois: Qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam entre vós, que oferecer holocausto ou sacrifício, e não o trouxer à porta da tenda da congregação, para oferecê-lo ao Senhor, o tal homem será extirpado do Senhor. (C. XVII, vs. 1 a 9) Antes de procurar o senso simbólico desta curiosa injunção de não matar animais, bois, cordeiros, ou cabras, senão diante da porta do tabernáculo e pela mão do padre, vejamos quais foram as ordenanças que regulamentaram os mesmos costumes, entre os hindus. No livro V, de Manú, vamos encontrar: O Ser que existe por sua própria vontade criou ele mesmo os animais para o sacrifício, e o sacrifício é a causa do crescimento deste universo; eis porque a morte cometida pelo sacrifício não é uma morte.
Tantos pelos tenha o animal pelo corpo, tantas vezes aquele que o mata de uma maneira ilícita morrerá de morte violenta a cada um dos nascimentos que se seguirão. Aquele que não come a carne de um animal que ele achou ou que ele recebeu de um outro depois de o haver ofertado a Deus, não se torna culpado. Pois comer a carne, depois do cumprimento do sacrifício, foi declarada regra divina. Um brâhmane nunca deve comer a carne de animais que não tenham sido consagrados pelos padres, mas que a coma, conformando-se com a regra eterna, logo que eles tenham sido consagrados pelas palavras sagradas. Aquele que, mesmo todos os dias, se alimenta da carne de animais permitidos de comer, não comete nenhuma falta, pois Brahma criou certos seres animados para serem comidos e os outros para comê-los. Que um dwidja que conhece a lei não tenha nunca o pensamento de matar um animal sem fazer a oferenda; que ele não coma nunca a carne sem conformar-se com esta regra, a não ser em caso de urgente necessidade.
Aquele que, unicamente por prazer, mata animais inocentes, não vê a sua felicidade crescer, seja durante a vida, seja depois da morte. Mas o anacoreta retirado nas florestas não deve matar nenhum animal sem a sanção do Veda, mesmo em caso de aflição. Encontramos no Sarna-Veda: Devem-se respeitar os animais pois sua imperfeição é uma obra da Sabedoria superior que domina os mundos, e é necessário respeitar esta Sabedoria, mesmo em suas obras mais ínfimas. Não matareis, pois, os animais, que, como vós, são criações divinas, sem motivo ou por prazer. Não os atormenteis nunca. Não os façais nunca sofrer. Não os sobrecarregareis de trabalhos. Não os abandoneis na velhice, tendo em conta a lembrança dos serviços que eles vos prestaram. O homem não pode matar os animais senão para seu alimento, evitando com cuidado aqueles que são proibidos como impuros. Mesmo os imolando para seu alimento, ele comete uma falta, pela qual será severamente punido se não for observada a regra prescrita.
Que ele conduza diante do templo o animal que ele deseja comer, e o padre o imolará oferecendo-o ao Senhor e espalhará o sangue da vítima sobre o altar. Pois o sangue é a vida e toda a vida que se extingue deverá voltar a Deus. Aquele que come a carne sem conformar-se com as prescrições da Santa Escritura, morrerá de uma maneira ignominiosa, pois ele matou sem sacrificar sua morte, pois ele derramou o sangue sem oferece-lo ao Mestre de todas as coisas. Aquele que deseja observar a lei prescrita não comerá da carne dos animais senão depois de have-los feito oferecer a Deus pelo brâhmane sacrificador, que espalhará o sangue no altar, pois o sangue deve ser oferecido ao Criador para a santificação da morte. Quem quer que seja que comer da carne sem o sacrifício será maldito neste mundo e no outro, pois o divino Manú disse: “Ele me devorará no outro mundo, isto é, aquele que come a carne neste”.
Vê-se daquela passagem do Levítico, citada anteriormente, que Moisés proibia aos hebreus imolar animais, a não ser diante da porta do tabernáculo e sob pena de morte. Mas, como sempre, o legislador desdenha de expor os motivos, de fazer conhecer o fim de sua proibição. Porque, segundo a expressão mesma da Bíblia, proibe-se a morte de todo o animal in castris vel extra castra, no campo ou fora dele. A estrofe 7, do capítulo XVII do Levítico, que trata desta matéria contém uma explicação semelhante destas palavras: Et nequaquam ultra immolabunt hostias suas doemonibus... E eles não oferecerão mais para o futuro suas imolações aos falsos deuses. Mas, que prova esta passagem, pergunta o grande orientalista? Ela indica simplesmente que outrora os israelitas imolavam seus animais diante das estátuas dos deuses que Jeová tinha derrubado, e que os mesmos costumes eram conservados em proveito do culto.
O que queremos encontrar na obra atribuída a Moisés é a idéia que pode dar nascimento a esta proibição de imolar sempre à porta do tabernáculo e em nenhum outro lugar, ut sanctificentur Domino, a fim de que os animais mortos sejam santificados pelo Senhor. Por que, enfim, a santificação do sangue derramado? Moisés nada mais fez, assevera Jacolliot, que abreviar as ordens antigas do Egito e da India, e, abreviador inteligente, retendo o costume, ele chega sempre a esquecer a idéia que lhe deu nascimento. Reportemo-nos às passagens de Manú e dos Vedas que transcrevemos sobre o assunto, e então, nos é possível dissipar a obscuridade do texto bíblico, de explicá-lo logicamente, deduzindo disto a conseqüência natural, a de que o texto não é, como todos os demais, senão o resultado de uma cópia mal feita. Não tenhamos dúvida de que este hábito de sacrificar às divindades o sangue dos animais para o santificar antes de servir de alimento, veio da India e dele o Oriente todo se saturou.
Mais tarde a primitiva idéia enfraqueceu, tornou-se simbólica e cessou o hábito de oferecer a Deus cada animal. A esta cerimonia de todos os dias, surgiram as festas periódicas, durante as quais o povo carregava animais de toda a espécie, que o padre sacrificava sobre o altar com a finalidade de uma pacificação geral. Jacolliot assegura que somente a India se conservou fiel aos antigos hábitos e, ainda hoje, os brâhmanes e os membros das altas castas não comem a carne senão depois de consagrada no Templo. Eis como todas as civilizações antigas procedem uma da outra, e como comparando-as nos mínimos detalhes de suas vidas, de seus costumes usuais, chega-se a encontrar esta comunidade de origem que, longe de ser o fruto de uma idéia paradoxal, é o resultado fatal e lógico das leis que presidem o desenvolvimento da espécie humana. A opinião católica que persiste em ver nos antigos usos hebraicos uma figura da Igreja nova, explica este capítulo do levítico de maneira bem diferente.
Segundo ela, estas proibições foram simplesmente estabelecidas por Deus para impedir os judeus de oferecerem os sacrifícios em outro qualquer lugar que não fosse o tabernáculo. Farei, antes, observar que a Bíblia se serve destas expressões: “Homo quilibet de domo Israel", isto é, todo o homem em Israel que tíver matado em outro lugar que não seja à porta do tabernáculo. ... Se se tratasse de um sacrifício à divindade, somente o padre teria o direito de oferecê-lo, enquanto que, no sentido que nos ocupa, todo o hebreu tem o direito de matar diante do tabernáculo, uma vez que ele santifique seu ato remetendo o sangue da vítima ao padre, que o esparge sobre o altar em sinal de expiação. É, pois, dos animais destinados à alimentação que se cogita e não dos destinados às cerimonias puramente religiosas. Ante ostium tabernaculi testimonii immolent eas hostias pacificas. Eles imolarão suas vítimas pacíficas ante a entrada do tabernáculo. Eis o que é ordenado aos hebreus: Fundetque sacerdos sanguinem super altare Domini. O padre espargirá o sangue sobre o altar do Senhor.
Eis o papel do levita: Eu o repito, se se tratasse de um sacrifício simbólico à divindade, somente o padre tinha o direito de imolar a vítima, e isto, não à porta do tabernáculo, mas no fundo do mesmo templo, onde nenhuma outra pessoa poderia entrar. De resto, é necessário fazer sofrer o texto singulares torções para chegar a tornar possível esta explicação que combatemos. Eis aqui a tradução desta passagem pelo padre de Carrière, na edição aprovada da Bíblia que temos sob os olhos. Texto do Levítico: Homo qui libet de domo Israel, si occiderit bovem, aut ovem, sive capram, in castris vel extra castra. Et non obtulerit ad ostium Tabernaculi oblationem Domino, sanguinis reus erit: quasi si sanguinem fuderit, sic peribit de medio populi sui. Ideo sacerdoti'offerre debent filli Israel hostias suas quas occident in agro, ut sanctificentur Domini... Tradução literal: Todo o homem da casa de Israel que houver morto um boi, um carneiro ou uma cabra, no campo ou fora do campo.
E que não o haja oferecido ao Senhor, diante da porta do tabernáculo, será culpado de ter derramado o sangue; e como se ele houvesse derramado o sangue, ele perecerá no meio de seu povo. É por isso que os filhos de Israel devem oferecer ao padre as vítimas que mataram nos campos, para que sejam santificados pelo Senhor. Tradução do padre de Carrière da Companhia de Jesus: Todo o homem da casa de Israel ou os prosélitos estabelecidos entre eles, querendo oferecer um sacrifício ao Senhor, terá morto, nesse intento, um boi ou uma ovelha ou uma cabra no campo ou fora do campo. E que não o tenha apresentado à entrada do tabernáculo para ser oferecido ao Senhor, será culpado de morte, e perecerá nomeio de seu povo, como se houvesse derramado o sangue de um homem. Eis porque os filhos de Israel devem apresentar aos padres a vitima que querem oferecer ao Senhor, a fim de que eles as imolem diante do tabernáculo, em lugar de matá-las no campo... Todas as passagens sublinhadas não existem no texto: esta lealdade de tradução pode trazer comentários.
Observemos sempre que são precisamente estas interpolações pouco escrupulosas que servem de base a esta opinião, que o Levítico compreendeu neste capitulo falar dos animais oferecidos puramente em sacrifício a Jeová e não dos destinados ao alimento do povo. Ademais, o Levítico, no capítulo VII, parece esgotar esta questão, quando ordena oferecer ao Senhor o sangue e a gordura de todos os animais mortos indistintamente, sob pena de morte, e dar ao padre o peito e a espádua direita de cada vítima imolada. Aqui não se trata de animais destinados ao alimento, isto não suportaria a sombra de uma dúvida. É incontestável igualmente que somos obrigados a remontar ao Extremo Oriente para encontrar a explicação destes costumes, que a Bíblia é
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.