[user_registration_my_account]
Capítulo 8 de 57
Parte 7 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
para 1.300, aproximadamente. [ ] As testemunhas de Heródoto, Berose são acordes neste sentido e os monumentos descobertos vieram em sua confirmação. Diz, ainda, Taxil, que as descobertas realizadas depois do começo de nosso século, na história dos povos do antigo oriente, com o auxílio das inscrições com caracteres hieroglíficos e cuneiformes, não permitem, hoje, mesmo nos livros mais elementares, a reedição das frivolidades bíblicas, no que conceme à primeira parte dos anais do gênero humano. Os resultados obtidos por Champollion, Rougé, de Saulcy, Mariette, Rawlinson, Lepsius, Brugsh, Oppert, aclaram a história antiga de uma luz completamente diversa das tradições coligidas pelo mistificador Esdras. Ficou estabelecido que o fundador do império Assírio foi um príncipe chamado Ninippaloukin, conforme se encontra nos monumentos, o qual viveu 150 anos depois de Moisés. De outro modo, a região chamada Assíria era designada no tempo do Patriarca por império de Rotennou, conforme os monumentos egípcios mencionados por Opert e outros sábios.
Vemos, com efeito, nas diversas inscrições egípcias, que os reis da 18ª dinastia do Egito, contemporâneos de Moisés, levaram suas armas à Babilônia e cobraram impostos dos rotennous, que dominavam na Mesopotâmia, aquele mesmo país do Tigre e do Eufrates. Se fosse Moisés o verdadeiro autor do Gênesis, ele teria escrito: "O Tigre, rio que corre no país dos rotennous". Depois das palavras de tão eminentes sábios, consagrados por todo o mundo científico, que considerações outras poderemos tecer? O que nos competirá, ante provas tão esmagadoras, será entregarmo-nos a uma meditação das mais sérias e chegar à melhor solução, ou seja, a de abandonar as superstições de nossos ancestrais, para darmos guarida aos resultados positivos da Ciência, desta Ciência criada pelo esforço titânico de homens abnegados. Qual o interesse desses cientistas tão cheios de renúncia, em forjar preconcebidamente fatos, no intuito exclusivo de destruir a gênesis bíblica? A árvore da vida e a árvore da Ciência de que trata o verslculo 17, do capítulo II, sempre embaraçam os comentadores.
Não terá esta árvore da vida alguma relação com o filtro da imortalidade, que esteve tão em voga desde tempos imemoriais no Oriente? Diz Voltaire que é possível conceber-se um fruto que fortifique, que dê saúde; é o que se afirma em relação ao côco, às tâmaras, ao ananás, às laranjas, mas uma árvore que transmita a Ciência do bem e do mal é uma coisa extraordinária. Diz-se do vinho que ele nos incita o espírito: "Fecundi calices quem non facere disertum?" (Hor. liv. I. Cap. V), mas nunca o vinho concedeu sabedoria a quem quer que fosse: é impossível fazer-se uma idéia clara desta árvore da Ciência. Olhemo-la, pois, como uma alegoria. O campo da alegoria é muito vasto e cada um interpreta como bem entende; é pois, necessário cingirmo-nos ao texto, sem procurar aprofundá-lo. Esgotemos de uma vez este assunto do Eden, e vejamos se ele não é produto de povos mais antigos, onde o autor do Gênesis foi beber inspiração.
O Eden da Bíblia, que figura nos planisférios celestes, segundo Leterre, e a cujo estudo se consagrou Dupuis, corresponde aos estudos de J. B. Obry ao Arianem Vaedjô, dos persas, - ao GanEden, dos hebreus, - ao Maha - Merem dos Indianos; - ao Kuen-Lun dos chineses, - ao Bam-i-Dunis dos tártaros mandchús, etc. e correspondem, ainda, ao planalto de Pamer ou Pamir, cujos contrafortes são o Belug-Tar e o Indu-Kusc, planalto radiante de beleza, onde reside o deus Brahma (Ba-Rama), o chefe celta Rama e de onde sairam os Kushitas, que mais tarde se estabeleceram na Itália, sendo deles originário o termo Bac-Kush (Baccus). Segundo Voltaire, em sua "Oeuvres Completes", tomo XXIII, pg.62, encontra-se também um jardim, um paraíso terrestre, na antiga religião dos persas; este paraíso se chamava shang-Dizoucho; ele é chamado Iranvigi no Sadder, que pode ser olhado como uma abreviação da doutrina desta parte do mundo. Os brâmanes possuiam semelhante jardim desde os tempos imemoriais.
R. P. Dom Calmet, beneditino da congregação de Santo Idulfo, disse com suas próprias palavras: "Não duvidamos de forma alguma que o lugar onde foi plantado o paraíso terrestre não subsiste mais”. Como vêem os caros leitores, são lendas e mais lendas, todas elas pertencentes a povos mais remotos, nas quais não poderemos, em sã consciência, acreditar. São criações engendradas por povos primitivos, relegadas hoje ao domínio da poesia ou das coisas fantásticas.
* * * Profundo foi o silêncio que se guardou em toda a Terra a respeito de Adão, exceto na Palestina, até os tempos em que os livros judeus começaram a ser conhecidos na Alexandria, depois de traduzidos em grego sob um dos Ptolomeus. Continuaram por muito tempo desconhecidos, pois, os livros volumosos, além de raros, eram demasiadamente caros e ainda, pela forte razão de que os judeus de Jerusalém censuraram acremente os seus irmãos de Alexandria por haverem traduzido sua Bíblia em língua profana, o que resultou que estes escondessem o mais possível, as suas traduções. A Bíblia, diz o filósofo, foi conservada tão secretamente, que nenhum autor grego ou romano a ela se refere até o tempo do imperador Aureliano. Ora, o historiador Flavius Josefus confessa em sua resposta a Apion (livro I, c IV) que os judeus durante muito tempo não faziam comércio com as outras nações. Nós vivemos, disse ele, em um país distanciado do mar, não nos entregamos ao comércio com os outros povos.
Sendo a nossa nação tão afastada do mar, tão pouco afeita à escrita, será motivo de admiração ter sido ela tão pouco conhecido? Quando o historiador judeu se refere à sua nação, pouco afeita à escrita, naturalmente, ele quer compará-la com Alexandria, pois os seus 22 volumes, além de pequenos, pouco significavam, considerando-se a quantidade de livros existentes na famosa biblioteca, cuja metade foi queimada na guerra de César. É corrente, é histórico, mesmo, que os judeus escreveram muito pouco e muito pouco leram; que eram profundamente ignorantes em Astronomia, em Geometria, em Geografia, em Física; que eles nada sabiam da história de outros povos, e que não começaram a instruir-se senão em Alexandria. Sua língua era uma mistura bárbara do antigo fenício e do caldeu corrompido, era em suma, um povo pobre a quem faltavam vários modos na conjugação de seus verbos. Desta forma, a nenhum outro povo comunicando seus livros, ninguém na Terra, exceto eles, tinha ouvido falar em Adão, Eva, Abel, Caim, nem em Noé.
Somente, diz a História, Abraão foi conhecido dos povos orientais, com o caminhar dos tempos; mas nenhum povo antigo aceitava que ele fosse o tronco do povo judeu. Tais são os segredos da Providência, que o pai e a mãe do gênero humano foram sempre ignorados, a ponto de tais nomes não serem encontrados em nenhum autor antigo, nem na Grécia, nem em Roma, nem na Pérsia, nem na Síria, nem, mesmo entre os árabes, até Maomé. Deus, assim, não permitiu que o nome dos titulares da grande família humana fossem conservados senão pela parte mais miserável dela, em conhecimentos. Além da lenda de Adima e Héva que encontramos no Bagaveda-Gita, há no livro de Ezourveidam, o nome de Adima e Procriti, sua mulher. Todos sabem que o Ezourveidam é o comentário dos Vedas que passa entre nós por ser de uma antiguidade muito mais recuada que a dos livros judeus; e estes Vedas são ainda uma nova lei dada aos brâmanes mil e quinhentos anos depois de sua primeira lei chamada Shasta ou Shasta-bad.
O feníncio Sanchoniathon que os sábios afirmam haver vivido anteriormente a Moisés, e que é citado por Eusébio como um autor autêntico, dá dez gerações à raça humana, da mesma forma que o legislador judeu, até o tempo de Noé; e ele não fala nessas dez gerações nem de Adão, nem de Eva, nem de nenhum de seus descendentes, nem, mesmo, de Noé. Eis aqui os nomes dos primeiros homens, segundo a tradução grega feita por Philon de Biblos: Aeon, Genos, Phox, Liban, Usou, Helieus. Chrisor, Tecnites, Agrove, Amine. Estão aí as dez primeiras gerações. Não vemos o nome de Noé, nem de Adão em nenhuma das dinastias egípcias, eles não se encontram tampouco entre os caldeus; em uma palavra, a Terra inteira guardou sobre eles o mais incompreensível segredo. Todos os povos, no dizer do grande escritor francês, se atribuem origens imaginárias e nenhum falou a verdade.
Não se pode compreender como o pai da humanidade inteira fosse por tanto tempo ignorado; seu nome deveria andar de boca em boca, de um canto a outro do mundo, segundo o curso natural das coisas humanas. Ousamos afirmar, diz, ainda, Voltaire, que era necessário um milagre para fechar os olhos e os ouvidos de todas as nações, destruir todos os monumentos, toda a lembrança de nossos "primeiros pais". Que teriam pensado, que teriam dito César, António, Crassus, Pompeu, Cícero, Marcellus, Metellus, se um pobre judeu, ao lhes vender baunilha, lhes houvesse dito: "Nós nascemos todos de um mesmo pai chamado Adão". Todo o senado romano teria gritado: "Mostrai-nos vossa árvore genealógica, então o judeu teria desfolhado suas dez gerações até Noé, até o segredo da inundação de todo o globo. O senado lhe teria perguntado quantas pessoas existiam na arca para alimentarem todos os animais durante dez meses consecutivos, e durante o ano seguinte, pois que, em virtude do dilúvio não se teria podido fornecer alimento de espécie alguma.
O judeu lhe teria respondido: "Nós eramos oito, Noé e sua mulher, seus três filhos, Sem, Cão e Jafé, e suas esposas. Toda essa família descendia de Adão em linha reta. (Dictionnaire Philosophique - t.12, pg. 42). Cícero, diz o filósofo, ter-se-la informado, sem duvida, dos grandes monumentos, das testemunhas incontestáveis que Noé e seus filhos teriam deixado de nosso pai comum; toda a Terra depois do dilúvio teria bradado para sempre, os nomes de Adão e Noé, um, o pai, e o outro, o restaurador do gênero humano. Seus nomes estariam em todas as bocas, nos pergaminhos, desde que os homens se iniciaram na escrita, na porta de cada casa, em todos os templos, em todas as estátuas. Que! Sabieis de um tão grande segredo e o escondestes! "É que somos puros e sois impuros", teria respondido o judeu. O senado romano teria rido e lhe teria mandado aplicar umas bastonadas; tanto são os homens arraigados aos seus preconceitos.
Deus faz o homem à sua imagem e semelhança E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves do Céu, e sobre o gado, e sobre a Terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a Terra. E criou Deus à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou. E Deus os abençoou, e Deus lhe disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a Terra, e sujeitai-a; e dominais sobre os peixes do mar, e sobre as aves do Céu, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. (Gen. I. 26 a 28). Não é muito compreensível o versículo 27. A impressão que ele nos deixa é a de que o homem foi criado hermafrodita e que mais tarde Deus se arrependeu, fato comum naqueles tempos recuados. E, assim, consertou o que lhe não pareceu bom, concedendo a Adão uma companheira e tornando-o, então, um homem normal.
Foi este versículo traduzido literalmente do texto hebreu, que deu nascimento à lenda do deus andrógino, tão grandemente reverenciado pelas diversas escolas ocultistas. A criação do homem à imagem e semelhança de Deus, tão bem aceita pelas diversas correntes do Cristianismo é, incontestàvelmente, uma diminuição que se pretende fazer ao Deus infinito, à cuja imagem ninguém podia ter sido feito. Quem já viu Deus, em verdade? Quem pôde encarar face a face o Criador? Aceitar banalidades dessa natureza é renunciar ao raciocínio, é regredir aos tempos de infância e isto não pode ter guarida no cérebro de homens esclarecidos. Que forma poderia ter tomado o Infinito? A forma humana? De que maneira a Luz Suprema, o Onipotente poderia ter aparecido ao homem? O indescritível esplendor de sua luminosidade ofuscaria, mesmo, os olhos da mais santa, da mais sábia e da mais elevada de todas as almas da obra prima de sua infinita criação.
A impiedade da Ciência pondo constantemente em dúvida os dogmas religiosos, e criticando os diversos sistemas filosóficos, pelo simples fato de contrariá-los, parece surgir a todo o momento como prejudicial à tranquilidade espiritual da humanidade. Pura ilusão. É que os homens nunca se conformaram em sacrificar as suas fantasias, os seus sonhos, em benefício da verdade. Queiram ou não os entravadores do progresso humano, a Religião terá que andar de braços dados com a Ciência e a razão. Se o progresso moral da humanidade marchasse paralelo com o progresso da Ciência, este mundo seria um paraíso. O homem, dono de seu livre arbítrio, é o único e exclusivo culpado desta falta de paralelismo. Se Deus criou o homem macho e fêmea por que mais tarde, já no segundo capítulo do Gênesis, achou ele que o homem estava só e precisava uma companheira? Para reproduzir a espécie? Não pode ser. O homem macho e fêmea podiam reproduzir-se, ainda mais, quando foi a esta ordem inicial do Senhor: "Frutificai e multiplicai-vos".
E bem possível que os copistas fizessem alguma transposição, como presumem certos Pais da Igreja; mas o ponto mais importante é que, havendo Deus feito Adão à sua imagem e semelhança, Adão fez o mesmo com relação a Sete isto é, fê-lo, também, à sua imagem e semelhança. E a prova evidente de que os judeus acreditavam em um Deus corporal, como participavam de igual crença os povos vizinhos com quem eles aprenderam a ler e a escrever. Voltaire diz que é crença generalizada tenha Adão sido enterrado em Hebrom, porque na história de Josué se encontra consignado que o maior dos gigantes se encontra ali sepultado. Conforme a Bíblia, a maior parte dos primeiros descendentes de Adão viveu como ele mais de nove séculos. Era opinião dos povos do Oriente e do Egito, que a vida dos primeiros homens tenha sido vinte e trinta vezes mais longa que a nossa, porque sendo a natureza mais jovem tinha mais força; mas nada a não ser a revelação nos pôs a par dessa longevidade. Em uma palavra, nenhuma outra nação da Terra conheceu Adão, e os árabes só o conheceram por intermédio dos judeus.
A nossa primeira mãe Depois da última recomendação de Deus a de que Adão não comesse do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, sob pena de perder a imortalidade e ganhar o pão com o suor de seu rosto, achou Jeová, por bem, para dar uma companheira ao primeiro homem, extrair de uma de suas costelas, a primeira mulher, a quem deu o nome de Eva. Logo após, vem a tentação de nossa "primeira mãe" e a queda de nosso "primeiro pai". A serpente, animal astuto, possuidora de uma dialética irresistível, convenceu-a, sabendo da fraqueza feminina, que devia comer do fruto proibido. E Eva não resistiu ao fascínio daquela eloqüência arrebatadora, comeu do fruto e arrastou Adão ao pecado, como não poderia ser de outra forma. A serpente ladina não gozou por muito tempo a sua vitória, pois foi por Deus condenada a andar de rasto.
Ao contrário do que comumente acontece, depois do pecado os nossos "primeiros pais" se sentiram envergonhados e começaram a vestir-se, o que antes não acontecia, pois, andavam nús e não se envergonhavam um do outro. Raciocinemos. O homem e a mulher do Gênesis, isto é, Adão e Eva, antes de pecarem, segundo o próprio Jeová, estavam destinados à imortalidade. Significa que se não houvessem caído tão lamentavelmente em erro, os seus descendentes seriam, também, imortais, uma vez que são agora condenados a morrer pela culpa originária daqueles dois pecadores. Ora, a lei de Deus, desde a criação do primeiro casal, era a de crescer e multiplicar-se. Isto está escrito com todas as letras. Assim, sendo o homem imortal, se não houvesse pecado, pensamos que o nosso planeta, mesmo com as construções suntuosas e admiráveis da engenharia moderna, não seria capaz de abrigar uma humanidade, multiplicada desde os tempos do malfadado casal. De outro modo, todos sabem que Adão e Eva foram condenados, justamente por haverem cumprido a determinação do Criador de crescer e multiplicar-se.
Não nos parece isso um tanto insensato, ordenar um Deus que Adão e Eva cumpram uma ordem sua e porque eles obedecessem fossem condenados? E que condenação! Um castigo que marcharia com os séculos até a extinção do planeta, atingindo, sem exceção, a todas as gerações! Isto não seria próprio de um Deus que tivesse o juízo em seu justo lugar. O tal de Jeová, ao que tudo indica, sofria das faculdades mentais. E considerando a justiça divina, fica ela demasiadamente diminuida, quando se pensa que a revogação da imortalidade se estendeu até aos animais que não tiveram participação na desobediência de Adão e Eva. Depois que os nossos primeiros pais comeram do fruto proibido, vemos a serpente condenada a arrastar-se sobre o ventre, como castigo por haver enganado a mulher. Estamos curiosos para saber como marchava esse animal antes de andar de rasto? Segundo tudo nos faz crer, a serpente sempre andou como anda atualmente, é justo, pois, que concluamos que ela foi punida por antecipação, por
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.