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Capítulo 42 de 57

Eloista — parte 11 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

serviço dos templos e ao culto dos deuses. [ ] A India foi o grande foco civilizador da sociedade antiga, continua o historiador, não querendo desagradar a certos sábios que exploram particularmente, uns o Egito ou a Judéia, outros a Caldéia ou a Pérsia, fazendo de cada um desses lugares os iniciadores do mundo antigo. Não é necessário multiplicar os esboços engenhosos para fazer esta prova; é suficiente ler as obras de grandes escritores da Grécia, do Egito e de Roma, dos quais muitos se formaram na escola dos Brahmânes, e que todos, como Amien-Marcellin e Agathias, indicam o país regado pelo Indo e o Ganges como sendo o berço de todas as tradições primitivas, de todas as ciências.

Veremos, brevemente, estudando, em seus detalhes tão variados, os usos e costumes que a lndia legou aos povos antigos e modernos, que é necessário, com William Jones, Colebrook, Burnouf e Halled, para não citar senão os mais ilustres, admitir a maternidade deste país, ou pretender, o que seria absurdo, que não há um povo, tanto entre os antigos, como entre os modernos, aos quais a lndia não se tenha apressado em adotar pouco a pouco todos os usos, tedas as crenças, tedas as leis. Em seu absurdo, continua Jacolliot, esta suposição não é mesmo possível, pois todas as nações transformaram pouco a pouco estes usos, estas crenças, estas leis que os seus ancestrais trouxeram da Alta Ásia, a ponto de terem esquecido a idéia primeira que lhes deu nascimento, enquanto que a lndia, embora digam os inventores do semitismo e da civilização dos acadianos, esteja, por assim dizer, petrificada em sua forma primitiva apresenta ainda hoje aos olhos do observador espantado, o espetáculo de um país que, depois de vinte mil anos ou mais, conserva suas tradições civis e religiosas, sob o pretexto de que elas atingiram a perfeição relativa que é possível ser adquirida na Terra.

Sem dúvida, diz o estudioso dos costumes e religiões da India, entre os membros das duas castas inferiores, os Vaysias e os Soudras, não se encontrarão as sublimes concepções brahmânicas em toda a sua pureza, mas o que se passa lá é o que acontece em todas as sociedades humanas; há a superfície que, como as águas de um lago, reflete a pureza do Céu, enquanto o fundo fica na obscuridade, e não ocorrerá ao espírito de quem quer que seja provar, em nossa época, a ignorância das classes que pensam e estudam, pela ignorância das gerações retardadas quanto ao progresso intelectual. Houve em todos os tempos e há, ainda, entre o brâhmane e o soudra, no ponto de vista científico, a mesma diferença que há entre o patrão e o escravo.

Na India, o escravo não está liberto do brâhmane, o brâhmane não está liberto das tradições védicas, e é esta imobilidade que permite encontrar hoje todas as instituições civis e religiosas que o mundo deve a esta parte da Ásia, com a explicação das causas que lhe deram nascimento. É com real felicidade, diz o eminente historiador, que tomamos de empréstimo as linhas seguintes, do sábio Herder: É evidente que o sistema dos brâmanes devia ser bom, no tempo de seu estabelecimento, e é a este caráter de bondade que ele deve ter se espalhado sobre um espaço tão considerável, de haver penetrado em uma tão grande profundidade, e de estar durando há tantos séculos. O pensamento humano procura sempre desembaraçar-se, desde que possa, dos liames que o retêm cativo, e bem que o hindu seja dotado de uma paciência maior do que a de qualquer outro povo, é pouco provável que ele viesse a tomar gosto por uma coisa absolutamente má.

De outro lado, é forçoso reconhecer que os brâhmanes desenvolveram de tal forma entre estes povos a doçura, a delicadeza, a temperança e a castidade que, a maior parte do tempo, em comparação com os europeus, foi fatal a estes últimos, que parecem ao lado dos hindus, homens degradados pela embriagues e pelo vício. Suas maneiras e sua linguagem são elegantes, sem nada de forçado; calmos, benévolos, limpos ao excesso, simples em sua maneira de viver, eles educam seus filhos com uma notável doçura. Não são desprovidos de conhecimentos, mas, onde eles se distinguem é em sua paciente e laboriosa indústria, e na arte da imitação; mesmo as classes inferiores aprendem a ler, a escrever e a calcular. Mestres zelosos da juventude, os brâhmanes têm sob este título e durante longo curso dos séculos prestado inapreciáveis serviços à humanidade.

Vede nas relações dos missionários de Halle de que julgamento corretos são capazes, de que caráter benfeitor os brâhmanes e os habitantes de Malabar fazem provas em suas questões, com suas respostas, suas objeções, sua maneira de ser em geral, e é pouco provável que sejais tentados a vos colocar ao lado dos estrangeiros que aceitaram a missão de convertê-los. A idéia capital dos brâhmanes a respeito da divindade é tão grande, sua moral tão elevada e tão pura, suas fábulas mesmo, quando as examinamos atentamente, são tão delicadas e graciosas, que não as podemos remontar até os seus autores a responsabilidade das absurdas degradações que elas sofreram passando pela boca do povo.

Deve-se igualmente fazer a vontade aos brâhmanes de ter sabido, malgrado todas as opressões dos maometanos e cristãos, conservar pura e intata sua língua tão bela e tão rica, salvar qualquer destroço da Astronomia, da Cronologia, da Física, da Jurisprudência da alta antiguidade; pois, o uso quase mecânico que eles fazem hoje dessas ciências satisfaz às suas vidas, e o que impede o seu desenvolvimento é justamente o que lhes assegura poder e duração. No mais, os hindus não perseguem ninguém, eles deixam cada estrangeiro livre com sua religião, com seus conhecimentos, com a sua maneira de viver. Por que não agirmos da mesma maneira que eles? Por que mesmo reconhecendo que o hindu conservou os erros das tradições que lhes foram legadas, não aceitarmos que ele seja um povo de boa vontade? De todas as seitas a de nome Swayambhouva, a causa universal - que abraça a parte ocidental da Ásia é a mais florescente; a mais instruida, a mais humana, a mais nobre e a mais útil que equelas dos bonzos, dos lamas e dos talapoins.

O Ganges que viu nascerem os brâhmanes os vê, ainda, celebrar sobre suas margens seus ritos principais... Que imensa influência não exerceu esta casta, durante milhares de anos, sobre o pensamento humano, influência tão grande, que, malgrado a dominação mongol que ela sofreu tanto. tempo, sua importância e suas doutrinas se conservam imutáveis e sua ação sobre os costumes e o gênero de vida dos hindus é tão poderoso, que uma outra religião não poderá nunca exercer tal influência. Tudo neste povo é sua obra manifesta: seu caráter, sua maneira de vida, seus costumes, seus detalhes os mais ínfimos, sua língua, seu gênio; e embora sua religião seja às vêzes incômoda e tirânica, as castas, mesmo, inferiores a respeitam como as leis divinas mais sagradas. Só os malfeitores, os miseráveis, expulsos de sua casta, ou pobres crianças abandonadas, é que abraçam uma religião estrangeira.

Nunca, qualquer que seja a sua infelicidade, o hindu se despoja deste sentimento de orgulho e superioridade vis-à-vis da Europa que ele serve, sem invejar; prova evidente que nunca, também, este povo se aliará a outro. É fora de dúvida que é no caráter da nação, e no clima que é preciso procurar a explicação de um fenômeno até agora sem exemplo; pois não há um povo que se possa comparar ao hindu pela paciência, submissão e paz de espírito. Se o hindu se recusa com tanta persistência a adotar os preceitos e usos estrangeiros, é que já a instituição de Brahma ocupa sua alma toda inteira, enche sua vida, absorve seu pensamento com exclusão dos demais. Daí, estas cerimônias, estas festas tantas vezes repetidas, estes deuses inumeráveis, estas fábulas, estes lugares sagrados, estas obras meritórias a que desde a infância se apegam, e ocupam sua imaginação e lhe lembram a cada passo na vida o que ele é e o que ele deve ser. Todos os esforços da Europa têm encalhado nessa sujeição do pensamento, que não

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