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Capítulo 22 de 57

Parte 21 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

legendários de mulheres que conceberam dos deuses. [ ] Pelos livros sacros do Tibet, da India, da Pérsia e da Babilônia, verifica-se que muitos legisladores nasceram de mulheres virgens. Assim, Tsong-Kaba, Cristna, Zoroastro, Sargão I, Láo Tseu, etc. Gengis Kan, o truculento da Mongólia, teria nascido de um raio de luz solar. Do próprio Moisés, segundo a Escritura, tal qual Sargão I, da Babilônia, 2.500 anos depois, nem a mãe se conhece e ainda menos o pai. Rômulo, o fundador de Roma, nascera de uma religiosa que não conhecera homem. Simão, o Mago, que revoltou os discípulos de Jesus pelos milagres que praticava, curando enfermos, dizia: Não cuideis que eu sou um homem como os outros. Eu não sou filho de António, pois, minha mãe Raquel me concebeu antes de dormir com ele, estando minha mãe virgem. Na lndia, as tradições hindus falam sobre a vinda de uma criança anunciada como o salvador do mundo, em condições iguais, história esta narrada em um tratado intitulado "História de Vicramaditya".

E assim nos cita Leterre estes exemplos tirados de Saint Yves. Mas, será que podemos levar isto a sério? São mitos, são lendas criadas pela imaginação fecunda de poetas que sonham coisas dessa natureza, para cantarem em seus versos e mesmo engrandecerem personagens em evidência. Cremos que há espíritos inferiores, tão extraordinariamente materiais, os súcubos e os íncubos, que no ato da procriação, se incorporam no homem e na mulher, em ocasião oportuna, para sentirem prazeres materiais. Mas entre isto e o imaginarmos que deuses possam infiltrar num organismo feminino a matéria fecundante, há uma distancia infinita. Não sabemos de caso nenhum desta natureza, nos setenta anos bem contados de nossa existência, que a ciência houvesse consignado. Esses exemplos, os esoteristas só os vão buscar entre as lendas de um passado muito distante. Tomam eles a lenda e a poesia como objetiva, o que é viver num mundo de sonhos e de quimeras.

Esta intromissão dos habitantes do outro mundo, a tomar o lugar daqueles que foram postos por Deus na Terra para exercerem a função procriadora, é coisa simplesmente irrisória que não merece ser levada a sério. Eis aí até onde chega a imaginação humana e até onde vai a fé irracional. Será possível que um cérebro normal dê guarida a tão incrível concubinato com a respectiva procriação? Religião para nós é o culto do bem, é a moral em toda a sua sublimidade, é o sentimento de piedade pelos fracos, é o espírito caridade que nos deve animar em todos os momentos da existência e ainda mais, o culto à Ciência, essa desbravadora incansável do "Ocultismo", ou daquilo que, ainda nos é oculto ou desconhecido. Crêr em fórmulas, dar vida a lendas complicadas quando a moral e o bem são tão simples, penetram tão suavemente no íntimo das criaturas que se esforçam por progredir, é viver no terreno abstrato, quando as realizações humanas devem revestir-se de um caráter objetivo, qualquer que seja a sua manifestação.

Moral e Ciência, Ciência e Moral, eis a religião do futuro. Esta nossa afirmativa não significa esquecimento e ingratidão por aqueles que tudo fizeram no passado para nos legarem os grandes exemplos e pelos que traçaram para nós o grande roteiro da espiritualidade, é, antes, pôr em prática os seus ensinamentos, quer no sentido do coração ou no do aprimoramento mental e intelectual. Quando falamos em Ciência, incluimos nela a pesquisa dos fenômenos paranormais, dos antigos milagres, hoje reduzidos a fatos naturais, sem derrogação de leis imutáveis. As pesquisas humanas, que em tempos idos paravam no túmulo, continuam hoje, muito além dele, na certeza já adquirida de que a morte é, apenas, o princípio de outra vida. Já que este livro é destinado a provar a estreiteza do Velho Testamento, vejamos o que nos diz Léo Taxil, ainda, em sua "La Bible Amusante", a respeito desse absurdo concubinato dos anjos com as filhas dos homens.

O ilustre escritor se sente diante de uma das passagens mais curiosas da Bíblia, uma destas, cuja supressão nos manuais da história santa nos revela a maior sem cerimônia dos falsos pastores em sua arte de fabricar e de retocar os dogmas. Eis aí a ousadia e a perversidade, diz ele, a ensinar de todos os modos às infelizes ovelhas, que a Bíblia é uma obra essencialmente divina, que ela foi escrita sob inspiração direta do Espírito Santo, que tudo o que nela se encontra é a verdade pura, a verdade mais perfeita, que é um livro venerável por excelência. Se pois, os nossos tonsurados pensassem no que dizem, deveriam, cheios de respeito pela Bíblia, faze-la conhecer integralmente aos devotos, sem esconder um só de seus versículos.

Pois, em matéria de crença religiosa, é necessário aceitar-se um livro sagrado, tal qual ele é; ou se dele se elimina tal passagem, porque esteja em contradição com certos pontos da ciência teológica, declarados artigos de fé, o livro todo inteiro está sujeito a ser rejeitado, deixa de ser sagrado, para tornar-se desprezível; a mentira de um fato, no curso de um capítulo, é o bastante para destruir o renome de inspiração divina de toda a obra. Ora, os curas ao mesmo tempo em que falam de Noé, abordam, sem transição, a história do dilúvio e dizem sucintamente que a corrupção dos homens pôs Deus em cólera, que decidiu no afogamento geral, com a exceção, apenas, de uma família cujo chefe tinha continuado justo. Isto não é a Bíblia, diz Taxil!... Ela fala de outra coisa; ela diz, em quatro versículos, qual foi a causa primeira desta corrupção dos homens Os padres não tem o direito de silenciar sobre este importante episódio da Escritura Santa. Se ela hoje embaraça a Igreja, tanto pior.

O Espírito Santo não devia ditá-lo à Escritura do Pentateuco!... A pílula, é certamente amarga; mas S. Jerônimo e os pais da Igreja a enguliram outrora. Enguli-a, caros tonsurados, por vossa vez. A pílula que os teólogos católicos modernos se esforçam por lançar fora, sem escândalo e de que eles tanto desejariam não deixar traço algum, se compõe dos quatro primeiros versículos do VIº capítulo do Gênesis: Ora, aconteceu que, como os homens começaram a se multiplicar sobre a face da Terra e lhes nasceram filhas; Os anjos de Deus (literalmente: os filhos de Deus), vendo que as filhas dos homens eram belas, vieram dormir com todas aquelas que mais lhes agradaram. Então disse o Eterno: Meu espírito não contenderá mais com os homens; por que ele também é carne; porém, os seus dias serão 120 anos. Havia naqueles dias gigantes na Terra, e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens, e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os varões de fama. (Gên.

VI, 1 a 4) Muito embora não nos haja o Gênesis contado a história da criação dos anjos, é a segunda vez que nos fala destes seres sobrenaturais; a primeira menção é aquela do Querubim, colocado na porta do Eden. É, pois necessário dizer algumas palavras da fé nos anjos entre os judeus. Os cristãos enxertando seu culto na religião israelita imaginaram artigos de fé quando na Bíblia não se encontra o mais leve traço deles; e assim, foi fabricada com todas as peças, muito tempo depois da época da vida de Jesus, a história da revolta de Satã e de sua derrota pelo anjo São Miguel. Ora, como nós examinamos a Bíblia, principalmente sob o ponto de vista da crença católica, é aqui que nos parece útil ocuparmo-nos desta adição. Em um tempo qualquer, quando Jeová diz que não era suficiente para um Todo Poderoso como ele, haver criado o Céu e a Terra que tinha povoado, por que não haveria de povoar também o Céu? Ele se sentia aborrecido no caos.

Como com coisa alguma ele podia fabricar massas de objetos e seres animados, ele havia criado anjos cujo papel era o de fazer-lhe agradável companhia. Mas, eis, que o mais belo dos anjos, um atrevido, ao qual os padres deram o nome de Lúcifer, olhou com o rabo do olho o lugar do Mais Alto e concebeu o sonho audacioso de substituir o seu Criador como Presidente do Paraíso. Sua criminosa tentativa pareceu uma deliciosa farsa e alguns anjos, aos quais o exercício monótono do canto aborrecia, eles se associaram aos revoltados, enquanto que a grande maioria se mostrou escandalizada ao mais alto ponto. Foi, então, que Miguel, anjo fiel, verdadeiro cão em fidelidade, se encarregou de fazer triunfar a causa de Deus, ministrando a Lúcifer uma verdadeira chuva de pancadaria. O anjo rebelde foi precipitado nos infernos, subitamente criado em sua honra, seus cúmplices lá cairam estrepitosamente ao mesmo tempo; e o pai Jeová foi recolocado em seu divino posto, na cadeira presidencial.

Tal é sucintamente, a legenda que os padres transformaram em dogma para as suas atemorizadas ovelhas; pois, no fundo, este episódio, serve, sobretudo, para amedrontar devotos e devotas. Na Bíblia hebraica quando se faz menção dos diabos, isto é nos livros escritos, incontestavelmente, depois do cativeiro de Babilônia (mil anos depois da morte de Moisés), o mais importante desses demônios foi chamado Satã; mas eles são gênios maus, sem nenhuma outra explicação; eles não são apresentados como revoltados, expulsos do Paraíso celeste e acorrentados em um inferno de chamas. Assim, na legenda de Jó, o mau gênio Satã, passeia no Céu, vai e vem, como se estivesse em sua própria casa, e discute com Jeová. Vendo esses diabos dos últimos livros da Bíblia viverem satisfeitos, sem castigo de espécie alguma, os críticos fazem observar que era exatamente esta a crença dos caldeus, dos persas, cujos livros sagrados são muitíssimo mais antigos que os dos judeus.

Conclui-se, assim, que os israelitas, durante o longo cativeiro de Babilônia, juntaram às suas crenças uma parte daquelas dos povos com os quais estiveram em contato. Daí o nome que os judeus adotaram para designar o principal diabo, e trair o empréstimo feito à religião dos caldeus ou babilônios; pois "Satã" não é um nome hebreu, mas antes, um nome caldeu, que significa "o ódio". O Espírito Santo, no dizer de Taxil, tinha pois, escondido ao povo de Deus, não somente a historia da revolta de um certo número de anjos, mas, ainda, o verdadeiro nome do principal demônio, pois que este nunca foi chamado Lúcifer na Bíblia. Foram os católicos que descobriram isso. Apesar dos pesares, diz, ainda, o escritor, os Pais da Igreja pretenderam encontrar à força uma menção de Lúcifer no Velho Testamento; e para isto, recorreram a um subterfúgio, enganando as ovelhas que crêem sob palavra e não lêem da Bíblia senão aquilo que as deixam ler. Este subterfúgio hábil merece ser esclarecido, e pedimos ao leitor perdoar-nos uma necessária e pequena digressão.

É nas profecias de Isaías, no capítulo XIV, versículo 12, dizem os padres, que se faz menção de Lúcifer sob este nome, e eles citam o começo do versículo, mas, falsificando-o por meio da tradução latina de S. Jerônimo, chamada Vulgata. Eis aqui a passagem em questão. Neste capítulo XIV, Isaías, um bom juiz furioso, cuja nação esteve por muito tempo cativa dos Babilônios, exalou sua patriótica cólera e anunciou ao rei de Babilônia que seu reino sofreria a seu turno a decadência e seria destruido completamente. Ó Eterno, exclama Isaías, terá piedade de Jacó e escolherá, ainda, Israel; e ele restabelecerá os israelitas em sua terra... Israel, tu zombarás do rei de Babilônia e tu dirás: Como repousa o tirano? Como descansa esta cidade em que era toda ouro? O Eterno quebrou o bastão dos maus e a vara dos dominadores... Ele fará levantar de seu sítio todos os principais da Terra, todos os reis das nações.

Eles tomarão a palavra e dirão ao rei de Babilônia: Tu tens sido também, como nós, enfraquecido! Tu te tornaste semelhante a nós! Fez-se descer tua magnificência ao sepulcro, com o barulho de teus instrumentos; estás deitado sobre um colchão de vermes e os insetos asquerosos te cobrem! (vs. 9, 10, 11) 12 - Como caiste do Céu, ó Hetel, astro que te levantavas de manhã? Tu que calcavas as nações, foste achatado como a Terra. 13 - Tu dizias em teu coração: Eu subirei até os Céus, elevarei meu trono acima das estrelas do Deus forte, sentarei sobre a montanha da assembléia ao lado de Aquilon... E todavia te fizeram descer ao sepulcro, ao fundo da fossa. Aqueles que te vieram ver, te olharão, dizendo: Não está aqui o homem que fazia tremer a Terra e que sacudia os reinos, que reduziu o mundo a um deserto, que destruiu as cidades e que não dava liberdade aos seus prisioneiros? Todos os reis das nações, todos quantos são, estão mortos em glória, cada um em seu palácio.

Mas tu foste jogado longe de teu sepulcro, como um tronco apodrecido, como roupa de defunto, trespassado com a espada, que são jogadas entre as pedras de um fosso, e como corpo calcado aos pés. É necessário muita ousadia, diz Taxil, para pretender que Isaías falava de Lúcifer-Satã, naquele capítulo XIV. É bem do rei de Babilônia que se tratava; este transbordamento de cólera, esta onda de ameaças, tudo isto é dirigido ao rei de Babilônia, única e exclusivamente. Deixemos falar o mesmo escritor, acompanhemos o seu raciocínio. Vamos ver como S. Jerônimo operou a falsificação do texto... Constrangido pela versão grega dos Setenta, Jerônimo traduziu a Bíblia em latim, e, aproveitando o fato de Isaías comparar o rei de Babilônia à estrela da manhã, chamada Ethel (aurora) entre os judeus e Lúcifer (porta luz) entre os romanos, ele escreveu assim a primeira parte do versículo 12: "Quomodo cecidisti de coelo, LUCIFER, qui mane oriebaris?". "Como caiste do Céu, LUCIFER, tu que te erguias todas as manhãs?".

E os padres adotando esta tradução inexata, livrando-se de dizer as suas ovelhas que o texto original hebreu traz Hetel e que se trata do rei de Babilônia comparado ao astro Vênus, estrela da manhã, nossos clérigos, tendo necessidade de não colocar o resto do capítulo sobre os olhos dos palermas, exclamam com ares de triunfo: - A queda de Lúcifer é mencionada na Bíblia! Isaías a ela se referiu! Ora, neste mesmo capítulo, no versículo 28, Isaías disse que pronunciava a sua profecia no ano em que morreu o rei Achaz, seja em 723 antes de Cristo. Mesmo supondo que Isaías não tenha escrito sua profecia de uma vez, é necessário reconhecer que o autor fala para o futuro, desde a primeira até a última linha. Se, pois, esta queda do Céu se aplicava a Lúcifer-Satã, ela se teria dado depois da morte do rei Achaz! E os padres católicos dizem que é o mesmo Lúcifer, tornado Diabo, que tentou Eva sob a forma de uma "serpente". Que salada de contradições! Vejamos, diz Taxil, mais uma inverdade.

Desta digressão indispensável, o leitor obterá a prova definitiva da ausência total da lenda de Lúcifer revoltado e vencido, nos livros sagrados dos judeus. Voltaremos aos anjos do Capítulo VI do Gênesis e iremos socorrer-nos de fontes igualmente sagradas, onde poderemos beber mais detalhes sobre o concubinato desses bons anjos com as belas filhas dos homens. Os manuais da história santa, para uso dos simples fiéis, não fazem nenhuma alusão, bem entendido, à aventura revelada pelos quatro versículos, que antes reproduzimos; mas estes versículos foram eliminados das edições bíblicas reservadas aos curas (padres). Ainda não é tudo: os padres têm um outro livro para eles somente, um livro que eles envolvem numa grande veneração, sem o divulgar, e que se chama o livro de Enoque. Enoque, vós não o esquecestes, é esse patriarca de 365 anos, a quem Jeová levou aos Céus, não em estado de espírito, mas em carne e osso, como Júpiter com Ganimedes.

Ora, segundo uma tradição, Enoque escreveu um livro que, felizmente, não transportou ao Paraíso, antes o legou a seu filho Matusalém, e Noé, dizem, colocou na arca o precioso manuscrito. Entretanto, o livro de Enoque esteve perdido durante muito tempo. Afirmam que ele existia, - não se sabendo ao certo onde, e aventuraram que no templo dos apóstolos. A prova dada está no Novo Testamento. Lá, a Epístola de Judas assim se exprime, nos versículos 14 e 15: “E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; para fazer juízo contra todos e condenar entre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras, etc.". Uma vez que Judas citou uma palavra deste livro, é que ele o conheceu naturalmente, muito embora tenhamos a certeza de que no tempo de Enoque ninguém sabia ler e muito menos escrever. Mas, dizem, que durante vários séculos os teólogos perguntavam: Que é feito do livro de Enoque?

Enfim, um viajante célebre, o escossês Jacques Pruce, descobriu na Abissínia o famoso livro; para dizer a verdade, foi sobre uma versão etiópica que ele pôs a mão, pois, é pouco provável que Enoque haja escrito suas belas histórias na língua de Menelique... Vede o quanto é bom ser-se teólogo! Escrito por Enoque, diz Taxil, na língua antes da torre de Babel, esse livro maravilhoso teve a sorte, embora a língua primitiva tenha sido perdida, de encontrar um tradutor hebreu; pois, esta tradução hebraica, conhecida dos apóstolos e dos primeiros Pais da Igreja, tinha desaparecido como por encanto. Bravo! Exclama Taxil, um escossês descobre lá para o fim do século XVIII, uma versão etiópica completa entre os ancestrais de um ras. Nosso Bruce trouxe o seu achado à Biblioteca Bodeleriana de Oxford; alegria imensa dos teólogos; novas traduções, cuja primeira (1838) foi impressa em inglês

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.