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Capítulo 20 de 57

Parte 19 de 29

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Imortalidade da alma Schopenhauer quando declarava que a religião dos judeus devia ser considerada como "a última entre as dos povos civilizados", justificava especialmente sua opinião, no fato de não crerem os hebreus na imortalidade da alma. Este julgamento severo, diz C. de Vesme, em sua obra "Histoire du Spiritualisme Experimental", não implica nenhuma desfeita para com o povo israelita, antigo ou moderno. Bem longe disso. Se os hebreus em lugar de haverem sido o povo teocrático por excelência, houvessem sido um povo de ateus, Schopenhauer e outros tantos filósofos igualmente ateus só podiam ter visto neste fato, uma superioridade do "povo eleito" sobre os demais, porque seria seu ponto de vista estarem eles na posse de toda a verdade. Mas, com referência à religião, é certo que é difícil olhá-la como a mais nobre de todas, uma vez que entre seus postulados não existe a imortalidade da alma. As palavras têm a significação que o uso lhes dá; ora, uma religião, não admitindo a sobrevivência, não é uma religião no sentido que lhe é dado pela quase totalidade dos homens.

Poder-se-á assegurar que os hebreus acreditassem que tudo cessaria com a morte? A questão é, ainda hoje, muito controvertida. A maioria dos exegetas laicos da Bíblia continuam a ter a opinião de Schopenhauer; os eclesiásticos são, pela sua própria profissão, forçosamente de opinião contrária. Isto se observa, também, entre os escritores católicos e judeus. Eis o que diz M. D. A. Lattes, diretor do importante órgão "Corriere Israelita", de Trieste e que, naturalmente, é o representante da parte espiritualista de seus correligionários: 0 hebraismo bíblico não registrou em nenhuma de suas páginas, de maneira explícita, a crença na imortalidade da alma: o Pentateuco sendo um código civil e político, pouco se preocupou da crença. Mas, a idéia da imortalidade da alma se delineia sem cessar e com grande eficácia de entre as páginas da Bíblia. E mais do que por qualquer demonstração teórica, mais do que por qualquer artigo de catecismo, ou imposição do legislador, o fato é provado pela proibição de Moisés de evocar os mortos.

As conseqüências que ressaltam naturalmente desta interdição, são muito importante em favor de uma fé em uma vida de além-túmulo. Ela significa que desde o tempo de Moisés a evocação dos espíritos estava em uso corrente, que ela dava resultados reais e que, por conseguinte, os espíritos existem. Se Moisés nunca se preocupou com a crença na imortalidade da alma, isto significa que nenhuma dúvida a respeito existia no espírito do povo hebraico. Parece lógica, a primeira vista, a declaração de Lattes. Mas, se formos aprofundar mais o nosso raciocínio, chegaremos à conclusão de que se uma Igreja proibe a seus fiéis a evocação dos mortos, isto não pode significar que ela admita que são os mortos que se manifestam. Antes, será o contrário. As Igrejas cristãs que proibem a seus fiéis a consulta aos espíritos, admitem elas que as personalidades comunicantes são realmente os espíritos dos mortos? - Nunca.

Seus ministros afirmam geralmente o contrário, que sob as personalidades manifestadas se esconde o Demônio; outros, mais ‘modernos’, mais ‘científicos’, afirmam que estas personalidades não são senão um desdobramento subconsciente e não menos enganador, da personalidade do médium. Assim, sob este ponto de

vista, caem os argumentos de Lattes. [ ] Se há provàvelmente exagêro nas palavras de Shopenhauer, que não se encontra na religião dos judeus "nenhum traço da imortalidade da alma", deve-se reconhecer, continua o eminente escritor, que em contraposiçáo, há, também exagêro na afirmação de Lattes, segundo o qual "a idéia da imortalidade da alma ressurge sem cessar e com uma grande eficácia de entre as páginas da Bíblia”. M. Lattes, deseja talvez, fazer alusão a frases como estas: “Ide em paz com vossos pais", "Ide no seio de Abraão", etc.? É o mesmo que tomar ao pé da letra as frases: "Que a terra vos seja leve", "Dormi em paz", e assim sucessivamente. Penetremos mais um pouco no pensamento do notável escritor, sempre externado em sua obra magistral, já, citada, premiada pela Academia de Letras de França e que Bozzano e Richet tantas vezes reverenciam em seus livros, obra aquela de um valor que só os que a desconhecem põem em dúvida.

Por que, pois, mais tarde, os israelistas nunca toleravam a leitura do Eclesiaste em suas sinagogas e por que, como afirmam os rabinos e S. Jerônimo, se hesitou tanto antes de admiti-lo entre os livros canônicos? Será esta a verdadeira sabedoria, aquela que dá a entender que do outro lado da vida nada existe? E que não nos venham afirmar que são pontos de vista isolados de um particular, de um irresponsável qualquer, como são geralmente encontrados em todas as literaturas. Trata-se de tradição cuidadosamente transmitida de geração a geração e apontada à leitura e à edificação dos fiéis e dos mais sábios dos homens, "ultrapassando a sabedoria de todos os orientais e de todos os egípcios conforme nos ensina a própria Bíblia". Enfim, não se encontra no V. Testamento alusões claras e enérgicas sobre recompensas e punições nesta Terra, embora seja o Pentateuco um "código civil e político", como afirma Lattes? Como se explica, então, que ele nunca faça alusão a castigos e recompensas depois da morte?

M. Benamozegh cita em apoio de suas assertivas, o Aboth, o Erouin, o Aboda Zara, o Schabbat e outros tratados do Talmud. Mas, o Talmud data, em todas as suas partes, da era cristã. Admitindo-se, mesmo, que ele recolheu a lei oral e tradicional de Israel, nada absolutamente prova que se trate de tradição, a qual, no que conceme à sobrevivência, data de antes da volta de Babilônia, e sobretudo de crenças aceitas pelo clero oficial. E entre os judeus, mesmo, os Caraitas, como se sabe, recusam toda a autoridade ao Talmud. Há, sim, não resta dúvida, uma passagem no livro de Jó que demonstra a crença na ressurreição: Por que eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a Terra. Mas nenhuma alusão às recompensas e aos castigos do outro lado da vida, até o livro de Daniel, datando de Antiocus Epifânio (IIº século a. de Cristo). E esta passagem de Jó é um caso excepcional, uma vez que ele fala do Redentor em cuja volta geralmente se crê.

O próprio Eugène Nus, que anteriormente citamos, em sua obra "Les Grands Mysteres", falando da imortalidade da alma, a respeito da Bíblia, assim se exprime: 0 dogma da preexistência ou da ressurreição de nosso ser o que no fundo é a mesma coisa - existe em todas as religiões conhecidas, com exceção da de Moisés.

[ ] "A alma, dizem os Vedas, vai para o mundo ao qual pertence suas obras". "Ó Deus, exclamavam em suas preces, os filhos de Zoroastro, tende piedade de meu corpo e de minha alma, neste e no outro mundo". Os egípcios, os persas, como os fenícios, acreditavam na ressurreição dos mortos, e transmitiram esta crença aos cristãos primitivos. Os gregos proclamavam a imortalidade da alma; os druidas, a sucessão das vidas; os escandinavos sonhavam com um paraíso feroz, onde bebiam hidromel no crâneo de seus inimigos; os canadenses, os peruanos tinham, sobre a origem do mundo e da vida futura do homem, quase as mesmas concepções que a Fenícia e o Egito. Em toda a parte e em todos os povos, com exceção dos hebreus, se encontra a idéia da imortalidade da alma. Em nosso último livro "Reencarnação e suas Provas", escrito de parceria com. o eminente Dr. Carlos Imbassahy, estendemo-nos muito sobre o assunto, e lá será encontrado o que deixamos de fazer aqui, em matéria da crença da preexistência do espírito.

Onde encontrar, pois, a grandeza de uma religião que mata no homem toda a esperança da perpetuidade do ser? Eis a razão de não olharmos com bons olhos a colcha de retalhos do mosaismo que trata das recompensas e castigos deste mundo, mas não nos aponta nem a imortalidade da alma, nem a sua evolução através do infinito incomensurável. Louis Jacolliot, que esmiuçou o mosaismo, assim nos fala: Este capítulo será curto. Uma simples reflexão o compõe, mas destas linhas poderia nascer um volume. Procurei inutilmente ler e reler a obra de Moisés, onde nada encontrei de sublime e onde não divisei um pensamento, um versículo, uma palavra que fizesse a menor alusão, mesmo a mais distanciada, mesmo a mais subtendida, à imortalidade da alma. No meio dessa orgia espantosa de intemperanças e de massacres, nenhuma exclamação se eleva até os Céus para descançar o coração, nenhum elo de esperança sobre a vida futura; nada, além de sacrifícios de bois... De sombrias

superstições... E de rios de sangue humano correndo em nome de Jeová [ ] Não se trata, assim, de uma opinião isolada. Todos aqueles que se dedicaram ao estudo das religiões, atestam, positivamente, que nos livros atribuidos a Moisés não se encontra coisa alguma que nos dê a entender, mesmo de longe, a crença na imortalidade da alma. Onde, pois, o elo que se pretende encontrar entre a religião dos hebreus e o Cristianismo? Qualquer que seja a época a que nos queiramos reportar, não há, na história do passado, maiores provas de perversidade e de fraqueza humanas que aquelas que nos vêm dos livros atribuidos a Moisés. Há quem deslumbre em todos esses massacres que não respeitavam, nem homens, nem crianças, nem mulheres, com exceção das virgens... uma manifestação do poder de Deus.

Nós, porém espiritualista independente, abominador de tudo o que cheire a dogmatismo, encontramos, antes, nessas histórias de canibalismos que a religião dos hebreus consigna, a manifestação de espíritos inferiores, dominando inteiramente aquelas hordas de bárbaros indisciplinados que, depois de haverem abandonado o Egito, não fizeram outra coisa que deixar em sua passagem, o roubo, a pilhagem, o assassínio. Não será em Moisés que haveremos de encontrar a origem de nossas crenças e de nossas tradições religiosas e filosóficas, e nem tão pouco será deste livro a Bíblia, que faremos sair a fé nova, a fé raciocinada que haverá de inundar as nações modernas. Cristo jogou por terra todas as superstições e, como bem diz Jacolliot, judeu, ele renegou os judeus, pois, este apóstolo da igualdade do bem pelo bem e da fé na eterna bondade do Ser Supremo, nada podia ter de comum com a lei de vingança do mais cruel de todos os deuses - Jeová.

Fala-nos, ainda, o mesmo escritor, que Moisés entreviu a unidade de Deus e as primitivas crenças sobre a criação, na tradição do egípcio Manés. Dominador de um povo, ele empregou sua ciência em proveito de sua dominação e de seus iniciados, e matou, e destruiu, legando sua doutrina e seu papel a Maomé que mais tarde deveria fundar uma religião, imitando seus exemplos e copiando o seu livro da lei. E, continua Jacolliot, Cristo desdenhando Moisés e seu inspirador Manu, e relembrando-se dos admiráveis ensinamentos de Cristna, que o Brahmanismo e o poder dos padres tinham feito cair no esquecimento, veio anunciar aos homens a lei da caridade e do amor, que havia sido a das antigas populações do Oriente. Cristna e Cristo, eis as mais admiráveis figuras do mundo antigo e moderno, figuras de regeneração, de concórdia, de amor e de poesia, idealizando o bem e o belo, e refletindo o Céu como a água pura reflete o dia. Cristna foi abafado pelo Brahmanismo.

Vigiemos para que o Catolicismo não abafe com as suas antiquadas e ridículas concepções bíblicas, o Cristo, o maior dos missionários que pisou neste vale de lágrimas. Lewis Browne, israelita, homem eminente, defensor confesso de sua raça, intérprete sincero do pensamento judeu, referindo-se aos livros atribudos a Moisés e a outros, que se seguem, pergunta: “Agora, quais são as características salientes destes livros”? Em primeiro lugar, digamos que se revelam singularmente simples a práticos. Não encontramos neles misticismos, vida futura ou metafísica. A sua doutrina é principalmente austera e, em certos, pontos inflexível. Embora cheios de referências piedosas a Deus, o seu principal interesse é evidentemente o homem. Preocupam-se com o bem estar dos seres humanos na

Terra - e não no Céu - e visam mostrar-lhes o melhor meio de consegui-lo. [ ] Não há, pois, exagêro de nossa parte, quando afirmamos que antes de ser uma revelação, o que se encontra nos primeiros livros atribuidos a Moisés não passa de uma compilação. É o próprio, Lewis Browne que confessa que o "Pentateuco" se preocupa com homem, sem cogitar das coisas do Céu; com a felicidade material deste mundo, exceção, já se vê, dos inimigos, sem a concepção de uma vida futura onde possam descançar das atribulações de uma existência planetária, onde a ventura é um mito. Folheemos o Eclesiaste e ouçamos Salomão: Tudo acontece igualmente ao justo e ao injusto, ao bom e ao mau, ao puro e ao impuro, àquele que imola as vítimas e àquele que oferece os sacrifícios. O inocente é tratado como o pecador; o perjuro como aquele que jura a verdade. Eis o que há de mais enfadonho em tudo o que se passa sob o Sol. Tudo acontece igualmente a todos... Um cão vivo vale mais que um leão morto.

Porque os que têm vida sabem que devem morrer; mas os mortos não sabem mais nada, e não lhes resta nenhuma recompensa, estando sua memória mergulhada no esquecimento. Ide, pois, comei vosso pão com alegria, bebei vosso vinho com satisfação..., vestivos com limpeza, perfumai abundantemente a cabeça, gozai a vida com a mulher que amais, durante todos os dias de vossa vida passageira..., pois não haverá nem mais obras, nem raciocínios, nem conhecimentos, nem ciência no túmulo para

onde marchais. [ ] Folhemos, ainda, o Eclesiaste, que ele nos poupe o esforço de uma defesa pessoal: Quem sabe se o espírito do homem sobe às alturas? Meditando sobre as condições do homem, tenho visto que ela é a mesma que a dos animais. Seu fim é o mesmo. O homem perece como o animal; o que resta de um não é mais do que o que resta do

outro. Tudo é vaidade. [ ] O texto hebreu diz: "tudo é nada". Vejam como isto é animador para os que crêem no futuro! Apresentamo-vos, caros leitores, como arremate à sintética defesa de nossa tese, estas concepções materialistas, com todas as letras, e assim procedendo, tranqüilizamos a nossa consciência pela certeza do dever cumprido. Que nos fale, por último, um dos maiores apóstolos do Espiritismo, o imortal Léon Denis: Observamos a este respeito, no Deuteronômio, cap. XXVIII, que as sedutoras promessas e as aterradoras ameaças com que se esforça o autor pelo restabelecimento do culto a Jeová, se referem exclusivamente à vida terrestre, parecendo não possuir noção alguma da imortalidade. A mesma coisa se dá com o Pentateuco, conjunto de obras atribuidas a Moisés. Em lugar algum o grande legislador judeu, ou os que falam em seu nome, faz menção da alma como entidade sobrevivente ao corpo. Em sua opinião, a vida do homem, criatura efêmera, se desdobra na acanhado círculo da Terra, sem perspectivas abertas para o Céu, sem esperança e sem futuro. Na maior parte, os outros livros do "Antigo Testamento" não falam do futuro do homem senão com a mesma dúvida, com o mesmo sentimento de desesperadora

tristeza. [ ] E com esta citação, encerramos o capítulo, certo de haver provado que a imortalidade da alma não fazia parte dos postulados da religião de Moisés.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.