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Capítulo 47 de 57

Eloista — parte 16 de 26

Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo

Então o Senhor abriu os olhos a Balaão, e êle viu o anjo do Senhor, que estava no caminho, e a sua espada desembainhada na mão; pelo que inclinou a cabeça, e prostrou-se sobre sua face. Então o anjo do Senhor, lhe disse: Por que já três vezes espancaste tua jumenta? Eis que eu saí para ser teu adversário, porquanto teu caminho é perverso diante de mim; porém a jumenta me viu, e já três vezes te desviou de diante de mim; na verdade que eu agora te tivera matado, e a ela deixara com vida. Então Balaão disse ao anjo do Senhor: Pequei, que não soube que estavas neste caminho para te opores a mim; e agora, se parece mal aos teus olhos, tornarme-ei. Temos mais a lenda do corvo inteligente alimentando Elias (I Reis XVII, 4 a 6), e mais ainda, aquela de Rômulo e Remo, sendo alimentados por uma loba.

Além dos personagens citados, como tendo sido alimentados por animais, temos mais: o rei Hábis, por uma corça; Cyro, por uma cadela; Semíramis, por pombas; Midas, por formigas; Hierão e Platão, por abelhas; Palas por uma égua; Atalante, por uma ursa e Esculápio por uma cabra. E aqui ficamos, depois de uma longa caminhada através dos tempos, para deixar patente que a reencarnação foi crença multimilenar; existiu, é bem verdade, com uma concepção primitiva, para hoje surgir iluminada por novos conceitos e à luz da Ciência que, dia a dia, e cada vez mais, vai se despreendendo das arcaicas concepções de nossos avoengos, para apresentar à humanidade um estudo mais aprimorado e muito mais completo. A estrada que teremos a percorrer agora é uma estrada asfaltada, feita com os mais atualizados e aperfeiçoados sistemas da técnica moderna. Deslizemos por ela em nossos veículos, última expressão da criação do homem, e verifiquemos o que nos dizem os nossos contemporâneos ilustres sobre a mesma doutrina, tão primitiva, tão minguada, no conceito de nossos ancestrais. Humphry Davy, o célebre químico inglês, assim se expressou falando da doutrina reencarnacionista: A existência humana pode ser olhada como o tipo de uma vida infinita e imortal e sua composição sucessiva de sonos e sonhos puderia certamente oferecer-nos uma imagem aproximada da sucessão de nascimentos e de mortes de que a vida eterna é composta.

Lessing, o autor conhecido de "Fábulas" e de numerosas obras literárias do fim do século XVIII, escreveu em seu livro "A Educação do Gênero Humano", as linhas seguintes: Que impede que cada homem haja existido várias vezes no mundo? Esta hipótese não pode ser ridícula por ser a mais antiga e porque a razão humana a compreendeu de repente, nos tempos primitivos, uma vez que nunca foi aniquilada nem enfraquecida pelos sofismas das diversas escolas. Porque não teria eu dado neste mundo todos os passos sucessivos para o meu aperfeiçoamento, pois eles só podem constituir para o homem recompensas e punições temporárias? Por que não faria eu mais tarde aquilo que me resta fazer com os socorros tão poderosos da contemplação das recompensas eternas? Mas eu perderia meu tempo - dizem.

Perder o tempo? O que é que me pode apressar? Não é minha toda a eternidade? Léon Denis, em seu livro "La Destinée", consagrou vários capítulos às vidas sucessivas, à reencarnação e suas leis. São dele estas linhas: A morte não pode transformar um espírito inferior em um espírito elevado.

Nós somos do outro lado como aqui na Terra, o que nos tornamos pelo nosso esfôrço no sentido intelectual e moral. Pode-se vencer em uma vida efêmera, as paixões, corrigir o caráter no curso de uma vida única? Que pensar da multidão de .ignorantes e de viciosos que povoam o nosso planeta? É possível que sua evolução se cinja a uma curta passagem sobre a Terra? E aqueles que se tornaram culpados de grandes crimes, onde encontrarão as condições necessárias à reparação, a não ser nas reencarnações?

Victor Hugo falou das reencarnações como filósofo e como poeta. Como filósofo ele disse em seu "Journal de l'Exil": Deus é. Deus sendo absoluto, perfeito não criou o perfeito, o absoluto porque seria reproduzir-se; então Deus criou o imperfeito e o relativo; e criou o homem. O homem sofre porque está dentro do imperfeito e do relativo. Todos os mundos progridem: eles estão todos em trabalho.

Nossa Terra é um destes mundos, cujo número é incalculável. Nosso globo passou sucessivamente por tempos mais ou menos bárbaros, isto é, passou do estado selvagem ao estado bárbaro e do estado bárbaro ao estado civilizado... O dia moral começa. O dia moral se levanta na França. Em Paris ele se manifesta, apenas em raros espíritos, no número dos quais se encontram todos os homens de genio, espécie de semideuses, desde os homens de genio inventiva, até os homens de genio nas Artes, na Filosofia e no Pensamento.

Temos, ainda, François Coppée, participante sem reservas, da crença reencarnacionista. Ele afirma suas convicções em seus versos "La Vie Anterieure" e a sua chave é esta: Je cherche du regard dans la voute lactée L'étoile qui par nous fut jadis habitée. Em nosso livro "Reencarnação e suas Provas", escrito com o erudito Dr. Carlos Imbassahy, transcrevemos versos de Lamartine, outro grande poeta. E para não cansar o nosso leitor, citaremos mais alguns nomes de homens destacados que participam ou participaram da crença nas vidas sucessivas e progressivas da alma.

J. Maxwell, substituto de Procurador Geral da Corte de Paris, fisiologista e psicólogo de grande erudição, autor de um trabalho prefaciado por Charles Richet "Les Phénomenes Psychiques", diz: É preciso considerar o estado psicológico de nossa sociedade para verificar o quanto ele se encontra perturbado. Falou-se muito do conflito entre a Religião e a Ciência; é uma luta de morte que explode entre as duas. Fácil será ver qual será a vencedora. Tem-se a impressão de que começa a agonia do culto católico.

Qual é o espírito sincero consigo mesmo que poderia hoje repetir o famoso credo quia absurdum? Não é fazer à divindade a maior injúria recusar os grandes dons que ela nos concede? De não empregar todas as forças de nossa inteligência e de nossa razão no exame de nosso destino e de nossos deveres para conosco mesmos e para com os outros? É isto que o Catolicismo nos ordena abdicar. Ele exige que façamos uma adesão completa a seus dogmas, e que creiamos cegamente em tudo o que a Igreja ensina, em tudo o que afirma um papa infalível.

Parece-me inadmissível que o Deus dos católicos aprove uma semelhante indiferença... As inteligências mais cultas se distanciam dos cultos revelados, as inteligências menos cultivadas começam a perceber a insuficiência da revelação... Diz adiante o Dr. Maxwell: Se fizermos a síntese das doutrinas antigas, dos ensinamentos dos mais célebres filósofos, encontraremos o espiritualismo moderno com todas as suas conclusões: sobrevivência da alma, crença nas reencarnações, no corpo fluídico do espírito, na crença da comunicação dos espíritos com os encarnados, sanção do bem e do mal, moral perfeita, digna da divindade, que deu a intuição aos missionários por Ele enviados para instruir a humanidade. Temos mais Henry Martin, Tolstoi, Gaston Revel, J.

Reynaud (Terre et Ciel), Walter Scott, S. Munck (Dict. de la Conversation), Daniel de Foe, Paul Gibier, Dr. T. Quel (Revue de Psychologie Expérimental), George Sexton, membro do Colégio Real de Londres que diz: Vinde aqui céticos, escutai, vêde, senti, sabei que vossos amigos que deixaram este mundo, vivem ainda; e porque eles continuem vivendo, recebei a certeza de que vivereis também. O enigma do Universo está decifrado, o mistério das idades revelado, a questão que suscitamos das lágrimas que derramamos durante milhares de anos recebeu uma resposta afirmativa, e nós seremos os homens das idades ainda por vir.

C. F. V arley, membro da Sociedade Real de Londres, Engenheiro Chefe das Companhias de Telegrafia Internacional e Transatlântica, em (Spiritual Magazine, n. 30), escreve: Fui inúmeras vezes testemunha das manifestações físicas; e quanto aos fenômenos psíquicos de uma ordem mais elevada, os vi mais de cem vezes na Inglaterra e na América. Se não as havia publicado, ainda, é pelo fato de observar como são recebidas, neste mundo de discórdia, todas as descobertas modernas... Não fizemos mais do que estudar aquilo que já foi o objeto de pesquisas dos filósofos, há dois mil anos; e se uma pessoa versada no conhecimento do grego e do latim, que estivesse ao mesmo tempo a par dos fenômenos que são produzidos em tão grande número, se um tal homem, digo, quisesse traduzir cuidadosamente os escritos desses grandes homens, o mundo aprenderia brevemente, que tudo o que tem lugar agora não é senão uma nova edição de um velho lado da História, estudado pelos espíritos esforçados a um grau que elevaria bem alto, o crédito desses velhos sábios tão clarividentes, porque eles subiram muito acima dos prejuízos estreitos de seu século, e parecem, haver estudado o assunto em proporções tamanhas que sob vários aspectos, ultrapassam de muito nossos conhecimentos adquiridos.

Continuando, temos um Russel Wallace, Presidente da Sociedade de Entomologia; Guilherme de Fontenay, Henri Constant, Eugene Bonnmére (L'âme et ses manifestations à travers l'Histoire); Eugene Pelletan, que em sua obra "Profession de Foi du XIX e Siecle", afirma: Por uma irresistivel lógica de idéia, creio poder afirmar que a vida mortal terá o espaço infinito por lugar de peregrinação. O homem irá, pois, de sol em sol, subindo sempre, como pela escada de Jacó, a hierarquia da existência, passando sempre, segundo o seu mérito e seu progresso de homem a anjo, e de anjo a arcanjo. Propositadamente, deixamos para falar em último lugar do genial Voltaire, este homem tido pelo clero católico como o mais impiedoso e libertino dos ateus. Felizmente, a História nos diz justamente o contrário deste eminente escritor. Voltaire não era impiedoso e muito menos ateu.

Era deista, acreditava firmemente na imortalidade da alma e admitia, mesmo, a reencarnação e as aparições de fantasmas. Em seu "Dictionnaire Philosophique", iremos encontrar: Uma vez que se começa a pensar que não há no homem um ser completamente distinto da máquina, e que o entendimento persiste, depois da morte, que se dá a este entendimento um corpo delicado, sutil, aéreo, semelhante ao corpo no qual ele é alojado; que se a alma do homem não conservasse uma forma semelhante ao corpo no qual é ela alojada, não se poderia distinguir depois da morte alma de um da alma de outro; esta alma, esta sombra que subsiste separada do corpo pode muito bem mostrar-se, rever os lugares que havia habitado visitar seus parentes,

seus amigos e instruí-los. Não há em tudo isto nenhuma incompatibilidade. [ ] Foi com este pensamento que Voltaire emitiu a possibilidade da reencarnação nos seguintes termos: "Il n'est pas plus surprenant de naitre deux tois qu'une". Encontra-se este pensamento claramente expresso em seu romance "La Princesse de Babylone", no qual ele faz dizer à Phenix que a ressurreição é a coisa mais simples do mundo e que tudo nele é ressurreição. Apesar de tudo, diz Ed. Dupouy, Voltaire lastima não ter noções suficientes do que se chama espírito puro e do que se chama matéria para resolver completamente a questão. Estas noções nos foram dadas pelos trabalhos de nossos sábios contemporâneos e pelos fenômenos de psicologia experimental. A corporeidade da alma é o corpo psíquico, nome criado por W. Crookes para o envelope fluídico, do qual conhecemos as propriedades de exteriorização e aquelas que preocupavam o genial Voltaire. Ao contrário do que se afirma, Voltaire não foi um indiferente ao estudo da alma.

Ele cita a opinião de Santo Irineu, de Taciano, de Santo Hilário e de Tertuliano, dizendo: A corporeidade da alma surge no Evangelho, segundo o resumo de São Tomaz e diz que está de acordo com todos eles. A. Franck, em seu "Dictionnaire Philosophique", escreve: Voltaire não varia nunca sobre a existência de Deus; ele apresentou durante sessenta anos, esta verdade sob todas as formas, com uma verve inesgotável; combateu a geração espontânea na qual os ateus pretendiam apoiar-se; voltava com uma insistência infatigável sobre o princípio das causas finais, para prová-lo e praticá-lo com a convicção, a clareza, a força e a graça de Fénelon e de Sócrates.

[ ] Em seu livro, "Os Três Impostores", há uns versos de Voltaire por demais conhecidos que não deixam dúvida sobre sua crença em Deus: Ils ont adoré tous un maitre, un juge, un pere;

Ce sisteme à l'homme est nécessaire;

C'est le sacré lien de la societé,

Le premier fondement de la sainte équité,

Le frein du scélerat, l' esperance du juste.

Si les cieux, dépuillés de leur empreinte auguste, Pouvaient cesser jamais de le manifester,

Si Dieu n'existait pas, il faudrait l' inventer. A razão forte do ódio que muitas gerações dedicam a Voltaire é não ter ele aceito as frivolidades teológicas, é a de haver feito uma crítica impiedosa ao Velho Testamento, na qual aponta uma a uma as imoralidades contidas nos textos sagrados, seus erros científicos e suas contradições. Voltaire propagava a sua descrença num Deus que se dizia haver ditado as coisas incríveis da Bíblia. Era, na verdade, um inimigo forte e impiedoso. Ele vergasta com sua crítica, a história eclesiástica, os dogmas da Igreja e o poder pontifical.

Afirmava ele que a Igreja oprimia as consciências e excitava o fanatismo. Ele não podia falar sem horror da legislação sobre a heresia e sobre o sacrilégio. E era duro, convenhamos, quando exclamava, referindo-se à Igreja de Roma: "Guerre, donc, à l'infame qui écrase la pensée et torture les corps"! Dizia mais: "A história eclesiástica é uma seqüência funesta de crimes, de perseguições e de massacres". Por isso, foi considerado Voltaire um descrente em Deus e na imortalidade da alma.

A moral de Voltaire resumia-se nestas duas palavras: tolerância e humanidade, que nunca deixou de por em prática em dias de sua vida. É uma grande moral como a de Confucius e mesmo a de Cristo e abrange toda a moral humana: "Não faças aos outros o que não queres que te façam" - “Ama a teu próximo como a ti mesmo". Combateu o grande e genial francês por este lema durante sessenta anos, noite e dia, sustentando com a energia de sua alma, um corpo moribundo, forçando-o a viver e a manter-se de pé. A História nos conta que a causa de Voltaire era a causa do gênero humano. Em qualquer lugar em que ele encontrasse um oprimido, procurava reabilitá-lo.

Com a sua pena magistral defendia as vítimas da brbarie de todos os tempos, as famílias inocentes refugiadas em sua casa, os protestantes massacrados, há dois séculos, na noite de São Bartolomeu. Nem sempre obtinha justiça, mas isto não o desanimava e continuava pedindo-a, tendo-a conseguido muitas vezes. Agiu como age lodo o homem generoso: servia os inocentes com a sua fortuna e a sua influência; fez o que somente ele poderia ter feito em favor deles: levantou a Europa. Recordemos o mais importante de seus clientes: o infeliz e inocente almirante Bing, sacrificado pela política de Pitt. Depois a família Calas.

Calas é um negociante protestante de quase setenta anos, radicado em Toulouse. Um de seus filhos se converteu ao Catolicismo; um outro se enforcou na casa paterna. A opinião fanática acusa João Calas de haver assassinado o filho, para impedir sua próxima abjuração e de ter-se feito ajudar por um terceiro filho, Pedro. Vê-se nestes acontecimentos um tristíssimo prelúdio de massacre geral pelos católicos. O magistrado Davi procede contra os acusados, que são postos a ferro.

Os juízes, por uma maioria de oito votos contra cinco, pronunciam a sentença condenatória. O Parlamento confirma o julgamento. Pierre foi banido. A pobre mãe vê suas filhas arrebatadas, e o pai foi condenado ao suplício da roda, e assim morreu em 1762, protestando inocência. Tempos depois a mãe vem a Paris, advogados se põem a seu favor; Voltaire foi um deles.

Chama a si a causa e consegue apaixonar a opinião pública. O Conselho de Estado se reune e dois anos depois cessa a sentença de Toulouse, revê o processo, reabilita unanimemente a memória de João Calas e pede ao rei que repare a desgraça desta família. O magistrado Davi morre louco. Voltaire deu a esta causa três longos anos de sua vida e em confidência a Condorcet, ele segreda: "Durante todo este tempo não sorri uma vez para não me condenar, cheio de remorso como um criminoso". Um jovem criado protestante, da mesma província, arrebatado aos pais, foi encerrado em um convento.

Consegue fugir e cheio de medo atira-se em um poço. Sirgen, seu pai, acusado, é condenado à morte por contumaz, refugia-se com sua esposa em Ferney. Lá ela morre de dor e de fadiga. Voltaire convence Sirven a comparecer a Toulouse, onde consegue a sua absolvição com seus rasgos de eloqüência. O conde de Lally é, em 1766, condenado à morte em Paris, por sua conduta na India; a sentença de morte não aponta nenhum crime determinado, anuncia, apenas, uma simples suspeita e se apoia no testemunho de inimigos declarados.

Voltaire litiga durante doze anos e, para sua recompensa, sabe, no momento da morte, que a sentença injusta havia sido cassada. Conhecem-se as últimas palavras que sua mão escreveu; ele se dirige ao filho da vítima: "Morro contente; vejo que o rei ama a justiça". Contemos, agora, a história do cavalheiro de la Barre, a quem já nos referimos no início desta obra. Em 1765, três jovens de Abbeville, tendo o mais idoso deles 19 anos, são acusados de haver conservado o chapéu, quando a vinte e cinco passos passava procissão; reza mais a acusação que eles haviam, nesta ocasião, cantado canções de corpo de guarda, meio ímpias e meio licenciosas e, em conseqüência, havia suspeita de que eles houvessem quebrado um crucifixo em praça pública. O piedoso bispo de Amiens lança monitórias; um tenente do Tribunal de Eleição, Duval de Soucourt, preside a um inquérito, e os juízes de Abbeville condenam o jovem de la Barre a ser decapitado e queimado; o jovem de Etallonde, seu irmão, a ter a língua e o punho cortados e a ser queimado em fogo lento (1766).

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