[user_registration_my_account]
Capítulo 5 de 57
Parte 4 de 29
Da Bíblia aos Nossos Dias · Mário Cavalcanti de Melo
que não seguindo a heresia de seus pais, denunciavam as suas perfídias. [ ] As descobertas da Astronomia, porque desmentissem ou anulassem determinadas passagens das Escrituras, movimentaram todo o Sacro Colégio. Os prelados eminentes, responsáveis pela integridade da gênesis mosaica, moveram tenaz perseguição aos sábios da época. Assim é que Pedro de Albano, autor de um tratado sobre a nova ciência; Césco Dáscoli, por ter proclamado a teoria do movimento da Terra; Giordano Bruno, por ser astrônomo; Antonio de Dominis e Campanela, por terem professado uma teoria semelhante à de Galileu; Copérnico, autor da "Astronomia Nova"; Roger Bacon, o sábio monge de Oxford, pelo fato de ser físico e astrônomo e pesquisar sobre as perseguições movidas contra os que se dedicavam a estas ciências; Francisco Bacon, Descartes, por serem astrônomos; o sábio jesuita Fabri, porque em um sermão aconselhava a Igreja a tomar em sentido figurado as passagens das Escrituras, uma vez provada a teoria do movimento da Terra; Galileu, cuja história é por demais conhecida, pela aparição de seus imortais "Diálogos", onde o movimento da Terra era estabelecido, conjuntamente com outras verdades da Astronomia e da Física, foram todos sacrificados.
Entre os sábios citados, uns foram queimados em efígie, porque morreram nas masmorras, outros atirados, em nome de Deus, às chamas vingadoras, ou perseguidos pelos padres e beatos durante toda a existência. Temos mais o filósofo italiano Vanini, queimado vivo em companhia de dois monges e que subiu ao suplício com uma coragem admirável, a contrastar com a covardia de seus infelizes algozes. Centenas de outros foram presos em masmorras e lá morreram por pregarem a verdade da Ciência, a maior revelação de Deus às suas criaturas. No dizer do abade Morel, a Inquisição é a obra prima da Igreja de Roma; obra que ela instituiu para consolidar o seu domínio sobre os homens. Já que falamos em Vanini e em Giordano Bruno, vamos aqui deixar a sua história, para a edificação dos leitores: Vanini porque considerasse Deus não a causa, mas a substância do mundo; apesar dos argumentos com que procurava convencer os inquisidores de que não era ateu, foi horrivelmente torturado e queimado vivo.
Antes de acender-se a fogueira, conta Grammond em sua "História Gall, ab Henric IV”, ordenou-se-lhe que estirasse a língua para ser cortada. Ele se recusou. O carrasco só o pode conseguir com tenazes de que se serviu para prendê-la e cortá-la. Nunca se ouviu um grito tão horrível. O resto de seu corpo foi consumido pelo fogo e as cinzas lançadas ao
vento. [ ] Vejamos o que nos diz Victor Cousin, em seu livro "Oeuvres", escrito há 113 anos, a respeito das convicções teistas de Vanini: Todo ser é finito ou infinito. Não há um só ser finito que se baste a si mesmo, que seja ele mesmo sua própria substância. Eis a razão de se poder dar uma demonstração precisa de Deus. Esta demonstração não repousa sobre a relação do efeito à causa, mas sobre a relação do fenômeno ao ser, à substância. Uma vez que todo ser acaba, não se basta a si mesmo; é necessário que ele tenha qualquer coisa de infinito; pois, de outro modo não haveria um ser finito possível, nada existiria. Ora é impossível que não haja um ser infinito e eterno. Este ser infinito e eterno é
Deus. [ ] Este homem que professorava semelhante doutrina foi queimado vivo em Tolosa como ateu. Giordano Bruno, o maior filósofo da Renascença, como o classifica o eminente Professor Harold Hoffding, foi condenado à morte por ter ensinado, além de outras coisas que desnorteavam a velha escolástica, a teoria da pluralidade dos mundos. Ele foi degredado, excomungado e entregue ao braço secular. O Governador de Roma, com a prece hipócrita e costumeira na qual prometia punilo com indulgência, sem derramamento de sangue, mereceu de Bruno a esta condenação um gesto de ameaça: "Vós que proferis contra mim esta sentença, tendes, talvez, mais medo do que eu contra quem ela é pronunciada". Ele fazia, sem dúvida, alusão ao medo que tinham da verdade, porque ele afrontava o temor do sofrimento ao serviço desta mesma verdade! Foi queimado vivo no dia 17 de fevereiro de 1600, no campo de Fiora, tendo enfrentado a morte estoicamente. Repeliu um padre que queria estender-lhe um crucifixo e expirou sem soltar um grito. Suas cinzas foram abandonadas ao vento. Mas no lugar em que foi queimado, erigiu-se-lhe em 1889 uma estátua com o produto das subscrições de todo o mundo civilizado e o Estado italiano tratou de confeccionar atualmente, à
sua custa, uma edição de luxo de suas obras. [ ] Outra vítima do ódio teológico foi o cavalheiro de La Barre, um jovem de menos de 19 anos de idade, queimado vivo, depois de lhe haverem cortado a mão direita e a língua. Isto em 1766. Disso falaremos adiante. Segundo os cânones, as pessoas da Igreja não podiam por si pronunciar nenhuma sentença de morte. (Ecclesia abhorret Sanguine); mas estava entendido que a autoridade laica não tinha direito de recusar-se, sob pena de cometer um crime tão grave quanto a heresia, a punir condignamente as pessoas que a Igreja lhe entregava. Por outro lado, o uso se introduzira, de que o braço secular fizesse
perecer os herejes pelo fogo... [ ] Como vêem, a Bíblia, que, no dizer de alguns, conserva toda a ciência da antiguidade, tem que ser posta à margem, pois, não progrediu, não satisfaz mais as exigências da ciência contemporânea e se, como a igreja romana, a tomarmos como padrão de moral e de conhecimentos, estaremos expostos a cometer os mesmos erros e a manchar-nos com as mesmas nódoas. São os postulados de um conhecimento antigo, hoje inaceitável, a influir sobre a moral do Cristianismo degenerado pelos falsos pastores e por outras seitas da mesma filosofia. Assim como a Inquisição, foi a noite de São Bartolomeu inspirada na intolerância das Escrituras. Haverá alguém capaz de afirmar que aquela hedionda carnificina tivesse exemplo nos ensinamentos de amor e de perdão, essência divina da doutrina do manso Nazareno?
Sabe-se que, naquela noite rubra de sangue, os padres participaram da matança dos Huguenotes e cobriram de crepe o coração de Jesus, o missionário, por excelência, que sacrificou sua vida, para que os homens, no exemplo de sua extrema renúncia, aprendessem a amar e a perdoar. E será que tudo isso se passou sem oconhecimento e o beneplácito do papa? Vejamos: Em Roma, no entanto, o papa Gregório XIII celebrou o episódio sangrento com júbilo. O mensageiro que primeiro trouxe a boa notícia, recebeu mil táleres e foi cantado um “Te Deum” ante o inteiro colégio dos Cardeais. Gregório pediu ao embaixador francês que comunicasse a seu rei que os acontecimentos de Paris o tinham deleitado mais que cinqüenta vitórias como a de Lepanto. A cidade foi iluminada, uma procissão foi organizada e cunhada uma
medalha em comemoração aos acontecimentos. [ ] Otto Zoff afirma que uma estimativa conservadora dá a cifra de 2.000 pessoas mortas em Paris e 20.000 em toda a França. Como citamos o nome de um historiador que possa ser suspeito, socorramo-nos, agora, de E. Vacandard, doutor em teologia e vejamos o que ele nos diz em sua obra "Études de Critique et d'Histoire Religieuse", cuja autoridade vem selada com o imprimatur indispensável de um arcebispo: Para deter o progresso desses males, tornava-se preciso recorrer a meios enérgicos. Pio V desejava vivamente lançar todas as potências católicas, ao assalto dos inimigos da Igreja. Mas a diversidade dos interesses políticos dos príncipes desarranjou esse audacioso plano. Ele pôs, ao menos, o seu dinheiro e as suas tropas ao serviço de Carlos IX. Esse exército, engrossado, ainda, com os contingentes fornecidos por alguns príncipes italianos, juntou-se às forças comandadas pelo duque de Anjou.
A Carlos IX entregava ao mesmo tempo o conde de Santa Fiori um breve do Soberano Pontífice em que este assim se expressava: A ternura paternal com que estimamos vossa pessoa e a dor que sentimos ao ver o vosso reino tão cruelmente dividido pelas facções de vossos súditos heréticos e rebeldes, obrigando-nos a vos conceder prontamente o socorro de que tendes necessidade em nome de Deus Onipotente, enviamos a Vossa Majestade as tropas de infantaria e de cavalaria de que se servirá na guerra que os Huguenotes, vossos súditos, que são também inimigos declarados de Deus e da Igreja, atearam contra vossa pessoa sagrada e contra o bem geral do reino. (Carta de 6 de março de 1569). Eis aí o retrato de Moisés. Uma carta cheia de mansuetude hipócrita a repetir a mesma história que se conta do Patriarca dos judeus, sedento sempre de sangue, de ódios e de vinganças. E, entretanto, eram os Huguenotes filiados, apenas, a uma igreja diferente, mas como os católicos, adoravam o mesmo Deus, o mesmo Jeová da Bíblia.
Na batalha de Jarnac, a primeira que se travou, continua Vacandard, coube a vitória ao exército real, com o que Pio V experimentou grande alegria, rendendo a Deus vivas ações de graças. Eis a carta escrita por Pio V a Carlos IX, em 1659: Persegui e abatei tudo o que restar de vossos inimigos. Se não arrancardes as raízes do mal, elas rebentarão como já o fizeram tantas vezes. À rainha Catarina de Médicis: Se V. Majestade continuar a combater aberta e livremente, até a sua completa destruição, os inimigos da Igreja católica, pode estar segura de que jamais lhe faltará o socorro divino. Estes conselhos sanguinários, no comentário do autorizado crítico e teólogo, visavam também aos prisioneiros que o duque de Anjou fizera na batalha. Certo número deles já havia sido posto em liberdade. Pio V protesta contra essa medida de clemência que, segundo ele, só pode ser prejudicial à Igreja e ao Estado. Por coisa nenhuma do mundo, diz ele, e de modo algum, sejam poupados os castigos e os suplícios que eles merecem pelos seus crimes.
Mostrai-vos para com todos igualmente, inexorável: seque omnibus inexorabilem te proebere; agir de outro modo seria ofender a Deus e comprometer ao mesmo tempo a salvação do rei e a segurança do reino. Como difere, comenta o autor da "Questão Social e o Catolicismo", esta linguagem das palavras de amor e de concórdia dos primitivos e humildes pregadores da fé cristã! E dizemos nós, como elas são a reedição dos morticínios bíblicos, das atitudes selvagens atribuídas a Moisés e ao sanguinário Jeová! O júbilo com que o papa recebeu a notícia da trágica noite de S. Bartolomeu, que citamos atrás, da autoria de Otto Zoff, vamos encontrá-la também, no mesmo Vacandard, em "Études de Critique et d' Histoire Religieuse", à página 274. Não podemos continuar a narrativa, por demais longa, da triste história dos Huguenotes, apesar de termos em mãos toda a documentação histórica daqueles tempos. Seria cansar o leitor e precisamos de suas energias para que ele, ao menos, em consideração ao nosso esforço, chegue até a última página deste livro.
Eis no que dá o fanatismo, a fé irracional, o apego às velhas tradições. Eis no que deu a ojeriza que a Igreja sempre demonstrou pela Ciência, o menosprezo pelas idéias alheias, como se se pudessem impor convicções. * * * A doutrina de Jesus, como rezam os Evangelhos e as Epístolas, é doutrina de liberdade. A afirmação dessa liberdade moral e da supremacia da consciência, é repetida em quase todas as páginas do Novo Testamento. Foi por terem desconhecido esse fato que os chefes da Igreja fizeram desorientar o Cristianismo e oprimiram as consciências. Como dizia Léon Denis: “Impuseram a fé em vez de a solicitar à vontade livre e esclarecida do homem e assim fizeram da história do Catolicismo o calvário da humanidade". O mesmo se pode dizer do raciocínio, tão pouco considerado pelos que se dizem representantes d'Aquele que foi a Razão personificada, o Verbo, a Palavra. Esqueceram o que disse S. João: "Essa luz com que todo o homem vem a este mundo é una". Ó razão - dizia Fénelon em momento de profunda intuição - não és tu o Deus que eu procuro?
Se a Igreja, diz, ainda, Denis, tivesse compreendido a essência mesma do Cristianismo, ter-se-la abstido de lançar o anátema ao raciocínio e de imolar a liberdade e a Ciência no altar das superstições romanas. O direito de pensar é o que de mais nobre e o que de maior existe em nós. Ora, a Igreja sempre se esforçou por impedir o homem de usar desse direito e lhe disse: “Crê e não raciocines; ignora e submete-te; fecha os olhos e aceita o jugo", Não é isso ordenar que renunciemos ao divino privilégio? Evidenciamos pelo que já foi exposto, o quanto os homens têm vivido em contradição. Aceitando uma doutrina de amor, o Cristianismo, uma doutrina que proibe matar, em qualquer que seja a circunstância, difícil, por isso, de ser posta em prática, uma doutrina de perdão ao semelhante, não chegamos a atinar com a causa que fez com que esses mesmos homens pudessem conciliar os sublimes postulados de Jesus, com os que foram expostos por Moisés, em nome de um imaginário Jeová!
Deus de infinita bondade a condenar seus filhos pelo erro cometido pelos nossos "primeiros pais"! Que pensar, diz com razão E. Bellemare, de um juiz que condenasse um homem sob pretexto de que há milhares de anos, um seu antepassado cometera um crime? É, entretanto, esse odioso papel que o Catolicismo atribui ao Juiz Supremo - Deus! Assim, comenta Denis, se considerarmos o dogma do pecado original e da queda tal qual é, em realidade, isto é, como um mito, uma lenda oriental, exatamente como se nos depara em todas as cosmogonias antigas; se destruirmos com um sopro tais quimeras, todo o edifício dos dogmas e mistérios imediatamente desmorona. Que restará, então, do Catolicismo? Restará o que ele contém em si de ver dadeiramente grande, de vivo e racional, isto é, tudo o que é suscetível de elevar e fortalecer a humanidade. A queda da humanidade em Adão, diz o abade Noirlieu em seu "Catecismo Filosófico para Uso dos Seculares", e a sua reparação em Jesus Cristo, são os dois grandes fatos sobre que repousa o Cristianismo. Sem o dogma do pecado original não mais se concebe a necessidade do Redentor.
Por isso nada é ensinado mais explicitamente pela Igreja do que a queda de Adão e as suas funestas consequências, para todos os seus descendentes. Michelet, o célebre historiador, responde assim às seitas cristãs: Como! O espírito humano seria pervertido por antecipação? Ao nascer o homem seria mau? A criança que eu recebo em meus braços, apenas, saída do seio materno, já seria uma criança condenada? A esta questão atroz, que não custa mais que escrevê-la, a Idade Média, sem piedade, sem hesitação, responde: Sim, esta criatura que tem a aparência de inofensiva, de inocente, sobre quem toda a natureza se enternece que a loba ou a leoa viria amamentar se lhe faltasse a mãe, ela não é mais que o instinto do mal, o sopro veneroso da serpente que perdeu Eva! Ela pertence ao Demônio se não se tratar de exorcisá-la! Michelet, apenas, cita a concepção dogmática da Idade Média, envenenada pela peçonha do pecado original. A sua citação, porém, é uma resposta, é uma réplica às artimanhas e às argúcias escolásticas. Depois de fotografar nitidamente o conceito que os católicos e algumas seitas da árvore frondosa do Cristianismo fazem de Deus, de sua justiça, de sua infinita misericórdia, penetremos no terreno escabroso da gênesis bíblica.
Deus cria os céus e a terra No princípio criou Deus os Céus e a Terra. E a Terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face da Terra; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. (Gên., I, 1 e 2) Foi assim que traduziram os versículos acima; mas esta tradução, segundo Voltaire, em seu "Dictionnaire Philosophique", ed. 1860. t.13. pg. 459, não é exata. Não há quem possua, diz ele, um pouco de instrução que ignore que o verdadeiro texto é este: "No começo os deuses fizeram ou os deuses fez
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.