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Capítulo 9 de 65

Da Seleção Natural

A Evolução · Carlos Imbassahy

“Agora tu, Calíope, me ensina” a resolver este problema, o do tempo e do espaço. Tratar de tão vasta matéria nos estritos limites que nos são assinalados, é quase um milagre. Vamos tentá-lo. Um dos assuntos que mais têm preocupado a Ciência é a origem do homem. A religião de nossos pais resolveu facilmente o caso com a lenda bíblica. O intelectual de nossos dias, se é também filósofo, sorri, e deixa que os seus semelhantes fiquem embalados nessa ilusão, já que nada lhes pode dar em troca. O Cardeal de Bonald afirmava que o homem é uma inteligência servida por órgãos. Se lançarmos, porém, a vista ao homem primitivo, apanágio de nossa espécie. E quem vê ainda hoje o procedimento das criaturas, a nebulosidade de suas idéias, os vícios de que se acham gafados, os crimes que, desde o primeiro dia, vêm manchando a alma humana, perguntará onde estará aquela inteligência. Outras interrogações continuam a bailar no espírito – De onde veio o homem? Por que existe? Para onde irá?...

A aparição do homem, para alguns, ter-se-ia dado na época terciária, para outros na quaternária. Pretende-se que o surgimento do ser humano foi múltiplo, que cada tipo nasceu nas regiões em que cada raça se encontra. Outros pensam que os nossos ancestrais vieram de um determinado ponto, e que a emigração, o clima, o meio, a natureza deram nascimentos às raças. Donde viriam os seres? Houve quem afirmasse, com visos de ciência, que o cadáver do cavalo produzia vespas; a de um burro, moscas; que os ratos nasciam do queijo. Duret assegurava que as folhas das árvores, caindo num lado, davam peixes, e na terra, pássaros. Jurou-se ter visto isso. Em suma, era preceito científico que a matéria animal em decomposição produzia formas vivas. E tal preceito correu mundo até que Francisco Redi cobriu a carne morta com uma gaze. Como as moscas não pudessem pôr nas carnes putrefatas, defendidas pela gaze, as larvas não puderam aparecer, nem os filhotes de outros insetos. Estava por terra a teoria da geração espontânea. Houve um precursor do pensamento evolucionista.

Quem aventou, expôs e defendeu pela primeira vez a idéia do transformismo foi Lamarck, em 1809. (Filosofia Zoológica). Cinqüenta anos, portanto, antes de Darwin, apresentava-se ao mundo um cientista que se vinha impor aos pósteros pelo seu descortino, diante dos poucos conhecimentos da época, pela sua coragem e pelo seu sacrifício. Foi João Batista Lamarck quem estabeleceu que a vida tende a aumentar o volume dos corpos vivos, até o limite de suas necessidades; que, por motivo das adaptações, há a criação de novos órgãos, os quais se desenvolvem de acordo com o uso; que as novas aquisições seriam transmissíveis hereditariamente: era a lei dos caracteres adquiridos. Verificou que as espécies provêm de um ramo comum extinto; demonstrou a ancianidade da terra; foi alvo de grandes ataques porque mostrou os erros do dogmatismo e da tradição religiosa. Depois de Lamarck, Huxley procurou descobrir a lei da evolução. Charles Lyell via que tudo que observava estava a desmentir a doutrina bíblica das criações separadas. Hooker notava, na distribuição geográfica das plantas, a descendência com modificações tópicas.

Richard Owen era pela transmutação das espécies. Descartes punha em dúvida a revelação divina da Criação. Spinoza na Holanda, Pascal na França, Hume na Inglaterra também levantaram o véu que encobriam tais conhecimentos.

De um lado, o pouco saber, do outro a mão férrea da Igreja, entibiaram os passos dos mais arrojados, e a doutrina se foi arrastando lentamente e lentamente abrindo caminho através da ignorância, do fanatismo e da violência. Os métodos científicos trouxeram grande auxílio aos filósofos. Linneu procurou sistematizar; acreditava, porém, que Deus enchera a terra de espécies fixas e invariáveis: era a linha reta. Erasmus, avô de Darwin, referia-se à luta pela existência, na seleção pelo animal fêmea, dos mais belos e fortes; no mimetismo; no uso ou desuso de certos órgãos, com efeitos hereditários e conseqüentes modificações na espécie. Buffon, na França, segue-lhe as pegadas, e ensina a hereditariedade dos caracteres adquiridos. A doutrina evolucionista foi logo perfilhada por Saint-Hilaire e outros. Em 1859, surgia Darwin com a Origem das Espécies e, logo depois com as Variações dos Animais e Plantas e a Descendência do Homem. Ao lado de Darwin, co-autor da doutrina, houve o eminente naturalista inglês Alfred Russel Wallace, cujas idéias espíritas, aliás, confessou por mais de uma vez.

Outro grande impulsionador foi o catedrático alemão Ernest Haeckel, que lhe trouxe valiosa contribuição; deu-lhe o título de monismo. A vida de Darwin era uma pesquisa constante, arriscada, por mares e terras, com os percalços dos climas, das intempéries, das doenças, dos animais nocivos, do fanatismo religioso, da agressividade dos semelhantes, e sobretudo da ignorância humana. Começou a preocupá-lo a dessemelhança que encontrava, por toda a parte, entre os indivíduos da mesma espécie. Deviam ter existido variações; necessariamente era mister abandonar o conceito de fixidez das espécies, isto é, as espécies se teriam modificado gradualmente. Tratava-se de fatos. Os ratos andinos, por exemplo; a natureza, por diversos fatores, os havia modificado. As espécies apresentavam, por vezes, gradações quase imperceptíveis. Os fósseis mostravam semelhanças com exemplares vivos: deviam ser antepassados. Nos estudos dos animais comuns verificou as variações produzidas pela domesticidade, pelo cuidado, trato e seleção devido aos criadores e horticultores. Onde estivesse, deparava o exemplo da capacidade humana para modificar a natureza dos seres. Era o caminho aberto para a teoria da seleção natural.

Reforçou-se em seu espírito a idéia evolucionista de seus predecessores, a das modificações, pela hereditariedade, dos caracteres adquiridos; pelo uso e desuso dos órgãos; pela adaptação ao meio e às necessidades. Estudando as espécies duvidosas, concluiu que deviam ser formas de transição. O Ensaio de Malthus abriu-lhe um clarão no espírito – a luta pela existência. E daí a sobrevivência dos mais aptos. Tinha encontrado, finalmente, a teoria da seleção natural: na luta pela vida os mais fracos sucumbiam; uma espécie morre quando não se adapta ou é vencida. Também Wallace compreendeu que a origem do gênero humano estava ligada ao mundo dos animais, dos quais falava como “nossos companheiros na dor, na doença, no sofrimento, na fome, na morte, nossos escravos e amigos”. Pela doutrina de Darwin se estabelece que o homem e o macaco tiveram a mesma origem em eras pré-históricas, partindo ambos de um ramo comum. Desse ramo, onde não havia ainda homem nem macaco, surgiram as duas espécies. Nós não seríamos filhos dos símios, mas primos, embora afastados. As provas em que o grande biologista assentou a sua doutrina pareceram formidáveis a grandes vultos, muitos dos quais já mencionados. Ela deu novo impulso a

várias pesquisas científicas, modificou as idéias existentes sobre a idade da terra, sobre os fósseis, sobre os estratos geológicos. Pelos fósseis pode-se reconstituir as espécies animais e vegetais desde suas primitivas formas e descobrir muitas intermediárias. Marsh estabelece a ligação das aves com os répteis. Diversos fragmentos do homem primitivo foram encontrados, como os de Java, da Bélgica, da Alemanha, da Inglaterra; neles se viam as diversas fases por que passaram os animais para chegarem aos nossos dias. Estendeu-se a idade da terra. Já não eram alguns séculos que a indicavam, mas milhares de séculos. A Ciência ia mudar de rumo.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.