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Capítulo 64 de 65

A Vida Feliz do Espírito

A Evolução · Carlos Imbassahy

Há quem acuse as religiões de levarem os crentes ao abandono das atividades que lhes competem, para se entregarem a uma vida inativa, vida mística e contemplativa, à espera das prometidas felicidades do Céu. Nada há que se nos apresente tão contrário ao ensino dos Espíritos. A vida tranqüila e feliz do Espaço ou das Zonas Superiores só se alcança depois de grandes esforços, depois de lutas ininterruptas, depois de continuado exercício por vencer a adversidade e nos vencermos a nós mesmos, depois do labor diuturno em benefício do Progresso, depois do auxílio aos nossos semelhantes, depois de uma vida diligente em prol da harmonia, da paz e da fraternidade, e em regra, depois de grandes sofrimentos.

Só no trabalho, na virtude, no conhecimento e na justiça, após as fadigas a que nos conduzem, é que é possível encontrar a ventura que as religiões prometem, sem nos ensinarem, precisamente, em que consistem os meios de obtê-las e o caminho para alcançá-la. Vejamos alguns exemplos de como ela é, pelo menos nos primeiros graus da espiritualidade. Colho este nas obras de Barrett, com o seguinte comentário:

As comunicações que se seguem não parecem do tipo habitual; elas nos dão, se verídicas, um apanhado do estado da alma imediatamente após a morte. A Sra. E. assegurou-me que estavam bem longe de seu pensamento, e que ela seria incapaz de os inventar. No inverno precedente perdera um irmão ternamente amado, que estudava numa Escola de Engenharia. Um de seus amigos, depois de haver sofrido muito, falecera antes desse irmão; a Sra. E. não pensava absolutamente nele; eis, porém, que ele se põe a escrever por sua mão: Quero que vocês creiam que seus amigos vivem e não os esquecem... Abrindo os olhos espirituais, encontrei-me tal como era antes; não senti nenhum terror; experimentei, a princípio, um sentimento estranho, depois veio a paz, um coração consolado, o amor dos companheiros, das lições. Eu sou F. Seu irmão está aqui e lhe quer falar. Depois de um intervalo a Sra. E. foi levada novamente a escrever, e eis o que traçou: Estou aqui e lhe quero dizer como acordei na vida espiritual.

A princípio fui vagamente consciente das formas que se moviam no quarto e em torno da cama. Depois, fechou-se a porta e fez-se silêncio. Percebi somente que já não estava na cama e flutuava um pouco acima. Vi meu corpo estendido, e face coberta e a minha primeira idéia foi que eu podia voltar a ele de novo, mas depressa perdi esse desejo: tinha-se rompido o laço. Pus-me em pé no assoalho e meu olhar se dirigiu para esse quarto onde estive tão doente, tão fraca e onde agora me podia mover em liberdade. O compartimento não estava vazio; via meu pai perto de mim; ele ficou o tempo todo comigo. Outros que eu amo ainda, também estavam lá...

Pouco depois dava outra mensagem:

Vi a Terra fria e negra sob as estrelas, aos primeiros luares de uma aurora de inverno. Era a paisagem bem conhecida e muitas vezes contemplada. De repente, meus olhos se abriram. Vi o mundo espiritual irradiar sobre o real como flor que desabrocha. É inexprimível o que eu vi. Nada do que eu dissesse faria compreender essa maravilhosa revelação, que um dia será também de vocês. Fui atraído por minhas afinidades para um mundo que é agora meu, mas a que não estou encadeado. Sou ainda atraído para a Terra, não por laços funestos, mas para aqueles a quem amo, para os lugares que me foram caros. (237)

Bozzano colheu nas principais obras medianímicas inglesas vários excertos sobre a vida no Além, principalmente sobre os primeiros passos nos umbrais dessa nova existência. Por nosso turno, apanhamos, aqui e ali, alguns trechos referentes ao tema de que nos ocupamos neste capítulo, e que é a entrada feliz, não no Paraíso, mas num ambiente de calma e de alegria, justo prêmio de uma vida honesta, no resgate de faltas passadas. Vamos aos excertos: _________________

(237) William Barret – In the Threshold of Unseen – Na Trad. Francesa: Au seuil de l’Invisible – Paris, 1923, - pág. 153.

O Juiz Peckam escreve pela mão do seu confrade, o Juiz Edmonds:

Se eu houvera podido escolher a maneira de desencarnar, por certo não teria preferido a que o destino me impôs. Não me queixo, porém, do que me aconteceu, dada a natureza maravilhosa da nova existência que se abriu, de repente, diante de mim. No momento da morte, revi os acontecimentos de toda a minha existência. Nem um só de meus amigos faltou à chamada. Na ocasião em que mergulhei no mar, tendo nos braços minha mulher, apareceram-me meu pai e minha mãe, e foi esta quem me tirou da água, mostrando uma energia que só agora compreendo. ...Quis informar-te de tudo isto, a fim de que possam mandar uma palavra de consolação aos que imaginam que os que lhes são caros e que desapareceram comigo sofreram agonias terríveis ao se verem presas da morte. Não há palavras que te possam descrever a felicidade que experimentei, quando vi que vinham ao meu encontro, ora uma, ora outra das pessoas a quem amei na Terra, e que todas acudiam a me dar as boas-vindas nas esferas dos imortais. (Do Letters and Tracts on Spiritualism).

Da Obra The Morrow of Death, by “Amicus”.

...Vi-me acolhido, reconfortado e ajudado por pessoas que eu conhecera na Terra e que me precederam na grande viagem. Mas, o que constituiu a alegria daquela hora, foi o encontrar-me com a companheira de toda a minha existência, a qual logo se pôs a prodigalizar-me, no meio espiritual, as dedicadas atenções e as ternuras afetuosas que me dispensava no meio terrestre. Meus primeiros passos foram vigiados por esse afeiçoado guia. Posso pois afirmar que a minha primeira impressão no mundo espiritual foi a prova de que a estima e o devotamento da minha companheira não se haviam enfraquecido em conseqüência da morte, porquanto se renovaram para comigo com toda a comovente espontaneidade, que os caracterizava. Eu sentia que voltara à doce vida familiar do período mais ditoso de minha existência... O processo da morte física e do renascimento espiritual é muito interessante e mesmo belo. Normalmente, a partir do instante em que começa a cessação das funções corporais, os sofrimentos físicos e as ansiedades do Espírito cessam e ele passa gradualmente a condições de inconsciência absoluta.

Uma vez, porém, transposta a crise da morte, opera-se o pleno despertar da consciência; o morto renasce então para uma existência nova e começa logo a exercitar a sua atividade em o novo meio... Onde vem encontrar-se o Espírito recém-nascido? Entrou no estado de existência que lhe era o único possível, dadas as suas condições morais, intelectuais, espirituais. O meio que o recebe é determinado pelo grau de espiritualidade em que ele se acha. Através da morte, ganha a morada espiritual que preparou para si mesmo; não pode ir a nenhuma outra parte...

Da obra Heaven Revised, de E. B. Duffey:

...Nessa hora suprema, a afeição me pareceu o cúmulo e a substância de tudo o que há de apreciável na existência... ... Experimentava penoso sentimento de decepção. Em todo o caso este estado não durou mais que um instante. Apenas formulara aqueles pensamentos, vi desaparecer o quarto em que me encontrava e me achei numa espécie de vasta

planície... Era indescritível a beleza da paisagem. Bela é paisagem terrena, mas a celeste é muito mais maravilhosa... ...Não tinha consciência de haver manifestado de viva voz meus pensamentos; mas, como se alguém me houvesse escutado e se apressasse em me atender, vi diante de mim dois mancebos, cuja radiosa beleza excedia a tudo o que o espírito humano possa imaginar. Muitos anos antes, levara ao túmulo, com lágrimas de desesperada dor, dois filhinhos que adorava: um após outro. E muitas vezes a chorar sobre suas sepulturas, estendera os braços para a frente como se contasse reavê-los à morte que mos arrebatara... Quando vi diante de mim aqueles rapazes, um instinto súbito me preveniu de que eles eram os meus filhinhos, que se haviam tornado adultos. Estendi-lhes os braços como fizera outrora na Terra e desta vez os apertei realmente ao peito... Oh, meus para sempre!...

Do livro Blaire’s Letters, communicated by James Blaire Williams to his mother:

...Procurei conhecer qual era o estado do meu Espírito, quando me achava aprisionado no corpo. Verifiquei que o corpo se pode comparar a uma roupa muito apertada de que o Espírito se reveste, mas uma roupa que só contém uma seção especial do Espírito, porém a mais importante se encontra em estado latente, nas profundezas da subconsciência. Quando o Espírito se desembaraça do corpo, as coisas mudam de aspecto; a parte latente desperta em plena eficiência, realizando todos os poderes. É essa uma sensação maravilhosa e deliciosa para os desencarnados.

Manifestação de Miss Felícia Scatcherd, Light de 1927, pág. 314:

O trespasse me foi tão fácil! Senti-me cansada e sonolenta. Pela manhã adormeci ligeiramente. Percebi, então, estranhas luminosidades... Senti-me em seguida a flutuar no espaço, e a minha mentalidade se tornou muito límpida. Pensei: - Como eu me sinto bem! Eu sabia que me havia de curar!... Era uma estupefaciente sensação de bem-estar. Mas logo me inteirei do que significava aquele repentino restabelecimento. Repousei durante algum tempo. Porém não se tratava de sono; era antes delicioso torpor. Recordações antigas e ditosas me invadiam o espírito: lembranças do tempo em que passei na sua companhia e na de outras pessoas. Tudo se desdobrava com imensa serenidade, sem nenhum choque. Muitas das pessoas que me eram mais caras vieram em seguida ter comigo. Havia a mais querida de todas: minha mãe. Tornei a vê-la como era na sua mocidade. Quisera que todos se persuadissem de que a vida terrena é a parte mais triste de nossa existência. Na realidade não é uma vida.

Trata-se agora do livro Messages from the Unseen. A morta dirige-se ao marido:

Acho-me neste momento bem perto de ti e dos meus filhos. Varre da mente essa idéia de que me encontro muito longe do meio em que vivi. Não te deixarei um só instante até o dia em que te der as boas-vindas, à passagem do grande rio. Possa esta passagem ser para todos tão suave quanto foi para mim.

Devo ter dormido muito tempo, se bem não tenha disso a menor lembrança. Quando abri os olhos, achei-me curada milagrosamente. Vi-me tal como era no curso dos melhores anos de minha mocidade, porém infinitamente exuberante de vida, mais lúcida de espírito, mais ditosa. O extenso período de minha enfermidade me pareceu um mau sonho do qual por fim despertara, para volver à afeição das pessoas que me são caras e que me assistiram com tanta abnegação. Sentia-me na posse de toda a rica experiência adquirida durante a minha passagem através da existência terrena.

Em outra mensagem:

Minha experiência se resume num despertar maravilhoso, que ainda agora me enche de extática alegria. Na morte não há o que temer. Quando despertei, vime cercada pela assembléia dos que eu amara na Terra, dos semblantes das pessoas queridas que conhecera nas diferentes épocas da vida. Ao mesmo tempo, ouvia maravilhosos acordes musicais, literalmente celestes, que me extasiavam. No meu trespasse não houve mudanças bruscas: adormeci e despertei, pouco a pouco, para uma vida em que se tem a consciência mais vasta de si e se sabe muito bem estar curado de todas as enfermidades, e livre, livre para sempre do pobre corpo envelhecido. Como exprimir o que esta revelação significa para mim? Só os que, como eu, sofreram longamente, aguardando com ansiedade a liberação, se acham em condições de o conceber. Quando ao despertar respondi à saudação de boas-vindas de tantas pessoas queridas que me tinham vindo receber, sabia que não sonhava, que efetivamente havia entrado no meio espiritual.

Estou viva, com uma vitalidade que jamais experimentei, nem sonhara, na posse de novas faculdades, de novas energias, com um poder de amar e ser feliz dez vezes mais forte do que antes. A existência, nestas esferas, deve ser uma alegria permanente. Para alcançar tal meta valia a pena de viver uma vida de lutas e de sofrimentos. Presentemente, parece-me que vivi na Terra uma vida de sonho; somente é esta, com efeito, vida real; aquela era um sombra... O amado companheiro de minha vida e meus filhos constituem o laço único que me prende ainda ao mundo dos vivos. Onde me acho reinam o perfeito amor e a harmonia universal, a se manifestarem numa glória de luz radiosa, vibrante de energias vitais, que enchem a alma de sentimentos agradáveis e de suprema alegria.

Os pensamentos substituem a palavra; eles não só vibram em uníssono com as almas, como revestem cores admiráveis e se transformam em sons muito harmoniosos, o que faz ouçamos ressoar em torno de nós uma sinfonia de acordes musicais, sempre mais e mais maravilhosos, de uma beleza de gradações infinitas... ...No mundo espiritual a música é o veículo revelador das grandes verdades cósmicas.

Vimos a outra face da existência na sucessão de nossas vidas. É a paisagem confortadora depois das diversas fases que atravessamos, já depurados no cadinho do sofrimento. É ao que chegaremos “depois de longo e tenebroso inverno”. É, enfim, le coin bleu après un ciel d’orage. O acordar no Espaço, depois de uma vida honesta e dignamente vivida, das dolorosas provas suportadas com resignação, toma o aspecto de inesperada e deslumbrante apoteose como jamais puderam ver os nossos olhos.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.