[user_registration_my_account]
Capítulo 41 de 65
Corpo e Espírito
A Evolução · Carlos Imbassahy
Pedimos ao leitor, a quem desgostar as tiradas fastientas, que pulem este capítulo. Entre os tabus científicos poderemos apontar a herança psíquica. Dizem vários mestres que herdamos os sentimentos, a inteligência, os caracteres morais e até os conhecimentos paternos. À falta de comprovantes seguros, e quanto tal não se verifica, apelam para a memória ancestral. São os cabedais acumulados nas gerações pretéritas que formam o homem civilizado de hoje. Quando não é possível afirmar que os nossos caracteres psíquicos vêm dos pais, dada a imensa variedade entre pais e filhos, recorre-se à ancestralidade, convencido o recorrente da dificuldade que há em se negar que tal ou qual avoengo deixasse de possuir o caráter que desponta no rebento atual. De Marie inclui na composição do homem o eu inconsciente ancestral. Dizem-nos que Herming fundamentou a teoria da memória como função geral e fundamental da substância viva. E ilustrado biologista patrício assegura que “a memória ancestral que a Consciência reconhece existir, a própria Psicologia admite na concepção do eu”.
Ora, não só não se mostra de forma iniludível a transmissão hereditária das funções psíquicas, como iremos demonstrar, nós, diante dos fatos paranormais, que elas não fazem parte da matéria, senão simplesmente do Espírito, e como tal não se poderiam transmitir, hereditariamente, como certos materialistas supõem e preconizam. Tudo aquilo que não é claramente demonstrado não passa de um axioma. E se temos que tomar esse axioma como verdade demonstrada, sem lhe tocar, estamos diante de um tabu. Podemos afirmar, com absoluta segurança, que dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio produzem água; sabemos, sem sombra de dúvida, qual a fórmula do ácido sulfúrico; poderemos verificar que o selênio, o tório, o rádio produzem radiações. Com uma simples máquina de Atwood convencer-nos-emos que “os espaços percorridos por um corpo que cai são proporcionais aos quadrados dos espaços empregados para percorrê-los.” Com outro aparelho poderemos demonstrar o princípio de Pascal, de que os líquidos transmitem integralmente e em todos os sentidos as pressões que suportam.
A segurança dos cálculos astronômicos fica patente com a regularidade e exatidão com que os fenômenos se realizam. É a isto que se pode dar o nome de Ciência. Mas afirmar que tal indivíduo herdou as elevadas qualidades intelectuais dos pais, ou não sabemos quais outras, quando os pais são uns indivíduos broncos; que os avós ainda eram mais broncos que os pais; e escapar-se dessa dificuldade com a hipótese de que a inteligência deveria porvir de um longínquo antepassado, necessariamente de remota tribo africana, tendo ainda esse antepassado devido herdar as altas qualidades intelectuais não se sabe de quem; e ficar depois de tudo isso a chasquear da ignorância alheia, é que não é muito para louvar nem admirar. Mário Cavalcanti, no Reencarnação, trouxe vários exemplos de onde se poderia ver uma série de casos, em que seria impossível descobrir ou mesmo invocar a ancestralidade.
Numa reportagem de “O Globo”, lemos o seguinte trecho, de parte de um especialista: A INDIAZINHA DO PARAGUAI - E Rostand prossegue: Um indivíduo humano não possui, ao nascer, qualquer vestígio do seu passado ancestral. É uma página em branco. De nenhuma maneira é favorecido ou prejudicado pelo modo de atividade dos avós. É um homem, mais nada. Um ser humano pode atingir a um nível superior de civilização, mesmo que os seus antepassados sejam pouco civilizados. A prova disso no-la fornece a observação do eminente psicólogo Heny Pieron na sua bela conferência “Do Animal ao Homem”. A tribo “guaiaquil”, do Paraguai, caracteriza-se pela sua atrasada fase de civilização – civilização chamada “do mel”, porquanto os membros da tribo contam, como principal recurso alimentício, com o mel das abelhas selvagens, que vão procurar no oco das árvores. Um dia, porém, exploradores encontraram, numa taba abandonada pelos guaiquis, uma menina que, a julgar pelo aspecto, não tinha mais de dois anos. Foi recolhida pelo etnógrafo Vellard, que a entregou à sua própria mãe. Tendo sido assim educada num ambiente civilizado, a “pequena selvagem” é agora uma mulher absolutamente moderna, que fala várias línguas e realizou estudos muito adiantados de etnologia. Colabora com o pai adotivo, com quem veio a casar-se. Aí temos um fato capital que demonstra perfeitamente que um ser humano não precisa ser sustentado por um passado hereditário. O Globo, 10-3-1954.
Trata-se, a nosso ver, de casos excepcionais, mas suficientes para desmentirem a tese de transmissão hereditária dos caracteres morais. Como se vê a dúvida não parte só de meia dúzia de pacóvios. Declarar-se que “a aceitação da herança física implica na aceitação da herança moral” é julgar pelas aparências, e nunca as aparências tiveram vigor científico. Vejamos se os laços entre matéria e espírito justificariam a hipótese da hereditariedade psíquica ou, em outros termos, se o espírito decorre da matéria; se a Ciência tem como certa a indissolubilidade das relações psicofísicas; se, enfim, há alguma prova de que se originam da matéria as aquisições mentais, por maneira a se tornarem transmissíveis hereditariamente. Ouçamos os Mestres. Diz-nos Richet:
A sede anatômica das funções psíquicas não pode ainda ser determinada da maneira satisfatória. Apesar dos esforços dos fisiologistas não se chegou a qualquer resultado positivo.
Tratando, ainda, dessas funções declara que:
A Anatomia não pode dar mais que pobres noções fisiológicas a respeito. E a Psicologia é das ciências a que menos pode esperar esclarecimentos no que toca às pesquisas dos anatomistas. Seria interessante saber – pergunta ainda – em que elementos do sistema nervoso está situada a atividade psíquica. Admite-se como dogma inabalável (on admet comme un dogme inébranlable) que a célula nervosa é o elemento ativo do sistema nervoso... Mas este axioma, universalmente admitido, teria necessidade de ser demonstrado. Pode-se alegar verossimilhança, analogias, presunções, mas a prova direta não foi feita e só as provas diretas podem trazer a certeza. (103)
É precisamente isto que afirmamos: não é possível que sejamos arrastados à convicção científica, com inferências, presunções, analogias, verossimilhanças, tal como se dá na matéria em análise. Como disse o grande fisiologista, nada têm que esperar os psicólogos das pesquisas dos anatomistas, quanto ao Psiquismo. Por este lado impossível filiá-lo à matéria. Desta forma se manifesta o notável naturalista, psicólogo e pesquisador Karl Grüber:
Os conhecimentos parapsicológicos demonstram que a concepção presentemente oficial de uma alma pura e simplesmente função cerebral é falsa. (104)
Golge sentia não poder arranjar uma ponte sobre o abismo que separa a matéria dos fenômenos mentais. Sobre o pensamento nada sabemos. E se, pelo lado anatômico, nada se pode afirmar no que toca às faculdades mentais, o mesmo acontece quanto ao fisiológico. Ouçamos Osty:
Esperar que cheguemos a conhecer a psicofisiologia da Metagonomia, numa época em que ignoramos a fisiologia do pensamento normal, parece uma utopia promissora de tempo perdido. (105)
Hans Driesch, da Universidade de Leipzig, referindo-se às relações entre a matéria e as faculdades do Espírito, ensina:
Nunca saberemos como a matéria pode dar nascimento ao pensamento, isto é, como a matéria pode pensar. O que pensa é a alma ou espírito. A matéria é apenas um instrumento do cérebro. São duas entidades absolutamente diversas.
E assegura: As leis superiores da vida se ligam à matéria, porém não dependem dela. (106)
É muito conhecida a opinião incontestada de Bergson, a de “que a atividade mental do homem ultrapassa a sua atividade cerebral: L’activeté mentale de l’homme déborde son activité cérébrale”. (107) Vale ainda citar os seguintes períodos do acatado autor:
No trabalho do pensamento em geral, como na operação da memória, o cérebro aparece simplesmente como encarregado de imprimir ao corpo os movimentos e as atitudes que representam o que o espírito pensa ou o que as circunstâncias o convidam a pensar.
(103) Charles Richet – Essai de Psychologie Générale, 1919, págs. 32-34. (104) Karl Grüber – Parapsycologische Erkeentnisse, Munich, 1925. (105) Dr. Eugène Osty – Psico-Physiologie expérimental. Revue Métapsychique. 1925, pág. 165. (106) Hans Driesch - Revue Métapsychique, 1928, pág, 390 (107) Henri Bergson – L’Énergie Spirituelle, 52.e édition, 1949, pág. 27.
E mais adiante:
Os fenômenos cerebrais são, com efeito, para a vida mental, o que os gestos do diretor da orquestra são para a sinfonia; eles desenham as articulações motoras e mais nada. Não se encontra no interior do córtice cerebral nenhuma das operações superiores do espírito. (108)
O Professor Flournoy, de Genebra, não tem absolutamente qualquer dúvida sobre o binômio corpo e espírito, e a completa separação entre ambos. Assim é que assegura:
O corpo e o espírito, a consciência e o movimento molecular cerebral, o fato psíquico e o fato físico, sendo simultâneos, são, entretanto, heterogêneos, díspares, irredutíveis, obstinadamente dois.
E acrescenta:
Isto é evidente por si mesmo, é axiomático. Todo o acontecimento físico, químico, fisiológico, não consiste, em última instância, para a Ciência, senão no deslocamento mais ou menos rápido de certo número de elementos materiais, em uma alteração em suas distâncias mútuas ou seus modos de agrupamento. Ora, que há de comum, pergunto, que analogia se pode perceber entre essa aproximação ou esse afastamento de massas materiais no espaço, e o fato de haver um sentimento de alegria, a lembrança de um amigo ausente, a percepção de um bico de gás, um desejo, uma vontade qualquer? Tudo o que podemos dizer, para ligar esses dois acontecimentos tão absolutamente dessemelhantes, é que eles se realizam ao mesmo tempo... É impossível conceber qualquer conexão real, qualquer relação interna entre essas duas coisas diferentes. (109)
É de uma clareza solar – aliás como sempre – o insigne astrônomo Flammarion, quando exclama: Não é a matéria, não é um agregado de moléculas que pode pensar. É tão infantil admitir que um cérebro sente e pensa como atribuir às pilhas geradoras de eletricidade do telégrafo a gênese das idéias exprimidas no telegrama. (110)
E o interessante é que, quanto mais a Ciência avança, mais complicados se tornam os problemas mentais, menos se conhece a consciência e a memória, e mais se firma a autonomia espiritual. Quanto mais estudarmos a separação entre espírito e corpo, melhor compreenderemos as doutrinas espiritualistas modernas e mais aptos estaremos a dar de ombros com a mofa dos que se julgam especados no que aprenderam na Academia. Perlustremos os moderníssimos trabalhos de J. B. Rhine, diretor do Laboratório de Parapsicologia da Universidade americana de Duke, muitos dos quais descritos no seu livro – A Extensão do Espírito:
(108) Henri Bergson – Obr. Cit. Pág. 75. (109) Teodoro Flournoy – Metaphysique et Psychologie, Genebra, 1890, pág. 17. (110) Camile Flammarion – La Mort et son Mystère, pág. 73.
Ninguém presume saber como a consciência se produz, e não temos à mão uma teoria sequer a respeito. A Ciência verificou as relações entre corpo e alma, entre a conduta e o cérebro; que certas funções mentais estão ligadas a zonas específicas do cérebro, mas, por mais estranho que pareça, ninguém, até hoje, já pretendeu mostrar que a mente seja física.
Tratando da vidência, declara:
O segundo passo que demos a fim de desafiar os conceitos estritamente materialistas da ciência ortodoxa, foi submeter à experimentação a realidade de outra manifestação psíquica, a vidência.
Na quarta fase das experiências procurou averiguar se os poderes da mente estavam condicionados ao tempo. E, então, diz ele:
Chegamos ao que, se realmente existe, se pode considerar o mais estranho dos poderes humanos, o da profecia.
As suas experiências, que se contam por milhares de testes, e com as quais registrou as forças do Espírito, a sua personalidade independente, a sua projeção fora do corpo, levaram-no a concluir:
O nosso problema fundamental, ou seja, a natureza do homem, implica a existência da alma como sistema não-físico. Existe algo de extrafísico ou de espiritual na personalidade humana. A hipótese da existência da alma ficou demonstrada.
Em suma, declara o grande experimentador contemporâneo:
As nossas pesquisas oferecem um forte indício a favor da sobrevivência. Mesmo que nunca se houvesse formulado qualquer concepção da sobrevivência, bastariam as pesquisas da ESP para que esta surgisse em nosso espírito. (111)
A demonstração científica da sobrevivência, baseada em avultadíssimo número de experiências e proclamada por um dos mais notáveis pesquisadores que se conhecem, vem achanar o caminho para a tese a que nos propomos. Vejamos se a Biologia nos instrui melhor e nos explica a dependência absoluta do Espírito à ação da matéria. Hans Driesch, que escreveu especialmente sobre o assunto, informa-nos:
Apesar do parecer de alguns sábios no Congresso de Metapsíquica Internacional, em 1927, a opinião predominante manifestou-se pela afirmação de que o ser e a vida psíquica são independentes do mecanismo físico-químico e da matéria. (112)
(111) J. B. Rhine – The Reach of the Mind, Nova York, 1947. (112) Hans Driesch – Biologia e Metapsíquica.
O professor Santoliquido, notável médico e higienista italiano, proclamava, em memorável conferência:
A esfera da Biologia não ultrapassa o estudo da função vegetativa do corpo humano. A Psicologia é o estudo das sensações, das idéias, dos diferentes processos mentais, porém nenhum psicólogo autorizado e profundo ousará dizer que, com o enorme auxílio dos laboratórios e dos clínicos, pôde penetrar além da superfície da fenomenologia do pensamento. (113)
E Osty, completando as idéias do seu ilustre colega:
Parece que os biologistas estão muito longe de se entenderem sobre o processo da vida mental. Tenhamos, apenas, como certo, que não se sabe quase nada do jogo orgânico pelo qual essa vida mental se conhece, e absolutamente nada sobre a natureza do pensamento. (114)
Para o célebre biologista Loeb, o papel das células nervosas é muito diferente do que lhe confere o estudo clássico. A explicação histológica dos processos mentais é tão ilusória como seria acreditarmos conhecer o que se passa numa rede elétrica ao simples aspecto exterior. Para ele as células nervosas não teriam outro fim que o de nutrir as fibras. Falar de centros nervosos, de coordenação, de associação, lhe parece ridículo. O Professor Leonídio Ribeiro analisa “o eterno problema das relações da alma com o corpo”, que denomina a encarnação do espírito, e nos informa que voltou a ser discutido no Simposium de Londres por mestres de diversas disciplinas. Entre alguns pareceres, apresenta-nos os seguintes:
Sir Charles Sherrington, com sua excepcional autoridade de mestre da Fisiologia moderna, começou por afirmar as dificuldades de se alinharem, entre as coisas materiais, as idéias, os sentimentos e as recordações. Adrian, professor de Fisiologia da Universidade de Cambridge e Prêmio Nobel, igualmente perguntou: - Que acontece quando pensamos? – Idêntica indagação foi feita por seu colega Le-Gros Clark, mestre de Anatomia da Universidade de Oxford: - Teríamos já descoberto uma luz que ilumine o estudo da estrutura do cérebro e permita conhecer o processo íntimo do pensamento? – Russel Brain, outro notável mestre de Fisiologia, da Inglaterra, declarou que todos os estímulos, quer visuais, sonoros ou táteis, penetram no cérebro sob formas elétricas, e concluiu: A Fisiologia está procurando explicar a natureza das relações que unem o cérebro ao espírito, mas não espereis de mim uma explicação de como isso se realiza. Winter Penfiel, professor de Cirurgia Nervosa da Universidade de Montreal, exclamou: - Que sabemos desse cérebro que se acredita ser a morada da alma?
Refere ainda o Professor a opinião de vários filósofos, que tomaram parte no aludido Simposium, como Lord Samuel, para quem ainda não se tinha descoberto a base física do espírito; Ayer, que considera uma ilusão pretender localizar no cérebro a sede do espírito; Gilbert Ryle, que opina do mesmo modo.
(113) Dr. Rocco Santoliquido – Conferência em Gênova, 5 de maio de 1928. (114) Eugène Osty – Révue Métapsychique, 1920, pág. 102.
Depois de citar várias obras e autores que tratam do mesmo assunto reporta-se a Sherrigton, que, em seu livro Man on his Nature, salienta os embaraços encontrados no estudo das funções cerebrais, acrescentando que “a Fisiologia não conseguiu penetrar na intimidade do mecanismo do cérebro, em suas relações com o pensamento, dificultando, assim, a explicação de certos sintomas das doenças mentais. Não existe qualquer ciclo de energia capaz de nos permitir ultrapassar o abismo que separa o psíquico do fisiológico.” E, finalmente, Lhermitte: - “O problema das relações das atividades cerebrais e psíquicas é insolúvel.” (115) Tudo nos está a demonstrar a pujança espiritual. Um autor, nada espírita, confessa que, durante o sono, o espírito permanece em franca atividade e assim consegue resolver certos problemas não solucionados em estado de vigília, a encontrar objetos perdidos, a compor versos e trechos musicais. Voltaire concebeu em sonho um canto da Henriade e Bach ouviu durante o sono a execução integral de sonatas que não tinha terminado.
Isto prova que a atividade intelectual – declara – pode, em certos casos, adquirir durante o sono mais sutileza e vigor, e realizar o de que ela era incapaz em estado de vigília. Somos, pois, autorizado a admitir que o espírito poderia, em certas condições, comunicar durante o sono por meio do sonho, com pessoas afastadas. (116) Esse escritor, aliás fortemente impregnado de “explicações naturais”, nota o fenômeno do desprendimento e estabelece uma das bases para a demonstração da integridade espiritual. É bem de ver que estamos, por enquanto, preparando o terreno para a demonstração que temos em vista, a de que a Ciência não pode explicar a hereditariedade psíquica e muito menos prová-la. O primeiro degrau é este que estamos franqueando, e que consiste em mostrar que nada se conhece dos processos mentais; que é falsa a afirmativa de que a vida psíquica está indissoluvelmente ligada à vida física; queremos mostrar, antes do mais, que o espírito não participa da matéria, a que está sujeito apenas temporariamente, mas da qual é independente; que essa independência é manifesta, mesmo na vida orgânica.
E se nada se conhece daqueles processos, se o “ser e a vida psíquica independem da matéria”, se a Ciência não explica a vida do Espírito, se dele pouco ou mesmo nada sabe, como assegurar-se que aquilo que muito longe está de ser matéria pode transmitir-se materialmente? Iremos, agora, estudar a memória e veremos, do mesmo passo, que se trata de outro fenômeno desnorteante e misterioso. Não se sabe, pois, quase nada da vida do Espírito; nada se percebe sobre a memória, nem como se registram os fatos, nem como se conservam, apesar da destruição constante das células, das alterações freqüentes do organismo, através das incessantes transformações que experimenta, mediante a assimilação e a desassimilação. E o caso é tanto mais sugestivo quanto se tem notado que alterações anatômicas do cérebro, tantas vezes verificadas na autópsia, não implicaram a supressão de suas manifestações. Pois bem, apesar da ignorância que mantemos a respeito da memória, logo se declara, com sugestionante ênfase, que a Ciência provou que as aquisições do passado é que formam o homem atual, pensante, raciocinante, inteligente. _______________
(115) Leonídio Ribeiro – Encarnação do Espírito – O Jornal, Rio, 12-2-52. (116) Th. Poodt –Les Phénomènes Mysterieux du Psychisme, 1926, pág. 267.
Quando afirmamos que o nosso conhecimento, muitas vezes rápido, espontâneo, miraculoso provém do que o Espírito aprendeu no passado, logo nos falam na memória transmitida através dos genes. Iremos analisar a ousadia dessa afirmação, não obstante estarmos ainda tão às escuras em torno da memória e da sua persistência. Veremos que essa função faz parte do Espírito, e ele está sob as contingências da matéria, como o prisioneiro sob as ordens do carcereiro ou sob a influência do cárcere. A memória ancestral não poderia explicar o estado atual de nossa consciência. Estudaremos os diversos aspectos da vida do Espírito, a fim de provar que ele tem a sua órbita própria, que é diferente do corpo, nos termos da proposição de Flournoy; enfim, ficará patente, diante dos fatos, a sua homogeneidade, a sua individualidade, a sua independência, a sua imortalidade, a sua sobrevivência.
Esses predicados o desligam da matéria e tornam impossível fazer-nos acreditar que as suas funções se transmitam hereditariamente pelo corpo, tanto mais quanto as vemos se exercerem fora do corpo, à distância do corpo, apesar das deficiências do corpo e sem o corpo. A superioridade com que os Mestres nos falam da hereditariedade psíquica, metendo à bulha os pobres mortais que teimam em não os reconhecer como a última palavra da Sabedoria e da Verdade, neste ponto, faz-nos lembrar um tópico de Osty, o afamado neurologista francês. Dizia ele:
Se a nobre missão de ensinar aumenta a precisão e a segurança dos conhecimentos, no Professor ela se torna nocivamente contra ele. Pela repetição, concepções instáveis tomam, cada vez que são reditas, um pouco mais de aderência. Em pouco se tornam idéias familiares, hábitos mentais quase irredutíveis. Uma só lei rege o espírito do Professor, o do impostor, que à força de contar fatos imaginários, chega à convicção de que os realizou. (117)
É uma impostora inconsciente, é bem de ver. Em suma, teremos a tarefa, mormente quando se trata de convencer cristãos, de mostrar que o que vem da carne e do espírito é espírito, conforme se lê no capítulo III de João.
(117) E. Osty – Psico-Physiologie Expérimental, 1925, pág. 165.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.