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Capítulo 13 de 65
A Palingenesia e os Seus Aspectos
A Evolução · Carlos Imbassahy
Os elementos a favor das vidas sucessivas são de ordem religiosa, filosófica e científica.
Religião – As religiões, em regra, são reencarnacionistas. No próprio Cristianismo, não obstante as noções do Céu e Inferno, que o Catolicismo e o Protestantismo extraíram do Novo Testamento, existe a idéia de reencarnação. Quando o Cristo diz que é preciso renascer, quando afirma que João é Elias, quando esclarece que os filhos de Deus não nasceram do sangue, nem da carne, ele estabelece, a nosso ver, o princípio de uma vida anterior. Orígenes, nos Princípios, pregava o renascimento; Tertuliano, na Apologética, perguntava se não seria digno admitir-se que um homem pudesse ter sido anteriormente outro homem, conservando as faculdades precedentes. S. Jerônimo teria assegurado que a transmigração das almas fazia parte dos ensinos revelados aos iniciados. S. Agostinho deixa entrever suas dúvidas, quando indaga: - Antes da minha infância teria estado em algum lugar? Tratando do Budismo vemos que a roda das vidas sucessivas é um ensino básico. Consta ele dos mais antigos livros sagrados. Essa doutrina é ainda encontrada entre os selvagens. Ora, sabe-se que no fundo das crenças há quase sempre um ponto objetivo.
Os povos atrasados crêem em fantasmas porque vêem fantasmas. As suas idéias, no que toca à imortalidade, são mais ou menos idênticas às dos civilizados. Essa uniformidade é produzida pelo fenômeno. O princípio da multiplicidade das existências deve ter sido haurido na própria declaração dos mortos, tal como se dá com a codificação de Allan Kardec.
Filosofia – A Palingenesia é um dos pilares da doutrina espírita. Retirem-na de entre os princípios básicos e toda a clareza, todo o rigoroso critério de justiça que apresenta, desaparecem; os problemas que procura resolver obscurecem-se; a lógica empana-se. Voltaríamos ao mistério, ao ocultismo, às reticências, às explicações nebulosas, caindo no realejo da “vontade de Deus”, dos “impenetráveis desígnios de Deus”, da “glória de Deus” e outras velharias, que nos apresentam o Criador como um déspota feroz, senhor de um arbítrio incompreensível e injustificável, distribuidor de graças e desgraças, sem a menor consciência, sem o menor vislumbre de justiça, sem a menor noção de equidade, premiado amigos e fazendo a desventura de inimigos, sem que se saiba por que se tomou de amizade por uns e inimizade por outros, distribuindo as suas mercês da mais absurda e incompreensível maneira. Um malfeitor, um ditador, um prepotente agem, por vezes, com melhor lógica e maior senso.
Uma tal falta nos julgamentos do Senhor deixa tão profunda brecha na fé, que não é de admirar a ascendência do materialismo no espírito dos que estudam; sem as luzes que a Palingenesia fornece àqueles que pensam, não haverá em breve quem mais acredite no Criador, a não ser por medo. Os grandes e graves problemas do sofrimento, da prova, do ser, do destino tornamse resolúveis com os esclarecimentos que nos traz a sucessão das vidas. Há, entretanto, indivíduos que se põem à frente da estrada, impedindo a marcha do Evolucionismo, como a dizer-nos: - Não queremos isto! Deixem-nos com o nosso inferno, onde não há mais esperanças, nem réstea de luz na alma, onde o arrependimento é inútil, onde as dores não
têm limites, nem na intensidade, nem no tempo, onde a eternidade é a da tortura. Deixemnos com o nosso céu, onde o beato ali fica sem fazer mais nada, em santa ociosidade, a cantar hinos de louvor a Deus, que se compraz nesses hinos, e se envaidece como qualquer presumido com as louvaminhas de seus incensadores. Deixem-nos com o nosso Deus arbitrário, sectarista, faccioso, que à custa de zumbaias e bajulações, iremos a Ele.
A variedade da sorte é imensa. Lado a lado, a riqueza e a pobreza, senão o fausto e a miséria; o são e o doente; o belo e o feio; o perfeito e o aleijado; o estúpido e o inteligente; um, cheio de cargos e distinções, o outro, a esmolar um emprego; um, na ociosidade; outro, no trabalho penoso. Iríamos ao infinito se continuássemos a multiplicar os exemplos, a mostrar as nuanças que caracterizam a vida humana. O fato se explicará se soubermos que tudo será efeito de causas remotas. É a ação e a reação; conseqüências de fatos passados; é, enfim, o indivíduo a resgatar no mesmo teatro e com o mesmo cenário as culpas, as faltas, os erros praticados em existências pretéritas. Tal abusou da sua inteligência produzindo a infelicidade de seus semelhantes, em vez de empregá-la no conforto e progresso desse mesmo semelhante; vem com as deficiências mentais que notamos, desde o simples bobo ao louco furioso.
O potentado, o chefe, o condutor de indivíduos, o diretor, que abusou de sua ascendência, do seu prestígio ou do seu poder, volta em condição humilde, quando não humilhante. Basta como exemplos. A inteligência é o fruto de um longo aprendizado. Os conhecimentos se acumulando nos recessos da alma. Em cada nova existência, novos conhecimentos se adquirem, de sorte que, para estudar determinada disciplina, as aquisições do passado vêm à mente, tornando fácil a compreensão, rápida a apreensão; essa facilidade no entender, aprender e executar é que constitui a inteligência de que muitos se ufanam, quando ela não significa mais do que uma temporada maior nas escolas da vida. Daí a frase é - aprender é recordar. Se o indivíduo se esclarece pelo trabalho dos séculos, as suas virtudes se explicam pela lixívia do tempo. É escorregando e levantando-se, chorando e enxugando as lágrimas, percebendo em cada vida no espaço os erros da vida terrena, que a alma cai em si, e promete modificar-se.
E a cada etapa planetária vai deixando pelo caminho as suas impurezas, como nós vamos lançando fora aquilo de que não mais precisamos. Não vimos até hoje, fora da reencarnação, onde se explicassem esses problemas. Quando os argutos dão asas ao seu gênio inventivo é um mistifório de que não se percebe nada.
Suponhamos um indivíduo vítima de antigos vícios; que passou por grandes quedas e conseqüentes tribulações; tudo se conserva nos esconsos do Espírito. A experiência se mantém em estado latente. Quando, porém, se ensancha a pouca oportunidade de cair no erro, a memória esperta do fundo de seu esconderijo, faz vibrar a consciência, e o paciente se afasta, tanto mais rapidamente do campo da tentação, quanto mais profundas forem as ranhuras produzidas por seus erros, e maior o seu progresso. A memória não se perde. Ela aí está dando os seus frutos no nosso proceder, na linha reta dos bons, nas sentenças dos justos, na probidade dos honestos.
Ninguém vê o homem digno nas tavernas, nas casas de jogo, nos lugares malafamados; não se lhe conhece um ato desprezível. Isto não passa do resultado de provas múltiplas e experiências seculares, de quedas e soerguimentos, e daí o aprumo em que muitos se encontram. É a criptomnésia que está a ditar os nossos atos, a deter-nos no mau caminho, a orientar-nos na boa estrada. É costume dizer-se: - Fulano teve a intuição de como deveria proceder. Essa intuição é apenas recordação; a nossa vida atual, com os predicados que possuímos, é conseqüência de nossa longa viagem: evitamos o passo em falso como se tivéssemos clara na mente a claudicação anterior. Há ainda alguns hiatos e muita coisa por explicar. Existem, como entre as espécies, uns tantos tipos de transição no terreno espiritual, e a nossa paleontologia se acha em começo de estudos. Dir-se-ia, por exemplo, que Deus poderia ter feito melhor. É de crer. Acusam-nos de se supor que já sabemos tudo. Não há tal. Só supõe que sabe tudo o ignorante. Não podemos explicar o que ainda não é permitido, haja vista que estamos na infância do conhecimento espiritual. Vamos até onde o braço alcança. Não é nossa pretensão achar que está tudo descoberto, quando começamos a dar os primeiros passos na senda do Desconhecido.
Entramos, agora, na parte científica: primeiro a observação, depois a experiência. Até aqui o raciocínio, agora a prova.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.