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Capítulo 10 de 65
Transformismo
A Evolução · Carlos Imbassahy
Ampliemos o estudo anterior. Dá-se este nome às transformações por que vêm passando os seres até chegarem às formas que hoje apresentam. Eles partem do tipo mais simples ao mais complexo; é a doutrina da evolução. Ao transformismo opõe-se o ensino bíblico da criação das espécies, conforme se acham atualmente, tendo o casal humano aparecido como o vemos em nossos dias. Pela mesma doutrina bíblica, o homem ocupa um lugar de relevo na Terra, que é um astro feito unicamente para seu uso e benefício, astro superior e especial, a dominar soberano na imensidade. Os demais, subalternos, têm a missão de iluminar-nos e embelezar o céu. Os evolucionistas, porém, com o auxílio da Astronomia, provaram que, em meio ao enxame de estrelas que povoam o Firmamento, o mundo é um astro sem nenhuma importância, apagado, quase ridículo em seu tamanho, em sua velocidade, deplorável pelos seus cataclismos, inclinado no eixo, torto, sem já falar na pobre, miserável e atrasadíssima humanidade que ele arrasta pelo infinito em sua interminável peregrinação.
Ora, diz a Ciência que o homem é apenas um animal ligeiramente aperfeiçoado, e que as espécies, tanto animais, como vegetais, provieram de formas elementares, chegando evolutivamente ao grau em que se encontram. Descobriu-se, portanto, que os seres vivos descendem de pequeno número de formas primitivas, senão de uma forma única e em um único ponto. A Ciência conseguiu demonstrar essa evolução pela Morfologia e Anatomia dos animais; pela Embriogenia e Embriologia, que é o estudo da formação dos seres, desde o óvulo ao nascimento; pela Paleontologia, que é o estudo dos fósseis.
Forma – Há uma grande desigualdade entre os seres superiores e os inferiores, mas se nota uma progressão entre eles, ou seja, uma série de intermediários que fecham a cadeia, mostrando que não houve solução de continuidade na sua formação. Verifica-se, assim, uma transformação progressiva das formas inferiores para as superiores. As alterações foram resultantes de adaptações. As espécies, ao mudarem de lugar, de clima, adquirem novas propriedades ou novos caracteres; conseguem gordura, mudam de cor, criam pêlos, e assim resistem às agrestias da natureza. O mesmo se dá com as modificações anatômicas.
Órgãos rudimentares e inúteis - Ainda com relação à forma, há que tratar dos órgãos rudimentares que certos animais apresentam, demonstrando que já os possuíam as espécies de que descenderam, assim como os órgãos inúteis mostram que já não se tornam necessários, o que tudo explica a razão por que os seres se vêm diferenciando. O boi não tem dentes incisivos na maxila superior, entretanto eles aparecem no embrião. Os cetáceos possuem barbas em vez de dentes, mas os dentes se encontram no embrião, o que prova já terem existido. As serpentes perderam as pernas, mas lhes conservam os traços; algumas há que ainda têm patas rudimentares, lembranças do passado; são as descendentes do lagarto. O avestruz e o pingüim, que perderam o hábito do vôo, ainda possuem asas rudimentares. Alguns cisnes, ao saírem do ovo, são cobertos de penugens e penas pretas, logo depois substituídas pelas brancas. É sinal de que o cisne ancestral era preto.
Como os antepassados do homem moviam as orelhas, o que hoje é raro, ele ainda mantém o músculo que as acionava. O cóccix humano é uma reminiscência da cauda que já possuímos. Como exemplo de adaptação, temos o morcego. É conhecida a fábula de La Fontaine, onde aquele animal, para escapar de um perigo, ora se dizia ave, ora rato. Os esquilos, por motivo dos grandes pulos a que eram obrigados, porque, fracos, não poderiam resistir aos animais que os perseguiam, criaram como que um pára-quedas, que são membranas ao lado do corpo. Peixes há que vivem nas regiões tropicais, em lagos, tanques, poços, sujeitos a secarem. Transformou-se-lhes a bexiga natatória em pulmão, que lhes permite respirar fora d’água. Existem os voadores. Foram obrigados a voar, já por se livrarem dos inimigos, já para fugirem dos lugares secos ou que principiavam a secar; criaram então uma espécie de asas. Os anfíbios surgiram pelas necessidades do meio e da vida. São animais que vivem na água e na terra.
Os corpos tomaram, então, a conformação necessária para a vida em ambos os meios. Certos batráquios passam a vida no lodo; os olhos criaram uma pele protetora transparente. Os dedos dos cavalos e do veado ficaram reduzidos apenas aos necessários à corrida. A lontra e a marta se parecem; deviam ter nascido de um tipo comum, mas a lontra, tendo que viver n’água, sofre as alterações que a outra não possui – dedos palmados, cauda achatada, disposições circulatórias e respiratórias que lhe permitem ficar em baixo d’água. A girafa tem o pescoço comprido, pela necessidade de apanhar os vegetais nas árvores altas. Os animais que vivem em cavernas e profundidades acham-se inteiramente adaptados ao meio. No chamado fenômeno de mimetismo, o animal, por se defender, toma um aspecto exterior que o confunde com o ambiente, com as plantas, com as pedras, com outros animais, principalmente os temíveis, obrigando os seus perigosos inimigos a se conservarem a distância: Uma espécie de camuflagem da natureza, dando-lhes idéia de uma entidade supervisionadora.
Já se produz a variação das espécies em nossos dias, por meio de seleção artificial, enxerto nos vegetais, domesticidade nos animais e processos de várias ordens. Os chineses, por exemplo, com certos artifícios, transformaram alguns peixes, conseguindo nos descendentes esquisitas formas, muito diferentes das primitivas. Existem várias espécies de pombos; todos derivam, porém, de uma forma única, o pombo bravo, a Columbia Livia. Paremos nestes exemplos.
Embriologia – Já vimos, é o estudo do embrião. A evolução de milhares de séculos renova-se no embrião, a nossos olhos. Nele, a semelhança de forma é idêntica nas primeiras fases do desenvolvimento, e por ele se vêem os diversos aspectos do ser no seu progresso evolutivo. Assim, o embrião do homem, do quadrúpede, da ave, do batráquio, do réptil, do peixe, dos vertebrados, enfim, têm semelhança perfeita, o que prova uma origem comum. Os animais revestem, ainda, no seu desenvolvimento, formas sucessivas diferentes, que se parecem com as espécies adultas superiores: a rã, por exemplo, é a princípio um verdadeiro peixe. Os equiciodermas, como o ouriço, a estrela-do-mar, são diferentes na forma, mas as larvas, de começo, são idênticas. O mesmo se dá com os moluscos. As formas larvares dos insetos lembram os tipos inferiores. O embrião dos mamíferos, inclusive o do homem, possui sucessivamente a estrutura dos vertebrados inferiores, passando sucessivamente pela do peixe, do réptil, do batráquio, da ave, para chegar à do mamífero. No desenvolvimento do feto vê-se que ele, a princípio, tem a forma de peixe, depois a de réptil, depois a do batráquio, e assim por diante. O ser revela, pois, as diversas formas por que passou a espécie até o seu estado presente.
Paleontologia – É o estudo dos fósseis e fóssil é o corpo, animal ou vegetal, que se encontrou no seio da flora e da fauna, e por eles se verifica que as espécies se sucedem, sendo as antigas inferiores às modernas. Provam o transformismo. Vê-se, pois, uma vez ainda, que as formas vivas se sucederam em ordem progressiva, partindo das simples até chegarem às mais complexas, havendo entre elas as formas de transição, que nunca se descobririam, se não fora a revelação das profundas camadas geológicas. A profundidade dessas camadas constitui a ordem dos grandes períodos geológicos, em número de quatro, com suas respectivas divisões. O primário, que deve ter uma espessura de vinte mil metros, teria uma duração de cinqüenta e dois milhões de anos. Foi na segunda época desse primeiro período, no chamado terreno cambriano, que surgiram os primeiros vestígios de vida, as algas e os criptógamos, como os fetos, os cogumelos, o musgo, todos vegetais de ordem inferior.
No siluriano, ou terceira época, a flora e a fauna se apresentam com maior elevação; vêem-se os polipeiros, os moluscos e já alguns cefalópodes, com tentáculos como o polvo, e alguns seres que deviam ser os antepassados dos invertebrados. No devoniano, ou quarta época, já aparecem os peixes, apenas cartilaginosos, antepassados dos batráquios. Na última camada, o terreno permo-carbonífero, aparecem os insetos, as aranhas, os miriápodes, os primeiros batráquios, os primeiros répteis. No reino vegetal, as grandes florestas que, soterradas, formaram as jazidas carboníferas. Vai-se assim do protozoário aos primeiros invertebrados. Esse longo período foi de uns cinqüenta milhões de anos. O período secundário anda por uns trinta e cinco milhões de anos. Desapareceram as árvores gigantescas no terreno triásico e há a preponderância do réptil. O jurássico surpreende com os animais antediluvianos, gigantes da fauna, como o ictiossauro, o plesiossauro e o labirintodonte, espécie de crocodilo; o megalossauro, o iguanodonte,
répteis terrestres; o atlantossáurio, com uns quarenta metros de comprimento; o pterodáctilo, réptil voador; as tartarugas; o arqueoptérix, antepassado do pássaro, porque era um tipo entre o pássaro e o réptil. Dão entrada no cenário da natureza os primeiros mamíferos – monotremos e masurpiais – e os insetos. O período terciário, de uns quatorze milhões de anos, é a época dos mamíferos. Surgem os paquidermes, o antepassado do cavalo, que possuía cinco dedos, os lemurianos, antepassados do macaco; o dinotério, o maior dos mamíferos; os primeiros ruminantes; a preguiça, o tatu, o tamanduá. E o macaco antropomorfo, o nosso longínquo avô. No plioceno, as formas já se aproximam das atuais; nota-se o tipo de transição entre o mastodonte e o atual elefante, e o tipo de transição entre o macaco e o homem, ou seja o Pithecantropus erectus, isto é, o macaco que já caminhava como o homem. O período quaternário, o nosso, de uns cem mil anos, é o do aparecimento do homem.
Na primeira época deste período houve várias espécies, hoje desaparecidas, como o mamute, o megatério e outras. Ainda aqui a mesma caminhada evolutiva, através das diversas épocas, tendendo sempre a demonstrar a ordem de sucessão progressiva. Notamos, pois, que o velho antepassado, o labirintodonte, reúne os caracteres dos peixes, batráquios e répteis. Devia ter sido o avô deles. Os répteis marinhos do período secundário parecem peixes e têm suas características. Há répteis fósseis com a conformação dos mamíferos. Foram encontradas muitas formas de transição entre os pássaros e os répteis, entre os mamíferos inferiores e os superiores, verificando-se, assim, a passagem de uns para os outros ramos. Chegamos ao homem. O mais velho macaco é o lêmure, que se vai aproximando lentamente do macaco atual. Chega-se ao verdadeiro símio, o platirrino, e depois ao catarríneo. Do catarríneo descende o macaco antropóide, dividido em dois ramos, um deles, o ancestral desaparecido, o antropopiteco. Foi desse antropopiteco, o erectus, que surgiria o homem. Os outros continuaram macacos. Tal é a documentação paleontológica.
Levando a sonda à maior profundidade possível, ou seja, ao mais remoto passado, o que o naturalista descobre é uma espécie de geléia ou coalhos de massa viva, homogêneos, que são as atuais moneras. A reprodução se faz por cissiparidade. Na classe dos vertebrados, vemos, pelos fósseis, que a evolução começa no peixe inferior. A mesma gradação se nota na escala embriológica. Quando falta um nó, vamos encontrá-lo na escala paleontológica e na embrionária. O nó, que seria o intermediário, desapareceu da série dos indivíduos que conhecemos, mas se encontra assinalado no embrião e demonstrado no fóssil. Em suma, as provas do transformismo nos são apresentadas pela forma externa, pela Anatomia Comparada, pela Embriologia, pela Paleontologia. Muitas espécies se conservaram e outras desapareceram na luta pela vida, dada a lei de seleção.
E se vemos algumas antigas ao lado das modernas, é que a evolução não se fez numa linha reta única ascendente, mas por diversas ramificações, tal como uma árvore, onde há o tronco e daí os galhos, os ramos, os pedículos, as flores e os frutos. Foi através dos tempos, numa elaboração lenta mas contínua, que surgiram todas as espécies como hoje as conhecemos. Tiraremos no próximo estudo as ilações filosóficas que o presente capítulo oferece.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.