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Capítulo 54 de 65

Nas Sessões de Victor Hugo

A Evolução · Carlos Imbassahy

Não menos embaraçosos para os céticos, nem menos interessantes para os estudiosos, são os casos das mesas falantes nas sessões de Victor Hugo. Victor Hugo, o grande gênio da literatura, fora desterrado por Napoleão III para a ilha de Jersey. Aí recebera a visita da Sra. De Girardin, dama da alta sociedade francesa, em cuja casa se reuniam os grandes vultos da Arte, da Ciência e das Letras da época. A ilustre trouxe à ilha a grande novidade: - Os mortos falavam! Paris inteiro estava cheia do ruído das “mesas girantes”. E diante da incredulidade geral, propôs-se mostrar que era fácil conversar com os defuntos. Ouçamos a descrição, um tanto humorística, que das primeiras sessões faz Auguste Vacquerie, da Academia Francesa;

Logo à sua chegada, mal acabou de jantar, e sem esperar a sobremesa, arrastou um dos convivas ao parloir, onde atormentaram uma mesa, que ficou muda. Disse ela que a forma quadrada contrariava o fluido. No dia seguinte comprou uma com pé de galo, redonda, e que não se animou mais que a outra. Ela não desanimou, declarando que os Espíritos não eram cavalos de carro, à espera do passageiro. Ao outro dia, nova experiência e o mesmo silêncio. Ela obstinou-se e a mesa emperrou. “Elle s’obstina, la table s’entêta”. Tal era o seu ardor de propaganda que um dia fez interrogar um “guédiron”, diante dos jersienses, e ele provou a sua inteligência não respondendo.

Enfim, sucediam-se as decepções, quando na véspera de sua partida, consentiram em mais uma experiência, e a mesa entrou a dar sinais de vida. A Sra. de Girardin voltou ao Continente, mas deixou ao grande vate a certeza de que os falecidos continuavam vivos. As provas obtidas por Vacquerie deslumbraram-no. É o ironista dos primeiros dias quem relata:

A partida da Sra. De Girardin não esmoreceu o meu entusiasmo. E agora me precipitava para essa grande curiosidade de morte entreaberta. Só me interrompia para jantar. Pessoalmente, nenhuma ação tinha sobre a mesa, mas a interrogava. Eu conversava corretamente com ela. O ruído do mar misturava-se aos nossos diálogos, e o mistério era envolvido pela noite, pelo inverno, pela tempestade, pelo isolamento. A mesa era, algumas vezes, espirituosa e mesmo cômica, outras grave e magistral. Todas as suas conversas foram registradas, não ao sair da sessão, mas imediatamente. Elas serão publicadas um dia e levarão um problema imperioso a todas as inteligências, ávidas de verdades novas. (223)

E foram publicadas. Entre os ditados da mesa, poderemos citar os versos dados em resposta ao estro maravilhoso de Hugo. Até então o grande romancista não encontrara um êmulo na poesia francesa. Pois a do invisível estava à altura do Mestre e por vezes o superava! Era espantoso que houvesse no Espaço quem pudesse ombrear com o autor da Legenda dos Séculos. Vejamos alguns exemplos, quase de relâmpago, já porque seria impossível trazer para aqui as longas estrofes em língua francesa, já porque os acanhados lindes de uma página não permitem maiores estudos. ______________ (223) Auguste Vacquerie – Les Miettes de l’histoire.

Victor Hugo dirige-se a Moliére em versos admiráveis, que somos obrigados a reproduzir em nossa tradução prosaica e insulsa:

Astro que esplendes no horizonte duplo; poeta no Louvre, arcanjo no Céu, ó grande Moliére, tua visita honra a minha casa. Estender-me-ás a tua mão hospitaleira? Que se abra o fosso por entre a relva. Encaro sem medo o túmulo das sombras eternas, porque eu sei que o corpo é uma prisão, mas a alma aí encontra as asas.

Em vez de Moliére, aparece a “Sombra do Sepulcro” (L’Ombre du Sepulcre), que ditou a seguinte resposta:

Esprit qui veux savoir le secret des tenèbres, Et qui, tenant en main le terrestre flambeau, Viens, furtif, à tatons, dans nos ombres funèbres, Crocheter l’immense tombeau”

Rentre dans tons silence, et souffle tes chandelles; Rentre dans cette nuit don’t quelquesfois tu sors, L’oeil vivant ne lit pas les choses éternelles Par-dessus l’épaule des morts.

(Espírito que procuras desvendar o segredo das trevas, e que tendo nas mãos o archote terrestre, vens, furtivo, tatear em nossas fúnebres sombras, forçar o túmulo imenso! Volta ao teu silêncio e sopra as tuas lanternas; entra nessa noite de que sais algumas vezes; o olhar vivo não perscruta as coisas eternas por cima do ombro dos mortos).

Acostumado à admiração universal, esta resposta desconcertante e irônica, depois de sua invocação delicada e encomiástica, pareceu magoar o poeta, embora rendido à beleza do estro e à sutileza do Invisível. Compreende-se, entretanto, a intenção do Espírito. Ele quis evitar, com a sua inesperada réplica, as explicações que haviam de surgir, baseadas na telepatia ou no subconsciente do Poeta. Já é difícil telepatizar um móvel, e muito mais extrair de um subconsciente o que já não existe, transformar aquilo em estrofes e passar tudo para certa mesa, que vai transcrevendo o ditado como hábil amanuense. É de espantar, mesmo, um consciente ver-se contrariado, contraditado, chasqueado por um subconsciente indisciplinado. As hipóteses explicativas encontraram mais difíceis escolhos na manifestação de lord Byron. Invocado, respondeu:

Vex not the bard, his lyre is broken. His last song sung, his last word spoken. (Não moleste o bardo, sua lira está quebrada; cantada a sua última canção, dita a sua última palavra).

Estes versos, magníficos aos conhecedores do idioma inglês, foram trazidos à mesa, sem que nenhum dos seus componentes conhecesse inglês. Por que canais o inglês passaria para a tábua ninguém sabe.

As longas tertúlias que o afamado estilista francês teve com os seus colegas do Espaço vêm descritas no livro de um materialista, Jules Bois. (224) Elas convenceram o imortal Victor Hugo, que, na obra Shakespeare, diz o seguinte:

As mesas girantes ou falantes têm sido ridicularizadas. Mas, falemos claro, a zombaria é sem alcance. Substituir o exame pelo motejo é cômodo mas pouco científico. A Ciência não tem o direito de sonhar. Um sábio que ri do possível está nas proximidades da idiotice. O inesperado deve ser esperado sempre pela Ciência.

Assim falava o gigante das letras. Não faltará, porém, por aí, quem se ria de tudo isso, do gigante inclusive, impingindo-nos umas teorias, estas sim, capazes de fazer estourar de cócegas qualquer obelisco. Percorrendo no espaço e no tempo a série interminável dos fenômenos paranormais, chegamos à nossa época e destarte apresentamos os casos de nossos dias, os casos de ontem. Essa produção constante do fato psíquico é de molde a reavivar-nos a memória.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.