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Capítulo 17 de 65

O Já Visto

A Evolução · Carlos Imbassahy

O já visto, o já ouvido, o já sentido, é um fenômeno que se diria aparentado com o das lembranças de outra vida por parte de crianças. Este se dá em regra com os mais velhos. Consiste em experimentar uma pessoa a sensação de já ter visto aquilo que aparecem à vista pela primeira vez, ou ouve o que diria já ter ouvido, o sente o que lhe parecia já ter sentido. É, em suma, a persuasão de que se vê uma cena anteriormente percebida, quando nada nos diz que a cena tivesse acontecido ou existido. O fenômeno, apesar das explicações mais ou menos forçadas que lhe dão, é mais um depoimento a favor da nossa tese. Vejamos: O padre Pierre-Jules Bertheley, antigo vigário de Santo Eutrópio, escreveu a Flammarion narrando diversos casos congêneres. Por várias vezes, diz o missivista, teve a idéia perfeita de haver visto lugares por onde nunca passara, chegando a orientar-se por caminhos que lhe eram inteiramente desconhecidos.

A revista inglesa Light, de 1916, página 374, narra o seguinte caso: Um artista romeno, muito conhecido, residia em Londres e era membro da delegação de seu país. Alistou-se num Regimento de Cavalaria. Certo dia, em manobras no condado de Berkshire, ao lado do Capitão, teve que escalar uma íngreme colina, cujo aspecto lhe era familiar, e o revelou ao capitão. - Conhece a região? - Perguntou-lhe este. - Não, respondeu o artista, nunca vim aqui, mas, não sei porquê, me parece que já vi esta colina e o que atrás dela se esconde. Há uma pequena montanha coroada por um bosque. Desce-se em seguida e chega-se a um terreno nivelado. - É exato – Respondeu-lhe o capitão - Sem compreender como o amigo poderia ter adivinhado. 

Conta Flammarion que conheceu o afamado calculista Jacques Inaudi quando este tinha apenas 13 anos de idade. A sua espantosa faculdade de fazer os mais complicados e extensos cálculos, imediatamente, espantava já o grande astrônomo, tanto mais quanto Inaudi não conhecia os números, não sabia ler nem escrever. A sua habilidade parecia absolutamente inexplicável, e o sábio encontrava para ela uma razão, que era o resultado de conhecimentos em vidas anteriores. Assim, perguntou-lhe uma vez, à queima-roupa: - Já notou uma reminiscência qualquer, uma lembrança esquecida e reaparecida?

E ele contou o seguinte: Em 1883, fui a Lons-le-Saulnier, no Jura, pela primeira vez. Tinha então uns quinze anos. Chegando a determinado lugar, disse imediatamente: - Mas eu conheço este lugar, eu já o vi.- Olhei atentamente para umas três ou quatro casas que me pareceram quase familiares, e afirmei: - Há ali, mais adiante, à direita, uma casa com uma escadinha de seis a sete degraus. Procurei-a e achei-a. Fiquei tão impressionado com esse fenômeno que, à tarde, dando a minha sessão, tinha o espírito agitado, e os meus cálculos não tiveram a precisão de costume. A propósito, refere Flammarion o que lhe contara o Sr. Hutt, redator do New York Herald: Por ocasião da abertura do canal de Suez, servia como marinheiro, num navio de Gordon Bennett. Saindo de Suez, ele notou, à margem do Nilo, aspectos que o impressionaram, como se já os tivesse visto, e de tal modo, que adivinhava os que iam aparecer. A reminiscência era completa em todos os pormenores; o mesmo sucedeu no dia seguinte. Lembrou-se, ainda, do sítio em que estava a sua sepultura e a achou.

Em certo momento, procurou uma paisagem que não encontrava; informou-se, e soube que as antigas árvores não mais existiam. M. Hutt, declarara o astrônomo, é um homem positivo. E acrescenta: Eis aí duas observações pessoais, muito preciosas que, segundo creio, não se podem explicar senão pelos conhecimentos fortuitos de vidas anteriores. Lembra, ainda, o caso do Padre Garnier, já citado em La Mort et son Mystère. Esse cônego viajava pela Itália; ora, sucedeu que três anos antes vira, em sonho, pitorescos episódios dessa viagem com detalhes originalíssimos e singulares. Pessoalmente - é ainda ou ex-Diretor do conservatório de Juvisy, quem diz - poderia assinalar um curioso fato, cuja origem não me foi dado descobrir e que se me apresentava várias vezes em sonho. E Camilo Flammarion refere:

Vejo-me, em situação bastante desagradável, conduzido ao suplício, entre homens armados do XV ou XVI séculos. Caminho muito tempo por uma velha rua da idade média, sabendo que estou condenado à morte. Meu sonho termina antes do momento fatal. Um dia, numa sessão de espiritismo, asseguram-me que, em existência anterior, eu tinha sido Don Alonzo de Ercilla, poeta espanhol, autor de l’Araucana. Tive a curiosidade de ler-lhe a biografia e vi que ele fora condenado à morte em conseqüência de uma rixa, e depois perdoado. Nascera em Madri em 1533. (12)

Nota-se no episódio, primeiro o sonho, sem justificativa de qualquer espécie; depois a sessão espírita que o esclarece; finalmente a pesquisa do astrônomo em referência à biografia do autor de Araucana, que tudo confirma. E é testemunha pessoal Camilo Flammarion.

É muito mais claro supor que aquele momento trágico da vida de Ercilla ficasse, mais que quaisquer outros, profundamente gravado no espírito do poeta. Este sulco na alma, tornado indelével, mesmo através da opacidade da matéria, é que surge nos momentos de liberdade do sonho, lembrando a passagem tenebrosa.

E a essa explicação fácil e clara, opõem-nos uma série de hipóteses, obscuras e inaplicáveis, onde sobressai a da célebre memória ancestral, memória que não sabemos como seria aqui encaixada, fora das reminiscências do próprio Espírito, em vida anterior, nem como poderia ser ela justificada como produto material.

Vejamos, agora, um caso onde mais perfeita se nos apresenta a idéia da volta do Espírito, a exemplo do conhecido episódio relatado por Flournoy, de que era médium a célebre sensitiva Helena Smith. Ele é um tanto longo e somos forçados a resumi-lo de muito. Consta do Journal of S. P. R., vol. XIII. É endossado por diversos membros da Sociedade, e por ele se responsabiliza a senhora Spapleton, figura importante na referida Sociedade. Uma distinta senhora conta que aos seis anos de idade vira sua mãe com os trajes do século XVIII, isto sem conhecer nenhuma gravura ou retrato dessa época. A história de Maria Antonieta comovia-a a lágrimas, e ela sentia pela malograda rainha inexplicável afeição, com uma espécie de indefinível saudade. Certa vez, em casa de amigos, entrando num quarto, viu Maria Antonieta, em pé, junto a uma pequena mesa. Não era a mesma; parecia espantada, agonizante, com os olhos sem brilho, fixando-a estranhamente. Sua cabeleira, esbranquiçada, tinha um simples nó sobre a cabeça.

Um ano após, indo a Paris, visitou o museu Grévin; recebeu um choque, percebendo a rainha numa figura de cera; era a reprodução exata de sua visão, em casa dos amigos, com exceção dos traços de agonia. As visões com Maria Antonieta tornavam-se constantes, e ela deixava de revelá-las para evitar as risadas e jocosidades que seus relatos provocavam. O mais interessante é que nessas ocasiões se via como homem. Passeando por lugares onde nunca estivera, Saint Cloud, Marly, Versalhes, tinha a sensação de que já vira todas aquelas paisagens. Ao visitar o palácio de Versalhes, com uma criada, indicou previamente vários lugares e como era. Em caminho pelo parque, enchia-se de recordações, que não sabia precisar. Voltando lá, no dia seguinte, com alguns amigos, foi designando as diferentes alas dos apartamentos outrora habitados pela família real; entrou por diversos compartimentos, atravessou corredores, abriu e fechou portas e, com absoluta segurança, como se fosse íntima de palácio. Chegou, afinal, com espanto de todos, aos aposentos reais, sem que pudesse explicar como os conhecia.

Eu creio – dizia - que se me deixassem aqui com os olhos vendados, poderia reconstituir sua disposição exata, com o mobiliário antigo. O Trianon ainda lhe era mais conhecido. Traçara um monograma de Maria Antonieta, que era o fax-símile do que se encontrava nas escadarias do Trianon. Do castelo de Marly, de que só existiam ruínas, fez dela uma descrição perfeita. Em Paris, não podia passar na Rua Saint Honoré sem estremecer e nada a faria atravessar a Praça Concórdia em determinado ponto. Uma noite experimentou horrível pesadelo: ouvia os urros selvagens da população, e espiando pela janela viu Maria Antonieta passar na carreta; momentos depois achava-se em meio à multidão, lutando por abrir passagem, e a gritar: - Deixem-me aproximar-me da rainha. Depois, ia ela mesma, a vidente, para o cadafalso, e batia freneticamente nas pernas do carrasco para impedi-lo de cumprir sua sinistra tarefa.

Aqui acaba o relato. Quem conhece os episódios da trágica Revolução Francesa percebe a exatidão das visões. Quem sabe dos dolorosos trâmites por que passou a desventura rainha, mormente no seu trajeto para a guilhotina, compreenderá os desesperos da vidente, como a recordação de uma testemunha da época, a testemunha que era ela, então um cavalheiro, e co-participante do drama, já como amigo da rainha, já como familiar da Côrte, já finalmente por ter ido também ao instrumento da morte, íntimo que era da família real, e mais ainda, por sua manifestação de piedade junto a carreta fatídica. Naquela época, justamente denominada do Terror, os gestos de bondade para um condenado eram um convite seguro para a morte.

Mais um caso, que lamentamos não poder transcrever por extenso. Laura Raynaud, desde criança, contrariando as tradições da família, recusava-se ir à Igreja, e afirmava que o espírito volta à terra em outro corpo. Nunca tais idéias lhe foram ensinadas ou sugeridas. Lembrava-se de já ter vivido e descrevia a casa em que morara, ampla, confortável, com terraço, grandes janelas... Descrevia, ainda, a vida que aí vivera. Via-se jovem, doente do peito, errando num parque. A morte a surpreendera por volta dos vinte e cinco anos. Chamara-se Jeanne. Fora enterrada numa igreja. Depois reencarnou numa aldeia de Aumont, no Somma. Em 1913, Durville convida-a a ir à Itália. Chegam a Turim. Ela tem a impressão de que a região não lhe era desconhecida; já vira aquelas paisagens... Nunca porém fora à Itália nem lera nada a respeito desse país. Chegam a Gênova. Já as impressões se tornaram mais fortes: vivera ali; era agora a certeza. Saíram a passeio, em busca da antiga morada. Em breve a perceberem; lá estava ela com todas as indicações anteriormente fornecidas. Dúvida nenhuma. Pertencera à família S., muito conhecida.

Lá morrera Jeanne. Na igreja de São Francisco d’Albaro descobrem um registro de óbito que responde exatamente as indicações fornecidas pela senhora Raynaud. Finalmente, a senhora D’Elphes, sonâmbula, completa o rol de provas que o Sr. Durville já possuía. A vidente disse tudo o que se achava numa ata que ele tinha em mãos e que ainda não havia aberto. Pois lhe acabava de chegar pelo correio. Referia-se a ata a informes que mandara buscar na Itália. E a vidente foi declarando o nome da falecida, Jeanne, o lugar onde foi enterrada, com o nome da família e alguns pormenores. Mais tarde, em presença da Sra. Raynaud, declara: - “Jeanne está reencarnada.” Continua a prestar informes que espantam os circunstantes. Finalmente, apontando para a Sra. Raynaud: - Ali está Jeanne. Hão de concordar que há aqui uma série de coincidências e concordâncias que não são para desprezar. Difícil seria invocar a memória ancestral. Não sabemos se tenha observado que uma lembrança fosse transmitida de um ascendente a um descendente. Passemos adiante.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.