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Capítulo 53 de 65

Voz Salvadora

A Evolução · Carlos Imbassahy

Dizíamos que o morto se manifesta com sua personalidade integral. Ponhamos exemplos: A seguinte carta foi dirigida de Civita Vecchia, conhecido Oficial da Marinha Mercante ao Diretor de Filosofia della Scienza:

Todos os meus antepassados foram homens do mar. Meu pai, sucedendo ao seu progenitor, tomou o comando do brigue Notre-Dame de Grace, em Marselha. Foi em 1837. Ele partiu para Brindisi com um carregamento de cereais. A navegação era então muito difícil, de uma parte por causa dos piratas, e da outra porque as costas não tinham faróis. Aproximamo-nos de Brindisi em uma noite negra e tempestuosa. Meu pai achava-se à proa do navio esforçando-se por descobrir uma vaga luz que lhe indicasse o porto. O vento soprava impetuosamente, as ondas, com um ruído infernal, sacudiam o navio, cobrindo-o de espuma e flagelando-lhe os bordos; os ruídos do trovão sucediam-se à luz dos relâmpagos. Aumentava sem cessar a intensidade da tempestade e o momento se tornava crítico. De repente, ouve-se uma voz que grita: - Capitão, venha depressa. Não sabendo o que acontecia, meu pai precipitou-se para a popa, onde a voz continuava a chamar. - Que é? – Perguntou ele ao timoreiro que, aturdido e trêmulo, balbuciou: - Não ouviu? Não ouviu a voz que há alguns minutos repete puggia, puggia!

(Essa palavra significa: Leve a direção ao lado oposto ao vento). - A voz? Que voz? É a chuva que te faz ouvir vozes imaginárias ou o sibilar do vento que te engana. Eu não ouço nada. Não havia terminado, quando uma voz que vinha da casa do leme, repetiu em tom de comando: - Puggia, puggia. Estupefato, não acreditando em seus ouvidos, meu pai aproximou-se do lugar donde parecia provir o grito, voltou-se, observou todos os recantos, e nada descobrindo, julgou-se vítima de uma alucinação sensorial. Disse então ao timoneiro: - Não há ninguém. Toda a equipagem está na proa. A voz, então, mais clara, mais vibrante, repetiu a ordem. Pôde meu pai, então, não só ouvir distintamente, senão ainda reconhecer o timbre, a cadência, a voz de seu pai, que tanto lhe era familiar, pois navegara com ele desde a idade de nove anos.

Fascinado, levado por incompreensível e irresistível força, transmitiu a ordem recebida e tomando a cana do leme, executou ele mesmo a manobra, enquanto a equipagem afrouxava as escotas e as vergas do lado oposto ao vento. O brigue, com o vento mais em cheio, pende para a direita, corta as ondas em fúria, e avança rapidamente, como um cavalo a quem soltaram as rédeas. Quase ao mesmo tempo, um clarão ilumina o local onde soprava o vento, isto é, de bombordo, para onde antes o navio se dirigia. Sob o rápido clarão, apresenta-se aos olhos espantados da equipagem a branca espuma das vagas, que se lançavam, raivosas, de encontro aos rochedos da costa. Uns minutos mais de curso na rota primitiva e tudo estaria terminado para o navio e para a equipagem. F. Scotti, Capitão de Marinha”. (222)

Aqui temos o falecido marinheiro, manifestando-se com a sua voz, o seu timbre, o seu cuidado paterno, os seus conhecimentos de velho homem do mar. ________________ (222) Filosofia della Scienza, Palermo, 1911. – Annales des Sciences Psychique. 1911. Pág. 126.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.