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Capítulo 12 de 65

A Evolução Espiritual

A Evolução · Carlos Imbassahy

Tratamos do progresso das espécies, isto é, da evolução material. Vamos verificar que essa evolução é idêntica em relação ao Espírito.

Não seria absurdo para a filosofia dos Espíritos – diz Ortiz – supor em nosso planeta duas escalas paralelas evolucionistas, ambas perfeita e constantemente entrosadas, através de seculares e milenárias genealogias das espécies e de suas transformações evolutivas. (7)

Geley dizia:

Tudo evolve: os indivíduos, as espécies, as sociedades, as nações, os mundos, os universos. Uns e outros nascem, desenvolvem-se, progridem e morrem, para dar lugar a indivíduos, a espécies, a sociedades, a nações, a mundos, a universos mais aperfeiçoados. Não existe o repouso. Ele seria o nada: por toda a parte e sempre o progresso evolutivo.

O espírito não poderia escapar à lei e não escapou.

Singular coincidência – diz ainda Geley – Transformismo e Espiritismo apareceram na mesma época. Doutrinas contraditórias em aparência, a primeira foi admitida com entusiasmo pelos materialistas, crendo apoiar suas idéias nessa base científica; a segunda era acolhida como vaga esperança no meio espiritualista, que sentia desmoronar as velhas crenças. Ambas chegam hoje a uma conciliação inesperada, às expensas do materialismo negativista e do espiritualismo religioso. (8)

As idéias infantis da criação do mundo e dos seres, donde surgiu o primeiro casal, já pronto e acabado, são substituídas pelo da luta imensa processada através dos milênios. Se as ciências naturais foram buscar a matéria nos seres simples e unicelulares, o espiritualista vai descobrir o princípio anímico nos reinos atrasados, onde esse princípio acompanha as formas vivas na sua marcha ascendente; vê que esse espírito se vai desenvolvendo, como tudo na natureza, até entrar na espécie humana, coberto ainda das impurezas animais, haja vista que o animal é o seu próximo berço; mas daquelas impurezas se irá despojando lenta, seguramente, no longo trajeto das vidas sucessivas. Fácil é compreender a obra de Deus nessa intérmina peregrinação, onde a criatura aprende à proporção que se eleva e se torna feliz à proporção que aprende. Aprofundando-nos no conhecimento da alma humana, descobriremos que ela tem erros inatos, imperfeições raciais. O meio em que vive não lhe permite aperfeiçoamento notável.

Outras existem, por tal forma endurecidas, que não lhes é possível adquirir de um jato os benefícios do conhecimento ou as luzes da moral. Não os entenderiam. Veja-se um aluno estúpido: por mais que o mestre se esforce, não poderá transmitir-lhe o que sabe. Antigamente faziam que as lições lhe penetrassem, não pela cabeça, mas pelas mãos. Entrava em cena a palmatória. Hoje os processos são mais humanos. _____________

(7) Fernando Ortiz – La Filosofia Penal de los Espiritistas, Buenos Aires, pág. 17. (8) Gustave Geley – Essai de Revue Générale, Paris, 1925, pág. 65.

Já não se pede ao Espírito o que ele não pode dar. Já se compreende o período evolutivo em que ele se encontra. Os próprios defensores da Bíblia e outros livros sagrados já perceberam a posição ridícula em que tais livros se vêem em face da Ciência. E resolveram contornar o problema de forma a não se desmoralizarem a si e ao livro. Procuraram manter-se diante dos ensinos modernos, descobrindo chaves, símbolos, emblemas, soluções, imagens, por trás dos quais se acham os versículos inaceitáveis. Já é um grande passo mostrar às mentes menos cultas que muitos dos textos de tais livros é mera tolice, embora sob um disfarce qualquer. O desiderato do verdadeiro pensador não é desbancar ou desmoralizar tal ou qual livro tido por sagrado, senão destruir a tolice, senão mostrar que aquilo não está certo. Se os apaixonados pelos livros concordam que se trata, mesmo, de tolices ou puerilidades, ao estudioso não importam os meios de defesa de que lançam mão para salvar do naufrágio as obras de sua fé. Saint-Yves d´Alveydre, no seu livro Missão dos Judeus, diz-nos, tratando da gênese:

É evidente que, se em lugar de ver em nossos primeiros pais terrestres, canibais vizinhos do macaco, faz-se surgir a humanidade corporal de um único par, dotado por milagre de todas as perfeições, instalado há seis mil anos num el-dorado situado no Oriente, ao lado do Tigre e do Eufrates, todos os ramos da carne dessa singular árvore humana deverão provir de uma única raça asiática.

Mas o autor não concorda com isso e acrescenta:

Repetirei, entretanto, que Adão não quer dizer um homem de carne e osso, mas um Princípio cosmogônico. (9)

Fechemos os olhos aos textos subseqüentes, pelos quais se vê que Adão não quer dizer outra coisa senão um homem. O caso, porém, é que Saint-Yves vê o homem primitivo, como aquele selvagem, vizinho do macaco. De fato, o homem primitivo era aquele ser animalizado, embrutecido, vivendo nas cavernas, guiado quase pelo instinto, sem conhecimentos, nem moral. Se aprofundarmos a visão, a fim de lhe descobrir os antepassados, teremos o Antropopitecus erectus ou o Catarrino, ou o Lêmure, até esbarrar no zoófito ou no criptógamo. Diante disto, a criação do casal seria muito duvidosa e prestarse-ia a gracejos. Alveydre arranja-nos o princípio cosmogônico, substituindo uma dúvida por outra. Para alguns, o símbolo já não é este. As interpretações variam ao sabor das cabeças. Uma questão puramente subjetiva, sem que nos forneçam um meio seguro de convicção. Já Shabaz Britten Best nos Mistérios e Misticismo da Bíblia ensina:

E Deus disse, faremos Adão – a Humanidade em semelhança de nós mesmos.

Nos, quem? Nós indica pluralidade. Mas, se antes de Deus e de Adão não havia mais ninguém? Ao mesmo tempo, porém, nos assegura:

Antes de encerrar-se na forma humana terrestre a Alma já percorreu longa carreira... ______________

(9) Saint-Yves D´Alveydre – Mission des Juifes, I, Paris.

Chama-se a isto “esclarecer os mistérios da Bíblia”. Não é nosso intuito discutir essa intrincada elaboração mental. Vemos os esforços inauditos por manter uma tradição e seria quase descaridade procurar fulminá-los. Mas já uma clareira se abre para os nossos trabalhos. Lançado o alvião na estátua dos nossos bíblicos ancestrais, prepara-se o caminho para jornadas mais sérias. O fato é que encontramos em nossos dias indivíduos que demonstram tratar-se de um primitivo, de um espírito atrasado. O atraso assume diversas gradações; vai do criminoso endurecido, do criminoso nato, ao hipócrita, ao simples batedor de carteira, ao falsificador de firmas, ao falador da vida alheia. Chamaríamos formas evolutivas do atraso. A intensidade do crime diminui na proporção da caminhada. Nota-se que o atraso provém do pouco adiantamento da alma, ou de sua infância, ou de sua fraqueza, de algo que está em sim que vive em si, que surgiu consigo das brumas do passado.

São produtos de instintos, de impulsos, de sugestões, de desejos, de idéias retrógradas, de paixões arraigadas, de fanatismos, e o indivíduo obedece a tudo isso, sem compreender o erro, sem perceber o alcance do mal, tomando muitas vezes por um dever o erro que está praticando. Veja-se o cidadão que pretende lavar a honra, matando quem o injuriou; o que assassina a mulher que manchou o lar; o que não leva a ofensa para a casa... Os medievais que conduziam a herege à fogueira estavam convencidos de que serviam a Deus. Os invasores que exterminam o inimigo servem à Pátria. Há ímpetos selvagens irreprimíveis; há sentimentos de que o indivíduo não tem ou parece não ter a menor culpa; nasceu com ele, faz-lhe parte integrante do caráter. Censurase a pessoa indiferente às desgraças alheias; outras que com elas se regozijam; outras que as praticam. Tudo isto está no sentimento, ou melhor, na falta de sentimento. Ele não tem o sentimento da pena; essa insensibilidade, diria o vulgo, está na massa do sangue. Nasceu assim.

Às vezes ainda se alegra o indivíduo com a desventura do próximo, e se há um propulsor qualquer, traduz os seus maus sentimentos em ação, e comete a falta. Não foi ele, porém, quem instituiu em si as deploráveis paixões. Vieram com ele de longe. Jogar um indivíduo destes no Inferno, quando ele, segundo a nossa velha religião, surgiu assim das mãos do Criador, seria não só o cúmulo do contra-senso, senão da perversidade. Isto é que é preciso destruir; precisamos ter outra idéia da Divindade. Só a evolução nos fará entrar no caminho certo da Psicologia e da Filosofia. É necessário ver no faltoso um ser ainda nas faixas da criação. É mister que tenhamos em vista, para o seu melhoramento, o fator Tempo. A idéia de uma alma criada para um corpo, sofrendo as vicissitudes desse corpo, farnos-ia duvidar da Justiça Divina. Diante da razão e das provas, o que se vê é o corpo criado para a alma. É esta que lhe imprime os defeitos, pelos defeitos que traz em si. Só a doutrina da reencarnação nos poderá dar idéia de Deus, que as demais religiões diminuem, apresentando-o como um ser arbitrário, colérico, vingativo, injusto, imprevidente, ou, na melhor hipótese, indiferente às desditas humanas.

Poderíamos ir colher a centelha espiritual, a exemplo dos seres vivos, nos reinos longínquos da Natureza. Mas a nossa pouca ciência não nos permite ir tão longe. Basta que notemos nas plantas os albores de uma inteligência que desabrocha sob a forma de tropismos: as raízes procuram os veios d’água, os arbustos se voltam para o sol, as folhas usam de artifícios e insídias para apanhar os alimentos, como as plantas carnívoras, cujas folhas, esplendidamente abertas, logo se fecham se nelas vem pousar inseto ou pássaro, e os devoram. No animal, o instinto é mais desenvolvido e são inúmeros os exemplos que as histórias nos fornecem de sua inteligência, a qual chega até ao raciocínio. Vemo-los com os embustes, as artimanhas, as virtudes e vícios, as habilidades que exornam os bípedes. São suscetíveis de vingança e gratidão. Sabe-se daquele elefante que costumava receber guloseimas dos que passavam. Para isso ele estendia a tromba e os visitantes lhe davam as suas ofertas. Um dia, porém, um gaiato, em vez da costumeira dádiva, espetou-o com uma alfinetada.

E lá se foi a rir com os outros companheiros. Quando voltava, descuidado, sentiu que tomava banho de lama. É que o elefante sugara a água de uma poça próxima e o esperara para derramá-la em sua cabeça. Um caso oposto. Outro elefante costumava receber de uma vendedora aquilo que ela trazia em seu tabuleiro. Essa vendedora tinha sempre a filhinha consigo. Certa vez, o paquiderme, tomado de pânico, por um motivo qualquer, saiu em vertiginosa carreira pelo caminho em que se achava a rapariga com o seu pequeno. Esta, apavorada, abandonou o tabuleiro e a criança, e deitou a correr, desatinada. De repente, lembrou-se da filha, que ficara à passagem do animal. Não havia mais tempo de socorrê-la; estava ela quase louca de desespero, quando viu o elefante parar, tirar a criança como todo o cuidado do caminho e sair de novo em grande disparada.

Ora, não podendo aventurar-nos à gigantesca empresa de estudar a evolução espiritual desde o seu início, limitar-nos-emos a lembrar que a vida do homem começa na floresta; a sua linguagem é a mímica e o grunhido; são depois os monossílabos; tem por morada os antros, os buracos, os esconderijos, os galhos; vive apenas para a satisfação de necessidades. A sua existência transcorre numa luta constante contra vários adversários, desde a natureza ao próprio semelhante. Daí em diante é que começa a sua penosa ascensão. O espírito do troglodita é o ser mal-entrado na espécie humana. Não foi o troglodita quem fez o Espírito, foi o Espírito atrasado que tomou a forma do troglodita. O indivíduo é inculto, rústico, bisonho, em virtude da bisonhice, da rusticidade, da incultura do Espírito. O Espírito é o que é o ser. A individualidade está nele. É nele que residem os predicados. Ignorância ou conhecimento, estupidez ou inteligência, vícios ou virtudes, capacidade ou incapacidade, atraso ou adiantamento mental, tudo está no Espírito e vive com o Espírito.

As faculdades psíquicas não se acham no corpo, mas na alma, e a acompanham em sua imensa trajetória, aperfeiçoando-se constantemente, até que o ser possa “tornar-se perfeito como o Pai celestial é perfeito”. Quando toma a vestidura carnal, formando o binômio representado pelo corpo e espírito, ou o trinômio, corpo, espírito e perispírito, ele se apresenta com as qualidades que possui; e se desenvolve de acordo com as necessidades evolutivas, servindo-lhe a matéria, com suas asperezas e suas dores, para o burilamento espiritual. Por vezes, o Espírito sofre as deficiências do corpo e por isso não se torna livre a sua manifestação: é o caso dos idiotas, dos cretinos, do embrutecimento produzido por certas moléstias. São provas impostas para o necessário progresso. É o vaidoso, o arrogante, que resgata nas humilhações planetárias, as faltas cometidas. E por aí além.

Narra a Révue Scientifique et Morale du Spiritisme, o caso de um indivíduo atoleimado ou imbecilizado, conhecido pelo nome de o “maluco Suciac”, o qual vagueava pelas ruas da cidade de Huesca, vestia-se de modo burlesco, falava só, ora corria, ora caminhava solenemente; era um desses tipos de rua que atraem a chacota pública e vivem desprezivelmente. O presidente de um centro conseguiu evocá-lo numa ocasião em que dormia, e mais tarde, quando ele morreu, apareceu espontaneamente e declarou que em encarnação anterior fora o senhor de Sangarren. Poderoso, orgulhoso, importante, tivera uma vida faltosa, que viera carpir na situação miserável em que o conheceram como o idiota Suciac. Acharam a confirmação de que ele dissera nos arquivos existentes no seu antigo castelo. São casos como este que nos fazem ver a razão por que nem sempre podem os Espíritos dar expansão às suas faculdades. (10) A doutrina palingenésica não é uma lucubração individual; não é doutrina surgida de uma cabeça; não se trata, mesmo, de uma escola filosófica, como algumas que conhecemos, embora fruto do estudo, da inteligência e da meditação. É uma doutrina universal, ensinada e propagada pelos Espíritos, documentada pelo tempo, repetida nas mais variadas manifestações, assegurada pelos fatos. Vê-lo-emos.

(10) Revue Scientifique et morale du Spiritisme, 1912, pág. 442. Gabriel Delanne – Documents pour servir à l‘Étude de La Reincarnation, Paris, 1924, pág. 220.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.