[user_registration_my_account]
Capítulo 32 de 65
Fonte e Síntese do Saber
A Evolução · Carlos Imbassahy
Dizia Jules Mary – On ne nie pas l’évidence ou nier ainsi c’est avouer qu’on craint quelque chose. Não se nega a evidência ou negá-la desta forma é temer alguma coisa. A frase se aplica maravilhosamente ao caso bíblico. Se não, ouçamos esta:
A Bíblia encerra toda a Ciência, toda a Filosofia e toda a Religião das antigas civilizações; a Ciência do Egito, da Índia, da Etiópia; a Filosofia ensinada nas escolas dos Profetas; a Religião do Deus único. Para lê-la é preciso conhecer a cabala hebraica.
Dissemos que os defensores do livro sagrado, nos lances inaceitáveis ou indefensáveis, apelam para a Cabala, e que um Mestre, não nos apontando a chave nem demonstrando seu acerto, mas dando a versão que lhe parece, parodiava Luís XIV quando dizia - o Estado sou eu. Neste caso a chave era ele. Agora, a sua réplica:
Vejam os homens de bem a sinceridade, a lisura do Sr. Carlos Imbassahy. Cego pela paixão partidária, não vacila em mentir, ferindo ainda por cima com seu sarcasmo a vítima de sua mentira.
Vejamos um exemplo do que seja a interpretação pessoal e a justificação do “a chave sou eu”. Ensinava o Professor:
Quando a Gênese diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, se refere apenas à criação espiritual. Aquele homem é apenas o Espírito Humano, a Consciência moral.
Como é que sabe isto? Onde se encontra na bíblia essa definição de homem? O que se entende por “Homem”, é o ser informado de corpo e espírito, e, segundo os léxicos, “O animal racional, bípede e mamífero”. O que diz, portanto, o exegeta, sem que possua como o Sumo Pontífice o privilégio da inspiração trazida pelo Espírito Santo, sem que lhe caiba modificar os dicionários ou acrescentar na Bíblia, não passa de opinião pessoal. E assim temos porque dizíamos que a chave era ele. Mais adiante declara que somos ignorantes em interpretação bíblica, como se essa interpretação tivesse alguma solidez, como se não andasse ela ao sabor das doutrinas, das hipóteses ou do fanatismo de cada crente. E mais:
Moisés eliminou do templo as figuras simbólicas... Mas não poderia deixar de empregar linguagem simbólica; procurou então na significação dos números e na semântica das letras hebraicas uma linguagem capaz de guardar sem alterações os segredos da Ciência, os problemas da Filosofia, os mistérios da Religião. Somente quem conhece a chave usada por Moisés pode conhecer a Bíblia.
E acha que não poderia ser mais claro. Já vimos como andou acertado o Criador dificultando o conhecimento de sua moral e da sua Ciência. Sabemos agora que só o entende quem for capaz de abarcar toda a Ciência, toda Religião, toda a Filosofia das antigas civilizações, através dos seus símbolos. Parecia que em qualquer disciplina, mormente quando dirigida ao povo, a linguagem deve estar ao alcance de todos. Pois Moisés fabricava a sua e a tornava impenetrável. Para se lhe ir ao âmago fez-se mister achar-se um dia uma pessoa com a Ciência do Egito, da Índia, da Etiópia, a Filosofia das antigas civilizações... Moisés para guardar os segredos da Ciência lançou os maiores erros sobre Astronomia, Geografia, Geologia, História... Para conservar em custódia os arcanos da Filosofia dá-nos um Deus colérico, vingativo, antropomorfo, inconsciente do que faz, imprevidente, impulsivo, vaidoso... Para ocultar os mistérios da religião apresenta-se, sob as ordens de Deus, a arrasar cidades, trucidar prisioneiros, saquear, incendiar, distribui donzelas pela soldadesca...
Querer maior clareza, está-se a ver é mentir pela gorja, como nós, que diferimos, ainda por cima, para maior vilania, a vítima de nossas mentiras. Quanto às chaves com que se poderia abrir a caixa dos segredos, ou explicar os dislates que apresentamos, não apareceu nada. Sabe-se, apenas, que aqueles dislates traduzem os velhos conhecimentos da Ciência, Filosofia e Religião; que são chaves, símbolos.. . Nada mais fácil que justificar um absurdo. Mas porque a moral, a verdade, o certo, o curial se haveriam de traduzir por incógnitas, este é um mistério maior do que aqueles que os símbolos e as chaves vieram encobrir. Mas, afinal, qual é a tradução? Que é o que dizem as chaves? Ora, a nossa argumentação, opondo-nos aos textos bíblicos, é que eles não podiam servir de base e muito menos de prova, enquanto estavam cheios de erros palmares, de flagrantes tolices, de moral duvidosa e inequívocas heresias.
Quando nos afirmam que só se morre uma vez, por que Paulo o disse, ou que Deus já escolheu os que quer salvar e perder, porque isto se encontra no Novo testamento; quando nos falam nas proibições de Moisés, porque constam do Deuteronômio; quando acham que os médiuns devam ser lapidados porque o Levítico prescreve a lapidação; quando justificam a vingança, porque Deus mandava vingar; quando se extermina o adversário, invocando-se o extermínio bíblico; quando se pratica um dislate escudado em textos, não é com a chave que argumentam, é com os próprios textos. Força é mostrar que eles não estão certos. Foi o que procuramos fazer. Além disso, qual o processo de se conhecer a chave? Haverá na cabala uma chave para cada versículo como existe nos dicionários uma significação para cada vocábulo? Quando se diz, em vários lances, que Deus se arrependeu, qual a chave disso? Por que se declara em Números que Deus ordenou e Moisés executou incríveis matanças?
Isto em vez dos ensinos de amor ao próximo que deviam consistir da Religião do Deus único encerradas nas antigas civilizações? Que nos dirão os símbolos a respeito das filhas que se foram deitar no leito paterno? Como se traduzem as imoralidades, na Ciência da Índia? De sorte que nos apresentam ensinos que afirmam ser a última palavra, e palavra indiscutível, por provirem das escrituras, que são eles inspirados, e quando vamos provar que não pode haver inspiração divina na série de atos abomináveis que ali se relatam, sob o olhar clemente do Senhor, ou sua tácita ou mesmo expressa cumplicidade, surgem com os conhecimentos antigos, a escola dos profetas, a religião de Deus... Logo, tudo certo! Se um qualquer não entende que aquilo seja representação legítima da verdade científica etiópica; ou quem reflita, sob a linguagem escabrosa, toda a Filosofia das mais
antigas escolas; ou que represente a Religião do Deus único, está mentindo. Como porém se acharão vertidos na linguagem das mais veneráveis civilizações, os homicídios, a pilhagem, os incêndios, as imoralidades bíblicas; qual a chave para os incestos, para a perversidade, para a hediondez que lá se descrevem, isto é o que não aparece. Qual o símbolo que se encerra nas heresias e absurdos que se diz terem saídos dos lábios divinos, não conhecemos. Também não se nos diz por que a Verdade que se encontrava nas vetustas tradições, ou a ciência das remotas civilizações, na Índia, no Egito ou na Etiópia, ao serem trasladadas para a Bíblia, hajam, fatalmente, de converter-se em cenas, atos e princípios de arrepiar os cabelos de um justo e colorir as faces de uma pessoa honesta. E ainda porque, em vez de noções que nos encaminham para o bem, haveria o Criador de transformar em charada os ensinos de nossos antecessores, e, para encobrir o mistério, apresentar como exemplo de suas ordenações os mais sacrílegos e reprováveis feitos.
Enfim, para amostra da previdência e acerto do Criador, quando velou a Ciência, a Filosofia e a Religião dos antigos, servimo-nos de um trecho de Will Durant, e compreenderemos melhor a razão do véu e a felicidade dos símbolos que encobrem aquelas faces do velho saber humano:
Aparentemente os judeus, depois da conquista, tomaram um dos deuses de Canaã-Iahu, e o recriaram à sua própria imagem, severo, belicoso, rígido, com quase louváveis limitações. Porque esse deus não pretende ser onisciente: pede aos judeus para marcarem com sangue de cordeiro suas casas, a fim de que ele inadvertidamente não lhes destrua as crianças, confundindo-as com as crianças egípcias; não está livre de cometer erros, dos quais a criação do homem foi a pior; lamenta, já muito tarde, ter criado Adão, ou permitido Saul tornar-se rei. Mostra-se aqui e ali, insaciável, irascível, sanguessedento, caprichoso, petulante: “Eu serei bom para aqueles a quem quero ser bom e serei misericordioso para aqueles a quem quero mostrar misericórdia.” Aprova em Jacó o uso da mentira para enganar Labão; sua consciência é flexível. Fala demais e gosta de fazer longas prédicas; mas revela acanhamento; não permitirá que os homens o vejam de frente - só pelas costas. Nunca houve um deus mais completamente humano.
Os autores do Pentateuco, para os quais a religião era um instrumento de governo, transformaram esse Vulcano em Marte, e o enérgico Jeová se tornou predominantemente um imperialístico Deus dos Exércitos, a lutar com tanta ferocidade pelo seu povo quanto os deuses da Ilíada. “O senhor é homem de guerra”, diz Moisés; e Davi repete: “Ele instrui minhas mãos para a peleja”. Jeová promete “destruir todo o povo em cujas terras os judeus entrarem”, e pouco a pouco os hivitas, os canaanitas, e hititas; e declara ser seu, todo o território conquistado pelos israelitas. Nada de pacifismo; Jeová sabe que mesmo a Terra prometida só pode ser conquistada e conservada por meio da força; ele é um deus da guerra porque tem de ser; só depois de séculos de derrota militar, de sujeição política e de desenvolvimento moral é que os judeus o transformariam no bondoso e amável pai de Hillel e Cristo. Como soldado, Jeová se mostra vaidoso, regala-se com o néctar dos louvores e ansioso de exibir suas habilidades, afoga os egípcios: “Eles saberão que sou o Senhor quando houver dominado o Faraó”.
Para favorecer ao seu povo, comete ou ordena a perpetuação de brutalidades tão repugnantes para o nosso gosto como eram aceitáveis para a moralidade da época; Jeová chacina povos inteiros, com ingênuo prazer de um Gúliver a lutar em prol de Liliput. Por que os judeus “fornicaram” com as filhas de Moab, ele ordena a Moisés: “Toma todas as cabeças do povo e executa-os na presença do Senhor, diante do sol”; temos aqui a mesma moralidade de Assurbanipal e Assur. Ele promete misericórdia para os que o amam e lhes seguem os mandamentos, mas
pune os filhos pelos pecados dos pais, dos avós e dos tataravós. Mostra-se tão feroz que pensou na destruição de todos os judeus quando os viu adorarem o Bezerro de ouro; Moisés teve de discutir com ele e chamá-lo à ordem. “Arrefece a tua feroz ira”, diz o homem a seu deus, e então “o Senhor arrependeu-se do mal que pretendera fazer ao povo”. Outra vez quando os judeus se rebelam contra Moisés, Jeová quer exterminá-los, mas Moisés apela para os seus bons sentimentos e acena com o que diria o povo se ouvisse tal coisa. Jeová exige de Abrão um cruel sacrifício humano. Como Moisés, Abrão ensina a Jeová princípios de moral e persuade-o a não destruir Sodoma e Gomorra se houvesse homens justos nas duas cidades; pouco a pouco vai ele civilizando o seu deus, e assim demonstra a maneira pela qual o desenvolvimento ético do homem leva a humanidade a uma periódica remodelação das divindades.” (56)
Estas linhas que aí ficam se dirigem aos que se escudam nas ressalvas apresentadas, despercebidos de que, em vez de uma saída honrosa, apesar dos tratos à bola que deram os ousados descobridores das escapatórias, não fizeram eles mais do que se exporem, na sua obra ingênua, aos risos da posteridade. Dirigem-se, ainda, os nossos reparos aos que, na tribuna, pela imprensa, pelo rádio ou pelo livro, direta ou indiretamente, já graves, já irônicos, com delicadeza ou agrestia, atacaram nesta parte o nosso livro Reencarnação, e surgiram com as estafadas chaves que, pelo tempo e pela falta de uso conveniente, já devem estar bem enferrujadas. Os admiradores incondicionais da Bíblia espantam-se, quando não se horrorizam, se lhes tocam no Santo Livro. Mas os erros, por mais sagrados que sejam, não resistem ao alvião dos séculos. Era preciso mostrar que toda aquela justificativa de chaves, símbolos, interpretações, inventos, mistérios, os quais não podiam ser ditos e compreendidos, não passam de um mistifório para encobrir aquilo que a razão e a moral repelem. Era preciso investir o tabu.
(56) Will Durant – História da Civilização.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.