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Capítulo 51 de 65

Automatismo Inteligente

A Evolução · Carlos Imbassahy

William James estuda um caso que obteve graças ao Dr. C. W. Fillmore, que o inscreve, calmamente, entre os de histeroepilepsia: A doente arranca os cabelos, rasga os travesseiros, os lençóis, a roupa, a camisa. Faz tudo com uma das mãos, enquanto a outra procura impedir os desatinos. Queixa-se de dores num dos braços, que cai, de repente, ao longo do corpo; ela supõe que ele já não lhe pertence, que outrem dele se apossou. Trata-o como se fosse dotado de inteligência e lhe chama Stump, Old Stump, toco, velho toco. “Escreve versos, cria personificações, principalmente de mortos”, esclarece o Autor. Explique-se que as incorporações medianímicas, pela boca da Ciência, são personificações de mortos. Não é só. Stump desenha, verseja, sem que a paciente seja poetiza ou desenhista. Ela não se interessa com o caso e declara que não tem nada com Stump nem quer saber dele. Ela vê, ainda, com os olhos fechados – assim diz o médico. E com eles fechados lê, escreve e desenha.

Sua mão direita conduz-se logicamente, pois que faz pedidos, dá conselhos, responde, mantém a esquerda nos limites do razoável. Ainda durante o sono, a mão continua a conversar, a versejar, a desenhar; conserva o papel de enfermeira, tanto quanto pode, põe cobertas sobre a moça, bate na cama para acordar a sua progenitora, nalgum caso premente. Às vezes faz versos originais. Não sabe francês nem latim. “Entretanto eis o que inventa Stump”, fazendo versos em dois idiomas:

Sed tempus recessit, et puis ce fuit fini. Cum illi successit, un autre gai rameur; Nam cum navigaret, dans son proper cutter, Portentum apparet, qui les fait tous frémir.

Est horrendous anguis, voice qu’ils l’aperçoivent Haud dubio sanguis, en eux tôt se glaça Triginta pedes, sa tête s’élevait Et corporis sedes, en secret fut placé.”

A tradução é a seguinte, se não nos falha o conhecimento:

(Mas o tempo retrocedeu e tudo se acabou. Quando a ele sucedeu outro alegre remador. E navegando em seu próprio batel Apareceu-lhe coisa portentosa que a todos fez estremecer.

Era uma horrível serpente; eis que eles a percebem. Sem dúvida o sangue neles logo se gelou. Trinta pés sua cabeça se elevava E a sede do corpo foi colocada em segredo). (220)

Os versos continuam. Estes, porém, bastam para amostra. A toda essa fenomenologia deu-se o rótulo de escrita automática, ou automatismo inteligente.

O que se entendia por automatismo era algo mecânico, movimentos sem inteligência, uma espécie de deslocações de boneco. Pois passou a rotular um complexo de casos, que não se sabe como se formaram, nem apareceram; nem como tomam a feição de inteligentes; e mais ainda como poderiam manifestar-se fora e além dos conhecimentos da paciente. Esta falava idiomas que não aprendera, desenhava, via com os olhos fechados, lia e escrevia dormindo, e ainda dormindo, tinha uma das mãos a vigiá-la, a compô-la, a dar sinal de alarme... E o que há de mais pitoresco nesse automatismo é a declaração de que se trata de outro, em geral de um morto, declaração que parece a principal característica em fenômenos idênticos, fato que se verifica de tempos imemoriais, já dizia Lapponi. É curioso, pelo menos. Mas, ao que parece, com aquela dominação de automatismo inteligente, tudo se esclarece, cientificamente falando.

(220) William James – Estudes et Réflexions d’um Psychiste – Trad. de E. Durandeand, Paris, pág. 59.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.