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Capítulo 25 de 65

Lições

A Evolução · Carlos Imbassahy

OS SALTOS DA NATUREZA

Diz um Mestre na análise do livro “Reencarnação”:

Não tenho pressa. O livro será devidamente escalpelado e eviscerado, e dele restará por fim, apenas, o alimento das traças.

Minacíssimo intróito. E assim começa a evisceração:

Misturando Ciência com Religião diz-nos o Sr. Carlos Imbassahy a pág. 20 do seu livro: Natura non facit saltus. Hoje dizemos o contrário. Desde 1900 De Vriès expôs suas observações sobre as mutações que as espécies apresentam dando origem a novas. Vê o meu ilustre contraditor como foi infeliz na escolha do seu argumento, uma velharia que a Ciência pôs de lado. Temos aconselhado o Sr. Carlos Imbassahy a não falar sobre aquilo que sabe apenas por ouvir dizer. Se tivesse seguido nosso conselho, não passaria por este dissabor.

Agradecido pelo conselho, mas não escolhemos a frase como argumento. Aplicamo-la. Sobre as mutações bruscas poderíamos reportar-nos a Geley, que declarava:

Vimos transformistas esforçarem-se por diminuir a importância dos fatos novos, e adversários ingênuos a aceitarem com entusiasmo. (25)

E ainda: Dantec e os naturalistas são de certo modo lógicos, pretendendo restringir o domínio das mutações. (26)

E mais adiante nos declara que “Os supostos saltos são apenas manifestações intermitentes da atividade, uma espécie de repouso aparente...” (27) Esse mesmo Geley que nos dizia serem os fatores clássicos incapazes de explicar as transformações bruscas, elucida:

Se é verdade que a natureza não dá saltos e, não é menos certo que, na natureza, toda a manifestação de atividade parece intermitente; é precedida e seguida de um repouso aparente, durante o qual se prepara, de maneira obscura, uma renovação de atividade. (28)

(25) Gustave Geley – De l’Inconscient au Conscient, 1920, pág. 24. (26-27-28) Gustave Geley - De l’Inconscient au Conscient 1920, pág. 25, 295.

Poderíamos lembrar Dantec, o qual assegura que as mutações não alteram os caracteres secundários (29); ou na Luta Universal:

Persisto na idéia de que as mutações repentinas observadas por De Vriès podem ser devidas à introdução, a transformação ou ao desaparecimento de um comensal que ainda não foi isolado em laboratório. (30)

Richet hesita: Y a-t-il des mutations brusques, comme l´ont pensé De Vriès et certains botanistes?... On ne saurait le dire. (Haverá mutações bruscas, como acreditaram De Vriès e certos botânicos? Não poderíamos dizê-lo). (31)

E no Ensaio de Psicologia geral indaga:

Onde já se vira na natureza essas transições bruscas? (32)

O moderno Pierantoni tem dúvidas de que a teoria De Vriès se aplique aos animais (embora nos fale nos insetos); acha que na matéria há “teorias encontradas”, e pensa que “no es possible proclamar la bancarrota de la teoria de Darwin”. (33) O próprio Darwin já previra as objeções de De Vriès e é ainda Pierantoni quem diz:

A variação brusca que De Vriès considera como causa única da evolução, não foi descoberta por ele; ao lado das variações flutuantes colocara o próprio Darwin as descontínuas que se designava com o nome de anomalias. (34)

O Dr. Dobshausky é peremptório. Afirma “que as pretensas experiências de De Vriès, quanto à mutação das espécies foram totalmente refutadas”. E o autor prolonga-se em demonstrações. (35) Indaga-se, ainda, se as mutações constituem uma regra ou uma exceção. Não queremos, porém, indagar nada, e muito menos desejaríamos, numa contenda com um ilustre biólogo, em tal terreno, fazer o papel dos russos, na guerra de 14 e, a quem Hindemburgo atraiu para os lagos Masurianos e os atolou, ou o da presa desprevenida, a quem o jacaré arrasta para as águas de sua lagoa. Contentamo-nos, apenas, em arranjar alguma companhia entre os “infelizes”, que, se não escolheram uma velharia, pelo menos a difundiram. Era só para mostrar que, lendo aquela gente, poderíamos ter ido na onda. Mas, não é bem isso que nos interessa, recebemos de boa mente, ao digno mestre, o De Vriès, as mutações bruscas e os louros da vitória, antes que surja com uma nova carga.

(29) Dantec - La Crise du Transformisme. F. Alcan. - Apud Geley. (30) Dantec - La lute Universelle. Na tradução Port. pág. 198. (31) Charles Richet - Apologie de la Biologie, 1929, págs. 14. (32) Charles Richet - Essai de Psychologie Générale, 1919, pág. 4. (33) U. Pierantoni - Compendio de Biologia, capítulo “As mutações”. (34) U. Pierantoni - Obra citada. (35) Theodoro Dobshausky - Genetics and the origin of species, pág. 40.

O caso é que, nem de leve, opinamos no assunto do transformismo ou dos elos intermediários, a que está ligada a frase e o De Vriès, senão que a aplicaríamos somente (segundo nos parece), aos princípios gerais da evolução, que não recua e se faz paulatinamente, ou ao progresso da alma, que não dá saltos. Dizia um provérbio grego que “não era lícito a todos irem a Corinto”, e isso porque os prazeres em Corinto custavam muito caro. Os latinos traduziram o provérbio pela seguinte expressão: non licet omnibus adire Corinthum. Assim, quando se quer falar na dificuldade de ir a algum lugar, cita-se o prolóquio, sem perguntar porque não era lícito ir a Corinto. Poderíamos lembrar-nos dos obstáculos em viajar para alguma vila do interior e aproveitarmos o latim.

Mas ai de nós, se alguém descobre que na dita vila, em vez da carestia de Corinto, havia as delícias da barateza do Rio; éramos logo fisgados pela gola, embora jurássemos que nunca nos preocupamos com os divertimentos de Corinto, mas que lançávamos, apenas, mão da frase feita para ajustá-la aos embaraços que as nossas lamacentas estradas de rodagem e perigosas estradas de ferro opõem à ida ao tal lugarejo. Assim como o natura non facit saltus. O fato é que a frase, que parece anterior a Leibnitz, tem sido aproveitada por escritores vários, em diferentes oportunidades, alguns descuidosos da sua aplicação original. Dellane, o escritor contemporâneo, nos diz:

Diariamente as descobertas estabelecem esta profunda verdade que Aristóteles exprimiu - a natureza não dá saltos. (36)

E Záccaro:

A vida, em seu começo, oferece-nos uma base interessantíssima para nos mostrar que a natureza não dá saltos. (37)

E Ortiz, catedrático de Cuba, num livro recentemente publicado:

Este evolucionismo de los Espiritus es tan fatal como el de los biólogos. Los Espiritistas podran decir analogamente: espiritus no facit saltus. (38)

Num prefácio do Dr. Maxwell à magistral obra de Ernesto Bozzano:

Encontramos aqui, ainda, a manifestação do que parece uma das grandes leis da natureza, a da continuidade. Natura non facit saltus. (39)

(36) Gabriel Dellane – L’Évolution Animique, 1938, pág. 172. (37) Antonio Záccaro - A Presciência da Natureza, 1948, pág. 43. (38) Fernando Ortiz - La Filosofia Penal de los Espiritistas, Buenos Aires, pág. 18. (39) Ernesto Bozzano - Les Phénomènes de Hantise, Préface. Tradução de C. de Vesme, Paris, 1929, pág. X.

Gabriel Dellane, que replicava a René Sudre, a respeito da doutrina reencarnacionista, e escreve:

”O senhor Sudre não teme empregar argumentos contraditórios para sustentar sua tese, porque, a propósito das crianças-prodígios lembra-nos a lei da continuidade “que la nature ne faite pas de saut”, e mais tarde, para explicar o gênio, apela para as mutações que significa, ao mesmo tempo, a negação da continuidade, e, por conseqüência, da hereditariedade”.

Temos, pois, Sudre, empregando Natura non facit saltus, do mesmo passo que nega a hereditariedade. (40) O Dr. J. Maxwell emprega várias vezes a frase inquinada de velharia. (41) E M. Sage: Mais si par hypothèse, cet autre monde existait, il faudrait s’attendre à ce qu’il eût pas un abime entre ce monde-là et le nôtre. La nature ne fait pas de saltus. (Se, por hipótese, existisse esse outro mundo, era de esperar que não houvesse um abismo entre ele e o nosso. A natureza não dá saltos). (42)

Como se vê, cada um dos autores, que empregam a malsinada frase, esquece-se de indagar se ela está em dia com os modernos conhecimentos científicos. O doutor Sérgio Vale:

Não há saltos no mundo físico nem no mundo espiritual. Do começo ao fim a transição é lenta. Não há provas rudes, há provas necessárias. (43)

Devia ter sido a nossa aplicação: a lentidão evolutiva.

(40) Gabriel Dellane - Revue Métapsychique, 1924, pág. 480. (41) Ernesto Bozzano - Les Phénomènes de Hantise. Tradução em francês de C. de Vesme, Paris, 1929, pág. IX e outras. (42) M. Sage - Madame Piper, 1902, pág. 40. (43) Sérgio Vale – Iniciação Espírita, 1953, II.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.