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Capítulo 47 de 65
Entre os Civilizados
A Evolução · Carlos Imbassahy
Entremos, agora, nos tempos modernos e em plena civilização cristã. O seguinte caso é relatado pela Sra. Wheatcroft, e publicado por Dale Owen:
No mês de setembro de 1875, o Cap. G. W., do 6º Regimento dos Dragões da Guarda, partiu para as Índias, a fim de reunir-se a seu Regimento. Sua mulher permaneceu na Inglaterra; ela morava em Cambridge. Pela madrugada de 15 de novembro sonhou que vira o marido; ele tinha o ar ansioso e doente. Ela acordou; fazia um luar magnífico, e ao abrir os olhos, viu de novo o esposo, em pé, ao lado da cama. Apareceu-lhe uniformizado, com as mãos no peito, os cabelos em desordem, o rosto pálido. Olhava-a fixamente com seus grandes olhos negros, e grande excitação. A boca estava contraída de modo particular, como sucedia quando estava agitado. Ela o viu distintamente, e lembra-se de lhe ter notado o branco da camisa entre as mãos, sem estar manchado de sangue. Seu corpo parecia cair para a frente, com ar de sofrimento. Fazia esforço para falar; não se lhe ouviu, porém, o som da voz. A aparição durou um minuto e sumiu-se... Em dezembro, um telegrama publicado em Londres dizia que o Capitão fora morto diante de Lucknow a 15 de novembro.
Mais tarde se verificou que a morte fora a 14 de novembro tendo ele aparecido a outra pessoa. (198) Na narrativa que se segue e que abreviamos, o narrador, Capitão Russel Colt, vê o irmão falecido com características inconfundíveis:
Eu tinha um irmão, que me era muito caro, Olivier: Lugar-Tenente do 7º de Fuzileiros Reais, encontrava-se nessa época diante de Sebastopol. Um dia, escreveu-me em momento de desânimo e abatimento, e eu lhe respondi, dando-lhe coragem e dizendo-lhe que se algo lhe sucedesse, que ele me fizesse saber, aparecendo-me em meu quarto. Depois de comungar, foi para as trincheiras e não voltou mais. Algumas horas mais tarde começou o assalto de Redan. Ele foi ferido por uma bala na fronte direita. Caiu entre os soldados e o encontraram de joelhos, trinta e seis horas mais tarde. Isto se deu a 8 de setembro de 1855. Nessa noite, acordei de repente. Vi, diante da janela, perto da cama, meu irmão, ajoelhado, rodeado de uma espécie de nevoeiro fosforescente. Quis falar e não pude. Eu pensava que isso não poderia deixar de ser uma ilusão, mas quando levantei os olhos, ele ainda estava lá, fixando em mim um olhar cheio de afeto, de súplica, de tristeza. Não pude dizer nada; não havia lua; chovia fortemente; voltei-me e vi ainda o pobre Olivier.
Cheguei à porta do quarto; a aparição voltou a cabeça lentamente para mim, e me lançou ainda um olhar cheio de ternura e amor. Notei-lhe na fronte direita uma ferida donde escorria um filete de sangue. O rosto estava pálido, de cera, mas transparente. Quando falei a meu pai da aparição, ele me ordenou que não repetisse semelhante tolice, e sobretudo nada dissesse à minha mãe. No dia seguinte soube que Redan tinha sido tomada de assalto. Quinze dias mais tarde, Milne entrou em meu quarto e eu lhe disse: - Sei que me vem comunicar a triste nova que espero. Ele respondeu: - Sim. _______________ (198) Dale Owen – Footfals on the Boundery of another world, págs. 299-3-3.
O Coronel e os que viram o cadáver disseram que o aspecto era aquele que eu tinha descrito. A ferida mortal era bem onde eu a tinha visto. Alguns meses mais tarde, mandaram para Inveresk um livrinho de preces, com a carta que eu lhe escrevera. Tinha sido encontrado no bolso interno de sua túnica. (199)
É muito conhecido o caso do Dr. Catalgirone, publicado em vários trabalhos e que por isso resumiremos. Vale anotado, apesar de sua divulgação, pela importância de que se reveste. Catalgirone era positivista, materialista, cético. Certa vez o seu amigo e médico, Dr. Benjamim Sirchia, lhe disse que, se morresse, viria trazer-lhe a prova da sobrevivência. E o outro rindo: - Pois venha quebrar aqui qualquer coisa; por exemplo, este candelabro suspenso. Separaram-se, sem que ele tivesse mais notícias do amigo. Certa tarde, estava na sala com a irmã, quando ouviu várias pancadas no abajur do aparelho suspenso, bem como sobre a sineta de porcelana móvel. Como continuassem as pancadas, levantou para examinar tudo, sem nada descobrir. Os ruídos se repetiam nos dias subseqüentes, até que uma pancada fortíssima fez partir em duas a sineta, que ficou suspensa nos grampos do contrapeso metálico. Enfim, depois de uma semana, às oito da manhã, na sala onde não estava ninguém, ouviu-se um grande estrondo; correm todos: na mesa, como colocada por mão humana, achava-se metade da sineta móvel, enquanto a outra metade se conservava suspensa.
O autor achou que era impossível que ela caísse normalmente, tais os empecilhos que se lhe opunham, e que menciona. Dois dias depois, ao encontrar-se com o Dr. Rusci, disse-lhe este: - Você sabe que o pobre Benjamim Sirchia morreu?... Catalgirone compreendeu que o finado amigo viera cumprir a promessa. (200) Avancemos um pouco mais. Frank Podmore, aliás pouco simpático à tese espírita, narra o seguinte, que vem demonstrar como os seres continuam com seus velhos hábitos, mesmo após a crise da morte; é o próprio autor que refere. Em 1880, sucedi a meu predecessor como bibliotecário, sem nunca o ter conhecido nem visto qualquer retrato seu. Trabalhava sozinho na biblioteca, uma tarde, quando me lembrei que iria perder o trem, se não me apressasse. Levantei-me, apanhei os livros com uma das mãos e a lâmpada com a outra e saí por um corredor. Percebi um homem na extremidade, e me veio a idéia de que um ladrão acabara de entrar. Tornei imediatamente para o aposento de que tinha saído, deixei os livros, apanhei um revólver, segurei a lâmpada e voltei; não encontrei ninguém.
Gritei repetidas vezes, intimando ao intruso que se apresentasse, esperando que algum policial ouvisse os meus gritos, quando notei que o indivíduo tinha o ar de quem inspecionava as estantes de livros. Via-lhe a cabeça, pálida e calva, e as órbitas profundas. Caminhei para junto dele: era um velho de espáduas altas, que se balançava, enquanto olhava para os livros, com as costas voltadas para mim. Com o andar arrastado, afastou-se da biblioteca e se dirigiu para a porta de um pequeno lavatório que dava para a biblioteca e que não tinha outra saída. __________________
(199) Gurney, Myers e Podmore – Phantasms of the Living – Marrillier – Hallucinations Telépathiques, 1899, pág. 202. (200) V. Charpignon – Physiologie, medicine et métaphysique du Magnetisme, Orleans, 1841, pág. 317.
Segui o homem e, com grande surpresa, não encontrei ninguém. Confesso que comecei a experimentar pela vez primeira o que se poderia chamar uma sensação de espanto sobrenatural. Deixei a biblioteca e percebi que tinha perdido o trem. Contei essa história no dia seguinte a um clérigo (a clergyman) da região, que disse logo: - Mas é o velho bibliotecário! Mostraram-me depois uma fotografia de meu antecessor: a semelhança era flagrante. O defunto perdera os cabelos, as sobrancelhas, os cílios, numa explosão, acho eu. Tinha altas espáduas e caminhava gingando. (201)
Para mostrar a grande cópia de exemplos, devidamente documentados, basta lembrar alguns constantes da trilogia de Flammarion, A Morte e seu Mistérios. Um fantasma, visto, reconhecido, identificado pelo casal Ballet-Gallifet, é denunciado por um lulu pomeraniano; a dona do café de Nantes, que vem comunicar que falecera havia dois dias; Robert Mackenzie, que vem declarar que falecera e que era falsa a acusação de que se tinha suicidado; uma jovem americana, que se apresenta com os característicos que tivera em vida, inclusive uma arranhadura no rosto, fato que ninguém conhecia, porque tal arranhadura fora feita inadvertidamente no cadáver pela sua progenitora; a esposa de Bossan, morta em Grenoble, e que se manifesta em Nancy; o amigo de lorde Brougham, que prometeu aparecer-lhe depois de morto e cumpriu a promessa; uma velha senhora que se apresenta com uma capa um tanto esquisita, capa que a identifica, porque só uma pessoa íntima a conhecia, haja vista que ela não a usava à vista de ninguém; o defunto amigo do cônego Bouin, que lhe bate no ombro; o interessante caso do esqueleto de Adams, que ocasiona uma série de fenômenos de assombração, quando os companheiros não cumprem a promessa que haviam feito ao seu antigo possuidor; a aparição do poeta Russell; o morto que leva o bispo de Alger a pagar uma dívida; Sara Clarke que vem acusarse de um furto e pedir que lhe perdoem; um pai, morto havia quatorze anos, que aparece ao filho e à mulher; o capitão Drisko, que evita um naufrágio por indicação de um Espírito; a manifestação de um marinheiro que, numa sessão, quer estrangular um antigo oficial de marinha, sabendo-se posteriormente que o oficial o havia morto por questões de indisciplina, sendo testemunhas do caso, entre outros, Giuseppe Vezzano, Erneto Bozzano, o cavaleiro Carlo Perretti.
(201) Frank Podmore – Apparitions and Thought Transference, pág. 427.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.