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Capítulo 49 de 65

A Realidade da Manifestação — parte 2 de 2

A Evolução · Carlos Imbassahy

Nas regiões civilizadas, a configuração do fenômeno é a mesma. Trata-se ainda de fatos muito anteriores ao advento doutrinário de Allan Kardec. O seguinte caso é devido à pena de Zingaropoli, que o extraiu de uma velha crônica conservada na biblioteca oratoriana de Nápoles, e que data de 1696. O médium, um noviço de dezenove anos, chamava-se Carlos Maria Vulcano. Produziram-se várias manifestações; as vozes mudavam de tonalidade, conforme as personalidades comunicantes; elas disputavam com os monges, procurando convencê-los de que estavam enganados quando os supunham a eles de natureza infernal. Asseguravam-lhes que eram Espíritos, que procuravam progredir, e que se ali estavam era com a permissão de Deus. (211)

Avancemos no tempo. Um fenômeno, estudado pelo Dr. Reid Clauny, médico e diretor do Hospital de Sunderland, na Inglaterra, data de 1839. Era médium uma jovem de treze anos, Mary Jobson. Ataques histéricos tornaram-na cega e surda-muda. Com sangrias e vesicatórios aplicados pelos médicos, o seu estado veio a agravar-se. Apresenta-se novo médico e resolve aplicar mais um vesicatório. Ouviram-se então pancadas muito fortes no aposento, que chegaram a tornar-se violentas, quando o médico insistiu na aplicação do vesicatório, para diminuírem e cessarem com a desistência da medicação. O médico volta à aplicação, e as pancadas recomeçam. Por fim, ouviu-se uma voz misteriosa que incitava o pai da doente a despedir os médicos e deixar que a natureza agisse. Daí em diante a voz se fazia ouvir sempre e dava conselhos, até que a enferma ficou completamente curada. Foram testemunhas o Dr. Clauny e vários colegas. (212)

John Richardson e sua família, em janeiro de 1855, narram, em Hartfod, diante de várias testemunhas e do Juiz de Paz, sob juramento, que ouviram duas vozes humanas de pessoas invisíveis, com timbres diferentes, declararem que se chamavam Henry e George Force; tinham sido ali assassinadas onze anos antes. Esses Espíritos produziram efeitos físicos e chegaram a quebrar louça. Quando lhes perguntavam porque procediam assim, respondiam: - É para convencer o mundo de nossa presença. (213) Continuamos a nossa digressão e veremos que o caminhar das idades não modificou o aspecto dos fatos. Eles se reproduzem da mesma forma, continuam com as mesmas características. As manifestações se apresentam idênticas por toda a parte. A Camilo Flammarion escreve Clovis Hugues:

Foi em 1871. Eu estava na idade em que se colhem flores nos campos, como o amigo colhe estrelas no infinito; nesse momento, porém, tinha esquecido de fazer minha colheita ordinária, para escrever um artigo que me valeu alguns anos de cárcere. Ora, eu estava na prisão de S. Pedro de Marselha. Lá se achava, também, Gaston Cremieux, condenado à morte. Eu o estimava muito, porque tínhamos os mesmos sonhos e caímos na mesma realidade. Na prisão, à hora do passeio, acontecia tratarmos de Deus e da imortalidade da alma.

(211) F. Zingaropoli – Gesta di uno Spirito, Nápoles, 1904. (212) William Howitt – History of the Supernatural, II, pág. 450. (213) Epes Sargent – Planchette, the despair of Science, pág. 134.

Um dia, como alguns camaradas se tivessem declarado ateus e materialistas, com veemência pouco comum, eu lhes fiz notar que seria inconveniente proclamar essas negações diante de um condenado à morte, que acreditava na imortalidade e em Deus. O condenado me disse, sorrindo: - Obrigado, amigo. Quando me fuzilarem, irei dar-lhe a prova, manifestando-me em sua cela. No dia 30 de novembro, ao amanhecer, fui acordado, subitamente, por um ruído de pancadas secas, dadas em minha mesa. Voltei-me, o ruído cessou, e readormeci. Alguns instantes mais tarde, e o ruído recomeça. Saltei, então, da cama e me coloquei, bem acordado, diante da mesa: o ruído continuou. Isto reproduziu-se, ainda, sempre nas mesmas condições. Ao levantar-me, todas as manhãs, tinha o hábito de ir, com a cumplicidade de um bom guarda, à célula de Gaston Crèmieux. Nesse dia, as portas estavam seladas, e verifiquei, com o olhar fixado no postigo, que o prisioneiro já não estava lá. Mal fizera a terrível averiguação, e o bom guarda, atirando-se em meus braços, com os olhos rasos d’água: - “Fuzilaram-no esta manhã, ao romper do dia; mas ele morreu corajosamente”. (214)

Chevreuil, comentando a narrativa, nos diz:

Sem dúvida, alguns casos isolados, talvez não apresentassem grande valor, mas uma multidão de fatos análogos e ainda mais complexos, não permitem duvidar que nos encontramos em presença de alguns dos grandes mistérios do Além. (215)

Buscamos apresentar exemplos de várias categorias, por maneira a não deixar dúvida de que não há influências externas na produção do fenômeno, e que é ele que nos leva a concluir que a sua verdadeira gênese está na manifestação do morto. Escolhemos, agora, um caso em que a percepiente é uma criança educada nos princípios da Igreja Metodista; devia, portanto, ter a mente povoada dos ensinos daquela Igreja, cheia dos horrores do Inferno e das delícias do Paraíso. Não é isto, porém, o que acontece. No fato que se segue deveria a moribunda estar em comunhão com seres alados; os seus sonhos voltar-se-iam para a mansão divina, tal como é descrita no catecismo em que aprendeu. Veremos, entretanto, que muito diferente foi o que se passou. Lamentamos não poder transcrever na íntegra o caso, que é o da menina Daisy, caso absolutamente insuspeito, haja vista que é descrito pelos seus progenitores, sendo que o pai da criança era o Reverendo David Anderson Dryden, missionário da Igreja Metodista.

As notas relativas ao episódio foram publicadas em opúsculo no Jornal da S. P. R. americana e ocupou dezessete páginas. Ernesto Bozzano faz dele um resumo, mas ainda assim se torna difícil reproduzi-lo sem gastar muito espaço. Vamos tentá-lo, entretanto, sintetizando-o ainda mais. A pequena, aos dez anos, foi atacada de febre tífica e teve o pressentimento de seu fim, apesar do prognóstico do médico, para quem a doença era benigna e estava muito longe de ser fatal. Declarava ela que o termo estava próximo e que seu falecido irmão Allie lhe dizia que ela voltaria a ver os pais, embora eles não a vissem. _______________

(214) Camile Flammarion – L’Inconnu, Paris, 1909, pág. 76. (215) L. Chevreuil – On ne meurt pas, Paris, Jouve, ed., Pág. 230.

O pai, armado da Bíblia, e temendo o fim, lhe dizia: - “Estás prestes a vadear o grande rio tenebroso”. E ela lhe respondia: - É um erro, papai, não há rios a vadear; não há linhas divisórias entre as duas vidas. Eu vejo os Espíritos. E dizia à mãe: - Aqui está Allie, mas tu não o podes ver, porque os teus olhos espirituais estão fechados. - E por que o vês tu? - Porque meu espírito está quase desprendido; apenas se acha ligado ao corpo por tênue fio de vida. - E como conversas com ele? - Pelo pensamento. Ele tem o corpo envolto em uma veste alvíssima, maravilhosa. Estando sua irmã cantando um hino em que falava de anjos alados, ela emendou: - Eles não têm asas, não voam, transportam-se. - Como fazes para ver os anjos? - Nem sempre os vejo, mas quando os vejo, parece-me que as paredes se somem e a minha vista alcança distâncias imensas. Alguns eu conheço, outros não.

Vendo-se ao espelho, declarou: - Meu corpo está consumido, assemelha-se ao vestido velho da mamãe; ela não o veste mais; em breve deixarei também de usar o meu corpo, mas o substituirá o meu corpo espiritual. – Mamãe, não chore – dizia – procurando enxugar as lágrimas maternas – se me vou tão cedo é para meu bem. Pediu que lhe abrissem as janelas, porque não mais veria despontar a alvorada. E despediu-se do céu, das árvores, das flores. Por fim disse: - Às onze horas e trinta minutos Allie virá buscar-me. Às onze horas e trinta minutos, precisamente, estendeu os braços para o alto e exclamou: - Já vou, Allie. E não respirou mais. Aqui fica um pálido transunto de uma história emocionante.

Como se vê, não só deixava ela de dizer aquilo que constava da sua doutrina, senão que contrariava o pai e a sua Bíblia. Suas visões, suas afirmações, suas declarações eram a reprodução exata do ensino dos Espíritos, ensinos de que nunca tivera conhecimento, nem os podia ter, desenvolvida a sua inteligência nos princípios austeros da Igreja e dentro dos métodos paternos.

Apresentamos um caso em que é perfeita a identificação do espírito comunicante. O fenômeno é insofismável pelas provas de que se reveste e dos nomes que o autenticam.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.