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Capítulo 11 de 65

Objeções

A Evolução · Carlos Imbassahy

Se a evolução constitui hoje – declara Geley – uma das grandes hipóteses científicas mais bem estabelecidas, apresenta, entretanto, sérias dificuldades. Essas dificuldades que ele enumera e comenta são as seguintes:

Os fatores clássicos são impotentes a fazer-nos compreender a origem das espécies, a origem dos instintos; são incapazes de explicar as transformações bruscas criadoras de novas espécies, bem como de explicar a cristalização imediata e definitiva dos caracteres essenciais de novas espécies e de novos instintos; são também impotentes para resolver a dificuldade geral de ordem filosófica relativa à evolução, que do simples faz surgir o complexo, e do mínimo o máximo (du moins fait sortir le plus). (1)

A igreja é mais ou menos contrária à doutrina evolucionista e francamente adversa à transformista de Darwin. Pela pena de um dos seus mais ilustres representantes, opõe-lhe a seguinte crítica: Nenhum descobrimento de fóssil até agora vem confirmar a descendência humana do macaco; o homem aparece subitamente na terra como uma espécie nova. As últimas pesquisas pré-históricas acusam, nas mais antigas idades, três principais tipos humanos que são co-existentes. As raças são a de Neanderthal, a de Negróide e a de Cro-Magnon. Não existiu o homem terciário. O de Neanderthal era um homem como os outros, nada inferior ao sapiens, disse Boule. Entre o Pitecantropo e o de Neanderthal existe um intermediário, que vem interromper a série evolutiva, o Homem do Piltdown. Sergi afirma que o Homem de Rodésia não tem nenhuma semelhança simiesca. O fracasso do Pitecantropo de Java foi solene, pois que era um fóssil quaternário, que não passava de um “gibbon”, espécie de símio. O derradeiro achado paleontológico, o Sinanthropus, representa um grupo humano antiqüíssimo.

É dele, possivelmente, que deriva, no quaternário superior, o Homo soloensis, de Java, mais tarde absorvido por outras formas. Finalmente, nenhum vestígio existe dos antropóides da época terciária (2). Tal, em síntese muito rápida, e, necessariamente, imperfeita, a crítica que à hipótese darwiniana apresenta o Vice-Reitor da Universidade Católica de São Paulo e Diretor da de Campinas. As razões acham-se desenvolvidas e apoiadas nos pareceres de vários cientistas. Parece-nos que haveria algo que dizer e comentários que fazer, mas o nosso intuito aqui é apenas o de expor.

(1) Gustave Geley – De l´Inconscient au Conscient, 1920. (2) Monsenhor Dr. Emílio José Salim – Ciência e Religião. 3ª edição, 1949.

A bem da verdade histórica e científica convém assinalar o que diz Marcelino Boule tratando das formas fósseis, que seriam o elo entre o Antropopiteco e o Homem:

Nenhuma das formas que enumeramos confirma a filiação do trânsito da forma dos símios aos homens. Façamos um pouco de história: Em Engis, próximo de Liège, encontrou Scherlin um crânio que julgou haver pertencido a um indivíduo entre o animal e o homem, mas por fim convenceu-se, e assim, o afirmou, que apesar da estreiteza da fronte, este crânio estava muito longe da forma animal e se aproximava muito da forma caucásica mais pura. Em 1856 foi encontrado perto de Dusseldorf, no vale de Neanther, uma calota de crânio a que se deu o nome de Neanderthal, ou o homem de Neanderthal. E em que ficou este achado? Em nada, pois que o Doutor Carlos Vogt, que nada tinha de religioso, se encarregou de demonstrar no Congresso Internacional de Antropologia, realizado em Paris em 1867, que tal crânio era de homem e até provou que o crânio de um dos seus amigos, do médico psiquiatra alemão Doutor Emmyer, era verdadeiramente do tipo de Neanderthal.

Em 1891 foram achados na ilha de Java dois molares, a parte superior de um crânio, um fêmur esquerdo a dezenove metros de distância de dois outros, e, com este e outros ossos que não consta que tenham sido do mesmo esqueleto, formaram o célebre Pithecantropus, que muitos consideraram como o Elo Perdido. Alguns lhe chamaram o Homem-Macaco Erecto e outros o Homem-Macaco Mudo. Mas Virchow, que presidiu ao Congresso de Zoologia, em que foi apresentado o estudo acerca do Pithecantropus, depois de fazer notar, como era seu dever, que ninguém podia provar que todos os ossos achados tivessem pertencido ao mesmo sujeito, disse: - Todas as investigações dirigidas no sentido de encontrar a continuidade progressiva, desde os animais ao homem, têm sido inúteis. Não há tal Proanthropus. O Homem-Macaco é uma quimera.

Assim sucedeu com os oitenta e quatro crânios achados até princípios de 1935, em diversas partes do mundo; e assim sucedeu também com a famosa mandíbula de Mauer, ou de Heildeberg, encontrada em 1908. Tudo acabou em fiasco ou fracasso científico. E não se dará o mesmo com o achado anunciado a som de pratos e de caixa? Não será o mesmo fiasco dos que queriam provar que o homem é simplesmente o Macaco Aperfeiçoado?

Estas notas são devidas ao Sr. Rufino Juanco. (3) Robert Broom, afamado antropologista, declarou ter encontrado o elo perdido, que decifraria o mistério dos antepassados do homem. Garcia Gutierrez prognostica para esse achado um novo desastre. E o escritor Rufino julga que esse esforço, em se achar no símio o nosso antepassado, é o ódio à Bíblia, e vê o darwinismo rebatido por verdadeiros sábios. Só não compreendemos por que motivo haveria de o ódio proporcionar tal teoria... É provável que essa “visão” seja tão bem fundamentada quanto o ódio à Bíblia, que o Sr. Rufino vê nos antropologistas, ódio esse que não se sabe de qual fonte teria provindo.

(3) Estudos Psíquicos. Agosto de 1949.

Em compensação Ilin e E. Segal, no livro – Como o homem chegou a ser um gigante – referem-se aos célebres elos, ao Pithecantropus, ao Homem de Sinanthropus, ao Homem de Heildeberg, ao Homem de Eringsford, ao Homem de Cro-Magnon, e os confirmam no sentido darwinista. Por seu turno relato-nos Bernard Savigny:

OS HOMENS-MACACOS – O caso se deu nas proximidades do Natal. Uma mocinha chinesa estava ocupada em sangrar uma árvore da borracha em uma plantação de Trolak, no Estado malaio de Perak. Sobre seu ombro pousou pesada mão. A pequena voltou-se e se viu cara a cara com um ser estranho, um ser que parecia uma mulher, mas com ademanes simiescos. Numa outra plantação, um sangrador encontrou, no mesmo dia, três criaturas igualmente de aparência simiesca, mas de pele branca, longas cabeleiras caindo como uma floresta até a cintura. Dois machos e uma fêmea. Eram grandes, tinham dentes que se projetavam, como defesas de elefante, para fora das bocas. Os homens tinham bigodes de cinqüenta centímetros de comprimento, antebraços peludos e levavam à cintura, presas em um cinto rústico, enormes facas. De todos eles saía um fétido animal. Foi essa pelo menos a descrição feita pelo trabalhador, o qual mantivera seu sangue-frio, enquanto que a pequena chinesa quase desmaiara. O sangrador chegou a precisar que os desconhecidos usavam de uma linguagem constituída sobretudo de grunhidos inarticulados.

Imediatamente foi despachada à procura das misteriosas criaturas uma patrulha das forças de segurança malásias. E os soldados as encontraram em uma clareira da floresta, à beira de um curso de água. O cabo que comandava a patrulha absteve-se de atirar contra as misteriosas criaturas, porque, frisou “talvez se tratasse de aborígenes de uma raça ainda desconhecida”. Gente ainda na idade da pedra é descoberta hoje, não todos os dias, mas freqüentemente. Há apenas dois anos, uma expedição franco-venezuelana entrou em contato, no alto Orenoco, com índios “Motilones”, que estavam no mais baixo grau de escala social. Há alguns meses, jovens etnólogos franceses entraram em contato, na Índia, em distritos afastados, com tribos das quais nada ou quase nada se tinha até então ouvido falar. Não é absolutamente impossível, “a priori”, que humanos no último grau da escala social existam nas imensas florestas malaias que os raios do sol quase não atravessam. (4)

O “Diário da Noite” procedeu a um longo inquérito sobre o magno assunto e ouviu os nossos patrícios mais esclarecidos e mais a par das modernas investigações. E elas, ao que parece, em vez de desmentirem o Transformismo, trouxeram-lhe mais força e mais luz. O Dr. Paula Couto, paleontólogo do Museu Nacional, autor de duzentos trabalhos, seguindo as pegadas dos Drs. R. Dalt e Robert Broom, é de opinião que a África é o centro de origem e dispersão dos primatas superiores, entre eles o homem.

(4) Bernard Savigny – O Globo, 26-5-954.

Uma forma africana, o Australopithecus Africanus, descoberta por Dart, em 1925, é um símio evoluído, já de forma humana.

Em 1937, o Dr. Broom, na intenção de descobrir os restos de um indivíduo adulto daquele símio, a fim de estabelecer melhor suas reais afinidades, veio a encontrar os primeiros restos do já famoso símio de Sterkfontein, que recebeu, na pia batismal da sistemática zoológica, o nome de Plesianthropus transvaalensis. Uma outra forma fóssil, Paranthropus robustus, muito afim com o último, apresenta um tipo de mandíbula humana ou, pelo menos, que pode ser considerado como um tipo muito próximo da linha ancestral humana, que deve ter brotado do tronco primata dos últimos tempos do período Terciário (Plioceno superior). Os dentes de ambos, Plesianthropus e Paranthropus, embora tenham algumas semelhanças com os dos antropóides vivos e fósseis (Dryopithecus e outros), são realmente muito mais afins com os do homem, segundo Broom.

Gregory e Hellman, confirmando a opinião de Broom, chegaram à conclusão de que a África abrigou estão símios que tinham quase atingido a natureza humana, e que teriam sido colaterais do homem, mas não seus ascendentes, pois o ramo humano já teria surgido então do tronco comum de ambos, como resultado de uma evolução morfológica, operada nos últimos tempos do período Terciário, imediatamente anterior ao período geológico atual, isso, aproximadamente, há um milhão de anos passados. A última descoberta de Robinson em Swartkrans, Transvaal, de uma forma simiesca ainda mais aproximada do homem que as anteriores, a qual constitui bem um tipo morfologicamente transitório entre este e os símios antropóides, veio dar mais ênfase e segurança à conclusão científica da origem simiesca do homem, hoje indiscutível e francamente aceita, mesmo, pela própria Igreja Católica, como veremos, oportunamente.

O “Telanthropus” de Robinson é mais um elo intermediário que se conhece, da cadeia que teria culminado no homem ou, pelo menos, uma forma final de um grupo primata, hoje extinto, colateral do grupo humano e mais semelhante a este que ao grupo dos grandes antropóides. (5)

Tratando dos vertebrados, diz ainda o cientista patrício que eles vêm dos peixes primitivos, quase todos extintos, até o homem. A Paleontologia demonstra que a vida teve sua origem no seio das águas, sendo os peixes nossos antigos representantes. Os vertebrados só conquistaram a terra firme no período Devoniano, com os primeiros anfíbios. Os primeiros répteis, deles descendentes, datam de trezentos milhões de anos. Aí dominou o Dinossauro. Aparecem depois as aves e os mamíferos, isto já na época Mesozóica. As aves tinham dentes e cauda como os répteis. Os mamíferos surgiram do grupo reptiliano. Os mais antigos Primatas, próximos parentes dos lêmures, datam da era Cinozóica, a idade dos Mamíferos. A evolução dessa forma até o símio antropóide foi relativamente rápida. O Homem data do período Pleistoceno, isto é, de um milhão de anos. Ele não é descendente dos símios antropóides atuais, mas seu colateral. O Dryopithecus, símio antropóide do Mioceno, na Índia, é considerado como a forma de partida do ramo dos Primatas, que culminou no Homem. Fora conhecido, primeiramente, por ter sido achada na França, em 1856, por Lartet, uma mandíbula fóssil. Sua dentição lembra a do chimpanzé, do gorila e do homem.

(5) “Diário da Noite”, fevereiro de 1954.

A evolução dos seres vivos, no estado atual dos conhecimentos paleontológicos e biológicos, deixou de ser uma teoria para ser um fato comprovado. Só os ignorantes põem isto em dúvida. A evolução da vida, do mais simples aos mais complexos, o encadeamento dos seres vivos, é hoje evidente. É inegável. Houve uma fase em que o homem era tanto homem como símio; fase curta, de transição, muito restrita, portanto, a oportunidade de conservar-se como fóssil. A escassez dos elos de ligação é grande e muitos se perderam. No fim do Plioceno, há três milhões de anos, surgiu um ramo que se sub-ramificou nas formas antropóides extintas dos Australopithecus, Plesianthropus e Telanthropus. Há outros ramos, o Pitecanthropus, de Java, o Sinanthropus, da China, o Homem de Neanderthal, e finalmente nós. Em 1936, Robert Broom descobre, no Transvaal, na caverna de Sterkfontein, diversas partes de um macho adulto, com certos aspectos humanóides. Foi o Australopithecus, mais tarde chamado Plesianthropus. O famoso Pitecanthropus erectus é o homem de Gaues, descoberto por Dubois, em Java.

Ele e o Sinanthropus pekinensis, ou o homem de Pequim, são considerados tipos próximos do ponto de partida do reino humano, embora não situado em sua linha ancestral, mas apenas na sua base. Acredita-se que o Sinanthropus tivesse habilidade para fabricar instrumentos de quartzo talhado a osso, a capacidade de produzir e usar o fogo, haja vista que nas mesmas camadas de depósito em que foram encontrados, acharam-se aqueles utensílios e montes de cinza. Chega-se aos Hominídeos. Tendo encontrado, em 1907, perto de Heildeberg, uma mandíbula com caracteres indubitavelmente humanos, a que dá o nome de Homo heidelbergensis. Terr Haar descobre restos de um hominiano fóssil, num jazigo de ossos, em Java: o Homo soloensis, que se calcula tenha vivido há quarenta mil anos. O Homo rhodesienses, da caverna de Brojen Hill, data de 1921. Crê-se que represente na Ásia um tipo humano primitivo, há muito tempo extinto na Europa. O famoso Homem de Neanderthal foi descoberto em 1856 pelo alemão Fulhrott, na furna de Feldhofer, e vários restos em diferentes lugares. Esses primitivos, de características bestiais, ainda são colaterais nossos. Existem, porém, ascendentes diretos do primitivo Homo sapiens.

Três raças distintas marcam a aurora da História da Humanidade: as de Grimaldi, Cro-Magnon e Chancelade; homens da Idade da Rena ou do Pleistoceno superior mostram já certo desenvolvimento cultural e intelectual. Interessante característico na última raça é que, nos pés, o dedo grande afasta-se notavelmente dos outros, como nos símios. Pio XII, na encíclica Do Gênero Humano, afirma que o magistério da Igreja não proíbe que a doutrina da evolução seja objeto de pesquisas, no que diz respeito à origem do corpo humano, que pode ser admitido como originário da matéria orgânica preexistente. Ao Papa juntam-se Monsenhor Ernesto Pisoni, Teilhard de Chardin e Vittorio Marcozzi, este jesuíta e cientista, no afirmarem a não incompatibilidade da teoria evolucionista com o corpo da teoria da Igreja.

Para Monsenhor Pisoni não há provas seguras da origem do corpo humano; não faltam, porém, indícios e motivos, diz ele, para supor uma origem símia: as grandes semelhanças entre os macacos superiores e o homem; o sangue do chimpanzé pode ser transfundido no homem; os espermatozóides de um e outro são idênticos; enxertos de macacos superiores estão no domínio da Cirurgia; há a coincidência da aparição do homem com a dos antropóides, a afinidade anatômica, e por aí além.

Em suma, declara o Autor: - Mostramos que no estado atual dos conhecimentos paleontológicos e biológicos, a teoria da evolução não pode mais ser negada, nem posta em dúvida. Já ultrapassou a fase de pura teoria para atingir a de fato comprovado. O homem, o mais evoluído de todos os primatas, representa o ponto final de uma das cadeias evolutivas do reino animal, a do vertebrado em geral, a dos mamíferos em particular. (6)

O que aí fica como intróito à evolução da alma é o pé em que se acha a questão. A nossa verdadeira tese é a do progresso anímico, através das vidas sucessivas. Esta é que pretendemos demonstrar, assim Deus nos ajude.

(6) “Diário da Noite”, fevereiro de 1954.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.