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Capítulo 39 de 65

A Reencarnação na Inglaterra

A Evolução · Carlos Imbassahy

Resta-nos tratar da divergência do ensino dos Espíritos quanto à reencarnação. Diznos S. Rvma.: Os anglo-saxões, em geral, não a aceitam. É o que se dá nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mesmo outros espíritas renegam o absurdo... O mais interessante é que quem ensina a esses espíritas que não se dá a reencarnação são os mesmos espíritos que ensinam aos outros que ela é uma necessidade. É mais uma das numerosas contradições dos tais espíritos.

Os Espíritos que ensinam que não se dá a reencarnação não são os mesmos que ensinam que ela é uma necessidade. Os que dizem ou disseram que o sol era menor que o Peloponeso não são os mesmos que ensinam que ele é um pouco mais de um milhão e trezentas mil vezes maior que a Terra. Os que nos afirmam que a alma e o corpo formam uma unidade ou uma substância, ou que a individualidade é o corpo, ou que no corpo residem as faculdades da alma, esses não são os mesmos que escalpelam o corpo e ali só encontram os elementos anatômicos, ou que sondam a alma e nada vêem dos órgãos materiais. Os que dizem que não há reencarnação não passam de Espíritos desconhecedores do caso.

Estão fartos de saber os que entendem um pouco do assunto que os Espíritos que povoam o Espaço são os mesmos que povoaram a Terra, o que quer dizer que não podiam estar mais adiantados, nem se poderiam esclarecer de salto; conseqüentemente, haveriam de manter as mesmas idéias com que se foram deste mundo, e tal é o caso entre ingleses e norte-americanos. De maneira que, quando eles supõem que não há reencarnação, não fazem mais do que transmitir as idéias que possuíam. Eles não dizem o que sabem, porque pouco sabem, ou não sabem nada. Refletem, apenas, o que lhes parece. Se, em vez de tirarmos as nossas deduções de acordo com os nossos sentimentos, mais ou menos apaixonados, fôssemos buscá-los no estudo dos fatos, veríamos que os grandes médiuns da Inglaterra e as grandes obras desse país, ou se calam diante do problema, para não perturbarem os ouvintes, ou se manifestam francamente pela Palingenesia.

Quando nos queremos inteirar de qualquer verdade científica, não as vamos procurar entre os incultos ou os que deram provas dessa incultura, mas entre os que são tidos como conhecedores daquilo que estamos pesquisando. Os que, portanto, dão provas de conhecimento, critério e caráter, os que ditam obras notáveis, os que manifestam em suas mensagens profundo saber, estes são os Espíritos dignos de fé e nestes é que nos procuramos estribar; suas obras é que merecem acolhida, e é com elas que vamos demonstrar o desacerto dos que vêem nas discordâncias dos Espíritos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos a negação da doutrina das vidas sucessivas. Daremos, apenas, alguns exemplos, que os limites deste capítulo não comportariam uma investigação mais prolongada. Principiemos por nos reportarmos ao interessante estudo de Ernesto Bozzano, como todos os que saíram de sua extraordinária pena, digna do maior apreço. Ernesto Bozzano, que possuía um arquivo formado à custa de muito trabalho, muita paciência e muito tempo, achava-se perfeitamente apto a tratar do assunto e a documentálo como o fez. Revendo a sua extensa coleção de fatos, episódios, relatos, mensagens e

livros, chega à conclusão de que a suposta divergência não tem elemento sério que a comprove. As principais comunicações medianímicas recebidas na Inglaterra, os mais importantes livros contendo mensagens do Além, ou evitam o assunto, por não ferir susceptibilidades, ou são francamente reencarnacionistas. As negações, em regra, partem de fontes duvidosas ou são provenientes das idéias do médium. Ernesto Bozzano principia por afirmar que existe entre os anglo-americanos uma invencível aversão de raça, e há médiuns que chegam a revoltar-se quando recebem mensagens, ainda que tímidas, a favor da reencarnação. A análise comparada – elucida o filósofo, - aplicada a grande número de mensagens, concernentes à reencarnação, mostra-nos que as personalidades comunicantes estão de acordo neste ponto: - que nos primeiros graus da existência espiritual o Espírito nada sabe acerca de seus destinos futuros; que nesses graus assiste-se à desaparição de almas que chegaram à maturidade espiritual, e cuja sorte se ignora, tal como acontece na Terra com a morte.

Não se poderia dizer, portanto, se elas passam através de planos espirituais ou se realizam as fases da reencarnação. Dessa ignorância de certos Espíritos surgem as explicações de acordo com suas convicções particulares. O mesmo já não acontece com os Espíritos superiores, que deixaram dessa superioridade indeléveis traços em obras afamadas. Assim, por exemplo, os “Ensinos Espiritualistas” (Spirit Teachings) do Reverendo William Stainton Moses; a preciosa obra de William Stead, “Cartas de Júlia” (Letters from Julia); o severo e profundo volume de Sarah Underwood, “Escrita automática ou dos Espíritos” (Automatic, or Spirit Writing) e uma série de comunicações muito elevadas da médium, oposta aliás, à hipótese reencarnacionista, que tinha o título de “Cartas do Outro Mundo” (Letters from the Other World). Nota-se, diz ainda Ernesto Bozzano, que as personalidades medianímicas respondem, às vezes, de maneira evasiva às questões sobre a reencarnação; acontece, entretanto que, na espontaneidade das comunicações, entram incidentemente no assunto e, quase sem perceberem, exprimem-se no sentido afirmativo. Imperator assim diz:

Falávamos do destino da alma e dizíamos que ela, desencaminhada, sendo indestrutível por natureza, deveria reencarnar. Após o naufrágio de uma prova, força é uma oportunidade de progredir. (Spirit Teach, póstumos).

A personalidade de Lord Carlington dizia pela mediunidade de Russell Davis:

Há segredos espirituais que não se podem divulgar nem compreender através da vida encarnada... O Espírito reencarna-se em existências inumeráveis, desde as origens do tempo, elevando-se sempre, sem nunca voltar atrás. Cada encarnação lhe serve para evolver, consertar, preparar a forma adotada, e assim por diante. (Light, 1906).

Júlia ensina pela mediunidade de William Stead:

É necessário que a alma passe através das formas da vida física; é uma parte do processo por meio do qual atinge sua finalidade evolutiva; pode ter encarnado precedentemente; esta lei é absoluta, mas infinitamente variada. (Letters, 161)

William Stead envia a Bozzano várias mensagens recebidas por aquela entidade espiritual. Numa delas diz a entidade a Stead:

O segmento encarnado de vossa personalidade já experimentou múltiplas encarnações.

Sarah Underwood, apresentando as extraordinárias comunicações que recebera, fálas preceder de uma explicação:

Sucede muitas vezes que a inteligência que guia a minha mão exprime juízos e afirma coisas absolutamente contrárias à minha convicção. Antes dessas experiências, eu perdera a fé na sobrevivência da alma, e por conseqüência não acreditava em comunicações espíritas, até o dia em que fui obrigada a mudar de opinião em vista do que a minha mão escrevia. Obtinha, por vezes, mensagens com idéias que revoltavam os meus sentimentos. Assim, por exemplo, aquelas em que se afirmava a teoria da reencarnação...

Bozzano finaliza a sua probante exposição com as seguintes considerações:

O que expus basta para mostrar que as inteligências de ordem elevada que se comunicam por médiuns anglo-americanos não contradizem a doutrina da reencarnação enunciada pelos médiuns celto-latinos, senão que a confirmam, com a diferença de que se mostram muito mais reservados nesse ponto; e isso necessariamente por causa da aversão experimentada pelos anglo-americanos por essa doutrina. A verificação desse fato reveste importância decisiva e basta para abalar qualquer acusação sobre as contradições reencarnacionistas. Ela constitui, com efeito, a condição necessária e única para provar as minhas afirmações. A maior parte das outras pretendidas contradições devem, indubitavelmente, ser atribuídas a interferências subconscientes, à imperfeição do instrumento medianímico, combinada com a inexperiência dos que o empregam, e à circunstância de que não há nada que impeça os Espíritos de responderem conforme suas impressões pessoais ou mesmo conforme as opiniões alheias, a fim de não contrariarem os experimentadores em assuntos julgados prematuros para a humanidade.

Ernesto Bozzano respondia ao Professor Morselli, em monografia que temos vertida para o português pela pena hábil de Guillon Ribeiro. Voltado a essas considerações pela Révue Spirite, diz-nos o escritor italiano:

Tal era a parte essencial de minha resposta ao Professor Morselli, no que toca à reencarnação. Essa resposta teve como resultado inverter o papel dos adversários, isto é, depois de acusar injustamente os espíritas de conservar o mais absoluto mutismo sobre as contradições reencarnacionistas, foi o meu contraditor que achou de ser calar para sempre. (C’est mon contradicteur qui a dú se taire à jamais). (83)

Poderíamos ir muito longe se nos propuséssemos a apresentar aqui a infinidade de mensagens de origem inglesa, que tratam da reencarnação. Mas é vasto o assunto a encarar e limitadas as páginas a escrever. Lembraremos, entretanto, um livro escrito pela senhora Dawson Scott. ________________ 83) Ernesto Bozzano – A propos de révélations transcendentales, Revue Spirite, abril a julho de 1927.

Pergunta ela ao defunto marido: - “Lembra-se de já ter vivido outras vezes na Terra?” Responde ele: - “Há muita coisa que ignoro. Notarei, entretanto, que sempre experimentei um sentimento de afinidade pelo meio oriental. Nada pode existir sem uma causa que a explique...” Um dos espíritos comunicantes, Henry Lawry, declarava: - À medida que os Espíritos progridem, despojam-se de seus preconceitos inibitórios, mas embora tenhamos chegado a um grau notável de evolução, apenas demos um passo no caminho assinalado por nossa longa viagem. E como lhe perguntassem que longa viagem era essa, declarou “que tinha a sensação de já haver vivido outras vezes”. E acrescentou: - “É talvez uma verdade o que aqui nos dizem – que já vivemos em alguma parte...” (84)

Convém não deixemos esquecido o trabalho medianímico de origem inglesa, provavelmente um dos mais importantes, senão o mais importante de quantos têm sido ditados na Grã-Bretanha. Foi ele recebido pela incomparável médium Rosemary, por quem se apresentava o Espírito com o nome de Lady Nona; esse Espírito surpreendeu os egiptólogos da Grã-Bretanha com as suas revelações sobre o Antigo Egito. Lady Nona se dizia antiga esposa do faraó Amenhotep III, e não só falava aquele antiqüíssimo idioma, como fez várias retificações, deu extraordinárias explicações, esclareceu a pronúncia, revelou a decifração de inscrições e frases que o tempo tornara ilegíveis e descreveu usos e costumes daquela recuada época. Pois Lady Nona afirmou a verdade das vidas sucessivas. Frederico Hood, um dos sábios orientalistas a cujas experiências e observações a médium esteve submetida, indagou como era a vida no mundo dos Espíritos. Respondeu ela que alguns ficam em recreio, repouso ou estudo; outros em desenvolvimento; outros experimentam uma existência igual à da Terra. Há Espíritos que levam muito tempo a recuperar-se; outros viajarão para instruir-se, até o momento da próxima encarnação.

É impossível a qualquer espírito – afirma – passar, de salto, de um estado inferior ao mais elevado. Todos os que vêm daí devem repousar durante certo tempo, até que o corpo etéreo fique ajustado à nova esfera. O germe de vossa velha idéia do Purgatório é justa, posto que a palavra seja inexata em sua aplicação. Quando um Espírito fica muito tempo afastado da Terra, ele sente necessidade de voltar. Todos devem passar pelo estágio físico, depois de um estágio próximo ao vosso plano; é aí que o corpo etéreo se fortifica. Depois da encarnação, ele se vai destacando à medida que o ser alcança estados mais elevados.

O sábio perguntou: - Que é que sucede no momento da reencarnação?

Há um momento, no curso do progresso espiritual, em que o Espírito não pode ir mais longe. Ele esbarra em um obstáculo que só pode ser afastado por uma experiência terrestre. Volta, então, sobre seus passos para reencarnar. (85) _______________

(84) Mrs. Dawson Scott – From Four who are Dead. (Mensagens de Quatro Mortos), pág. 138. (85) Light – Londres, 14 de fevereiro de 1935.

O Espírito prolonga-se em instrutiva dissertação, que é a confirmação do que já nos têm dito outras entidades e, sobretudo, o que ensinam os Espíritos na obra de Allan Kardec. O que aí fica, porém, já basta para o que desejamos demonstrar. Uma revista científica alemã, em um estudo sob a assinatura do General Peter, informa, ainda a respeito de Lady Nona, que esse Espírito dizia lembrar-se perfeitamente de três vidas anteriores, havendo fornecido um material probatório, raramente ultrapassado. Diante das provas, o General Peter e o Dr. Wood, ambos até então refratários à doutrina das vidas sucessivas, acabaram aceitando, para certas almas, a volta ao nosso globo. (86) Em “Mensagens do Invisível”, obra medianímica também de grande repercussão nas Ilhas Britânicas, encontram-se trechos de grande valor para a tese reencarnacionista. O que damos abaixo serve de exemplo:

Coisa singular! Conquanto à minha chegada no mundo espiritual, tudo o que nele existe me haja parecido tão maravilhoso, experimentei logo a sensação de me encontrar outra vez num meio que não era novo para mim. Exprimi esta impressão aos meus companheiros espirituais e eles, então, me informaram que eu recuperaria gradualmente a lembrança de acontecimentos pessoais que se estendem muito para além de minha última existência terrestre, abrangendo recordações de um tempo em que habitei o mundo espiritual, que é a nossa verdadeira morada. Começo, com efeito, a lembrar-me... Não desejo entrar em longa dissertação sobre este tema, mas, bom é que diga o que daí resulta para mim a tal respeito. É que meus filhos, assim como outros Espíritos com os quais tenho tido ensejo de falar deste assunto, me informaram que se lembravam claramente de todas as existências que viveram na Terra. Eu mesma principio a recordar-me das fases de existências encarnadas, anteriores à de onde vim ultimamente... (87)

Quando ainda não estávamos enfronhado nos estudos psíquicos, tivemos a desdita de perder, na flor da idade, um distinto amigo e colega, Adolfo do Amaral Ornelas, poeta primoroso e uma das grandes esperanças de sua geração. João Carneiro da Fontoura, médium sem o saber e sem o querer, também escritor de pulso e autor de várias obras, recebeu espontaneamente, uma bela mensagem de Ornelas, onde este dizia achar-se numa espécie de região encantada, tendo passado por estradas que perlustrara outrora, antes de sua encarnação, espécie de paraíso perdido, provavelmente por suas falhas terrenas. Ei-lo que enfim voltava à sua morada espiritual. Não o chorassem, antes o louvassem por sua libertação. Este breve trecho, como que intermezzo em nossa demonstração, aqui o intercalamos, simplesmente, por mostrar que, em certos pontos, muito se assemelham as comunicações do Além, apesar de extraídas por pessoas que não se conhecem, que nada conhecem da doutrina, e que se acham em pontos afastados na Terra.

Conta a Revue Spirite que Joseph S. Edgar, em Nova York, pela voz direta, teve a sorte de conhecer seis de suas vidas, que teria vivido no Egito, em Roma, na Arábia... (88) Vejamos agora um exemplo de recordações do passado: ________________

(86) Zeitschrift fuer Seelenleben, Berlim, 1935, págs. 129-140. (87) Messages from the Unseen – Apud E. Bozzano, A Crise da Morte, Trad. Guillon Ribeiro, 2a ed. Pág. 109. (88) Révue Spirite, 1929, pág. 316.

Narra uma senhora: Eu e meu marido levávamos nossa filha à herdade, que não revíamos desde que ela nasceu. Imagine-se o nosso espanto quando, trazendo-a ali pela primeira vez, ela nos diz: - Vamos atravessar o bosque e chegar ao riacho. – Partimos. Ela indicou o caminho sem a menor hesitação, distinguiu uma velha árvore, sentou-se ao pé do tronco e declarou: - É aqui que eu gostava de divertir-me antigamente. O caso se passa na Inglaterra. (89) Por ser caso vulgar, de sabor histórico, e porque foi muito divulgado e comentado na imprensa inglesa, transcrevamos este interessante e curioso incidente:

Durante a projeção do filme “A Rosa dos Tudors”, num cinema de Liverpool, produziu-se um fato que provocou uma grande estupefação no público inglês e nos jornais ingleses. Estava-se na cena de execução de Lady Jane Grey, em 1554. A rainha ajoelhava-se diante do cepo, e o carrasco, comovido, inclina-se diante da jovem e lhe pede: - Quer perdoar-me? – Ela responde: - De boa vontade. Então, das primeiras filas da sala, ouve-se um grande grito: - Não! É completamente falso! Eu o sei, eu estava lá!... Uma jovem tinha-se dirigido, pálida como se estivesse morta, para a tela, e desmaiou. Os empregados do cinema transportaram-na, desfalecida, para o vestiário, em meio à indescritível agitação dos espectadores, que deixavam suas cadeiras. Levaram-na para casa; quando se reanimou disse que se lembrava perfeitamente de ter vivido ao tempo dos Tudors. Um poder mágico a levara ao cinema e, diante do filme, viera-lhe à consciência que fora dama na corte de Lady Jane Grey. Ela recordava-se da execução, a qual, em muitos pontos, diferia inteiramente da versão adotada pelo filme.

Lady não estava assim resoluta e calma, quando subiu ao cadafalso; tinha, pelo contrário, chorado e se comportado como uma histérica. Um jovem ajoelharase diante dela e lhe chamou pelo nome. O povo não se conservou calmo, como na fita, mas, ao contrário, havia um indescritível tohu-bahu; os espectadores de trás da multidão tentaram saltar por cima dos que estavam na frente. Nos primeiros degraus do cadafalso, Jane chorava. Em seguida cortaram-lhe os cabelos, junto ao pescoço, o que o filme não representava. (90)

O caso suscitou na Grã-Bretanha, especialmente nos meios psíquicos, o maior interesse. Quanto à moça, trata-se de uma irlandesa, cuja família, através dos séculos, passa por ter o dom da segunda vista. Como se lê, na terra onde se diz são os espíritas contrários à reencarnação, uma jovem, em plena sessão pública, declara ter estado presente à execução da infortunada Jane Grey. É fácil a um estudioso de questões psíquicas perceber a razão do fluxo mnemônico. A cena era trágica, era comovente. A intensidade dramática produziu o abalo psíquico e o episódio, que devia existir como uma ferida mal sarada na alma da sensitiva, aflorou naquele instante, desprendido das profundas camadas do subconsciente para a periferia do ser. As grandes ranhuras produzidas no Espírito por um acontecimento de certa intensidade, podem provocar essas recordações espontâneas, verdadeiras erupções do nosso íntimo, as quais costumam povoar também os nossos sonhos, aparecer em nossas visões, surgir em nossa mente, sem que, dados os nossos fracos conhecimentos, os possamos traduzir. ______________ (89) Light, Londres, 1937, pág. 567. (90) Zeitschrift fuer metapsychische Forschung, 1936, págs. 181. – Revue Spirite, 1936, pág. 505.

Registremos, agora, a opinião de acatados escritores e renomeados sábios: Conan Doyle, o afamado novelista inglês, e em matéria de Espiritismo, um dos seus maiores e melhores defensores na Inglaterra, nos diz na “História do Espiritualismo”:

On the whole it seems to the author that balance of evidence shows reincarnation is a fact, but not necessarily a universal one.

A tradição é a seguinte:

Em suma, parece ao Autor que o balanço das provas mostra que a reencarnação é um fato, embora não um fato indispensavelmente geral. (91)

Como se vê, o grande estudioso e meticuloso observador, como o demonstra em todos os seus trabalhos, verificou que a evidência estava ao lado da reencarnação. Fez mais ainda: chegou a mostrar os erros graves contidos nas objeções de alguns reencarnacionistas. Assim é que para G. Howit a reencarnação não parecia um fato, porque milhões de Espíritos, ao entrarem no Outro Mundo, encontram seus parentes. E Conan Doyle replica: - Ele se esquece que a reencarnação não é imediata: - “Mr. Howitt, however, in his vehemence, forgets that there may be a time limit before the next incarnation takes place”. Poderia, ainda, lembrar ao opositor que não é verdade o que ele afirma; estamos fartos de lidar com Espíritos que nunca encontraram parente nenhum. Esse encontro depende também da prova ou do merecimento do ser recém-desencarnado. Salvo se esse extraordinário acontecimento de toparem logo os mortos com toda a sua parentela é privilégio britânico. Sir William Barrett chama a reencarnação de princípio divino da alma e declara:

Os fenômenos transcendentes que acabamos de estudar, longe de excluí-lo, pressupõem o princípio divino da alma.

E acrescenta: Muitos crêem, com o erudito e devoto Henry More, com outros platônicos e eminentes pensadores modernos, como o Dr. J. Ellis Mc Taggart, que a sobrevivência implica a existência pré-natal. Nesse caso, como diz Massey, toda a concepção da imortalidade se transforma, se encaramos a consciência como limitação temporária de um eu maior, em uma espécie de fruto de muitas estações da vida terrena.

Esclarece as dúvidas existentes, dizendo:

Opõem à idéia da reencarnação, o esquecimento total de nossas existências passadas, mas isto pode ser que não passe de um eclipse temporário.

A reencarnação está na ordem do dia – assegura ainda – e justifica a intromissão da matéria no seu livro: Toda a questão do Espiritismo está de tal forma ligada à da escatologia, destino e natureza do homem, que nos aventuramos a encarar o assunto. (92) _______________ (91) Arthur Conan Doyle – The History of Spiritualism, 1926, II, pág. 179. (92) In the Theshold of the Unseen – Na trad. Francesa – Au seuil de l’invisible, 1923, págs. 212-217.

Deve ser lembrado um livro publicado na Grã-Bretanha sobre “Reencarnação” pelo conhecido escritor Ralph Shirley. Ele nos apresenta extenso rol de autores reencarnacionistas, dentro e fora do país, e entre estes Goethe, Huxley, Lessing, Herder, Carl du Prel, Nietzsche, Schopenhauer, Dr. John Mc. Taggart, Geley e outros. Por seu turno, George Dottin, em “As Literaturas Célticas”, mostra a importância da reencarnação na história da literatura britânica e relata circunstanciadamente vários casos que demonstram essa doutrina. Para terminar, reportemo-nos a vivo debate sobre a reencarnação, realizado em Londres, em Grotriam Hall. Assim o descreve a Light:

Realizou-se ontem interessante debate sobre as vidas sucessivas. Os controversistas (the debaters) eram o Capitão E. J. Langford, a favor, e James Leigh contra. Posto que nenhum voto fosse tomado, ficou patente que a maioria da audiência era a favor da reencarnação. Presidiu à sessão o Sr. St. Clair Stobart, e havia uma grande assistência. (Although no vote was taken was obvious that the majority of the audience favoured the acceptance of reincarnation). (93)

Pode-se ver ainda que não existe animosidade, nem irreconciliabilidade, nem questão fechada por parte dos não reencarnacionistas, falando de modo geral. É exemplo o que nos conta a Revue Spirite:

Supunha-se que entre as questões que poderiam provocar objeções no recente Congresso Espírita Internacional, a reencarnação se encontraria em primeira linha. Se os espíritas franceses e os de raça latina são unânimes em reconhecer o princípio, os amigos anglo-saxões pareciam um tanto divididos, e esperavam-se as discussões nesse ponto. Ora, não houve nada disso, e as conclusões foram fáceis de estabelecer. Não obstante, os nossos contraditores continuam a pretender que falta unidade ao ensino dos Espíritos. (94)

Depois do que aqui apontamos, já apresentando as mensagens dos maiores e mais afamados médiuns da Grã-Bretanha, já trazendo cenas empolgantes e verdadeiramente dramáticas, já transcrevendo a opinião de acatados vultos britânicos, já lembrando o resultado de memoráveis debates, vemos que os espíritas estão no direito de duvidar das supostas divergências anglo-saxônias, e de afirmar que, por parte dos Espíritos que sabem o que dizem, não há divergência nenhuma. Os nossos antagonistas têm apenas por si a plebe do Espaço, ou as mensagens saídas diretamente da cabeça do indivíduo, que seriam tão dignas de fé como as das reuniões de pessoas desconhecidas do mediunismo, onde o que vem do Alto é pueril e contraditório, ou aquelas em que a manifestação é visível e insofismavelmente anímica, isto é, provém do próprio ser encarnado, embora esteja ele de boa-fé.

Não há dúvida que é difícil discriminar as más das boas mensagens, como ajuizar com segurança, quando não há prática, conhecimento ou critério, como também é difícil emitir opinião sobre tão complexa matéria, quando, em vez da elevação pelo estudo, o que existe é somente a paixão por espírito sectário. Isto, porém, não exclui o que há de bom, o que há de sério, o que há de probante e provado. ________________ (93) Light, 13 de fevereiro de 1936. (94) Revue Spirite, fevereiro de 1926, pág. 49.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.