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Capítulo 50 de 65

Identificação do Espírito

A Evolução · Carlos Imbassahy

Gabriel Delanne publica-o, extraído do Spiritualistische Blatter: “Devemos ao Conselheiro S., de quem recebemos uma visita, interessante narrativa, que teve a gentileza de comunicar-nos. Circunstâncias que infelizmente ainda se nos apresentam, impedem-nos de dar os nomes à publicidade; mas, para obviar a esse inconveniente, submetemos a quatro pessoas o protocolo da sessão, o relatório das autoridades e outros documentos, e esses senhores atestam, com suas assinaturas, o episódio seguinte:

Na pequena cidade de G., três senhores se colocavam na noite de 2-8-1882 em torno de uma mesa para experimentar a obtenção dos fenômenos das pancadas e movimentos da mesma. Logo um Espírito se manifestou e estabeleceu-se o seguinte diálogo: Quem está aí? – Um alfaiate esmagado. – Como assim? – Um trem me passou por cima. – Quando? – Há três anos. – Onde? – Unterbarmen. – Em que dia? – 29 de agosto de 1879. – Seu nome? – Siegwart Lekebusch. – Seu domicílio? – Barmen. – Seus parentes ainda vivem? – Sim. – Em que idade morreu? – Dezessete anos. – Era patrão ou operário? – Aprendiz. – É feliz? – Sou. – Devemos comunicar isto a seus pais? – Não. Não crêem na sobrevivência; e iriam ridicularizá-los. – Como se deu o acidente? – Queria visitar uns parentes em Auerstrasse, que fica em Unterbarmen; seguindo a estrada e tendo a cabeça baixa, não vi a chegada do trem; era de noite, fui esmagado. – Em que se ocupa? – Não lhe posso descrever meu trabalho. A conversa prolongou-se. Os senhores presentes, surpreendidos, resolveram tomar informações.

Assim, K. escreveu no dia seguinte à Prefeitura de Barmen, e a 17 de agosto de 1882 recebia a seguinte resposta: Tenho a honra de informar-lhe que, segundo o que aqui se acha registrado, o aprendiz de alfaiate Siegwart Lekesbusch, de dezessete anos, foi apanhado a 26 de agosto de 1879 por um trem da linha de la Marche e esmagado nas vizinhanças da estação de Unterbarmen. A causa do acidente é atribuída a ter ele indevidamente circulado pela via férrea. Os informes oficiais coincidiam com as comunicações que nos haviam sido feitas; só restava um ponto a verificar: a existência de uma Auerstrasse. M. E. dirigiu-se por isso à redação da Reinisch Westhal Post, em Barmen, solicitando os possíveis pormenores sobre o incidente. Foi esta a resposta: Nada mais poderemos acrescentar ao que já foi dito em nossa comunicação de 28 de agosto de 1879, a não ser que existe a Auerstrasse em Unterbarmen”.

Essa observação como as precedentes reúne as condições necessárias para demonstrar a existência dos Espíritos – acrescenta Delanne – porque ninguém ali conhecia Unterbarmen; com mais forte razão ignoravam a Auerstrasse e sobretudo que houvesse um aprendiz de alfaiate esmagado por um trem três anos antes. O jornal prossegue:

M. S. desejou que os fatos fossem inseridos apenas aqui, e que não publicassem os nomes dos que tomaram parte da sessão. Esta é a razão por que, a pedido de Spiritualische Blatter, deixamos assinadas, quer as atas, onde são designadas as pessoas e os lugares, quer os documentos oficiais, declarando a perfeita exatidão de tudo que aqui se acha. A. W. Sellin; Ludw Tischer; Carl Baumann; C. E. Noessler. (216) ________________

(216) Spiritualistiche Blatter, Berlim, 11-1-1883. – Gabriel Delanne – Le Phénomène Spirite, Paris, 1909, pág. 98.

O fenômeno em que o Espírito se identifica ou aquele em que o morto se apresenta dando inegáveis provas de sua presença, multiplicam-se nos Anais do Psiquismo. Tomemos um exemplo em que os autores, relatores e testemunhas são personalidades altamente classificadas na Sociedade em que se produziram. O caso da mediunidade da jovem Laura Edmonds, apesar de um tanto conhecido, merece entretanto ser apresentado pelas provas de que se reveste. É seu relator o Juiz John Edmonds, que foi Presidente do Senado Americano e membro (Chief justice) da Suprema Corte. Laura é sua filha. Católica fervorosa, tinha sido educada nos princípios da Igreja, um dos quais lhe mandava fugisse do Espiritismo, como prática cheia de erros e demoníaca, o que ela procurava seguir à risca. Seu pai, o magistrado, era cético. Não poderia, pois, haver ambiente menos favorável a manifestações do Além. Mas a moça, apesar do horror que tinha aos Espíritos, começou a denunciar sintomas medianímicos; a casa onde morava se tornou “mal-assombrada”.

Não eram só ruídos que se ouviam, ou móveis que se deslocavam: os fenômenos tinham caráter humano: dir-se-iam guiados por uma inteligência. Seguiam-se outros fenômenos, onde se tornou patente a presença de Espíritos. Certa vez, foram à casa do Juiz vários poloneses. Laura falou-lhes no idioma deles e de coisas do seu país, sem nada conhecer da Polônia e muito menos de polonês. Escrevia automaticamente e usava línguas que lhe eram inteiramente estranhas, fato curiosíssimo, porquanto só conhecia a língua materna e a francesa. Passaremos de alto pelos fatos de menor vulto para relatar o caso Evangelides. Apareceu em casa do Juiz uma alta personalidade grega, de nome Evangelides. Em meio à palestra, a jovem entrou a discorrer em grego; os assuntos pareciam interessar o visitante, que apresentou sinais de admiração, espanto depois, e finalmente, empalideceu e começou a chorar. Os circunstantes, uns dez pelo menos, apesar de altas personalidades no meio social e político norte-americano, nada entendiam do que se passava, por não saberem grego.

Mais tarde é que o visitante contou que estabelecera palestra em grego, versando diversos assuntos; assim é que ventilou, sucessivamente, questões políticas, filosóficas, fisiológicas, e por último, particulares. Foi aí que ela lhe disse que seu filho tinha falecido na Grécia. O interlocutor, ou o informante do Espaço, era o antigo patriota grego Marco Bozarris. Dessa informação é que resultou a sua intensa perturbação. O falecimento do moço lhe foi comunicado pouco tempo depois. (217) Da crônica de Isidoro Duarte Santos, em Estudos Psíquicos extraímos, ainda como uma prova de identidade, o seguinte episódio do jornal Survie, que resumimos:

Trata-se de uma carta do Sr. Jacques Cordier, de Masnières, dirigida em 20 de dezembro de 1946 ao Presidente do Lar Espiritualista de Douai. Fora da nossa reunião de 17 de novembro de 1946 – escreve o Sr. Jacques – entreguei a minha carteira a Madame Richard, sem nada lhe dizer. Eis o que ela me declarou na presença de numerosas testemunhas e depois de ter rapidamente examinado o objeto: - Esta carteira é sua e foi-lhe roubada há pouco tempo.

(217) Aksakof – Animismo e Espiritismo, 1903, págs. 381, 450. – O Espiritismo Americano – Pesquisas do Juiz Edmonds (em alemão). New York Tribune – Spiritual Tracts, n. 10. 1859, Gully. – Spiritual Magazine, 1871, pág. 239.

- Uma pessoa que conheceu o Sr. muito bem, um homem falecido há bem pouco (dois ou três dias) influenciou o ladrão e provocou o remorso que o levou a destruir o dinheiro e impediu a destruição dessa carteira. - É um homem novo, alto, magro, rosto comprido, que trabalha muito perto do senhor. Reconhecê-lo-ei facilmente, se vir a fotografia. Quem protegeu o Sr. é um indivíduo que, não tendo qualquer parentesco com o ladrão, é muito parecido com ele, embora mais idoso. Insisto no ponto, segundo o qual o indivíduo que teria influenciado o gatuno faleceu pouco antes do roubo ter sido cometido. E, munido destes preciosos ensinamentos, é fácil de adivinhar a espécie de explicações que no dia seguinte tive com o jovem B. C. Envergonhado e confundido com tantos pormenores, confessou o seu delito. Perguntado, declarou-me que, na verdade, o roubo fora cometido na quintafeira às dezesseis horas e que, não lhe sendo possível utilizar o dinheiro escondido, o queimara impelido pelo remorso, na intenção de destruir a carteira. Quando voltei a casa, informaram-me da personalidade do meu invisível protetor.

Eis o que me disseram: Na quinta-feira, 14, às dezesseis horas, faleceu em Masnières, onde residia, o Sr. G. A., Caixa reformado da oficina onde eu estava empregado e com quem tinha relações de amizade. Homem de integridade absoluta, e que, devido às suas antigas funções, considerava o dinheiro... dos outros como coisa sagrada. Os seus sinais característicos físicos correspondem absolutamente à descrição da médium. Furioso com a ação praticada pelo jovem B. C., mesmo do Além o influenciou. Devo-lhe, pois, a solução favorável deste caso. O Secretário-Geral da União Espírita Francesa, Georges Gonzalès, esteve em Douai no mês de dezembro de 1947 e viu o Sr. Jacques Cordier, que lhe falou da carteira encontrada, em virtude da mediunidade de Madame Lucile Richard. (218)

Dir-se-ia que os mortos, ou calculadamente, ou acidentalmente, usam vários processos para provar a sobrevivência e demonstrarem aos vivos, e sobretudo aos malinformados, a inanidade de suas doutrinas, fora das verdadeiras causas do fenômeno.

Stainton Moses escrevia automaticamente, em estado normal. Para convencer-se de que estava sob a influência de um Espírito, pediu ao interlocutor invisível que lhe desse uma prova. Este ditou um trecho e indicou ao Reverendo o título, a página e a prateleira onde se encontrava o livro de que tinha extraído o texto. Feita a verificação viu-se que ela era exata. Stainton Moses nunca tinha visto este livro, que se achava na biblioteca de seu amigo, o Dr. Speer. (219) O que vamos descrever toma, na retorta psicológica, à falta de qualquer explicação, mesmo forçada, o nome de automatismo inteligente. Foi assim que o batizaram, como a outros congêneres, onde se tornou difícil meter o escalpelo e, com aquela legenda, eximiram-se do árduo e penoso trabalho de descobrir e arquitetar uma hipótese razoável. E nós aproveitamos o caso para deixar clara a nossa tese, que é a prova da existência e persistência da individualidade, mesmo após a crise da morte.

_______________ (218) Estudos psíquicos, abril de 1948, pág. 125. (219) Révue Métapsychique, 1924.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.