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Capítulo 34 de 65
A Ressurreição por Outras Faces
A Evolução · Carlos Imbassahy
Há um fato comum em Psicologia, que é tomar o indivíduo como indiscutível aquilo que é uma idéia sua particular, que é um modo seu especial de ver. É o que se dá também na esfera religiosa, e os exegetas não podem fugir à regra. Assim nos dizem:
Há a considerar dois sentidos na palavra ressurreição: a que os cristãos e os profetas operaram pouco após a morte e a que se opera muito depois, quando o corpo não mais existe.
Donde porém se originaram aqueles dois sentidos? O que nos parece certo é que eles foram aventados para ajeitar os diversos casos de ressurreição. É curial que a idéia surgisse do fenômeno. Vendo-se fantasmas com o corpo, e até com as vestes que possuíam, acreditou-se que eles se apresentassem assim para o Juízo. Daí o conceito bíblico da ressurreição. É dessa opinião Lobo Vilela, quando esclarece:
A crença da ressurreição origina-se do fenômeno da aparição dos mortos. É fácil compreender que sendo o fenômeno da morte tão evidente, a aparição do fantasma de um defunto, com um corpo de aparência física idêntica à daquele que se decompunha, reproduzindo os seus traços fisionômicos característicos, seria de molde a estabelecer a crença na ressurreição. (57)
Lembra ainda o escritor que alguns selvagens, acreditando na ressurreição em estado físico, procurassem antecipá-lo comendo os parentes antes que eles envelhecessem, para que vivessem a vida póstuma com a frescura da mocidade. Por isso o Capitão Wilkes não encontrou nas ilhas Fidji ninguém com mais de quarenta anos. (58) A explicação, porém, que nos apresentam, não se pode referir a fatos futuros. Que garantia se nos dá de que, no fim dos séculos, irão todos ser julgados nos seus corpos astrais? O que nos dizem as experiências é que o indivíduo já sofre no Espaço as conseqüências de uma vida mal vivida e tem as alegrias decorrentes de uma existência honesta. Este é o fato. É nesse fato que nos baseamos. Sobre ele há uma demonstração que só é desconhecida ou desdenhada pelos que descuidam do assunto. Esse dia de Juízo em corpo astral não só é improvável, como se acha em desacordo com tudo que se conhece a respeito de manifestações espíritas.
A divisão alvitrada em ressurretos a breve trecho ou a longo trecho foi oriunda da necessidade de explicar, de um lado, as ressurreições como as de Lázaro, do filho da viúva de Naim e do próprio Cristo; e do outro, obviar-se ao disparate da ressurreição dos corpos. Impossível aceitar a outra. Daí as duas espécies de ressurreição que nos são dadas como coisa definitiva e provada. Como conseguiram os ressuscitados e mais os que saíram dos túmulos, juntamente com o Cristo, ficar incorruptos, sem que seus corpos se decompusessem, não nos explica um biologista. E se um biologista não nos explica isto, a nós não é dado explicar nem compreender, a menos que recorramos à hipótese ectoplásmica. ________________
(57) Lobo Vilela – O Problema do Destino. (58) Ludock – Origines de la Civilisation, pág. 373.
Finalmente, para mostrar-nos o valor das Escrituras, mormente fala em ressurreição, põem-nos diante dos olhos o texto de Mateus, 22: “Errais não conhecendo as Escrituras”. Mas, conhecer as Escrituras é conhecer os erros, que lá estão. Custa a crer que o Cristo lamentasse que os saduceus não conhecessem isto, conforme o texto. É verdade que existe a Cabala; esta, porém, não existia. Os seus autores esqueceram-se de escrevê-la ao tempo do Cristo, para que se pudessem interpretar aquelas coisas hediondas em termos de bondade e de virtudes. Salvo se naquela época já se havia desenvolvido de tal ordem o poder divinitório, que se poderiam saber por antecipação os enigmas cabalísticos, enigmas que hoje não conhecemos, mesmo em plena era de tão importante livro. Acentua um dos maiores cultores do Cristianismo em nossa terra:
A autoridade suprema é Cristo e não a lei mosaica. Oito vezes, no Sermão da Montanha, contrastou a nova lei que estava proclamando com a mosaica. Confundir as duas legislações é expor-se ao perigo de uma terrível confusão espiritual. Digamos as coisas bem claramente: a lei dos cristãos não é a mosaica. (59)
Note-se, ainda, o seguinte: Se em Mateus se prescrevem as Escrituras, em João não se fez mais que proscrevê-las. Diz o Cristo: O pai que me enviou deu testemunho de mim. Jamais lhe ouvistes a voz, jamais lhe vistes a face. Em 1:18: Ninguém jamais viu a Deus.
No Velho Testamento o Pai é visto e ouvido. Elias sobe ao Céu num carro de fogo, contam as sábias escrituras. Entretanto, diz o Cristo: Ninguém jamais subiu ao Céu, salvo aquele que desceu do Céu. João, III, 13.
Ainda mais, para o Cristo, Moisés era ladrão e salteador. Provavelmente para não nomeá-lo expressamente, generalizou:
Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores. João, X, 8.
Mario Cavalcanti de Melo expôs longa série de exemplos, onde se vê que o Divino Mestre rejeitava as Escrituras, a começar pelo célebre – Olho por olho, dente por dente. (60) É portanto inútil estar a repetir-nos que “o Cristo não fazia restrições ao que lá estava registrado” nas Escrituras. Enfim, a ressurreição operada quando o corpo não mais existe seria regeneração, na opinião dos opositores, e estaria assim demonstrada a inópia dos que tomam os textos em questão com a significação de fases de progresso. E porque nos referíssemos à frase de Luís XIV, acoimam-nos de mentiroso. Cremos que outras não viessem confirmar a dita frase. Como saber-se qual o sentido escriturístico? Quem o disse? A quem Jesus veio explicá-lo?... Infelizmente é perigoso jogar com os versículos; nossa interpretação pode trair-nos a cada passo. Vamos a João e veremos que há os que ressurgem para a vida eterna e os que ressurgem para a condenação. (Jo. 28:29). _______________
(59) Miguel Rizo – Cristianismo Positivo, Rev. Fé e Vida, Dez. 1945, pág. 45. (60) Mário Cavalcanti de Melo – Da Bíblia aos Nossos Dias, 1955.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.