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Capítulo 46 de 65
Universalidade da Manifestação — parte 2 de 2
A Evolução · Carlos Imbassahy
É de crer que observadores, assistentes e narradores não compreendem o dislate do possessor, quando, sabendo a moça viva, diz que ela não está lá, que quem está é ele, quando o caso se explica com simplicidade: o espírito da jovem afasta-se e ele lhe tomava o lugar. É de crer, ainda, que fosse um seu antigo inimigo. Sempre com a mira posta no demônio, conta Egenhard:
Era um espetáculo extraordinário, para nós presentes, ver esse mau espírito exprimir-se pela boca dessa pobre mulher; imaginava-se ouvir duas pessoas disputarem vivamente e se injuriarem. Com efeito, havia ali duas pessoas, duas vontades diferentes; de um lado, o demônio, que queria dominar e destruir o corpo de que estava de posse, de outro, a mulher, que desejava ver-se livre do inimigo que a obsidiava. (179) ________________ (176) T. R. Oesterreich – Les Possédés, Trad. De R. Sudre, Paris, 1927, pág. 41. (177) Eschenmayer – Konflikt, pág. 4. (178) Kerner – Nachirich, pág. 31. (179) A. Maury – La Magie et l’Astrologie, 3ª edição, Paris, 1864, pág. 327.
Às vezes, aparecem uns espíritos farsantes, a julgar por um relato do Sr. Gennep. Aqui é um defunto que se apresenta e pede dramaticamente: “Não orem pelos condenados; a prece é um suplício para o inferno... é um redobrar de penas... Falo como alma condenada que sou...” E o condenado falou durante uma hora com eloqüência sombria, espantosa, triste, e com tal rapidez que era impossível escrever o que dizia. Depois continuou:
Não siga meu exemplo... Se depois de cinco milhões de milhões de milhões de séculos eu tivesse um minuto de repouso... Mas é sempre a eternidade... - Teus pais também estão condenados? - Meus pais felizmente estão aqui; porque eu os posso fazer sofrer. Muda-se a cena: é um demônio que substitui o condenado e o ameaça de duplicar os seus sofrimentos, por ter desvelado os mistérios do inferno. (180)
Necessariamente, os pios assistentes, e entre eles o piíssimo relator, saíram dali a derramar bátegas de suor frio, enquanto o pavor lhes tolheria os movimentos. E os mistificadores a dispararem em boas gargalhadas, se é que não sentiam o inferno na alma. Dannholz refere vários casos de incorporação na África Oriental. Os espíritos enganadores transmitem uma doença mpepo, que parece uma espécie de possessão. Muitos doentes falam com voz estranha, as mulheres em tom de baixo profundo e línguas desconhecidas, entre elas o inglês. A pedido, o Espírito conta, por vezes, a história de sua vida, vangloria-se de ações más, profere palavras das mais obscenas... (181) Parece, diz Junod, que os viajantes da Ba-Ronga eram tomados pelos espíritos zulus. Pede-se ao Espírito dizer o nome; ele profere um nome zulu, o de um antigo chefe morto... Uma antiga possessa dizia chamar-se – Pitlekeza; ora Pitlekeza era uma espécie de bardo zulu, que percorreu a região de Delajoa, quando essa pessoa ainda era jovem. Ela estava persuadida que a alma desse indivíduo viera incorporar-se a ela... Descrevendo uma cerimônia, diz o Autor: “Depois que o Espírito declina o nome, começam então a interrogá-lo”. (182) O escritor Burckhardt informa que:
Os pagãos, os judeus e os cristãos estavam igualmente muito convencidos de que os espíritos dos mortos podiam ser conjurados. Não se trata, declara ele, como na feitiçaria dos últimos séculos, de uma crença fortemente inculcada no espírito dos homens, mas de cem declarações convincentes e provenientes de vários escritores, todos honestos e em sua maioria, ponderados e morais. (183)
Leo Africanus acredita na incorporação de Espíritos, e, pelo menos, nos conta que no Norte da África costumavam pedir aos seres manifestados que dissessem como se chamavam. (184) _______________
(180) Gennep – Archives di Psychologie, X, 1911, pág. 92. (181) J. Dannholz – Im Banne des Geisterglaubens, Leipizig, 1916, pág. 23. (182) Junod – Les Ba-Ronga, págs. 440-443. (183) J. Burckhardt – Die Zeit Konstantins, des Groszen, 2ª Ed., Leipzig, 1880, pág. 215. (184) Leo Africanus – Delle Navigazioni, Veneza, 1613.
Curtis, num estudo sobre o Oriente próximo, refere, entre vários casos, um de possessão na Síria, e cita o seguinte, relatado por Baldensperger, passado na Palestina:
Nossa vizinha foi tomada por uma forma vestida de branco... Muda de assombro, correu à casa, mas só por sinais deu a conhecer que lhe tinha sucedido algo de extraordinário. Foi procurar no próximo “sakmet” um xeque que trouxe seus livros santos, livros mágicos e que, para começar, aplicou-lhe violenta chicotada. Depois de acender o fogo, que devia durar todo o tempo, pôs-se a interrogar: - Quem és tu? O espírito respondeu pela boca da mulher: - Sou judeu. - Como vieste aqui? - Fui morto neste lugar. - Donde és? - De Nablous. - Quando foste morto? - Há doze anos. - Sai do corpo dessa mulher. - Não. - Pois bem, vou-te queimar. Depois de minhas palavras, o Espírito, numa horrível convulsão, saiu pelo dedo do pé. Extenuada, a mulher desmaiou e depois recuperou a palavra. (185)
O Dr. Mason, um bom cristão, refere o caso de um profeta convertido ao Cristianismo, que recebia Espíritos. Conta, ainda, que certo indivíduo possuía um Espírito confidente a quem pedia conselho e com quem se entretinha. Depois de ler o Evangelho, prometeu converter-se e não querer saber mais de Espíritos. Foi batizado, segui o seu caso com interesse – diz Mason – e durante vários meses conservou ele uma vida cristã irreprochável. Mas, como não há bem que sempre dure, continuou a entender-se com o Espírito; a voz, refere o transviado homem, dizia-lhe coisas agradáveis e comoventes, de quebrar o coração. Ela ensinava: - Amai-vos uns aos outros, agi honestamente, agi com justiça... Mandaram-lhe um enviado a toda pressa, a fim de salvá-lo, o que parece foi conseguido, “porque conservou todos os caracteres de um firme cristão”. (186) Tratando do Japão, confessa Oesterreich que “a crença nos Espíritos tem uma extensão extraordinária. Essa crença e a literatura que produz é tão grande, que a pesquisa deve antes queixar-se da abundância do material que de sua penúria. Um autor japonês nota “que a dificuldade de encontrar o que dizer, num artigo sobre os Espíritos, reside na vastidão da matéria.” (187) Oesterreich descrevendo a possessão em Ceilão reporta-se a Sarasin:
Em cada comunidade há um homem chamado Kapourale que tem o poder de evocar Espíritos; na cerimônia de sacrifício é ele quem convida o Yakon do defunto a vir e a aceitar o sacrifício. O Yaka fala pela boca do xamã, em linguagem de inflexões rudes e explica que prestará serviços... _______________ (185) Curtiss – Ursmitische Religion im Volksleben des heutigen Oriente, Leipzig, 1903, pág. 162. a (186) A. Lang – The making of religion, 2 ed., Londres, 1900, pág. 130. (187) Oesterreich – Veja-se, ainda, Encliclopedia of Religions and Ethics, v. 15, pág. 608.
O mesmo autor ainda diz que, além do xamã, um ou muitos parentes do morto podem ser tomados ou possuídos por ele. Seligman, conforme ainda Oesterreich, ensina que entre os Vedas, os Espíritos dos mortos são chamados Nae Yacon, e faz ampla descrição de suas manifestações. O afamado entomologista Trobenius, que estudou de perto os povos africanos, afirma-nos que é ponto importante as relações desses povos com as almas dos falecidos. Eles não só crêem nos espíritos, como estes se incorporam nos médiuns e falam por sua boca. A manifestação pode ser voluntária, por meio de evocação, ou involuntária, sendo tomado o paciente pelo Espírito, sem o chamar, e muitas vezes quando menos o deseja. (188) Na Tripolitânia são comuns as manifestações dos mortos, que se revezam, por vezes, no mesmo paciente. (189) Ouçamos, ainda, Oesterreich, que nunca é demais citar, pelo seu longo trabalho sobre as possessões:
Muito mais do que sobre as religiões africanas, estamos informados da religiosidade do arquipélago hindu. A religião dos povos que o habitam é puramente espírita. A seus olhos, o mundo é povoado de Espíritos que são capazes de penetrar imediatamente nos homens. Essa fé não ocupa um segundo plano da consciência, ela a domina. A possessão, segundo a qual o vivo entra em comércio com o mundo dos defuntos, nada tem de raro, é manifestação corrente. A crença em deuses particulares é muito inferior à crença dos Espíritos. (190)
E Mariner:
O Espírito possessor não é um presumível demônio, habitante da esfera humana, senão sempre o espírito de um morto, que, por vezes, pode chegar ao mais alto grau, no mundo do Além. O possuído imita de modo tão empolgante os gestos do defunto, que os parentes caem em pranto. (191)
O autor documenta o seu asserto com várias citações. No Pacífico, principalmente na ilha de Tonga, os sensitivos dizem-se inspirados pelos seres desencarnados. Codrington observa que em certas regiões da Melanésia, na Oceania, os Espíritos e às vezes os médiuns têm a denominação de Nopitou. Os Espíritos comunicantes tomam a voz humana; o sensitivo, que o autor chama de feiticeiro, fica inconsciente. Os nativos preparam-se para determinada empresa; consulta-se o Espírito. Um deles é tomado, espirra, treme, lança olhares terríveis, têm contorções, convulsões... Nisso, uma voz, que não é a do médium, faz-se ouvir: o Espírito aprova ou desaprova a empresa. Retirado o Espírito, o paciente sente-se esgotado. Há também manifestações de espíritos calmos, parentes dos presentes, que se identificam, que cantam, que têm boas palavras... Todo o relato é interessante. Valia a pena ler a obra toda. (192) É com pesar que nos limitamos a este trecho.
(188) Leo Trobenius – Und Afrika sprach, Berlim, 1912. (189) Tremearne – The Ban of the Bori e Hansa superstitions. (190) T. K. Oesterreich – Les Possédés. Paris, 1927, págs 329, 330. (191) J. Mariner – An Account..., pág. 108. (192) Codrington – The Melanesians, Oxford, 1891.
Clerk, autor holandês, no seu trabalho sobre a Nova Guiné, dá-nos o seguinte relato:
Coloca-se a imagem do defunto, a quem se deseja pedir um conselho, no joelho ou nas costas do médium, a fim de que a sua alma incorpore. No momento do transe, o médium começa a tremer. Estimulada pelos assistentes, a alma entra a falar pela boca do médium, receita ou anuncia como evitar as desgraças. Quando o médium volta a si, nada sabe do que disse. Chama-se a isso kor kavar, isto é, evocação da alma, e kavar ivos, a alma fala... (193)
O missionário Keyszer atribui muitos dos fenômenos que observou na Nova Guiné, à ação misteriosa dos Espíritos. (194) Reportamo-nos, ainda, a Oesterreich, na descrição de fenômenos no Norte da Ásia:
Temos diante de nós um estado de possessão? O caso é estranho, mas é preciso dar uma resposta negativa. O xamamismo dessas populações não é um estado de possessão; não consiste, pelo menos, geralmente, nesse estado. Trata-se antes e simplesmente de fenômenos de vidência. Os xamãs do Norte da Ásia e semelhantemente os do Norte da Rússia Européia, não obtêm estados análogos à possessão, mas visões. Eles supõem, no pretendido êxtase, ver e ouvir Espíritos. O comércio com o mundo dos Espíritos, nesses povos, não se dá, como entre os Bataks, pela invasão das pessoas eleitas pelos Espíritos, que tomam de empréstimo suas bocas para falar, mas por estados de transe, por onde os xamãs vêem Espíritos e dão as suas comunicações. (195)
O mesmo Autor nos diz “que a China é, entre os países civilizados, o país clássico da crença nos Espíritos. Da grande obra em seis volumes de M. Groot sobre a religião chinesa, exatamente a metade é consagrada à crença nos Espíritos e nos “revenants”. Howard Taylor informa que na planície de Chan-si encontram-se médiuns em cada aldeia. Descrevendo o transe, escreve ele:
Ouve-se dizer – Shen-lai-liao, chegou o Espírito. O sensitivo fala com outra voz e diz o que se deve fazer. Um caso interessante na manifestação é a incapacidade aparente dos médiuns de se oporem ao domínio terrível da potência a que estão submetidos. A influência chega sem que o peçam ou desejem, e quaisquer que sejam os esforços para resistir-lhes. (196)
Segue-se, conforme a descrição de Radlof, o desenrolar da cerimônia e da fenomenologia. Aqui, há o fenômeno do desprendimento do vivo, que, destarte, se põe, com mais facilidade, em comunicação com os falecidos. Tal fato, que se afasta dos casos estudados por esse autor, que são os de incorporação, que ele denomina possessão, o surpreende, parecendo-lhe coisa estranha. ________________
(193) F. S. A. de Clerk – De West en Noord Kust van Nederlandsch hi en-guinea, Amsterdam, 1893, pág. 131. o (194) R. Heuhansz – Deutsch Neu Guinea, Berlim, 1911-3. (195) Oesterreich – Les Possédés, págs. 435. (196) H. Taylor – Ein chinesis – cher Gelehrter, Gutergloh, 1904.
Tchoubinof refere-se a casos semelhantes:
O sentimento da realidade abandona inteiramente o feiticeiro, desde que fumando ou aspirando o fumo do tabaco, ou encarando fixamente o foyer, chega a um estado vizinho da embriaguez. Começa a entrar em relação com as potências invisíveis e cai por vezes em um acesso de transe. Nesse estado, o chama vê e ouve os Espíritos e entra em contato com eles. (197)
Paremos por aqui. Poderíamos prolongar-nos em várias citações de obras várias. E entre elas valer-nos do copioso e prestante material fornecido por Oesterreich, de quem aliás nos servimos, se não receássemos transformar o capítulo, pela sua aridez e uniformidade, num possante suporífero. Entre algumas narrativas iguais, no fundo, transparece, por vezes, as idéias pessoais do sensitivo, quando não são estropiadas pelos ignorantes. Às vezes, os fatos são um tanto transfigurados pelas opiniões sectaristas ou pela insciência do narrador. Será difícil que um católico ou um protestante, ou um medieval, falem em Espíritos; o Espírito, à força de malho, tomará a forma e a contextura que eles quiserem dar. Um materialista impingir-nos-á um subconsciente, de qualquer maneira, por mais clara, por mais evidente que a manifestação se mostre extrínseca ao paciente.
Mas, do estudo global da fenomenologia, através dos diversos povos e das diversas idades, o que se vê, como observaram os doutos citados no começo do capítulo, é a característica iniludível da comunicação de um espírito; há as mesmas modalidades, com as variantes, apenas, relativas ao atraso do paciente ou da raça em que a personalidade se manifesta. O que será impossível acreditar, depois desse testemunho universal, é que se possa tomar como uma fantasia essa uniformidade na manifestação, já nos seus processos físicos, já na sua feição espiritual, de sorte que, nos mais diversos povos na Terra, nas mais longínquas idades, nas mais variadas civilizações, sem que haja entre uns e outros o mais remoto intercâmbio de idéias, o indivíduo seja passível de fenômenos estranhos, diga-se tomado de Espíritos, e se perceba, através dos mesmos fenômenos, uma entidade semelhante ao Espírito de um falecido, entidade que, por vezes se identifica, de forma a não deixar a menor dúvida.
Para arrasar a hipótese espírita, fora do antigo argumento da fogueira, o que hoje nos fornecem é um complicado e indemonstrável emaranhado de hipóteses, onde só existe de sério a gravidade com que no-las apresentam. Cremos, enfim, ter provado a nossa tese, a de que seria impossível essa fenomenologia uniforme, essa crença mundial na manifestação do morto, essa semelhança, por toda parte, entre os fatos supranormais, sem importar a proveniência, ou o espaço, ou o tempo, ou o meio, se se tratasse de uma irrealidade, de uma superstição, de uma farsa. Temos, pois, o fenômeno de fontes absolutamente insuspeitas, porque fora de toda e qualquer sugestão. E aqui damos o segundo passo para a prova da sobrevivência, com as suas necessárias conseqüências, a preservação da memória e dos predicados mentais, não obstante o desaparecimento do corpo. E daí a conclusão que ainda uma vez se impõe, a de que não é no corpo que residem as formações do Espírito.
(197) Tchoubinof – Beitrage… Halle, 1914, pág. 51.
Aparece o moderno Espiritismo, surgem as irmãs Fox, o caso de Hydesville, as mesas girantes, Allan Kardec, os cientistas, as experiências do Velho e do Novo Mundo. E ainda é o Espírito que se apresenta; a entidade produtora do fenômeno declara-se um falecido; as manifestações modernas têm o cunho, o ritmo, as feições das manifestações antigas; ora o Espírito vem porque o médium o consentiu ou aceitou; ora o toma desprevenidamente; ora o toma à força; ora o perturba, persegue e obsidia. A fenomenologia é sempre a mesma. Será possível um inacreditável esforço de boa vontade, ou da má, para supor que as Fox, que Allan Kardec, que os observadores, que os experimentadores, que todos os médiuns e cientistas estivessem com os olhos postos em todo o passado, para reproduzi-lo; que conhecessem tudo aquilo que vamos hoje, com extraordinário labor, extraindo do pó dos arquivos; que lhes povoassem os cérebros as velhas manifestações; que se tomassem todos de um verdadeiro delírio, em contraste com vastíssimos conhecimentos, e nos viessem impingir a idéia falsa da volta do defunto e isso, sobrecarregada ela, de um arsenal filosófico, sem já falar na sugestão coletiva dos laboratórios, das experiências, onde os experimentadores e os próprios aparelhos se cumpliciariam no embuste.
Um embuste inacreditável, porque dispendioso, e onde o embusteiro sacrificava tudo, desde o tempo até o renome. Os negadores, os formadores de doutrinas incompreensíveis, os adeptos do absurdo não percebem como lhes será difícil sustentar as suas negações ou as suas afirmações esdrúxulas diante do peso astronômico das provas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.