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Capítulo 19 de 65
Transfiguração
A Evolução · Carlos Imbassahy
Muitos autores apelam para a sugestão e auto-sugestão, a fim de explicar a maioria dos fenômenos, como os que aqui temos mostrado. Entre esses se achava Luís Gastin, conhecido escritor e psiquista. Entretanto, escrevendo a Gabriel Dellane, ele lhe narra o seguinte, que sintetizamos: Costumava, grande hipnotizador que era, fazer que duas moças, de nome Aimée e Juliette, adormecessem, a fim de obter fatos de vidência sonambúlica. A mais jovem, Aimée, apresentava interessantes manifestações de sonambulismo lúcido; a outra era uma paciente medíocre, de fracos resultados. Quando muito, costumava sobrevir-lhe um estado cataleptóide e não passava disto. Um dia, ao olhar para Juliette, adormecida, ela lhe disse, bruscamente: É curioso! Não o vejo mais, ou antes, vejo-o envelhecido, calvo, com o olhar severo. Não é bem o senhor, mas é a sua expressão; sim, é um velho parecido, e por trás de sua fisionomia fria e grave, que me espanta, eu o vejo tal como conheço, vivo e sorridente.
Descreveu depois uma série de rostos, de várias idades, homens e mulheres, que vinham como máscaras vivas, mas frias, colocar-se diante da fisionomia de Gastin, e sempre com a mesma expressão de olhar. Essa porta da alma - refere o missivista - que é a expressão fisionômica, o sujet conhecia em todas as visões, como sendo a minha; estava ali a característica de minha individualidade. Depois, tudo desapareceu. O escritor perguntou, então, a paciente, o que representariam aquelas curiosas visões caleidoscópicas. Juliette nada soube responder, mas a irmã, a Aimée, o bom sujet, que também se achava sob a ação hipnótica, lhe disse: - São as suas existências precedentes.
Luís Gastin, que estava muito longe de perfilhar qualquer doutrina espiritualista, e muito menos a espírita, fez novas experiências, no sentido de descobrir o papel da sugestão ou da auto-sugestão, porém nada conseguiu. Vem a propósito um caso pessoal. Freqüentávamos, nós e um amigo, a casa de Rui Barbosa. Eu, moço ainda, ia em companhia de meu pai. E o amigo, também jovem, contou o caso singular que com ele se passava, julgando-se vítima de alguma alucinação. É que via sempre junto ao Rui, principalmente quando ele falava, a figura de um Papa. Mas a expressão, os modos, o jeito do Rui são os mesmos no Papa; ele é o Papa com caras e vestes diferentes. E uma coisa como que me diz - aquele Papa é o Rui. - Você houve alguma voz? - Não, não ouço coisa alguma. É uma idéia, compreende?... Não compreendemos nada, nem lhe podemos dar qualquer explicação, desconhecendo naquela época o espiritismo, de que tínhamos grandes receios e nenhuma vontade de nos meter nele. Sabemos agora do que se trata. O Rui teria sido Papa.
Há alguns indícios da veracidade do caso. Rui Barbosa sempre teve grande inclinação para os assuntos religiosos, mormente os que diziam respeito ao papado. Haja vista o seu interesse pelo - O Papa e o Concílio. Certa vez, em conversa com meu pai, de quem era íntimo, lhe disse: - Eu falo e escrevo sobre política, porque estou metido nisto, e já agora não posso mais recuar. Mas o meu ideal é o púlpito. Se pudesse abandonava tudo e ia para a tribuna religiosa. Nasci para orador sacro; parece que vim ao mundo assim. Coincidências, dirão. Mas essas coincidências é que constituem a prova. Acreditava, sobremaneira, no Espiritismo, mas tinha sempre uma lamparina acesa diante de Nossa Senhora.
Vimos examinando várias hipóteses aventadas para justificar, fora da reencarnação, os fenômenos que a demonstram. Onde, porém, elas se tornam insustentáveis, é no chamado fenômeno da regressão da memória. Iremos vê-lo.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.