[user_registration_my_account]
Capítulo 42 de 65
A Réplica de um Professor
A Evolução · Carlos Imbassahy
Vejamos, sumariamente, as objeções que um digno Professor apresenta ao nosso capítulo sobre hereditariedade psíquica. Dizíamos que “em Espiritismo não se desconhece que uma pessoa apresente os caracteres morais dos pais”. Revida o Professor:
Ora, falei em herança psíquica e não em herança moral. O psíquico não vai além do intelecto, não alcança, por conseguinte o plano moral. Portanto, a primeira confusão criada pelo Sr. Carlos Imbassahy é não distinguir o caráter temperamento, que é produto da herança, do caráter formação moral que, em grande parte, resulta da influência do meio.
Não sabemos em que o nosso postulado terá que ver com o que falara o Professor. O certo é que a nossa confusão deverá estender-se a tantos quantos se ocupam das coisas da alma, e para os quais deverá ser difícil entender aquela distinção entre o “psíquico” e o “plano moral”. “Psíquico” é o que entende com a alma; o “plano moral” só pode estar na alma, porque, até hoje, ainda não se conheceu o “plano moral” do corpo. Não sabemos como se irá perceber esse “psíquico” que não passa do intelecto e mais a sua divergência com o “caráter formação moral”, que não entra no psiquismo. O que se sabe é que o ser humano é formado de duas partes: o corpo físico e o espírito. No primeiro está a matéria, a vida vegetativa, os órgãos, que não sobrevivem, que se extinguem e desfazem com a morte; no segundo, todos os predicados mentais, todas as funções espirituais – vontade, desejos, inteligência, índole, caráter, memória, afeições, raciocínio. Nada disso se encontra nos escalpelos.
E todos aqueles predicados se vêem na manifestação do Espírito, encarnado ou desencarnado. Isto não é invenção nossa. Não há pessoa, dedicada ao estudo da matéria, que desconheça as funções do Espírito ou que as possa confundir com as do corpo. Aquelas funções acompanham o ser espiritual; quando este ser incorpora ou nasce, pode eleger, para a incorporação, uma família que tenha as mesmas qualidades, ou ser por elas atraído: e o que se chama a “afinidade”, e daí a nossa declaração sobre as atrações por simpatia, afinidade ou eleição. O que se entende por “psique” é a alma, essa parte incorpórea que sobrevive, ou que, pelo menos, não é tida como parte inseparável do soma; que nessa alma só haja o plano do intelecto e não o plano moral, é uma novidade em Psicologia; e, confusa como nós, por não entender aquele axioma, deve estar mais da metade do gênero humano. Além de tudo, quando a alma se nos mostra, ainda mesmo desligada do organismo físico, é com a moral que sempre teve.
Donde surgiria esse plano moral em antagonismo com a alma? O Espírito sempre se apresentou como ele foi. Todas as faculdades ditas do Espírito, todas as suas aptidões mentais, tudo o que diz respeito à inteligência e à moral, se apresenta no morto com as mesmas características que ele tinha em vida. Isto o vê toda a gente. Sabe-o toda a gente dada à prática e à teoria dos estudos psíquicos e metapsíquicos.
Declara Regnaut:
A morte não transforma o indivíduo, não lhe dá o conhecimento universal. Conserva, após o trespasse, a mentalidade, a individualidade adquirida no curso das existências. Da mesma forma que há alguns homens justos, caritativos, maus ou perversos, há no Além bons e maus Espíritos; há também mistificadores. (118)
Já nos valemos de outras citas a respeito. Declara ainda o Professor: “A formação moral resulta em grande parte do meio”. E a a pequena parte que resta, resulta de quê? Onde a mete S. S. ? Se é da herança, lá se vai a lição do Mestre, que “não falou em herança moral”. Depois de verificar que “fugimos do terreno psíquico e estabelecemos um jogo de disparates para fazer crer que estamos com a razão” firma o seguinte, sem esclarecer, preliminarmente, onde estaria o jogo e a fuga:
1. A Ciência tem meios para provar os caracteres psíquicos. 2. Os animais trazem os instintos da espécie. 3. Há a existência de taras psíquicas que se transmitem. 4. A herança das situações endocrinológicas, coisa rigorosamente demonstrada, implica na dos estados psíquicos. 5. Os estados psíquicos chamados masculinidade e feminilidade resultam dos sexos, que é produto da herança, com dominância. 6. Se não houvesse herança psíquica a natureza não podia aperfeiçoar os instintos.
Vejamos: 1. Se a Ciência possui meios para provar a herança dos caracteres psíquicos, não nos dizem quais são eles.
Entretanto, não sabemos como há, entre notáveis homens de Ciência, quem ponha em dúvida a existência daquela transmissibilidade. Custa a crer que um fato tão provado não chegasse aos ouvidos daqueles Mestres. Se não fora o mutismo em que se tranca o Professor, quando se trata de documentar, pedíamos que lhes levasse as suas luzes.
2. O instinto é trazido pelo espírito do animal que encarna. Quando uma galinha se espanta com uma pele de tigre, animal que nunca vira; quando uma égua é tomada de pânico com o cheiro da fera, cheiro que descobriu no feno; quando o terror se apodera do animal manso, diante do animal feroz, sem que nunca o tivesse conhecido, isto só se pode explicar pela lembrança espiritual; são as cenas do passado que a presença ou os indícios do animal feroz despertam. O que não se compreenderia é essa memória ancestral das éguas e das galinhas, quando é impossível explicá-la mesmo no homem; quando se prova, no homem, que a dita memória é função do Espírito, como veremos.
3. Muitos doutos não estão lá também de acordo com essa transmissão de taras. Basta ouvir o que nos diz o Globo numa de suas entrevistas sobre palpitantes problemas científicos.
(118) Henri Regnaut – Les Vivants et les Morts, págs. 137, 185.
Proclamava ainda, ilustrado biologista, que os filhos herdam as tendências dos pais. Um alcoólatra terá descendentes que se entregam ao vício da embriaguez. Parece que nem isto está certo, pelo menos na opinião de um especialista na matéria, o Dr. Jean Rostand, conforme a citada entrevista publicada pelo Globo:
JEAN ROSTAND – “Abordamos aí uma das questões importantes da Biologia, uma dessas que mais interessam – poder-se-ia dizer, mesmo, emocionam – o homem da rua. Porquanto a opinião comum é notoriamente em favor da transmissão dos caracteres adquiridos, transmissão que lhe parece demonstrada pela observação e a experiência diárias. Cita-se o caso de europeus que teriam vivido na África ou na Ásia e que em seguida teriam gerado filhos com os caracteres da raça africana ou asiática... Há casos de famílias em que certas qualidades profissionais parecem acentuar-se de uma geração para outra. Chegase até a invocar a redução do tamanho das mãos nas famílias de intelectuais etc. E ainda, por motivos sentimentais, deseja-se que a experiência dos pais aproveite de alguma maneira à descendência. E a palavra experiência vai aqui aplicada no seu mais amplo sentido. Quer-se que um homem que tenha exercitado seus músculos para os esportes ou a ginástica legue aos filhos, se não os seus músculos mais desenvolvidos, ao menos certas predisposições ao exercício muscular; que um homem que tenha exercido a memória, o senso, a atenção, legue aos filhos disposições correspondentes. Ora, o biólogo sabe que não se pode apresentar qualquer argumento positivo em apoio de semelhante presunção. Até hoje, todas as experiências tentadas para demonstrar “a hereditariedade do adquirido” deram resultados perfeitamente negativos”.
PAULO BODIN – “A despeito de tudo isso, não depende a descendência de um indivíduo da vida que leva no ambiente em que a sorte o colocou? Não é evidente que as doenças, a idade e a fadiga do pai ou da mãe repercutem na saúde dos descendentes? Assim, não são os filhos de alcoólatras profundamente atingidos nas funções orgânicas?”
JEAN ROSTAND – “A questão da influência do alcoolismo sobre a progênie é muito complexa e está longe de ter sido elucidada. Não está absolutamente provado que os descendentes de pais alcoólicos sejam atingidos de lesões orgânicas. A este respeito foi realizada uma série extensa de experiências em camundongos, cobaias, galinhas, e só puderam ser tiradas conclusões incertas. Naturalmente, se a mãe estiver intoxicada pelo álcool, este pode, como qualquer veneno, agir diretamente sobre a criança e prejudicá-la; não é esse, entretanto, um fenômeno de hereditariedade”. (119)
Ora, o alcoolismo é uma tara. E aqui temos o Prof. Rostand contradizendo os biologistas. Essa questão das taras acha-se explicada no Livro dos Espíritos. Veja-se, por exemplo: Os que habitam corpos de idiotas são Espíritos sujeitos a punição? São expiações decorrentes dos abusos que fizeram de certas faculdades. (120)
Assim, certas taras não seriam mais que o castigo infligido ao Espírito. O caso, pois, não nos deixa boquiabertos. ________________
(119) O Globo, 10-3-54. (120) Allan Kardec – Livro dos Espíritos, nr. 372.
4. A questão endocrinológica é tratada em outro capítulo.
5. Toda a gente sabe que há mulheres viragos e homens efeminados; moças varonis e rapazes tímidos. O mau gênio, a maldade, a velhacaria, a hipocrisia, a virtude ou o vício, couberam, em partilha, a essas duas metades do gênero humano. O que há de diferença entre os sexos, é formado ou imposto pelas leis, pelos usos e costumes, pelo hábito, pelas convenções sociais, pelas condições de família, pela debilidade física. Toma-se, então, como feminilidade o que não passa de constrangimento, coerção, imposição, fraqueza ou medo. Mas por pouco que se afrouxem os laços coercitivos, vemos as mulheres fazendo o mesmo que os homens, procedendo, sentindo e pensando igualmente. Fala-se muito na natureza feminina, mais caritativa, mais bondosa. Isto é encantador na pena dos poetas. Victor Hugo dizia:
Il est de restituer a l’humanité cette moité trop long temps eclipsée par l’autre. L’homme a plus de génie, la femme a plus d’amour. (Devemos restituir à humanidade essa metade há tanto tempo eclipsada pela outra. O homem tem mais gênio, a mulher tem mais amor).
Mas o certo estava com Madame de Stael, quando declarava a Napoleão I: “O gênio não tem sexo”. Os historiadores da Revolução Francesa nos dizem que nos atos de ferocidade, nas invenções de crueldade, nas cenas de lubricidade, elas ultrapassavam os seus parceiros do outro sexo. Se há mulheres que são mulheres e há homens que são homens há outros que não o são. A célebre Semíramis declarava:
A natureza concedeu-me um corpo de mulher; minhas ações fizeram-me ombrear com os mais valentes homens.
Dessa princesa dizia Palmella:
Abrir pela grandeza de seu gênio uma estrada de flores, sentar-se num dos maiores tronos da Terra, assinalar o seu reinado pelas conquistas de um Alexandre, formá-lo com a energia de um César e administrá-lo com a sagacidade de um Péricles, eis a heroína. (121)
Como se vê, uma natureza máscula; até aquela “estrada de flores” dir-se-ia palmilhada pelo mais fero guerreiro, se a colocarmos nas Índias, que ela invadiu. Ainda mesmo no deixar os braços do esposo Menones, para cair nos do rei Nino, não se distanciou de uns tantos varões, como Napoleão, que abandonou Josefina, ou de Henrique VIII, que mandou decapitar Ana e Catarina para se casar com outras. Aspásia possuía o “segredo da política, a magia da eloqüência, o encanto da palavra.”
(121) José Palmela – A Aristocracia do Gênio e da Beleza Feminil na Antiguidade, Coimbra.
Claramente explicável pela Doutrina Espírita é o tipo perfeitamente feminino e o tipo perfeitamente masculino. O Espírito não tem sexo, mas encarnando sucessivamente num mesmo sexo, toma-lhe o caráter que os hábitos lhe deixaram no correr dos séculos. São os sulcos do tempo. Os casos de virilismo, com ou sem glândulas, seriam uma irrupção violenta da natureza; era o sexo anterior a manifestar-se, não obstante as formas presentes. As glândulas de que fala o Biologista não representariam mais do que efeitos, conseqüências da sexualidade pregressa. O corpo, com seus órgãos e funções, sua atividade ou anomalias, seria previamente preparado para a vida do Espírito, conforme as provas por que terá que passar ou as obras que terá a realizar. As glândulas estariam adrede preparadas para determinada finalidade. Pode ser que promanem daí os estados de masculinidade e feminilidade; mas eles estarão longe de formar uma regra. Aliás, a própria natureza nos demonstra que a princípio não havia sexo. Nota-se isto pelo caráter hermafrodita com que o ser se apresenta nas primeiras fases embrionárias. Com o tempo é que surgiram os sexos. É, pelo menos, o que nos assegura o Dr. Bouvyer:
Foi o hermafroditismo que, seguindo a diferenciação gradual que se observa no mundo vivente, chegou, após longos processos biológicos, à produção do sexo.
O hermafroditismo, sob o ponto de vista do Espiritismo, quando não é prova, não passa da incerteza ou confusão, em virtude da influência do sexo anterior, do sexo da vida precedente. E ainda aqui, os tais estados em nada desmentiriam a palingenesia. Donde se vê que todos aqueles princípios, não só não nos atrapalham, como são perfeitamente claros e explicáveis dentro do Ensino dos Espíritos. O autor declara que:
6. “A herança psíquica aperfeiçoa os instintos”. Este aperfeiçoamento, é o que afirmamos, dá-se no terreno espiritual, sob a ação das vidas sucessivas. Acha ainda que, nessa questão de transmissão, devíamos falar sempre nos pais, porque, “na nossa teoria”, a afinidade se realiza sempre entre os pais e o Espírito. Sem querer, Allan Kardec desengana o escritor. Assim nos diz ele:
Um povo é uma grande família formada pela reunião de Espíritos simpáticos. Na tendência que apresentam os membros dessa família para se unirem é que está a origem da semelhança e que constitui o caráter de cada povo.
Essa reunião se faz através dos tempos. São Espíritos que se atraem de várias gerações. Vem de longe. E mais: A sucessão das existências corporais estabelece entre os Espíritos ligações que remontam às existências anteriores. (122)
Essas “existências anteriores”, a reunião de Espíritos simpáticos dependentes do caráter do povo, não limita aos pais a afinidade.
Acontece, ainda, que um antepassado reencarna. Se não evolveu muito, traz o que levou. Vendo um descendente com os tiques, pendores, falhas ou idéias do ascendente, logo a Ciência, pela boca ou pela pena do nosso amigo, e de outros, proclama, vitoriosa, a força da ancestralidade. Entretanto, o Espiritismo vê apenas aquilo que o escritor diz que não vemos: o neto com as qualidades do avô. O neto reencarnação do avô. Como se vê não há só afinidade de pais; há mais alguma coisa. Finalmente, acha irrespondível a seguinte pergunta:
E quando o filho não se assemelha aos pais, o que motivou a atração?
Esta interrogação escachante, seguida de vários comentários, tem por fim mostrar a inópia do ensino espírita e a da nossa conseqüente alegação, a de que a hereditariedade psíquica era explicada pela atração afim, isto é, que os pais atraíam filhos de pendores e caracteres semelhantes. Allan Kardec, sem ser por mal, nem por ser adivinho, já tinha, de antemão, preparado a resposta:
P. Pode o Espírito escolher o corpo...? R. Não é raro que um mau Espírito peça lhe sejam dados bons pais, na esperança de que seus conselhos o encaminhem por melhor senda. P. Como pode o Espírito desejar nascer entre gente de má vida? R. Forçoso é que seja posto num meio onde possa sofrer a prova que pediu... (123)
Aí têm a resposta à pergunta que pareceu de embatucar. Quando os filhos não se assemelham aos pais é que não houve atração, houve escolha; é que escolheram pais com qualidades diferentes das suas, porque isto lhes era necessário ao aperfeiçoamento. A afinidade não é regra absoluta; há também a herança seletiva. Declara ainda o Mestre, que “a Ciência não fala em atração de Espíritos: ela não tem nada que ver com os sonhos dos visionários”. Bem sabemos. Também houve tempo em que ela não tinha nada que ver com os visionários da rotação da Terra, da circulação do sangue, da termodinâmica, da navegação a vapor, dos aerólitos, da composição química dos astros, da higiene puerperal, da vacina, do pára-raios, do magnetismo, do hipnotismo... O mundo tem sido sempre assim: de um lado uns visionários como esses, e do outro, os não-visionários a balisarem a estrada do progresso, como diria Flammarion. Em o nosso livro citamos vários autores que descriam ou duvidavam da herança psíquica. Falamos em Venticinque que diz:
A herança psíquica parece desprovida de base real.
O nosso crítico não escabucha muito a opinião, mas o “parecer” lhe provoca motejos:
Parece apenas... mas para os náufragos como o Sr. Carlos Imbassahy qualquer tábua serve. ________________ (122) Allan Kardec – Livro dos Espíritos, nr. 204, 215. (123) Allan Kardec – Livro dos Espíritos, 209, 260, 335.
Não viu o digno lente que aquele “parece” era um golpe na infalibilidade da herança. Se, para um cientista, a coisa “parece”, é que não está tão sólida como se afigura aos bem acomodados e repoltreados navegadores. O mesmo com Castellani e Gotschalk por nós citados. Ora, nunca um cientista diria que a água “parece” conter hidrogênio e oxigênio, ou melhor ainda, que parece não os conter. Aos que negavam peremptoriamente a transmissão psíquica, teve o Professor essa réplica: Estão no caso do Sr. Carlos Imbassahy, não podem ser levados a sério.
Inútil, pois, estar aqui a multiplicar o parecer de sábios e entendidos. O Mestre os liquida com uma penada: “Não podem ser levados a sério”. A seriedade não consiste no valor do homem ou no vulto de suas experiências, mas no fato de estar ou não de acordo com ele, mestre. Sobre Bergson e Pende: são “nomes conhecidos de fazer efeito”, mas “falam sobre herança moral e não psíquica.” Ora Bergson fala em “aquisições morais e intelectuais”. O “intelectuais” esqueceu ao Professor. E Pende fala em uma porção de coisas. Como, na retorta do Professor, aquilo tudo ficou reduzido a herança moral, não sabemos. É provável que essa herança moral estivesse no subconsciente deles, depois que lhes foi explicada a distinção entre herança moral e psíquica, conforme consta da artinha biológica do digno catedrático. Mas, com certeza, os preconceitos reagiram contra a peregrina diferença, deu-se o recalque, e a frase posta na pena daqueles “nomes conhecidos” como frase única, não lhes chegou ao limiar da consciência, ou da folha dos seus respectivos livros.
Odin e Watson não crêem na herança mental e salientam o valor da educação. Acha o Professor que “eles descobriram a pólvora quando falam no valor da educação”. E a herança mental em que não crêem? Foram citados por isso. A Ciência proclama a hereditariedade mental. Tem-na o Professor como indubitável. Há dois que não crêem, entretanto. Pois descobriram a pólvora, rebate o crítico. E só. E foi com esse processo liquidatório que desapareceram todos os Autores e Mestres que apresentamos para mostrar que a sua hereditariedade psíquica não tinha os pilares com que ele a supunha escorada. Apesar das cajadadas desferidas nos cientistas que citamos, justamente desconfiado a de que o golpe não fosse mortal, resolveu S. S. apresentar um argumento que melhor pudesse assegurar a causa. E assim nos diz:
Os homens da Ciência sabem que os caracteres individuais resultam da interação de três grupos de fatores, os pré-natais, entre os quais está a herança, o meio e o esforço próprio. Há entre eles divergências quanto à preponderância deste ou daquele fator mas ninguém nega a hereditariedade, nem a influência do meio, nem o valor da reação individual.
O período não está dos mais claros, desde que se coloca entre os fatores pré-natais o meio e o esforço próprio. Que o meio e o esforço possam contribuir para a modificação do caráter, é o que esperam os espíritas com toda a sua atividade e ardor propagandistas. Muito havia que dizer sobre esses fatores, porém eles não vêm ao caso. O de que se cuida é da hereditariedade psíquica, e isto porque o Professor a antepunha à reencarnação: os nossos conhecimentos do passado, as nossas aquisições
mentais viriam por essa hereditariedade – ensina ele – e não pelo que o Espírito aprendeu e experimentou em épocas pretéritas. E para arrasar-nos, tomou como broquel a sua formidável Biologia. Estava invulnerável, assim, dentro da herança. Mostramos, então, que alguns cientistas a negavam e outros não tinham muita convicção. Não pode ser princípio inderrocável aquele em que uns acham e outros não acham. Nos fatos patentes, nas provas irrecusáveis, não há vacilações. Ninguém duvida da queda dos corpos. As opiniões não divergem sobre a temperatura das regiões polares. O fato incontestável suprime o direito de opinar. Não pode ser matéria absolutamente assentada, em Ciência, aquela em que os melhores mestres no assunto não têm idéias firmadas e incontestáveis. Não é verdade, ainda, que ninguém negasse a hereditariedade psíquica. Lá estão as nossas citas. O próprio autor se desdiz quando declara:
Riant nega de uma vez toda a hereditariedade. Está no caso do Sr. Carlos Imbassahy.
Se Riant nega, como é que “ninguém nega”? Há outros que também negam de uma vez. O Mestre não quis dizer; respeitemos-lhe a preferência pelo Riant. Para remate, o seguinte tópico:
Por isto procuramos tornar o meio propício, pregando a regeneração, que o Sr. Carlos Imbassahy dificulta com a sua hipótese de reencarnação.
Se com a reencarnação se diz que o indivíduo vai sofrer as conseqüências dos seus atos; que ele pagará, fatal, inexoravelmente todas as suas dívidas; que ele só alcançará a felicidade pela reabilitação, pela sua correção, pela sua regeneração, enfim, não se poderia perceber porque estejamos dificultando o árduo trabalho regeneratório dos que andam em busca de tornar o meio propício. E agora voltemos à nossa demonstração.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.