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Capítulo 7 de 65
Prefácio — parte 2 de 2
A Evolução · Carlos Imbassahy
É que os extremismos religiosos, consoante seus dogmas e seus cultos farisaicos, aniquilam todos os sentimentos elevados, todas as paixões nobres e concorrem, sobremodo, para que, sobre as coisas do Espírito, o indiferentismo se apodere dos homens. Todos os sermões e discursos que se fizeram ou se fazem ouvir ainda dos púlpitos e das tribunas, coligidos e registrados entre as obras clássicas que enriquecem as bibliotecas, sejam eles de Viera ou de Bossuet, de Alves Mendes ou Montefeltro, de Mont´Alverne e de centenas de outros que ilustram a literatura, não tiveram outra serventia senão a de envernizar o homem exterior, permanecendo o espírito na dúvida sobre a sua situação no Universo, ignorante sempre dos seus destinos, das suas conseqüências e finalidades. Este fato nos vem demonstrar, por si só, que toda e qualquer doutrina, toda e qualquer filosofia, toda e qualquer religião ou toda e qualquer ciência que não assenta no alicerce evolucionista, construído pelos fatos e pela lógica que nos fornecem esses mesmos fatos, não pode prevalecer.
Eis por que o Autor preferiu tratar exclusivamente dessa base, trazendo para a sua construção materiais de primeira ordem, bem cuidados, insistentemente selecionados, pois foi com o auxílio dos experimentos anímicos e espiríticos que a Doutrina dos Espíritos teve a prova positiva, categórica, substancial, indestrutível da imortalidade da Alma, alicerçada nas autorizadas vozes dos Crookes, dos Wallaces, dos Zoellners, dos Bozzanos e de tantíssimos outros mais. O autor, já no prólogo, principia a sua obra por analisar, perfunctoriamente embora, por economia de espaço e tempo, a evolução espiritual do Homem, sempre às bordas do abismo da incredulidade e que não admitia outros conhecimentos senão os que se poderiam basear no campo experimental e na observação continuada. Assim vivia o homo sapiens de Lineu até o aparecimento do Espiritismo. Sobre o assunto escreve Carlos Imbassahy:
“A Ciência espírita tornou-se o pedestal de uma Filosofia. Que nos ensina ela? A razão de nossas dores, o porquê de nossas existências num planeta cheio de agrestias, avassalado pelos cataclismos, e onde temos, lado a lado, as asperezas da natureza e a maldade dos semelhantes. Nada disso, ainda, nos haviam ensinado, assim como de onde viemos e para onde vamos. E só poderão dizer para onde iremos aqueles que chegam, até nós, dos lugares a que teremos de aportar”.
Passa depois a analisar, também ligeiramente, pelas mesmas razões, a origem natural do Homem, bem como a demonstração da sua posição no Universo – problema esse
que Luís Büchner, com o seu materialismo, considerava o primeiro de todos e que tanta celeuma científica e religiosa tem suscitado desde tempos imêmores. Analisou-o sob o ponto de vista do Espiritismo, o que sem dúvida lhe empresta outro e maior valor. A origem natural do Homem, isto é, o seu aparecimento na Terra, considerado segundo os ensinamentos da Doutrina dos Espíritos, tem muito mais lógica e maior razão de ser do que o encarado pela Ciência materialista, porque o mais elevado tema de que o Homem não pode descurar é o de conhecer-se a si mesmo, conhecer o meio em que se encontra, o propósito da vida e o meio para onde terá de ir, impreterivelmente, depois da morte. Sabemos hoje que a nossa estada na Terra é breve, e aquilo que temos para aprender e saber é tudo. Já os antigos filósofos repetiam este pensamento na sentença: “Vita brevis, ars longa”.
Não é a vida, em geral, que é curta, mas sim a nossa passagem pelo mundo, porque a Vida em sua genuína manifestação perpetua-se através dos tempos; vivemos sempre, caminhamos com os mundos e os sóis, pela eternidade afora, crescendo sempre, engrandecendo-nos cada vez mais em sabedoria e em virtudes, para nos aproximarmos da Suprema Sabedoria. Resolvido o problema da sobrevivência humana, compenetrados os homens de que a morte nada mais é que uma transição para um plano superior da existência; cientificamente convencidos de que a individualidade não se extingue no túmulo, mas conserva todos os seus atributos e aquisições, a ciência oficial e o sectarismo religioso verse-ão forçados a mudar de rumo, adaptando os seus conhecimentos aos ensinos da Doutrina dos Espíritos.
O capítulo sobre a “Reencarnação” é dos mais oportunos. Reafirmando, de um modo geral, o seu modo de sentir, já exposto no livro “A Reencarnação e suas Provas”, escrito de parceria com o ilustre Mário Cavalcanti de Melo, o Autor traz à tona nova bibliografia, outros casos palingenésicos e cerrada argumentação em prol dessa teoria a que já faziam referência Pitágoras, Platão, Plotino e tantos grandes vultos mais da antiguidade. Todavia, a maior objeção que ainda se pode fazer a esta teoria é o esquecimento das existências, inconscientes umas das outras, pois o abandono de um corpo para tomar outro, sem haver memória do passado, equivale ao não-ser, seria o nada para o pensamento. Compreende-se, portanto, porque os que fazem tal idéia da reencarnação, repilamna forçosamente; mas o Espiritismo não no-la apresenta com aquele caráter impossível. A vida espiritual da Alma, ensina ele, é a sua existência normal, com indefinida lembrança retrospectiva.
As multiplicidades corporais são meros intervalos, curtas estações na existência espiritual; e a soma de todos estes pousos não passa de mínima parte da existência normal, absolutamente como, numa viagem de muitos anos, se se detivesse de tempos em tempos por algumas horas. Um dos postulados básicos da Doutrina dos Espíritos é exatamente a Reencarnação, sem a qual inúmeros problemas se tornariam obscuros e outros insolúveis. A condenação às penas eternas pelas quedas terrenas seria uma aberração da Eterna Justiça, que sempre concede ao Homem novas oportunidades de regeneração e aperfeiçoamento. Allan Kardec ensinou, com a sua costumeira clareza e simplicidade, que “se a sorte do Homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte, não seria uma única a balança em que Deus pesa as
ações de todas as criaturas e não haveria imparcialidade no tratamento que a todas dispensa”. Léon Denis, justamente considerado o maior filósofo espiritualista, declarava que o presente não se explica senão pelo passado – (le présent ne s´explique que par le passé) – e que a encarnação tem por objetivo o aperfeiçoamento do ser humano; que a vida na carne é o sono da alma, a qual pode ter um sonho triste ou risonho. Gabriel Delanne, que escreveu um dos mais concisos e criteriosos tratados sobre o assunto, ponderava que a “Doutrina palingenésica tem um alcance filosófico e social de considerável importância para o futuro da Humanidade, porque estabelece as bases de uma psicologia integral, que maravilhosamente se adapta a todas as ciências contemporâneas, em suas mais altas concepções”. Sir William Barrett, tão reservado neste particular, não teve dúvida em subscrever a seguinte passagem que se encontra em “Nos Umbrais do Além”:
“À idéia reencarnacionista tem-se oposto o esquecimento total de nossas existências passadas, mas isto pode ser apenas eclipse temporário. É possível que a recordação dessas vidas anteriores nos acuda à memória no decurso de nossos progressos espirituais, à medida que atinjamos vida mais ampla, consciência mais dilatada”.
Não é por certo sem-razão que o brilhante autor de “O Espiritismo à Luz dos Fatos” afirma:
“A doutrina palingenésica não é uma lucubração individual; não é doutrina surgida de uma cabeça; não se trata, mesmo, de uma escola filosófica, como algumas que conhecemos, embora fruto do estudo, da inteligência e da meditação. É uma doutrina universal, ensinada e propagada pelos Espíritos, documentada pelo tempo, repetida nas mais variadas manifestações, assegurada pelos fatos. Vê-lo-emos”.
Sim, não há dúvida; e o autor passa a enumerar a veracidade da sua assertiva e a documentá-la com exemplos e fatos de primeira grandeza. E é, então, com dados estatísticos, referendados pela ciência, que vai demonstrando ser a Alma uma entidade real, que sobrevive à matéria, que transita pelos mundos orgânicos e inorgânicos em sua trajetória evolutiva.
O autor estuda com largo conhecimento de causa o inexplicável – para os leigos – fenômeno de precocidade nas crianças, pois esses infantes-prodígios nos provam, com uma irresistível vidência, que a inteligência independe do organismo físico, porque as formas mais elevadas da atividade intelectual se revelam numa idade em que o cérebro ainda não adquiriu pleno desenvolvimento, sendo esta uma das melhores objeções que podemos contrapor à teoria materialista. Psicólogos e psicanalistas, por mais que investiguem e tentem explicar a existência das crianças-prodígios e dos gênios, apenas apresentam hipóteses, falando em causas despercebidas, em influências obscuras, em hereditariedade, em recalques, em complexos confusos, e, finalmente, em transmissões ediponianas.
Neste assunto também a Teologia, na incapacidade de um esclarecimento racional e muito menos acessível à razão, atribui a existência de gênios e de meninos-prodígios às misteriosas, confusas e flutuantes vontades de um Deus, que se apraz em criar, numa única existência, criaturas tão diferentes entre si, como o são o batráquio e a estrela, a flor e o verme, o pássaro e a serpente. Só mesmo a Doutrina dos Espíritos é que pode enfrentar o problema e estudá-lo à luz da Ciência e da Razão. A hereditariedade, a tão sovada hereditariedade, chamada a postos de socorro a todo o instante, nada faz nem pode fazer, porque o fenômeno ou ultrapassa o seu campo de ação ou não pertence a ele. Crianças-prodígios e gênios são para nós, reencarnacionistas, espíritos que passaram por muitas vidas e acumularam os resultados de suas existências, até chegarem a esse esplendor, que comumente se denomina precocidade ou genialidade. Carlos Imbassahy cita vários casos clássicos, de cuja veracidade já não se duvida e cujo valor já não se discute. Estamos, portanto, de acordo com ele quando escreve:
“Tratando-se de crianças, convém lembrar que entre os comprovantes da Doutrina da Reencarnação se inscrevem os casos das crianças-prodígios, ou mesmo das crianças precoces, que desde cedo revelam uma inteligência, uma atividade intelectual e conhecimentos que seu cérebro não lhes pode fornecer, pelo seu pouco desenvolvimento. São inúmeros os casos apontados. A hereditariedade não poderia explicá-los, haja vista que, por mais que se investiguem as ascendências, não se encontra o ancestral que pudesse fornecer à criança os seus predicados excepcionais”.
Sabe-se que a hereditariedade transmite as qualidades somáticas ou corporais, no ponto de vista morfológico, o que é indiscutível; por outro lado é também incontroverso que a hereditariedade não transmite os predicados morais e intelectuais, precisamente o que tem de mais nobre, elevado e característico a individualidade humana. É que a influência dos meios, a herança genética, as diferenças de educação não bastam para explicar essas anomalias. Vemos os membros de uma mesma família, semelhantes pela carne e pelo sangue, educados nos mesmos princípios, diferençarem-se em vários pontos. Homens excelentes têm tido monstros por filhos. Marco Aurélio, por exemplo, foi progenitor de Cômodo; personagens célebres e estimados têm descendido de pais obscuros, destituídos de valor moral ou outro. Ora, sendo o Espírito imortal, é através das vidas sucessivas que ele vai aprendendo e armazenando experiências. E um belo dia, porém, volta à Terra, o véu das suas vidas pregressas se descerra e põe então à prova o seu cabedal de conhecimentos, o qual, por se manifestar no corpo de uma criança, parece ser aos olhos leigos “um fenômeno” ou talvez (como o é por certo para muitos) “uma obra do Diabo”... Santa simplicidade!
Devemos ainda dizer que o autor trata longamente de dois tabus – o religioso e o científico – mostrando que por um, que devia ser o da razão, a humanidade se vem guiando por trilha falsa, e desviando-se da verdadeira, que é a que leva ao Bem. Livros cheios de lendas inverossímeis, de atos reprováveis, de feitos escabrosos, de violências, de maldades é que são tidos como faróis divinos, como a palavra sagrada. Pelo outro tabu, que nos deve encaminhar pelo saber à Verdade, enche-se a criatura das mais errôneas noções, que a afastam do terreno da espiritualidade e a levarão ao desespero, quando lhe virem fechadas, pelo sofrimento, todas as provas que conduzem à esperança.
Quem não conhece por aí respeitáveis pessoas, em plena maturidade para o estudo e a conversação de obras sérias, que são sensivelmente piedosas e profundamente religiosas, exteriorizarem em seu pensar a idéia de um Deus antropomórfico, ilaqueado num geocentrismo mesquinho, com a sua cornucópia de graças e de predestinações, com as suas retaliações e com os seus favoritismos, que repugnam à razão e ao sentimento de quem as ouve? É certo que o homem tem propensão para definir a Divindade, inteiramente à sua imagem. Imagem aumentada e exaltada, mais ou menos, segundo os conhecimentos de que dispõe. O nosso mundo espiritual, como o Paraíso dos antigos, é, muitas vezes, concebido pelo mesmo método. Assim construímos o invisível e o imponderável em relação às nossas dimensões. E a História mostra-nos que não vão longe os séculos que viram correr sangue de muitas gerações, por se permitir às guerras das religiões provar a Verdade das concepções mais pueris e menos verossímeis. O erro seria, portanto, julgarmo-nos definitivamente curados desta fraqueza.
Hoje, contudo, a demonstração científica da multiplicidade das existências colocounos em face do dilema: ou negar, aceitando a inconsciência do religiosismo insciente, ou compreender e avançar por essa vereda do saber. Acha-se doravante demonstrada aqui, nas páginas deste livro, a existência de uma Ordem Suprema, não podendo o Homem, portanto, subsistir senão imerso nessa grande Lei. Quanto ao conceito limitadíssimo de uma força desconhecida, que guie os eventos, cumpre se sobreponha o conceito vastíssimo de uma Suprema Justiça que impõe ao destino o equilíbrio e as compensações. No seu seio, violência, usurpação, maldade, má-fé nada mais são do que absurdas antecipações de um átimo, que depois se hão de pagar com exatidão matemática.
No seu seio está e impera a Providência Divina, não uma providência no sentido de guia pessoal, no sentido de uma ajuda arbitrária que se possa solicitar sem a merecer e capaz de poupar o inevitável esforço da vida, mas uma providência da Grande lei, permeada de equilíbrio, aderente ao mérito, mantida por contínuas compensações, que levantam aqueles que caem, se mereceram ascender, e abatem aqueles que sobem, se mereceram descer. Vê-la-emos, depois, a dar a quem mereça e tirar a quem abusa, premiar e punir, distribuir acima das repartições humanas, como um princípio de ordem, uma força de nivelamento que ajuda o fraco e substitui o impulso da prepotência humana por essa outra força tanto mais útil quando mais real e poderosa, que é a Justiça Superior. Nada mais vamos, portanto, acrescentar sobre o assunto.
Dispensando-nos, por completamente inútil, dessa preocupação, e limitando-nos a transcrever mais este tópico do autor, apenas queremos atrair a atenção do leitor para a conclusão dele, que também poderá servir de resposta aos que discordam do nosso pensar, quando replicam e dizem:
- “Não queremos isto! Deixem-nos com o nosso inferno, onde não há mais esperanças, nem réstea de luz na alma, onde o arrependimento é inútil, onde as
dores não têm limites, nem na intensidade, nem no tempo, onde a eternidade é a da tortura. Deixem-nos com o nosso céu, onde o beato ali fica sem fazer mais nada, em santa ociosidade, a cantar hinos de louvor a Deus, que se compraz nesses hinos, e se envaidece como qualquer presumido com as louvaminhas de seus incensadores. Deixem-nos com o nosso Deus arbitrário, sectarista, faccioso que, à custa de zumbaias e bajulações, iremos a Ele”.
Precisamos, enfim, conter o queixo dessas pessoas, que “falam de tudo e que não sabem nada”, pois quando o pensador religioso começa a imaginar como suas crenças são influenciadas por novas teorias, ele se aproxima rapidamente do reino da ciência; e quando o cientista pensa em tais questões, ele também se aproxima rapidamente do reino da religião, ambos crendo no Deus que fez os homens e não no Deus que os homens fizeram. Aí, então, religião e ciência se unem à Eterna Sabedoria. Sabedoria que é o Caminho. Caminho que é a Verdade. Verdade que é a Vida. Vida que é o Amor. E o amor – que é Deus.
É-nos humanamente impossível, num simples e desataviado prefácio, acompanhar o Autor nas suas longas e criteriosas estiradas em prol da Doutrina. Se o fôssemos seguir a par e passo (e o não faríamos por nos faltarem as necessárias credenciais) seríamos obrigados a escrever outros tantos números de páginas de “A EVOLUÇÃO”. Não é isto o que Carlos Imbassahy deseja nem é este o nosso intento. Vamos, portanto, fazer ponto final. Como poderíamos, com meras palavras de entusiasmo ou de louvor, apreciar outros capítulos de “A EVOLUÇÃO”, como a Seleção Natural, a Evolução Espiritual, a Psicologia, a Regressão da Memória, o Instinto, a Bíblia, a Ressurreição, a Endocrinologia, a Herança Psíquica, a Transmissão da Memória, a Manifestação dos Vivos, a Manifestação dos Mortos, as Conseqüências Morais, o Remorso, as Vidas Infelizes e as Vidas Felizes? É de todo em todo impossível. Arrojar-se ao tentâmen seria querer inutilmente competir com o Autor ou produzir certamente laudas soníferas. Carlos Imbassahy é um nome que dispensa apresentação e muito mais do que apresentação, dispensa apreciação.
O nosso Ernesto Bozzano brasileiro, como num justo título de merecimento, é o missionário que, no tempo certo e exato, desceu a estas terras de Santa Cruz para orientar, esclarecer e ensinar. Mais uma prova do quanto afirmamos está em “A EVOLUÇÃO”, ora lançada aos mares da sorte para gáudio da Doutrina dos Espíritos que é, por decorrência natural, a doutrina dos espíritos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.