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Capítulo 20 de 65
Regressão da Memória
A Evolução · Carlos Imbassahy
O hipnotismo trouxe-nos grandes revelações. Uma delas é a de que a memória não se perde. Todos os acontecimentos da vida, todas as sensações ficam arquivadas em nosso ser espiritual. E, por força da sugestão hipnótica, ou mesmo independente dessa sugestão, ocasionalmente, e espontaneamente, ou por uma causa qualquer, o indivíduo se apresenta em determinada fase de sua existência, com os conhecimentos, os sentimentos, as idéias da época evocada. Chama-se a isto - a regressão da memória. É o ser tal como era, na idade sugerida pelo hipnotizador ou revelada pela crise. Assim, o indivíduo, em certos momentos, pode apresentar-se num diferente estado d’alma. Há mudança de personalidade, com esquecimento do estado normal. Que o indivíduo conserva a memória de tudo, observamo-lo nos pequenos atos da vida. Fatos absolutamente esquecidos surgem-nos, de repente, à lembrança, como uma revelação. Outros aparecem no sono provocado ou se apresentam no sono comum.
Conta o Dr. Dufay, conforme um relato de Pitres (Leçons sur l’hystérie et l’hipnotisme) que uma jovem empregada colocara numa gaveta umas jóias, varrendo-se-lhe o caso inteiramente da memória. Dando falta das mesmas, a dona acusou a criada e ela foi presa por isto. Resolveu o Dr. Dufay hipnotizá-la a fim de descobrir a verdade; adormecida, a moça contou que guardara as jóias num móvel com medo as roubassem e indicou onde se achava. Informado do acontecido, o Juiz de Instrução foi à casa da dama furtada e achou as jóias como o havia dito a sonâmbula. Demonstrada a sua inocência foi ela posta em liberdade. Pitres, na obra citada, refere vários casos de regressão, que ele denomina ecmnésia. Uma rapariga de vinte e oito anos, durante o delírio ecmnésico, volta aos sete anos de idade, época em que cuida de uma vaca. Costumava ela então ajoelhar-se à beira da estrada como quem apanha flores; depois pôe-se a cantar, conversa com uma vaca imaginária, brinca, pula.
Quando a interrogam quanto à sua vaca, à sua avó, aos habitantes da aldeia, responde com linguagem e ingenuidade infantis, mas com extrema precisão. Se o interlocutor se refere a acontecimentos posteriores, ela se mostra espantada e nada compreende. Até aos sete anos só falava o dialeto local; mais tarde é que aprendeu o francês; assim, durante a crise, só se expressava no referido dialeto, e, se lhe dirigiam a palavra em francês, respondia que ignorava a língua dos senhores da cidade. Psiquistas curiosos não se limitaram às manifestações espontâneas; resolveram provocar o fenômeno, aplicando passes magnéticos. Como exemplo de regressão provocada temos o caso descrito por Bourru et Burot: Jeane, hipnotizada, é conduzida aos seis anos. Ela está em casa dos pais, abre castanhas, tem sono, quer é ir para a cama... Nesse estado fala o limosino, dialeto de Limoges, e mal sabe as primeiras letras. O hipnotizar leva-a aos dez anos, sua fisionomia já não é a mesma, nem pois seus modos.
Acha-ser no castelo da família; vê os quadros e os admira; pergunta por suas irmãs e as vai esperar na estrada; refere-se aos vários incidentes e acontecimentos passados nessa época. Vem aos 15 anos; evoca as lembranças desse período; escreve o Petit Savoyard; quando acorda, espanta-se de o haver escrito: já nem se recordava mais.
Pierre Janet, (L’Automatisme Psychologique), sugere à sua paciente Rose que ambos se acham, não mais em 1888, mas em 1886. Eis que a moça começa a gemer, queixa-se de que não poder andar, que está muito cansada... - Mas que tem você? – pergunta o psicólogo. - Nada. Em minha situação... - Que situação? Ela responde com um gesto, mostrando o ventre que inchara subitamente. O experimentador havia-a levado, sem o querer, a um período da vida em que estava para ser mãe. Não convém esquecer um fenômeno que demonstra a persistência da memória: é a chamada “Visão panorâmica“ ou “Memória sintética” na eminência da morte, conforme o título que Ernesto Bozzano deu a uma de suas monografias.
Nas ocasiões de perigo gravíssimo, quando o indivíduo está prestes a sucumbir por um acidente qualquer, num desastre, começo de asfixia, enforcamento ou afogamento; por um inopinado ataque que o conduz às portas da morte, ele vê, numa visão panorâmica, transcorrer, diante de sua consciência, todos os atos, todas as cenas de sua vida prestes a extinguir-se, com o sentimento do bem ou do mal que praticara; com a satisfação num caso e o arrependimento no outro, mais ou menos intenso, conforme o grau de sua espiritualidade. Dir-se-ia uma visão cinematográfica, em que a tela, apesar da rapidez com que essa visão se desenvolve, faz rever os mínimos incidentes da vida, transcorridos até aquele momento. Teremos, como os exemplos acima, preparado o terreno para o conhecimento e compreensão de experiências célebres, que demonstram a sucessão das vidas.
Certo de que a memória não se perde, que o espírito é uma espécie de chapa onde tudo fica indelevelmente gravado, não é de admirar que, levando mais longe o processo da regressão, se chegue, não só às fases afastadas da vida presente, como às da tenra idade, se não ao período precisamente anterior, que é o da vida no espaço, e aos da vida antecedente. Pelo método experimental, conseguiu-se a regressão da memória do paciente, e, conduzindo-o mais longe, chegou-se ao inesperado, à vida no Além, e às vidas pregressas. Conta Bouvier que usando dos referidos processos, conseguiu regredisse o paciente à vida do espaço. O interessante é que, na volta à vida presente, tal como teria dado ao nascer, nota o esforço do Espírito por subtrair-se à força invisível que o atrai ao seio materno. Verificava-se o ensino espírita, o qual nos diz que a volta à vida é mais penosa que a morte, ou seja, a volta ao espaço. Já Fernandez Colavida, em 1887, tentou provocar numa sonâmbula a lembrança de passadas existências.
Magnetizou-a em alto grau e ordenou-lhe que regredisse à véspera, à antevéspera, a uma semana, a um mês, a um ano antes, e assim até levá-la à infância. Não contente, conduziu-a mais além, e ela referiu-se à morte, à volta e à vida no espaço; mergulhou-a em sono mais profundo e ela chegou a quatro encarnações, de que a mais antiga era uma vida selvagem. Em cada existência, os traços fisionômicos, os gestos e os modos, o hábito, a linguagem, os conhecimentos se lhe alteravam profundamente. O engenheiro De Rochas, ex-administrador da Escola Politécnica de França, foi quem mais se ocupou desse gênero de experiências. Foi ele quem ousou levar mais longe e por mais tempo o fenômeno da regressão da memória.
Vejamos o que nos diz:
Quando fiz os primeiros ensaios, parava logo que o paciente, transportado à primeira infância, já não sabia responder; pensei que não fosse possível ir mais além. Tentei um dia tornar mais profundo o sono e grande foi o meu espanto quando, interrogando o paciente, achei-me na presença de outra personalidade, que dizia ser a alma de um morto, que usara tal nome e que vivera em tal país. Fiz reviver o morto e ele percorreu a sua vida precedente. Podia assim remontar a muitas existências anteriores. Os sujets, quaisquer que fossem as suas opiniões no estado de vigília, apresentavam o espetáculo de uma série de individualidades, cada vez menos adiantadas moralmente, à medida que se remontava o curso das idades. Em cada existência expiavam-se, por uma espécie de pena de Talião, as faltas da existência precedente, e o tempo que separava duas encarnações se passava no meio mais ou menos luminoso, conforme o estado de adiantamento do indivíduo. (14)
De rochas descreve as suas numerosas experiências, tendo podido verificar a exatidão do que diziam os pacientes adormecidos quando revelavam suas existências anteriores. Na esteira de Albert de Rochas seguiram vários experimentadores como Tartaruga, Lacoste, Bertrand, Marata, Bouvier e outros mais. Alguns fatos narrados pelos sonâmbulos não puderam ser devidamente comprovados, o que não quer dizer que não fossem reais. Se procurarmos indagar da vida de pessoas que existiram em épocas remotas, é de crer que nada encontremos. E isto deverá acontecer, principalmente na França, onde as guerras têm feito tantos estragos e a Revolução Francesa timbrou em arruinar tudo. Cidades inteiras, com palácios, monumentos e arquivos eram destruídos à picareta, a martelo e a fogo. Temos o exemplo mais recente. Um amigo nosso, o erudito Dr. Canuto Abreu, foi à França, para completar as suas notas, ou ratificá-las, em vista de importante obra em elaboração. Já não encontrou nada. A invasão apagara tudo. Não terminaremos sem lembrar as hipóteses com que se procura rebater a doutrina da reencarnação e anular as deduções extraídas dessas célebres experiências.
É que se trata – dizem - do plasma germinal eterno, de sugestões e auto-sugestões; as regressões não seriam mais que lembranças hereditárias, provenientes de longínquos antepassados. Nada mais difícil do que a demonstração de proposições negativas. Como os doutos não nos apresentam provas daquelas asserções, poderíamos ficar de braços cruzados, à espera das demonstrações. Elas não virão, com certeza. Vamos portanto mostrar, já que seria inútil esperar por eles e elas, como são insuficientes as suas suposições. Provou-se que nem o experimentador nem os experimentados tinham idéias espíritas. Muito pelo contrário, diziam-se católicos os pacientes, e o que sabiam era o que o catecismo católico afirmava ou os pais lhes ensinavam.
Mas, em vez de se transportarem as almas, nas comunicações regressivas, a um céu, ao paraíso ou ao purgatório, o de que falavam era da vida do Espaço, dos sofrimentos da erraticidade, da luz ou da falta de luz, conforme as suas faltas, do processo da encarnação, de como entravam no pequenino corpo, das lutas e agonias que precediam essa entrada, tudo como se fossem discípulos fidelíssimos de Allan Kardec. Dizia a um experimentador “que uma constante se reproduz nas manifestações, as expiações, nas vidas seguintes, das faltas cometidas na vida precedente”. _______________
(14) Albert de Rochas - Les Vies Successives.
Quanto à sugestão ou auto-sugestão, não sabemos como se processaria, quando os indivíduos narravam os fatos que só mais tarde, à custa de longas pesquisas iam ser descobertos. E para invocar as lembranças ancestrais, mormente aquelas que vinham de muito longe, era preciso crer que os mesmos ancestrais estivessem profundamente enfronhados nas idéias espíritas, e pensassem em remotas eras como nós hoje, como se fossem eles, os codificadores das novas doutrinas, e no-las viessem agora impingir, através do plasma germinal, enfileirando os ensinos contidos no “Livro dos Espíritos” e trazendo-nos as leis de causa e efeito, as provas na terra e no espaço, a maneira de tomar novo corpo, as visões do Espírito, a sua maior ou menor claridade, o arrependimento, as angústias, as alegrias... Devia haver uma antevisão do que é o espiritismo nas células germinais de nossos avoengos.
Procuramos aqui cumprir um dever que a nossa consciência impunha e que provavelmente trouxemos do berço, em virtude de compromissos tomados. Seria o de mostrar que voltamos ao teatro de nossas iniqüidades para expiar as faltas cometidas, e que só subiremos à eterna Luz, quando tivermos deixado diluídas nas lágrimas todas as impurezas de nossas vidas transatas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.