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Capítulo 61 de 65

Consequências Morais

A Evolução · Carlos Imbassahy

Convém tiremos as conseqüências morais dos fatos aqui expostos. Toda a doutrina dos Espíritos, revestida das provas que nos trazem, tem por finalidade encaminhar-nos a um porto de salvação. Ao mostrar que o Espírito é independente do corpo, que o antecede, que lhe sobrevive, que reencarna, que evolve, que sofre na matéria e fora da matéria, em resultado do atraso, o que desejamos é contribuir para o progresso espiritual e universal, embora o programa seja desmedido para a fragilidade de nossos ombros. Com a certeza de que é necessário dominar os maus pendores, vencer as imperfeições, aprimorar o caráter, o indivíduo busca apressar o seu avanço, pois com ele se libertará do sofrimento e caminhará para a luz e para a felicidade. Entretanto, há uma verdadeira multidão empenhada em esconder, seja como for, aqueles princípios e as provas que os sustentam.

Assim, vemo-los afleimados em destruir as demonstrações da imortalidade que os Espíritos nos trazem, e buscam convencer-nos de que o nosso destino depende da graça divina, graça que é distribuída conforme as simpatias do Criador; ela, por sua vez, está à mercê da ação de intermediários terrenos, pelo braço dos quais se irá alcançar a suprema bem-aventurança, ou a suprema desgraça. Estamos na dependência de fórmulas, do acaso do nascimento, das zumbaias que prestarmos à Divindade; essas, a princípio, tinham um aspecto horrível, como o dos sacrifícios humanos; hoje, os costumes e a civilização amenizaram as barbaridades das cerimônias cruentas, mas, ainda assim, temos uns tantos deveres materiais a cumprir, uns ritos a praticar, uns textos a decifrar, sem que se saiba a vantagem daquilo, e por cima de tudo, as ameaças do fogo eterno aos que não acreditarem.

Ainda mesmo no terreno que palmilhamos, na causa comum que defendemos, há os que nenhum apreço ligam às provas da imortalidade; chegam a acoimar de orgulhosos, de vaidosos da Ciência os que pretendem tenhamos sempre como bússola os fatos, porque é nos fatos que residem os processos da convicção. Mas como os fatos podem desmentirlhes as doutrinas pessoais, os princípios sem base e comumente sem lógica, lançam eles mão dos mesmos recursos de que se valem os adversários do Espiritismo, quaisquer que sejam as comunidades a que estejam filiados, e anatematizam o saber, e encaram com desdém os que vêem, observam, raciocinam e estudam, para não se enganarem a si e aos outros. Por seu turno, alguns, os entronados em diversas escolas materialistas, espiritualistas ou espírito-materialistas, acham que os nossos deslizes dimanam do nosso físico, estão no corpo, são anomalias orgânicas, ou fazem parte do soma, vieram de nossos antepassados, através do sêmen, não importa a anciania desses antepassados ou a distância que deles nos separa.

Os nossos erros procedem do organismo; hábitos nocivos, vícios, deslizes, crimes, fluem dos órgãos com a cegueira dos cataclismos, que espalham a desordem, o terror e as desgraças, impelidos pelas forças brutais da natureza. Diante de nossa fatalidade anatômica ou fisiológica não sabemos quem se irá esforçar por progredir, desde que se acha consciente de que age por impulso irresistível, que é vítima de um mal orgânico, tal como se fosse atacado do mal de Bright ou do mal de Hansen, e que é tão culpado de suas faltas como o meteoro que, em sua passagem, deixa o solo juncado de mortos e as almas inundadas de lágrimas. Para esses que, tomados de ligeiro verniz científico, se julgam muitos seguros em suas hipóteses, é que, principalmente, procuramos apresentar as provas trazidas pelas

Ciências Psíquicas, embora contra elas se adunem, de maneira inconcebível, os religiosos de todas as confissões, os materialistas de todas as academias, e, por vezes, os próprios correligionários de várias ortodoxias. Por mais duvidoso que se nos afigure e temerário que pareça, temo-nos que avir com a Fé e a Ciência; havemos de evitar, no pélago em que conduzimos a nossa nau, os escolhos que surgem à flor das águas, constituídos por uns que não vêem nada e outros que vêem de mais.

Ora o que os fatos nos dizem é que o Espírito, por efeito da lei do progresso a que está submetido, sofre no Espaço pelos males que praticou; que é obrigado a repará-los na sucessão das na sucessão das vidas, até que, pelo atrito constante com a natureza e com os semelhantes, se torne um espírito puro, liberto dos planos materiais, e só então se achará apto a gozar dos esplendores, da beleza, das alegrias e da liberdade que o Criador espalhou por toda da parte. O que os fatos nos dizem é que o ser pouco evolvido, persistente nos erros, mantém-se nas paragens inferiores da espiritualidade, até que a s dores profundas ocasionadas por suas constantes quedas, lhe abram os olhos para o arrependimento e para o desejo de reparar as faltas, embora ainda seja um mistério para o autor as destas linhas descobrir onde começa o ato responsável. O que é certo é que as vidas miseráveis não são mais do que a reação inevitável de vidas desregradas, o caminho necessário para a evolução da criatura.

O passo inicial é trazido pelo remorso, que são os primeiros rebates da alma, esse despertar da consciência, põe constantemente diante do faltoso o quadro de suas faltas. É a cena aberta, onde, caído o pano, ele vê, em todos os seus pormenores, o horror de suas iniqüidades. Começa então o desespero, começam os gritos d’alma. Já Allan Kardec mostra em suas páginas muitos lances elucidativos; já eles nos deixam ver, pelas manifestações dos espíritos sofredores, o que são as ânsias do arrependimento, o que é o travor do Espírito por não poder apagar aquelas manchas indeléveis que o conspurcam. Essas manifestações se têm verificado pelos tempos em fora. Vamos, apenas, de acordo com o nosso método, aduzir rápidos exemplos.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.