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Capítulo 62 de 65

O Remorso

A Evolução · Carlos Imbassahy

Não o esqueçamos. Um dos maiores sofrimentos do espírito pecador é o remorso. Estamos longe de perceber o que é essa agonia da alma, essa angústia horrorosa que acompanha o faltoso a todos os momentos, o espia constantemente, e que lhe põe diante da retina espiritual, com terrível intensidade dramática, os seus inapagáveis delitos. Para estes, o Inferno já não é uma simples figura; a sua existência se lhes torna real e a maior ânsia do infeliz seria retirar do espírito aquele espinho que ali se acha encravado de forma cruciante. Às vezes, todo o cenário do crime desfila ante as vistas pávidas do criminoso; e o crime se reedita; e ele como que se eterniza, à maneira da repetição indefinida de um filme pavoroso. E para que os vivos saibam de sua realidade, para que não passe por fantasia de ideólogos ou ideologia de filósofos, também os percebemos, em cena viva, embora nem sempre avaliemos o seu alcance. Vamos dar um exemplo: Uma senhora e um filho viviam numa casa isolada, nas costas da Cornualha.

Durante a noite, à mesma hora, um fantasma, com um passo pesado, subia a escada e desaparecia por uma porta fechada que ficava no patamar. A senhora corajosamente ficou acordada, à espera do fantasma e notou que se tratava de um sujeito gordo, velho, mal vestido, com os sapatos nas mãos. Tornava-o visível uma luz amarelada, que se lhe desprendia do corpo. Ele subia a uma da madrugada e descia às quatro, sempre com o mesmo passo. A senhora nada disse a ninguém do que vira. Uma noite, porém, a enfermeira do filho desatou a gritar, dizendo que um velho horrível se havia introduzido em casa. Ela fora à sala de jantar para beber um pouco d’água e vira, então, o tal homem de idade; ele sentara-se e tirara os sapatos. Ela nem tempo teve de acender a luz, mas o distinguira perfeitamente, porque o corpo do homem desprendia uma luz estranha. O irmão dessa senhora e a mulher quiseram certificar-se do caso e entraram a dar buscas por toda a casa; descobriram no subsolo uma velha adega, a qual comunicava com um antro onde a maré alta penetrava. Dir-se-ia um lugar apropriado para contrabandistas.

O casal ficou de alcatéia e tiveram uma visão horrível. Notaram que o local se esclarecia como em noite de lua e assistiram a uma furiosa luta entre dois velhos, um dos quais venceu o outro e o matou; depois, arrastou o cadáver para o antro, que dava para o mar, voltou à adega, cavou um buraco e nele jogou a faca homicida. O casal viu o assassino sair e passar perto deles. Seguiram-no até a sala de jantar onde ele tomou um copo de aguardente. Depois, o homicida sentou-se e descalçou as botas, tal como referira a enfermeira; com elas na mão, pôs-se a subir a escada, transpôs a porta e desapareceu, como sempre o fazia. Em todas as manifestações deve-se ter repetido a fase do drama na adega. No dia seguinte, o marido abriu um buraco naquele ponto e encontrou a faca. Efetuadas as investigações, soube-se que, muitos anos antes, a casa fora habitada por dois irmãos que ganharam dinheiro com o contrabando e guardaram o ganho, sem o dividir. Ao que parece, um deles anunciou que iria casar-se; era a ocasião da partilha.

Logo depois, o noivo desapareceu. Fez-se constar que estava em longa viagem. O irmão enlouqueceu e o crime foi descoberto após a sua morte. A porta através da qual o fantasma desaparecia era a de um armário praticado na parede, onde, provavelmente, o irmão sobrevivente guardara o dinheiro. É também de supor que o fantasma levava na mão os sapatos por haver alguém dormindo na casa, a quem não convinha despertar. (235) ______________ (235) Sir Arthur Conan Doyle – The Edge of the Unknown, O Limiar do Desconhecido.

A descoberta da faca traz para o caso a prova objetiva da realidade do fenômeno; há ainda a considerar que o fenômeno foi presenciado por várias pessoas, em diversas circunstâncias.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.