Voltar ao livro A Evolução

Capítulo 36 de 65

As Fontes, a Autenticidade, as Dificuldades Bíblicas

A Evolução · Carlos Imbassahy

As dificuldades, em matéria bíblica, sobem de ponto quanto às origens, à autenticidade, às alterações, à fidelidade de composição e recomposição dos textos, de tradução, e todas as demais já apontadas. Sobre a autenticidade basta referirmo-nos à pena de Edouard Montet:

O texto primitivo do Antigo Testamento não nos foi conservado tal como fora escrito pelos autores bíblicos. Com efeito, os mais antigos manuscritos que possuímos não vão além do X século de nossa era. Isto equivale a dizer que numerosos erros de transcrição devem escorregar (se glisser) no trabalho dos copistas que nos transmitiram os livros do Antigo Testamento. (71)

Uns sábios rabinos, conhecidos com o nome de Massoretas, procuraram, segundo se afirma, apresentar um texto tão puro quanto possível, mas esse texto desapareceu. As dúvidas já começam com a chamada versão dos Setenta. A história da Bíblia nunca foi definitivamente elucidada. Os textos eram traduzidos em rolos, ou fitas, divididas em páginas, tudo muito complicado. Só havia consoantes; nada de vogais, nem acentuação, nem sinais de pontuação, nem separação de palavras. Daí uma série de erros, muitas vezes graves. Além de tudo, Moisés devia falar o egípcio e nessa língua é que estaria familiarizado. A lógica, portanto, mandaria supor que o Pentateuco fosse escrito naquele idioma. É incerto o ponto de partida. A primeira edição foi constituída há vinte séculos, em condições – diz a História – que expunha os livros a variada espécie de acidentes. Passamse dez séculos e forma-se o textus receptus, onde os próprios autores declaram que o texto antigo lhes veio às mãos cheio de alterações, convindo distinguir “o que está escrito e o que se deve ler”.

Os textos anteriores à revisão dos Massoretas desapareceram, como vimos. Houve necessidade de pôr em grego algo que merecesse confiança. É aí que entram os Setenta. Fez-se, então, a tradução em Alexandria, por setenta e dois emissários de Jerusalém, a pedido de Ptolomeu II. Conforme o famoso historiador Flávio Josefo, Ptolomeu II querendo enriquecer, talvez, ainda mais, a célebre biblioteca de Alexandria, encarregou seu bibliotecário de procurar na colônia judaica do Egito os livros de suas leis. Sendo esses livros escritos em linguagem indecifrável, recorreu a Eleazar, o Sumo Sacerdote em Jerusalém, a quem pediu cópia das Escrituras e tradutores fiéis. Um judeu, de nome Aristeu, prometeu arranjar as Escrituras mediante certas recompensas. Envia Ptolomeu, então, uma carta a Eleazar, solicitando seis anciãos de cada tribo, para virem traduzir no Egito os livros sagrados, e lubrifica o pedido com valiosos presentes. Eleazar lê a carta para o povo e mostra as magníficas dádivas enviadas por Ptolomeu. Escolhe os seis anciãos de cada tribo e os faz seguir com a Lei, tendo o cuidado de reclamar a sua restituição.

Chegam os anciãos, que perfaziam o número de setenta ou setenta e dois, e se retiram para uma ilha, onde ficam trabalhando também setenta e dois dias, coincidência feliz, que já dá um tom divino à empreitada. ________________

(71) Edouard Montet – Histoire de la Bible, pág. 8.

Entregue a versão ao monarca, este mandou que seu bibliotecário a guardasse com extremo cuidado. Os intérpretes regressam com o bolso cheio de ouro. Até aí Flávio Josefo, na Antiguidade dos Judeus, L. XII, 2. Eis as precárias fontes de uma obra que deveria iluminar-nos pelos séculos em fora. Perguntamos agora: Quem se fez fiador idôneo da sabedoria desses intérpretes? Como saberia Ptolomeu que a sapiência neles se fora aninhar? Como seria possível, transcorrido tanto tempo, jurar pela fidelidade dos seis de cada tribo, quando sabemos o que pode fazer o dinheiro e dádivas, e eles ali não foram barateados?... Para que a obra dos Setenta se impusesse, começaram a fazer-lhe os mais fantásticos elogios. Chegou-se a dizer que os setenta e dois doutores, em células isoladas, verdadeiros gabinetes indevassáveis, traduziram, separada e parcelamente, os livros sagrados; quando compareceram e mostraram o trabalho, via-se que a concordância era absoluta; os setenta e dois escritos pareciam cópia uns dos outros, tal a sua exatidão. Eles se ajustavam até nas vírgulas!... Fenômeno convizinho do milagre. Não havia duvidar: O Espírito Santo andara ali. É nessa infalibilidade que se baseiam alguns teólogos e não teólogos para afirmarem a inexcedível excelência da versão. Mas a verdade, ao que parece, é muito outra. Veja-se o grande Bertelot:

Non seulement l’influence de certains scrupules philosophiques, nés au contact de la civilization grec que a posé les traducteurs a modifier main passage, mais les traces de la précipitation et d’une connaissance très imparfaite de la langue originale se font voir dans un trop grand nombre d’endroits. On signale des suppressions et surtourt des additions. (Como se vê, reprocharam-lhe a influência de escrúpulos filosóficos, nascidos ao contacto da civilização grega, a modificação de muitas passagens, os traços insofismáveis de precipitação, o conhecimento imperfeito da língua original, notado em grande número de lances. Declara-se, ainda, que certos livros são maltratados, que há supressões e adições desprovidas de qualquer autenticidade). (72)

J. C. Rodrigues, numa obra incontestavelmente insuspeita, esclarece, referindo-se à Septuaginta: Por importante que tivesse sido esse trabalho, tem erros como todo trabalho humano, e até mais do que teria, se houvesse maior cuidado. Os autores deviam encontrar a maior dificuldade em exprimir os seus hebraísmos. (73)

As variadíssimas versões tornaram ainda mais difícil um juízo seguro sobre o livro infalível. A versão grega dos Setenta foi, por sua vez, traduzida para o latim, constituindo a Vulgata, ou a Antiga Vulgata, a Vetus Itala. Da Àfrica partiu para Roma; sendo inúmeras as cópias, já ninguém sabia como seria o verdadeiro original. Essa versão foi emendada, retocada... Ela esteve em uso no Ocidente, desde os primeiros séculos do Cristianismo, até que o Papa Dâmaso confiou a S. Jerônimo, em 384, a tarefa de redigir uma tradução latina do Antigo e do Velho Testamento. _______________

(72) La Grande Enciclopédie – Cap. Sobre a Bíblia, vol. 8, pág. 566. (73) J. C. Rodrigues – Estudo sobre o Velho Testamento.

S. Jerônimo achava a tarefa ingrata, e, de fato, foi alvo de cerradas críticas. A obra de S. Jerônimo tornou-se, com efeito, ainda vivo o seu autor, diz Léon Denis, objeto de vivas críticas; polêmicas injuriosas foram trocadas entre ele e seus detratores. (74) Cesar Cantu declara, referindo-se à obra: - A crítica atacou-lhe violentamente a tradução. Todavia a Igreja aceitou-a em lugar da antiga versão itálica, feita segundo os Setenta. (75) Para maior esclarecimento, leia-se o que diz Joseph Angus, doutor em Teologia, numa edição revista por outro teólogo, Samuel Green:

As diversidades e imperfeições dos exemplares latinos levou S. Jerônimo a fazer a revisão do texto, como Orígenes tinha anteriormente feito a dos Setenta. Empregou pare este fim os Hexapla, que serviram para que ele corrigisse cuidadosamente todo o Antigo Testamento, de que nos restam apenas algumas porções. Mas quando a revisão de S. Jerônimo estava completada, aconteceu que a versão dos Setenta principiou a cair em descrédito. Por este motivo tomou S. Jerônimo a empresa de uma tradução em latim, feita diretamente do hebreu. E no tempo de Gregório, o Grande, foi dignificada com o nome de Vulgata. O texto que foi composto em parte da antiga versão latina, e em parte da edição revista por S. Jerônimo, é também em parte uma nova tradução formada imediatamente do hebreu... Cedo foi o texto corrompido e vários homens eruditos tomaram o encargo de revê-lo. (76)

O fato é que a Bíblia sofreu inúmeros retoques. Xisto V suprimiu mais de cinco mil erros. “Os textos sofreram alterações”, assegurava peremptoriamente Joseph Angus. (77). “Mãos criminosas passaram pela Vulgata” declarava um pastor, nosso patrício. (78) Ensina J. C. Rodrigues:

Em 1528 e 1532, R. Stevens ajuntou valioso cabedal para uma edição crítica, e em 1540 publicou um novo texto, transunto de mais de vinte manuscritos de Jerônimo... A Igreja Católica resolveu pôr termo a essa barafunda... Reuniu-se o Concílio de Trento. O que resolveu ficou dúbio. Em 1587, foi publicado pelo Vaticano o texto oficial da LXX, e logo depois Xisto V deu início à edição da Vulgata, para cuja revisão uma comissão presidida pelo Cardeal Garaffo reuniu muito trabalho. O próprio Xisto V cortou a seu talante muitas emendas propostas pela comissão, e acrescentou outras, e tão profundas mudanças fez que o trabalho iria escandalizar a Igreja. A edição apareceu em 1590, precedida da célebre constituição Aeternus ille, em que Xisto afirmava que esta era a edição para sempre. (79)

Mas Inocêncio IX pediu que fosse proibida essa edição, que devia ser eterna. Resolveu-se, então, por proposta de Bellarmino, reimprimir-se outra coisa, devidamente emendada, mas, “para salvar as aparências”, dar-se-ia à nova edição o nome de Xisto V, _______________ (74) Léon Denis – Cristianisme et Spiritisme, 1923, pág. 35. o (75) Cesar Cantu – História Universal, 6, pág. 170, Trad. Ennes. (76) Samuel G. Green – História, Doutrina e Interpretação da Bíblia, Trad. De J. S. Figueredo, Lisboa, págs. 32-34. (77) Joseph Angus - História, Doutrina e Interpretação da Bíblia, c. IV. (78) Frederico Hansen – O Papado e o Padre Franca. (79) J. C. Rodrigues – Estudos sobre o Velho Testamento, V. 1, caps. XI e XIII.

dizendo-se haver a edição anterior saído com muitos erros. A nova edição ficou sendo chamada a “edição clementina”, apesar da boa vontade em salvar as aparências. Celso, no II século, censurava os cristãos por viverem retocando constantemente os Evangelhos e apagarem no dia seguinte o que tinham inserido na véspera. Leblois diz ter visto na Biblioteca Nacional de Santa Genoveva, no Mosteiro de St. Gall, manuscritos em que o dogma da Santíssima Trindade foi acrescentando à margem. Mais tarde o intercalaram no texto. (80) Sobre a Vulgata escreve ainda Léon Denis:

Ela foi modificada em diferentes épocas. O que parecia bom de 386 a 1586, o que fora aprovado em 1546 pelo Concílio de Trento, foi declarado insuficiente e errado por Xisto V em 1590. Fez-se nova revisão; a edição que daí resultou foi modificada por Clemente VIII. É esta a edição hoje em uso, pela qual se fizeram as traduções francesas dos livros canônicos, submetidas a tantas modificações através dos séculos. (81)

O Dr. Canuto Abreu, a maior competência no assunto, em todo o Continente, apesar de muito inclinado à inspiração bíblica, deixa-nos entrever as seguintes dificuldades, nas principais regras de hermenêutica:

Explicar o texto sagrado segundo as leis ordinárias da linguagem. Considerar o contexto santo, visando ao encadeamento das idéias e das proposições do autor sagrado. Comparar as passagens, paralelas por analogia ou por oposição, explicando umas por outras, e visando, quanto e se possível, à harmonia. Ter em vista o autor, o objetivo da obra, o argumento fundamental, a ocasião, o tempo, o lugar e o método da composição. Nas passagens obscuras ou difíceis, tanto nos textos originais como sobretudo nas versões, recorrer aos exegetas autorizados e respeitados por velha tradição de sabedoria. (O Evangelho por Fora, I, pág. 35).

Por aí se nota que trabalho representa um estudo do “livro sagrado”, e isto nos é dito por um dos seus cultores máximos. E aí têm o firme pedestal em que os nossos antagonistas sustentam as suas razões e com as quais pretendem arrasar os nossos princípios. Só por isto fomos obrigados a esta digressão filosófica e histórica. Não duvidamos que naquelas páginas haja algo de prestável, sem já nos referirmos, o que é fora de dúvida, aos Quatro Evangelhos, que refletem os ensinos do Divino Mestre. Era preciso, pois, para resistir ao aríete com que nos ameaçam e ainda por mostrar a alguns confrades o perigo a que se expõem, acostados a tão fraco arrimo, deixar evidente o pouco ou mesmo nenhum valor probante da obra que julgam imácula, levando-se a ousadia ao ponto de afirmar-se que nos foi transmitida por Deus de capa a capa. Pelo nosso estudo pode-se ver a confiança que merece a santidade do trabalho, depois de haver passado por tantas mãos profanas e diante de certos tópicos que apresenta, e dos ensinos que ministra.

(80) Leblois – La Bible et les initiateurs de l’humanité, Strasburgo. (81) Léon Denis – Obra citada.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.