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Capítulo 60 de 65

O Caso Piper — parte 2 de 2

A Evolução · Carlos Imbassahy

Diz Hodgson: - Não se lembra de Sra. Warner? - Certamente – E com uma exclamação: - Será então, esta, a sua filhinha? Mas como cresceu! Conheci muito sua mãe, uma encantadora senhora! Não poderia haver cena mais natural. Nenhuma outra hipótese a justificaria; o equívoco só poderia dar-se com pessoa que a conhecendo aos três anos não poderia reconhecê-la aos onze. Se o fenômeno fosse de leitura de pensamento, o médium saberia de quem se tratava. Pelham lembrava-se ainda da opinião dos amigos, de suas ocupações, de seus hábitos. A James Howard, escritor, indagava: - Por que não escreveu mais a respeito da sobrevivência? Lembra-se quando tínhamos necessidade de recorrer a uma obra? Você logo a encontrava na estante. E que fim levou o seu comprido cachimbo? Já não fuma? Recordações absolutamente exatas. Catarina, filha de James, tocava violão e, a propósito, George Pelham fazia muitas pilhérias. E agora lhe pergunta ele: - Como vai seu violão? E como era horrível ouvi-lo! E a conversa continuou nesse tom humorístico. Tal como dantes.

Vendo uns botões na camisa de John Hart sabe quem os deu. A Senhora Howard apresenta-lhe uma fotografia. Ele a reconhece e diz: - Era a sua residência de verão... Mas onde está a pequena dependência que não vejo aqui? Causa admiração o reparo: a pequena dependência existia, de fato, mas ficara fora do retrato. Também gracejava com a irmã de Catarina como o fazia outrora. Afinal, James Howard pede lhe diga algo que só eles dois conhecessem. A Sra. Piper põe-se a escrever febrilmente e coloca na folha a declaração – pessoal. Os presentes retiram-se. James lê, guarda o papel, comovido, e exclama: - Obtive tudo o que podia desejar em matéria de prova; estou completa, inteiramente satisfeito. A descrição que Pelham faz do Além e do que diz respeito à alma não se afasta das lições de Allan Kardec, fato tanto mais curioso quanto na Inglaterra pouco se conhece das obras do Codificador. Destarte, explicava ele: Temos um fac-símile etéreo do nosso corpo físico, fac-símile que persiste após a dissolução do corpo somático.

Descreve a sua morte: - Tudo se obscurece, mas a pouco a consciência foi voltando e acordei para uma existência nova. A princípio nada distinguia. O mundo novo surgia para mim como para vocês surgem os instantes que precedem a aurora. De começo era tudo mistério e confusão. - Então – pergunta Howard: - Deve ter ficado surpreso por se achar vivo. - De certo, extremamente. Não cria na sobrevivência; isto ultrapassava o meu entendimento. Hoje me admiro de como podia duvidar! A descrição que faz do Além é animadora. Um dos tios do Professor Hyslop também dizia: - Fui uma criatura mais ou menos feliz aí; entretanto não desejava voltar de forma alguma. Pelham declarava: - Este mundo em que me acho é a estância da abundância e da paz. De fato, a não serem os sofredores, nenhum Espírito deseja retornar a este “vale de lágrimas”.

Quando os guias que compunham o grupo Imperátor passaram a dirigir as comunicações, estas adquiriram ainda maior nitidez, uma extraordinária exatidão; o erro é raríssimo, a mentira inexistente. O transe da médium mudou; em vez das contorções, a calma, a tranqüilidade, o sono imperturbável. Imperátor é diferente dos outros. Nele se nota a feição religiosa, a sinceridade, a gravidade; vê-se-lhe a bondade extrema, grande sentimento de piedade pelas criaturas, de equidade, de justiça. Entretanto, nele domina a firmeza das resoluções, que estariam a denunciar o “Imperador”. Os Espíritos que o acompanham, Dóctor, Prúdens, Réctor, igualmente elevados, devotam-lhe amizade e respeito. E fato de relevo, os temperamentos, os caracteres, os ideais são os mesmos que já manifestavam ao tempo de Stainton Moses e que transparecem das obras desse virtuoso sacerdote, de quem eram guias, e por cuja mediunidade se revelaram. Imperador inspirava respeito aos próprios céticos. Em matéria religiosa ensinava o que já se encontra nos livros de Kardec, isto é, que a humanidade tem recebido, com intervalos, fragmentos da revelação divina por intermédio de homens inspirados; mas, em pouco tempo, são esses fragmentos deturpados, e de tal maneira mergulhados na lama humana que se tornam irreconhecíveis. De Réctor escreve William James:

Ele se vos dirige como um dedicado amigo, aparece como homem de idade, e quando fala, dir-se-ia um eclesiástico, de voz fraca, um tanto fatigado de sua experiência do século, de paciência inesgotável, benevolente e desejoso de pôr toda a sua ternura e benevolência a serviço da humanidade. Testemunhas de humor crítico e esmiuçador reconheceram sua sabedoria e confessaram-se admirados de seus conselhos morais.

E James acrescenta:

Com todo o respeito que devo à Senhora Piper, sinto que sua capacidade em vigília seria muito inferior à do Réctor, como conselheiro espiritual.

Passemos às memoráveis sessões em que o experimentador foi James Hervey Hyslop. Este universitário fez um relatório de 650 páginas, dum texto fin et serré, diz Sage, que acrescenta:

Os incidentes, os argumentos, as provas, tudo aí é pesado escrupulosamente. É um trabalho de considerável alcance. Bref, c’est un travail d’une portée considerable.

E mais:

O professor Hyslop é um espírito de sinceridade absoluta e grande lucidez. Ocupa nos Estados Unidos um eminente lugar entre os trabalhadores do pensamento. C’est à bon droit que le Professeur Hyslop occupe aux États Unis une place eminente parmi les travailleurs de la pensée.

Hyslop aparece disfarçado e sob nome suposto; Hodgson apresenta-o como Sr. Smith. Os comunicantes foram seu pai, Robert Hyslop, e vários outros parentes. Apesar de suas desconfianças, ou de sua quase hostilidade às questões espíritas, ele declarava, logo após as manifestações:

Foi meu pai, foram meus irmãos, foram meus tios com quem conversei. Quaisquer que sejam os poderes supranormais que se concedem às personalidades segundas da Sra. Piper, dificilmente me farão acreditar que essas personalidades tenham podido reconstituir tão perfeitamente a personalidade moral de meus parentes falecidos. Admiti-lo, arrastar-me-ia muito longe na inverossimilhança. Prefiro acreditar que foi a meus parentes que falei.

Tomemos alguns exemplos em meio à grande cópia que enxameia o Relatório, com grande riqueza de pormenores, o que tudo somos obrigados a pôr de lado, premido nas encóspias do espaço. O pai do experimentador, Robert, era um homem reservado; jamais atraiu a atenção pública; doente, depois de uma longa enfermidade, veio a falecer. Uma das características de Robert era a sua linguagem. Ora, o estilo é o homem. E ele usava o mesmo falar, as mesmas idéias, as mesmas locuções, os mesmos conselhos que tivera em vida. De quando em quando, o filho interrompia o diálogo com o morto, para exclamar: - Esta expressão é verdadeiramente de meu pai. Vale apresentar alguns pequenos episódios: O velho tinha um cavalo ao qual muito estimava, de nome Tom. Numa das sessões, perguntou: - Que é feito de Tom? – E como James não compreendesse: - Tom, o meu cavalo, que fim levou? Como ele em vida fosse calvo e se queixasse de frio na cabeça, sua mulher lhe fizera um barrete preto, que ele usava numerosas vezes. Numa sessão, lembra o barrete.

James, ausente de casa muito tempo, não tivera conhecimento do tal gorro; escreveu, então, à madrasta que confirmou a exatidão desse detalhe. Em outra sessão disse que em sua escrivaninha havia habitualmente dois frascos, um redondo e outro quadrado. O professor, ignorando, ainda, esse fato, procurou certificarse junto à madrasta; esta também não se lembrava; foi o irmão que disse existirem, de fato, esses dois frascos na escrivaninha; o redondo continha tinta e o quadrado uma espécie de mucilagem. Fatos como esses se reproduziram constantemente; era necessário, para descobrilos, que o filho entrasse em indagações. Por mínimos que nos pareçam, servem para revelar a identidade do defunto, porque só ele os conhecia; a sua insignificância não os podia tornar públicos. Vejamos, entretanto, outros de maior vulto. Um dos filhos de Robert causava ao pai muitos desgostos. Robert, muitas vezes, falara disso a James. Pois bem, em várias sessões tratou ele desse assunto, que tanto o impressionara. Mas, dizia ao filho: - Não te zangues por isso, não te irrites, tudo melhorará... expressões eram estas que costumava ter em vida.

Fora ele calvinista ortodoxo e pertencera a uma seita extremamente rígida, que professava com a mesma rigidez. Nas suas comunicações fazia alusões constantes a esse ponto importante. Certo dia, o Dr. Hodgson lhe pedira que procurasse seu pai e travasse com ele conhecimento, pois tinham as mesmas idéias religiosas. Na sessão seguinte, disse Robert a Hodgson: - Encontrei seu pai, conversamos e nos agradamos um do outro. Ele, porém, não era ortodoxo – E de fato não o era. E Robert

acrescenta: - Aqui a ortodoxia não tem importância; modificaria meu modo de pensar em muitos pontos se soubesse o que sei hoje. Quando vivia em Ohio, Robert tinha por vizinho um tal Samuel Cooper; entre ambos houve longa desavença, porque os cães do Cooper haviam matado os carneiros de Robert. Em determinada sessão, a pedido de James, Hodgson falou no incidente de Ohio e referiuse a Samuel Cooper. O manifestante tomou-o por um outro Cooper com quem trocara idéias sobre questões filosóficas. E declarava que não tivera questões com ele, que suas discussões giravam em torno da Filosofia, que o julgava amigo. Isto atrapalhava e desnorteava James Hyslop, até que, por fim, aludindo ele diretamente ao incidente que motivou o rompimento, o pai para logo se lembrou do caso. E explicou imediatamente a razão do engano: ele tomara este Cooper pelo seu antigo amigo do mesmo nome, o admirável filósofo que o deleitava nas suas dissertações. James nada sabia dessa amizade, de que só veio a ter conhecimento pelos informes de outros parentes. O incidente é duplamente probante.

E de grande valor teórico, porque destrói por completo a doutrina da transmissão do subconsciente, do reservatório cósmico, pois que nesses casos seria apanhado o pensamento do interrogante, em vez do equívoco muito comum entre as pessoas vivas. Não sabemos o que dirá a Psicanálise de semelhante lapso, se ela um dia o estender aos defuntos. Nós veremos nele, em vez dos “recalques” dessa Ciência, uma idéia de superior à outra. É de crer que o Cooper amigo ocupasse com muito mais vigor o pensamento do velho, que o Cooper dos cachorros. Aquele obnubilara este. Outro equívoco da mesma natureza é o que se deu com uma pergunta de James. Este lembrara-se que o pai chamava de “catarro” à sua doença e para que ele a repetisse, sem que lhe desse o nome, perguntou-lhe por sua perturbação, em inglês trouble, vocábulo que significa, ao mesmo tempo, doença e discórdia. Robert toma-o na sua segunda acepção e declara: - Não, James, nunca houve nenhum mal-entendido entre nós.

Após as necessárias explicações, o falecido entrou a discorrer sobre os seus antigos padecimentos, descreveu a sua moléstia, os sintomas da mesma, tal como os presenciaram vários parentes e amigos, e tudo com pasmosa fidelidade. - Sabe, rematou, que a última coisa de que me lembro é de te ouvir falar-me. De fato, o filho lhe falara, quando ele já estava em coma, e não pudera responder-lhe. Por fim, perguntou-lhe James se ele se recordava de uma especialidade farmacêutica que lhe enviara de Nova York. O pai, depois de algum esforço, lembrou-se e disse exatamente o nome do remédio. James Hyslop que, a princípio, fazia poucas perguntas, que estava cheio de cautelas, deixando que o Espírito visitante falasse quase exclusivamente, por evitar que suas perguntas instruíssem as respostas, saiu, finalmente, de suas reservas. O resultado foi extraordinário. – Eu falava com meu pai desencarnado – assegurava o Professor James – com a mesma facilidade e a mesma segurança como se conversasse com ele vivo, pelo telefone. Compreendemo-nos, mesmo nas meias palavras, como em conversa ordinária.

Realmente, falaram de tudo, dos menores incidentes da vida, dos episódios, importantes ou não, de remotos acontecimentos, dos aborrecimentos, contratempos e desgostos, de casos de família, muito íntimos, e dos momentos de alegria, embora poucos. Pai e filho parece que se tinham encontrado de novo, depois de prolongada ausência, e rememoravam como grandes amigos os dias passados. Outro comunicante entre os parentes de Hyslop foi o seu tio Carruthers. Este se interessa muito por Elisa, irmã de Robert, e pede que a acalmem, porque ela vive isolada e está desesperada com a sua partida para o Além. De nada disto sabia o professor, e só se certificou do caso pelos informes precisos que lhe deram posteriormente.

Nas sessões com Réctor, Hyslop falava de sua mulher, porém não lhe pronunciava o nome, à espera de que Réctor dissesse. Como ele, porém, nunca foi dito, Hodgson comunicou o caso ao Espírito George Pelham. – Bem, - disse este, - eu vou indagar, e se houver um nome, eu o trarei. – Pouco depois voltava e dizia: - Ora, vocês fazendo tanto barulho por causa de um nome – aí o têm, é Margarida. Chamava-se, realmente, Margarida, a primeira esposa de James. Devemos notar que nas sessões com o professor Hyslop só se manifestam os Espíritos susceptíveis de demonstrar a sua identidade. Os outros, ao que parece, tinha Imperátor o cuidado de afastá-los.

Aqui ficam, em ligeiros traços, alguns dos episódios que deixaram patente por intermédio da Sra. Piper, que o Espírito não morre, que conserva as reminiscências da passada existência, e com elas os seus gostos, as suas idéias, a sua inteligência. Vários fatos militam em favor da sobrevivência e o demonstrou a mediunidade daquela Senhora e, entre eles, a unidade de consciência e de caráter entre os comunicantes. Dizem o que só eles sabem e pensam. Nunca se confundem, nem nas idéias, nem nos conhecimentos, nem no estilo, nem nas afeições. E tão patente lhe é a personalidade, que, com um pouco de hábito, logo se sabe quem são, mesmo sem que o digam, e apesar do longo intervalo que põem, muitas vezes, nas suas manifestações. Nota-se, sobretudo, uma empolgante intensidade de vida, de verdade e de gravidade nos guias, declaram todos os sinceros pesquisadores que com eles se entretiveram durante o longo convívio com o mediunismo da famosa sensitiva. O fenômeno tomava maior realce no chamado grupo de Imperátor, cuja austeridade, cuja solenidade eram de comover. Não seria possível confundir Phinuit, George Pelham, Robert Hyslop, Réctor, Imperátor, uns com os outros, personalidades distintas, absolutamente distintas. Tal é em síntese o “episódio Piper”, que aqui apresentamos com exemplo de que os mortos vivem, pensam e se comunicam conosco.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.