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Capítulo 24 de 65
Um Pouco de Psicologia
A Evolução · Carlos Imbassahy
Analisemos umas tantas teses apresentadas contra a Reencarnação para mostrar como são elas insustentáveis: É um absurdo chamar o homem centelha divina, como se Deus criasse centelhas ignorantes, que pecam e degeneram, e ainda as punisse: seria um Deus criador de desgraças. O autor é um escritor bíblico e propagandista evangélico. Nunca se disse em espiritismo que centelhas degeneram, divinas ou não, tratando do ser, porque o Espírito não retrograda. Mas que há desgraças toda a gente está vendo. Se não foi Deus quem as criou, só poderia ser o diabo. Ao Pai da Mentira têm atribuído muitas maravilhas, porém nunca se lhe deu o poder genesíaco. Entretanto, ao ardoroso cristão passou despercebido o ensino evangélico:
Tudo foi feito por ele; e nada do que tem sido feito foi feito sem ele. (17) Temos ainda os seguintes lances:
O papel dos padres, pastores e líderes espíritas devia ser esclarecer o entendimento dos homens, levando-os à compreensão das realidades da vida, mostrando-lhes os erros que praticam.
Não se tem feito outra coisa até hoje; não tem sido outra a missão dos Mensageiros do Alto. O próprio autor sabe de sua inutilidade, quando indaga:
Quem quererá nos dias que correm sacrificar a felicidade e a tranqüilidade por amor à verdade e à humanidade? Ainda há quem se sacrifique, rari nantes in gurgite vasto. Mas para que o homem compreenda os seus erros é preciso achar-se em certa altura mental. O livre arbítrio só se processa em elevado estado da evolução humana. Antes desse período, as falas do nosso amigo não encontrarão na abóboda craniana sulco por onde penetrar. Será inútil ir ao alto dos telhados. A tais idéias revida o nosso crítico: Se as virtudes se explicam pela lixívia do tempo, o esforço no sentido da regeneração é uma tolice. Dizer ao homem que ele está dispensado do esforço porque pouco a pouco as reencarnações o levarão à perfeição é pregar uma doutrina satânica e perniciosa.
Ninguém diz a seu semelhante que ele está dispensado de fazer esforços. O que se declara é que é necessário tempo para que ele possa compreender o esforço que se lhe pede no sentido de sua regeneração.
(17) João, I: 3
Enquanto ele estiver submetido ao domínio de uma inferioridade patente, enquanto for o joguete das emoções, das paixões, das necessidades, do egoísmo, dos impulsos, das idéias arraigadas, dos costumes, dos instintos, não aceitará os conselhos para o Bem, nem os entenderá. O que se diz então, é que ele não poderá apreender umas tantas emoções por deficiência mental, por incapacidade espiritual, por obstinação habitual. Não tem vivacidade intelectual para compreender os problemas de ordem ética. O Mestre deve ter repetido inúmeras vezes. - “Não lanceis pérolas aos porcos”. Para que os porcos apreciem, porém, as pérolas, é que se faz mister a lixívia de que falamos. Se o amigo se puser a desfiar diante de um leopardo o rosário de virtudes que ele deve praticar, o mais certo é que a fera o ouça desatento e continue calmamente almoçar os outros seres da floresta, se antes não o almoçar a ele.
Quando, com o correr dos tempos, ela passar de leopardo a macaco e de macaco ao homem da caverna, e daí a índio, e de índio a rústico e de rústico a membro de uma sociedade regeneradora, é que irá apreciar detidamente as lições, até então inúteis, do nosso preclaro antagonista. É isto o que queríamos dizer com aquela lixívia. Como se vê, não seriam improfícuos os tais esforços. Tudo, porém, em sua oportunidade e a seu tempo, e estes são as reencarnações que os fornecem. Asseguram-nos ainda: Para que um homem se regenere moralmente basta que mude de mentalidade. Para isto não há necessidade de reencarnação. E mais adiante: O homem nada mais deve fazer durante sua existência que humanizar-se. Para isto será preciso reencarnar?... E aqui temos uns casos de extraordinária simplicidade – “Mudar de mentalidade e humanizar-se”. Dir-se-ia que para mudar de mentalidade não teremos maior esforço que o de mudar de gravata, e o humanizar-nos é um pequeno passo que dá quem quer.
Os antropologistas, os etnologistas, os psicólogos, os naturalistas, todos aqueles que estudam a alma, hão de ficar assombrados ao verem o pouco que custará a senda do progresso moral. Mas a verdade é muito outra. Com algum estudo, notar-se-á que o homem é em regra o produto dos seus sentimentos, e estes, frutos do seu atraso espiritual; tais sentimentos não se formam nem se extinguem a bel-prazer; nascem com o indivíduo, com ele crescem e morreriam com ele se ele fosse mortal. Exemplifiquemos. Vê-se um cidadão que, contra sua vontade, tem pena dos que sofrem. E como esta pena já é um sofrimento, ele seria, pelo menos, um indiferente, se isto estivesse em seu poder. Não o conseguirá, porém, ainda que o queira. É incapaz, por índole, de fazer o mal. Às vezes, levado pelo pundonor, pela sociedade, pelo receio de passar por tímido, quer tirar uma desforra, ofender, maltratar; mas, à vista da vítima, os seus sentimentos falam mais alto que as convenções. E ele desiste da vindita.
Outros são dedicados, tratam bem a todos, pedem desculpa de qualquer incômodo que dão, ou qualquer falta em que incorrem; são incapazes de matar uma galinha, de dar um pontapé num cachorro, e isto, muitas vezes, ao contrário do que praticam os pais, uns grosseirões. Revoltam-se, mesmo, com o gênio que possuem, por lhes parecer que estão tomados de pieguice, que não são homens, que se acham desfibrados. É que o sentimento lá está no íntimo, a desfazer-lhes a superioridade, vã superioridade, que eles supõem
imposta pelo sexo, e a neutralizar os conselhos e as opiniões dos coevos e até dos progenitores, que lhes reprocham a fraqueza. Tivemos um amigo, alto funcionário da Fazenda, de nome Luís..., para o qual, ser homem seria não aturar insultos, não dar quartel, não possuir “esse sentimentalismo doentio dos incapazes”, dizia ele. Sucedeu que emprestara a um companheiro cem cruzeiros, quando esses cem cruzeiros se chamavam e valiam cem mil-réis. Como necessitasse dessa importância e a mandasse cobrar, o outro enviou, em vez do dinheiro, uns desaforos. O Luís vestiu o casaco, pôs um chapéu e saiu dizendo-nos: - Vou quebrar a cara daquele patife. Forte, atlético, e irado como estava, vimos que o outro iria ficar em maus lençóis. E o acompanhamos. À porta da casa do sujeito, mandou que parássemos e entrou desabridamente. Pusemo-nos à espera do ruído das taponas, para intervir. Nada. Silêncio absoluto, até que o Luís voltou. - Então – perguntamos – o homem passou a gaita?... - Passou coisa nenhuma! Ainda deixei lá mais cem. Contou uma história de desemprego, doenças... Quis zangar-me... Acabei com pena. E os cem ficaram.
Vale, a propósito, ler uma página a respeito de Martinho de Campos, o afamado parlamentar da Monarquia. - Sou escravocrata da gema – dizia ele – isso é cá do meu feitio. E mantinha o propósito, exagerando os seus pendores escravagistas. Quem o ouvisse falar assim, imaginava estar em frente de um bárbaro, dum desalmado. Engano; no fundo, Martinho de Campos seria uma alma simples e boa, comunicativa e afável. Por trás daquela carranca pitoresca e feia, que os seus contemporâneos nos descrevem com traços impiedosos, escondia-se um temperamento doce, e não raro, sentimental. Fazendeiro no município de Cebolas, deixava a sua propriedade andar à matroca; os escravos vadiavam como queriam e ele a ninguém castigava por isso. Conta-se que, de uma feita, surpreendeu um negro furtando café no terreiro da fazenda. Se o roubo fosse descoberto, o escravo estaria perdido. Então, que fez ele? Deu as rédeas ao cavalo e partiu atrás do infiel. Ao alcançá-lo, em vez de uma reprimenda ou de uma chicotada, limitou-se a aconselhá-lo: - Olha, filho, mete-te aí pelo cafezal e foge para onde tens de ir...
O feitor anda aí por perto; e eu não te poderia livrar do bacalhau... (18) A forma e o exterior nem sempre dão idéia do que vai no íntimo da criatura. Muitas vezes, vemos indivíduos melífluos, maneirosos, delicados; retratos de mesuras e lábias, dirse-ia que estão sempre prontos à benignidade; possuem, entretanto, um caráter áspero, arrogante para com os fracos, cheio de doblez para com os fortes; são vingativos, propensos ao mal, que praticam o mais disfarçada, o mais hipocritamente que podem, o mais velhacamente que lhes permite o gênio astucioso. Outros, ao contrário, destoucados nos modos, rústicos nas expressões, violentos nas estrofes, são voltado ao bem, e não perdem ensejo de o fazer, embora fingindo que o não fazem. Vem a propósito o que nos conta Camilo Chaves, em interessante obra, a respeito do Padre José Gomes, bom sacerdote, conhecido benfeitor, embora um tanto colérico e malcriado.
(18) Osvaldo Orico – Estadistas do Império.
- Certa vez – conta o escritor – dirigiu-se à Igreja para encomendar um defunto em avançado estado de decomposição. No fim da cerimônia, ele já segurava o nariz, a ponto de a asfixia fazê-lo explodir: - Vai, desgraçado, vai feder nos quintos dos infernos. Mas isto era apenas estouvamento, porque no seu coração sentia justamente o contrário e era como se dissesse: - Vai, filhinho, vai para a mansão do Senhor. (19)
A inversa também é verdadeira. O indivíduo é indiferente à dor alheia ou é mau, por sentimento. Aquilo está com ele, está nele. Há até os que se comprazem na desgraça dos outros. Deixam de fazer o bem, praticam o mal, porque têm a alma insensível. Mas essa insensibilidade não foram eles que a fizeram. Independe deles; vieram ao Mundo assim. Teremos que buscá-la além do berço. ”Basta mudar a mentalidade”. Como, porém, a mudariam? Não se trata de uma peça de roupa que vestimos ou despimos conforme as circunstâncias. O que seria preciso era mudar, primeiro, o sentimento, porque é pelo sentimento que o homem age. Mas como se muda os sentimentos? Dizíamos a um amigo médico, cético: - Você precisa ter fé. - Ao que ele nos respondia: - Bem sei, e a fé é um consolo. Mas onde se compra? E como não sabíamos onde se comprava, passávamos adiante. Pois o sentimento é como a fé, não está à venda. É preciso, de fato, que o indivíduo se regenere. Mas, para tal, a viagem é longa.
Voltando à moral, iremos ver que, estando no raso como seres inferiores, ela se vai elevando à proporção que eles progridem em civilização. No estado agreste, bravio, as noções estarão de acordo com aquele estado. É impossível convencer o selvagem que ele deve poupar o inimigo e muito menos tratá-lo fraternalmente. A sua mentalidade é irreformável desde que nele se enraizou a crença de que o inimigo nasceu para ser vencido e morto, assim como nos broncos senhores de engenho e donos de fazenda havia a de que o negro nasceu para chicote. Neles não existia a menor noção de benignidade. Impossível seria a Gengis-Khan perceber o que fosse a piedade para as nações que invadia e para os povos que ele avassalava. A catequese nos faz lembrar aquele episódio relatado por um jesuíta: depois de longo discurso, ele perguntou ao catecúmeno o que era o bem e o que era o mal. E o selvagem respondeu: o bem é comer o inimigo e o mal é ser comido por ele.
(19) Camilo Chaves - Caiapônia, Belo Horizonte, 2ª edição.
Quem estuda os povos atrasados verifica que os mesmos se tornam inacessíveis a qualquer esclarecimento. Tratando dos hotentotes, diz Bertillon, eles são de tal forma preguiçosos, que nem a fome os torna ativos. Resolvem tudo pela brutalidade, pela lei do mais forte. Os filhos tomam ao pai o pátrio poder, lutando-o e derrotando-o. Não têm a menor consciência do que seja erro, falta, pecado ou remorso, e não entenderiam nada de virtude, se lhes falassem nela. Os boximanes ainda são piores. Quando um leão ronda a cabana, os pais entregamlhes os filhos para apaziguá-los. Se morre uma lactante, os filhos são enterrados com ela, porque nenhuma outra mãe se incumbiria da nutrição deles. (20) Entre os cafres a vingança é sinal de valor e dignidade. O perdão é desprezível. (21) Os naturalistas verificaram entre os Diggers traços de extrema inferioridade; habitam em cavernas, são repelentes, de inaudita selvageria e pouco diferem do orangotango. A sujeira que os cobre é incrível. O padre Cobalcchine, tratando dos bororos, refere, entre outros costumes, uma prática dos pais, por ocasião do nascimento do filho:
O pai, dois dias depois do nascimento do filho, procura o ixira, bastãozinho pontudo, ordinariamente uma lasca longitudinal da nervura da folha de palmeira, com cerca de meio metro. Torna-o agudo e flexível numa extremidade. Introdu-lo na boca pelo canal respiratório até o pulmão e comprime-o para ferir-se. Provoca uma abundante hemorragia pulmonar com o fim de fortificar-se, emitindo o sangue que o filho teria deixado nele. Depois desta superstição, bárbara e estúpida, vejamos como prosseguem os progenitores em relação à criança: Reina entre os índios o infanticídio. Quando em época próxima a um parto um dos dois esposos tem mau sonho, ficam com a obrigação, moral, perante a tribo, de matar a criança apenas nascida... Outras causas autorizam a morte do recém-nascido: 1. A doença dos progenitores nos últimos meses da gravidez; 2. A desilusão da expectativa: os pais desejam filho e nasce uma filha ou viceversa; 3. Um parto duplo ou múltiplo; só um dos nascituros é criado; algumas mulheres desnaturadas, parece-nos sejam poucas, mandam matar os filhos para evitar o incômodo de criá-los. (22) E trata-se de uma tribo já um tanto adiantada.
Kraft observa que os Dokos, na Abissínia, não sabem fazer fogo, nem cultivar o solo; vivem de sementes e raízes que arrancam com as mãos, ou de ratos e serpentes, quando conseguem apanhá-los. Abrigam-se sob as árvores, ignoram o pudor; ao termo da amamentação, as mães abandonam os filhos. (23)
(20) Alphonse Bertillon - Les Races Souvages, pág. 65. (21) Viana de Lima – L’homme suivant le transformisme. (22) PP. Antonio Colbaccine e César Albisetti – Os Bororos Orientais, São Paulo, 1942, págs. 45-46. (23) Gabriel Dellane – L’Evolution Animique, pág. 63.
Os Tarungares são excessivamente selvagens. Vivem nus, não têm a menor noção de moral, e, além de antropófagos, chegam a desenterrar os cadáveres para comê-los. Os Weddas, de Ceilão, possuem a figura bestial, repelente. Parecem-se com os macacos e vivem com os macacos. Agasalham-se cobrindo-se com folhas. O explorador Baker diz dos Kytches e dos Latoukas que eles não se diferenciam dos brutos: são macacos verdadeiros. La Gironnière ficou impressionado em Luçon com o caráter simiesco dos Aetas e Darwin espantou-se quando avistou os Fuegianos. (24) Indagaríamos, agora, como seria possível, no curto prazo da existência terrena, modificar a mentalidade e os hábitos dessa gente, quando é com dificuldade que se mete na cabeça de um civilizado que ele não se deve vingar, insultar, jactar-se de sua superioridade, cobiçar, invejar, desdenhar os mais fracos e menos protegidos da fortuna; quando é problemático convencê-lo de que deve tratar paternalmente os subordinados e fraternalmente os semelhantes; de que não deve mentir, caluniar, roubar, matar.
Vá dizer-se a um “valente” que não lhe compete revidar um insulto à bala; vá convencer-se a um estulto que ele não tem o direito de matar a mulher que gostou de outro; que é uma estupidez lavar a honra com sangue; que não deve espancar os filhos, nem a esposa, seres confiados à sua guarda e proteção, assim como não deve maltratar os animais; que não pode enganar o próximo, espoliar o incauto ou lesar o Estado. Estude-se o caráter do homem, desde o mais baixo nível social até mesmo às altas esferas da civilização, e vamos notar o predomínio do egoísmo, o exagero das paixões, os frutos da intolerância, a falta quase absoluta do raciocínio, o império da maldade. E quanto mais baixa for a condição étnica, mas acentuadas serão essas falhas. É inexeqüível a mudança da mentalidade nos estreitos limites de uma encarnação.
Temos, como os rios, de vir correndo através do leito arenoso, numa viagem acidentada e trabalhosa, já na precipitação das corredeiras, no embate das pedras, na fricção com o cascalho, já nas quedas das cachoeiras, no fragor dos saltos, no conflito das pororocas. Assim é a alma no curso das existências. A reencarnação não age por efeito mecânico, mas por efeito do atrito. É na aspereza da estrada, os conflitos com o semelhante, na agrestia da natureza, nas inclemências do orbe, no sofrimento e no conhecimento, na queda e no soerguimento, que as existências sucessivas proporcionam, que ela conseguirá chegar à vida intelectual e moral, como a corrente chegará ao vasto estuário ou ao oceano, depois de sua vertiginosa carreira pelos caminhos árduos, ingratos, sinuosos e abissais talhados na sua passagem.
(24) Gabriel Dellane – L’Evolution Animique, pág. 63.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.