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Capítulo 31 de 65

Símbolos e Chaves

A Evolução · Carlos Imbassahy

Rebatendo nosso livro sobre Reencarnação, os defensores da Bíblia apresentam os seguintes postulados:

1. As religiões têm os seus símbolos para esconder do vulgo coisas que ele não deve saber por não poder empregá-las legitimamente. 2. É preciso conhecer a cabala hebraica. 3. Não é justo que alguém repudie um livro porque não o entende.

Reforçam as suas razões declarando que há segredos que não podem ser confiados a indivíduos indignos de conhecê-los como há inventos que não devem ser revelados. De maneira que na Bíblia se contam episódios terrificantes; as desonestidades e as imoralidades ali pululam; pois é isto o que convém ler; as crueldades e os absurdos ali descritos foram melhor processo de que lançou mão a Divindade para ocultar os segredos que não podem ser revelados. Quanto ao argumento cabalístico, lamentamos não vejam os paladinos do livro sagrado que não é a Cabala que temos à vista, senão a Bíblia; o de que dissentimos é da Bíblia, que esta é que está em nossas mãos. Ensina a bíblia que Deus mandou matar, que Moisés matou, que Deus se arrependeu de ter feito este mundo, que se irou, que foi preciso que o acalmassem. E se dizemos que isso não está certo, jogam-nos ao rosto a Cabala. Diante, portanto, de uma Cabala que raríssimos conhecem e de que a Bíblia nunca veio acompanhada, temos que aceitar como faróis todos os textos, embora o que esteja à tona sejam os mais perigosos abrolhos. A verdade que está no pélago. A problemática luz que nos deve guiar, essa não se vê.

Vamos ao entendimento. Lemos no Deuteronômio, 20:16, por exemplo:

Das cidades que o Senhor teu Deus te dá em herança nem uma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Em 21: 20-21: Este nosso filho é comilão e beberrão. Então, todos o apedrejarão até que morra.

Será que isto não se entende? Postos os óculos tornamos a ler e vimos que se ordenava não deixarem os de fôlego vivo e que se recomendavam apedrejamento do filho até que morresse, pelo fato de ser comilão e beberrão. Um monstruoso filicídio. Parece que toda a gente entenderá isso. Mas o que está claro não é aquilo, senão uma certa explicação que deve andar em esconderijos incertos.

Dão-nos ainda esta sentença, a de que ninguém pode interpretar um escrito cifrado sem conhecer a cifra. Lá isso é difícil. Mas há sempre uns peritos que conseguem o prodígio. Esses peritos, entretanto, no que toca às Escrituras, não andam à mão tente. Assim, aconselha-se a toda a gente que leia a Bíblia; distribuem-se Bíblias aos milhões; é o livro mais editado, mais espalhado no mundo; entretanto, para entendê-lo é preciso ter ao lado um autêntico decifrador. O caso, porém, é que ninguém nos apresenta a Bíblia como um livro cifrado e muito menos com a respectiva cifra. Dão-no-lo e dizem: Leiam isto. Sempre se teve a Escritura com um livro divino. O Espírito Santo deixou naquelas páginas o pensamento de Deus. Quando nos querem esmagar, trazem-nos a palavra de Deus nos escritos da Sagrada Escritura. Ora, não consta que o Espírito Santo fosse charadista. E quando vamos replicar, mostrando que o que nos impingem como a palavra divina não resiste à crítica, surgem-nos com o “enigmas”.

Para nos atacarem serve o que está ali; para se defenderem é o que não está ali que serve. Fulminam-nos com os textos da lei: então não é cifra. Mostramos o erro dos textos: aí é cifra. O que também não é possível compreender é que Deus nos enviasse suas ordenanças em forma de quebra-cabeças. Mas então aquilo era para não se entender?... Em suma, o que ali se acha não se deve ler; o que se deve ler não se acha ali. Só sabe ler quem possui predicados de adivinhador. Enfim, a Bíblia é um código de sabedoria, mas o Código está cifrado. A sabedoria tem que nos centrar na cabeça por intermédio do sexto sentido ou por processos divinitórios. O mesmo será que estabelecer o código de um país; é inútil, porém, procurar ali as leis porque ele se deve guiar. O povo, se não for forte na decifração de logogrifos há de fazer a mais miserável figura do que se refere às normas de sua conduta.

O estudo da Bíblia, pelo visto, é o mais penoso trabalho que se apresenta à inteligência humana. Não basta lê-la e traduzi-la através dos mais complicados, errados e lacunosos textos antigos, através do hebraico, do grego, latim, do esperanto, dos idiomas universais. Isso pouco é. Isso nada é. Os textos devem ser entendidos à luz de outros textos, apanhados a dedo; devem ser buscados em obras que não se sabe onde anda; devem ser adivinhados no labirinto e no laboratório das cifras. Dizem que só um sábio pode conhecer todo o complicado e extenso alfabeto chinês. Calcule-se que poço de sabedoria não deverá ser aquele que sabe ler a Bíblia, com suas combinações e arranjos, com sua significação textual, sua exegese, sua tradução, interpretação e decifração, desde os mais remotos originais até as mais ocultas obras elucidativas; desde a fonte egípcia ou hebréia até o claviculário charadístico.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.