Voltar ao livro A Evolução

Capítulo 43 de 65

A Transmissão pela Memória

A Evolução · Carlos Imbassahy

Buscávamos fazer ver, em livro recentemente publicado, que a hereditariedade psíquica era posta em dúvida, ainda mesmo por grandes luminares da Ciência. E, assim, procurávamos demonstrar que os nossos antagonistas não se podiam firmar ainda mesmo no pedestal acadêmico. Quando, buscando rebater o problema da reencarnação, surgiam com a “memória ancestral”, achavam-se numa embaladora ilusão, a de que essa memória era um princípio científico inabalável, e nele escudados, riam desassombradamente das nossas pretensões. Ora, as aquisições do passado não nos poderiam vir através da memória. Para chegarmos a estas conclusões, seria preciso provar, antes do mais, que a memória é função do cérebro ou de qualquer parte do corpo. Se, inegavelmente, ela sofre das deficiências cerebrais, se a célula nervosa deve ser banhada pelo sangue oxigenado, e, cessada a irrigação, cessa a vida psíquica, não é menos certo que é um tanto relativo esse paralelismo psicofísico, o que aliás facilmente se explica. O que não se explica, diante da Fisiologia, são as suas falhas, que transtornam por completo os postulados científicos já assentes.

O paralelismo psicofisiológico cai por toda a parte: para a Metapsíquica não existem as limitações sensoriais. A visão se efetua através dos corpos opacos e sem o socorro dos olhos. Tal médium nos conta uma cena que se passa nesse instante a centenas de léguas; tal outro parece ler em nosso pensamento; tal outro vê um fato futuro e o descreve como se dele fora testemunha. (124)

A causa de tais fatos, a explicação de tais fenômenos, já dizia Driesch, vai ser justificada na doutrina espírita. (125) Para Bergson, o cérebro armazena hábitos motores e não lembranças. (126) Onde se encontram elas, pois, para serem transmitidas? E a memória que será? Ouçamos um fisiologista:

Eis um dos fenômenos mais extraordinários de toda a Natureza. Cinqüenta anos depois que uma imagem visual, motora, auditiva, atingiu minúscula célula nervosa, a qual, a cada segundo, está em vias de transformação, a lembrança da imagem não desapareceu. Se não nos espantamos com essa maravilha, é que o hábito impede o espanto. (127)

(124) Revue Métapsychique, 1924, pág. 40. (125) Hans Driesch – El hombre y el Universo, Trad. Esp. de Cansinos Assens, Madrid, I, 128. (126) Henri Bergson – L’Energie Spirituelle, Paris, 1949, pág. 27. (127) Charles Richet – Apologie de la Biologie, 1929, pág. 61.

E em outra obra:

No ponto de vista estritamente fisiológico, o fenômeno da memória, posto que habitual, aproxima-se do sobrenatural. Como uma palavra que ouvi há cinqüenta anos, uma paisagem que vi há cinqüenta anos, uma figura que se me apresentou há cinqüenta anos pode, palavra, paisagem, figura, ficar indeléveis em minha consciência ou minha inconsciência? Como os abalos do protoplasma nervoso (lês ébranlements du protoplasma nerveux) consecutivos à formação dessa imagem, podem persistir durante cinqüenta anos, com sua complexidade prodigiosa, quando a cada instante, nas mesmas células, talvez outros abalos se produzem, enquanto os materiais dessas células se transformam milhares de vezes na caixa cerebral? Que traço deixaram? E onde? Onde se acham essas irritações? Que são? Onde as células? Ao fim de alguns dias não resta absolutamente nada dos elementos químicos e anatômicos que constituíam nosso cérebro. E então, ao fim de cinqüenta anos?... Deixemos isto que é um grande mistério. (128)

Pois é neste grande mistério que se fundam os doutos patrícios para mostrar ou demonstrar a hereditariedade psíquica, ou seja, a transmissão pela memória ancestral. E isto, quando nem sabemos o que é a memória atual. Pois aquilo que a Fisiologia não sabe dizer, vai dizê-lo a Metapsíquica. Veremos que a memória está no Espírito e só o Espírito pode trazê-la consigo. O que se verifica com a submissão do Espírito à matéria e, conseqüentemente, com as deficiências cerebrais, é o mesmo que se nota no indivíduo submetido às estreitezas de uma cela. Ele só pode bracejar francamente, em plena liberdade. Resultado, portanto, da clausura. Fora daí, tudo nos indica que a memória, em vez de fazer parte da matéria, é um predicado do Espírito. As transformações celulares não atingem nem o Espírito nem a memória, como não atingiriam um detento os consertos e modificações do seu cubículo, os quais apenas lhe restringiriam as manifestações.

Se dissermos, porém, que o preso é parte do calabouço, como os tijolos, o cimento e o madeirame que o compõem, toda a gente entrará a mofar. Abram-se, porém, as portas do presídio, e o prisioneiro voltará à plenitude de suas funções. É o que se dá com o Espírito, o qual, mal se afrouxam os liames que o prendem, cria verdadeiras asas, enquanto a memória se vai desanuviando à proporção que ele for evolvendo. A nossa proposição não é simples fantasia, digressão literária, ou arranjo explicativo. Ela tem a base dos fatos. Assim é que nos diz o Dr. Gabriel Delanne:

Permitam-me que eu faça notar que a memória é um fenômeno incompreensível, e se quisermos situá-la no cérebro, o qual se renova integralmente grande número de vezes, durante toda a duração da existência, não haveria nenhum elemento estável ao qual essa memória fosse ligada. Por outro lado, assim como lembra M. R. Hamilton, verificou-se durante a guerra, que abcessos consideráveis do cérebro não tinham aniquilado as faculdades mentais daqueles por eles atingidos. (129) ________________ (128) Charles Richet – L’Avenir et la Prémonition, Paris, Ed. Montaigne, pág. 19. (129) Gabriel Delanne – Revue Metapsychique, 1924, págs. 429-433.

Enfim, ele afirma que a hereditariedade física é a lei: a intelectual não existe. Crê, com Allan Kardec, na afinidade eletiva. Casos há em que é profunda a anemia cerebral, em que nada se poderia esperar do cérebro, e, entretanto, é prodigiosa a sua atividade e ativíssima a sua memória. Verifica-o Osty, quando ensina:

Se há um momento das moléstias agudas em que é assinalada a Metagnomia, não é o da agonia, quando o organismo está de tal forma abalado em seu equilíbrio vital, que sua desordem se torna incompatível com a continuação da vida? Essa crise catastrófica do corpo determina, por vezes, o aniquilamento da função do pensamento (coma) e, no entanto, muitíssimas vezes, pouco modifica a consciência, que se conserva lúcida, no desarranjo acelerado das funções. O agonizante percebe o racionalmente imperceptível; revela a realidade inacessível ao meio intelectual dos que o rodeiam. (130)

Deve ter algum peso a opinião desse psiquista, que, pelo vulto dos seus trabalhos, pela imparcialidade de suas observações e pelo longo tempo de suas experiências, fora convidado por Jean Meyer para Presidente do Instituto Metapsíquico Internacional. Que é que notou o sábio? A integridade das funções psíquicas e, conseqüentemente, da memória, apesar da completa perturbação orgânica.  Um psiquiatra, Reymond Meunier, ensina o seguinte:

Acontece, muitas vezes, que loucos, antes de morrer de caquexia, recobram completamente a razão por alguns instantes ou alguns dias, e acusam mesmo um estado de extrema acuidade mental, em geral desconhecida dos médicos. Parece que o corpo, prestes a tornar à terra avara que o reclama, deixa o espírito libertarse.

Entre outros casos, relata o de um afásico, internado em Villejuif, havia uns sete anos, em estado de pronunciada demência. Uma semana antes de morrer, põe-se a falar e manteve razoável palestra com o Autor. Na autópsia encontraram-se várias lesões no cérebro. Donde, conclui Meunier, depois de examinar as teorias científicas: O Espírito está bem acima e fora de tudo isso. (131) Já nos dizia Geley que certos casos demonstram que a privação de grandes porções do cérebro, em regiões que se acreditavam essenciais, não são seguidas de graves perturbações psíquicas ou restrição da personalidade. Esse autor apresenta, entre outros, o caso publicado por Guépin, em que um jovem sofrera a ablação de parte considerável do hemisfério cerebral, conservando-se, não obstante, perfeitamente íntegro. (132) O Professor Roesemuller indica várias autoridades que verificaram a persistência das faculdades psíquicas, apesar de graves lesões cerebrais, e entre elas os cirurgiões Hyrth, Hufeland e Ennemoser, que notaram a existência de perdas sensíveis da matéria cerebral, sem que o paciente visse reduzida a sua capacidade de pensar. (133) _____________

(130) Dr. E. Osty – Psico-Physiologie Expérimental – Rev. Mét., 1925, pág. 165. (131) Raymond Meunier – Les Tourmentés, 1924, pág. 122. (132) Gustave Geley – De l’Inconscient au Conscient, Paris, 1920, págs. 81 e seg. (133) Roesemuller – Die ubersinnliche Well, 1923, n. 10, pág. 23.

Schmick e Benecke citam o caso de um arquiteto, normal até o último instante, mas em cujo cérebro a autópsia encontrou grandes vazios. Schleich observa vinte pessoas com os cérebros gravemente lesados, sem alteração da personalidade psíquica. Benecke refere o caso de seu amigo, o Professor Surya, que faleceu inteiramente lúcido, tendo-se-lhe verificado, entretanto, na autópsia, que o cérebro estava em tal estado de decomposição, que isso já devia durar havia muito tempo. (134) Hallopeau traz à Sociedade de Cirurgia, em França, a descrição de uma operação realizada numa jovem, em que grande porção da matéria cerebral estava reduzida a matéria líquida. Ficou inteiramente curada. (135) O Dr. Iturricha comunicou que um jovem morrera em pleno uso de suas faculdades mentais, tendo a massa encefálica destacada do bulbo; estava nas condições de um homem decapitado. (136) Saint Marcq refere-se à operação num oficial, em cujo cérebro se encontrara um montão de pus. Cumpria, entretanto, perfeitamente, suas obrigações profissionais. (137) Edmond Perrier leva à Academia de Ciências de Paris a observação sobre um indivíduo que falecera com seus sentidos normais.

Na autópsia viu-se que o cérebro se apresentava sob a forma de delgada casca, onde o pus espirrava. (138) Ennemoser declara peremptoriamente que a razão, a vontade, a consciência se conservam intactas, em vários casos, apesar da extinção da matéria cerebral. (139) Von Kern apresenta o caso de um homem, cujo cérebro estava em parte dissolvido, sem que se lhe notasse o mínimo sinal de alteração mental. O mesmo verifica o Dr. Huschland: a sua doente tinha o cérebro semelhante a uma caixa cheia d’água, nenhum traço de massa encefálica. (140) O Dr. Olivecrona assegurava, em Budapeste, que ele e seus colaboradores operaram importantes massas do cérebro sem que notassem alterações nas faculdades psíquicas do paciente. (141) No seu artigo sobre “Encarnação do espírito” diz o Professor Leonídio Ribeiro:

Os dados atuais da Fisiologia nervosa não permitem penetrar nos segredos indecifráveis dos fenômenos íntimos da consciência. E a prova disso é que a destruição ou o isolamento completo de parte do cérebro não implica o desaparecimento ou perturbação dos fenômenos da consciência. É o que ocorre, por exemplo, nos casos de traumatismo do cérebro ou em certas doenças mentais... Os casos de tumores, cujas lesões chegaram a destruir completamente a região hipotalâmica, sem que os pacientes apresentem distúrbios graves da consciência, é outra prova em contrário disso. E o mestre francês Lhormitto afirma que seria uma quimera querer procurar a sede das faculdades intelectuais ou morais.

(134) Walnes Leben – 1933, págs. 54-56. (135) Ánnais de Ciências Psíquicas, 1914. (136) Faure da Rosa – Estudos Psíquicos, Lisboa, julho de 1949. (137) Le Clément de Saint Marcq – Révue Scientifique et Morale. 1907, pág. 275. (138) Prof. Edmond Perrier – Annales des Sciences Psychiques, 1914, pág. 29. (139) Dr. Ennemoser – Zeistchrift fuer Metapsychische Forschung, Out. 1939. (140) Dr. Huschland – Journal de Médicine Pratique. Out. 1928. (141) Ricerca Psíquica – Milão, 1938, pág. 108.

Já se praticam corretamente as extirpações totais dos lobos frontais, as chamadas lobectomias, em casos de tumores que se estendem até a outras regiões do encéfalo, sem que a personalidade do indivíduo venha a ser seriamente atingida. (142)

Cumpre aqui, mencionar, a propósito, os chamados casos de “visão panorâmica”. Os Espíritos contavam que, ao botar os pés nos umbrais da Outra Vida, se lhes desenrolava, diante da retina espiritual, toda a existência passada, sentindo eles, no momento, remorso ou satisfação, se os atos que corriam diante da tela eram bons ou maus. Relatos de Espíritos, é de crer não merecessem muita confiança, mas Ernesto Bozzano teve o cuidado de publicar uma de suas mais interessantes monografias, em que apresenta vários episódios, não já referidos pelos mortos, mas pelos vivos. Estes, na iminência da morte, quando desacordados, no momento preciso em que põem o pé no primeiro degrau do Além, sentem o mesmo fenômeno. A vida percorrida ressuscita dos refolhos do ser, e eles a vêem, em segundos, por inteira, como se conseguissem gravá-la, à proporção que as cenas se iam desenrolando no teatro, por vezes dramático, de suas existências. Ernesto Bozzano principia o seu trabalho, com a seguinte explicação:

As escolas ocultistas ensinam que, durante a crise da separação do espírito e do organismo somático, e, algumas vezes, quando o filamento fluídico que une o corpo ao espírito já está rompido, passam, diante da visão espiritual do agonizante, como em visão panorâmica, Isto é, em sucessão rápida e quase instantânea, todos os episódios da vida terrestre do moribundo. Eles desfilam em ordem regular, por forma que o indivíduo vê o que foi durante toda a sua existência. Todos os acontecimentos passados emergem integralmente diante da vista espiritual do moribundo e são gravados em traços indeléveis no “corpo astral”, e aí constitui o grande livro do ”deve e haver”, que ele terá de saldar em nova existência. Convém declarar – acrescenta Ernesto Bozzano – que a afirmação de uma vista panorâmica, abrangendo todos os aspectos da vida na ocasião da morte, longe de ser uma opinião estritamente teórica e de ordem fantástica, tem o caráter de um fato cientificamente reconhecido, apoiado em grande número de observações incontestáveis. Esta asserção tem sido aceita, sem reservas, ainda mesmo pelos representantes da psicologia oficial. (143)

O psiquista italiano cita vários professores, e entre eles Ribot, que ensinava em Moléstias da Memória:

Nas muitas descrições de afogados, salvos de morte iminente, concordam em que, no momento da asfixia, pareceu-lhes ver toda a sua vida, em seus menores incidentes. (144)

Daremos, em resumo, e a título de exemplo, o caso citado por de Morgan (From Matter to Spirit). É ele narrado pelo Almirante inglês Beaufort. Ia o Almirante para seu navio, em Portsmouth, quando a embarcação virou. ________________

(142) Leonídio Ribeiro – Encarnação do Espírito, 12 de fevereiro de 1952. (143) Ernesto Bozzano – Revue Spirite, 1922. (144) Th. Ribot – Maladies de la Memóire. pág. 140.

Lutou com as águas até que perdeu as forças. Deu-se a asfixia e foi, então, invadido por uma impressão de absoluta calma, em contraste com o tumulto de impressões por que acabava de passar. Sem sombra de pesar, renunciou a toda esperança de socorro, e não sentia mais qualquer sofrimento físico. Mas, se seus sentidos estavam inertes, a atividade do espírito tinha centuplicado. Começou a pensar no incidente, na emoção de bordo, na dor que o pai iria experimentar. E por fim, escreve o Almirante:

Em suma, os incidentes de minha vida reanimaram-se em ordem retrógrada, com uma representação viva, perfeita, em todos os seus pormenores. Em pouco, toda a visão de minha existência iluminou-se diante de mim e cada quadro parecia vir acompanhado da concepção do bem ou do mal que ele continha... É-me impossível avaliar o tempo, no desencadear das idéias, mas desde que a asfixia começou até que fui salvo, não decorreram dois minutos.

É evidente que o corpo foi retirado d’água como se o náufrago estivesse sem vida. Foi no instante da asfixia, quando já principiava a participar do outro plano da vida, naquele estado que chamamos síncope, ou perda dos sentidos, que o cérebro desenvolveu uma atividade fantástica. O fenômeno não mostra, apenas, a autonomia do espírito em relação ao soma, mas também a verdade do que nos referem os desencarnados. Os pensamentos do Almirante Beaufort, logo no começo do desprendimento espiritual, assemelham-se aos dos mortos, assim que se vêem desligados do corpo físico: A memoração do incidente, o que dele se iria dizer, as vistas voltadas para as pessoas caras, e, por fim, sucedendo às dores e aflições desse últimos instantes, a calma, a alegria de ver cessados os sofrimentos, o repouso físico e mental. Tal é a situação dos que não levam dívidas em sua bagagem.

Há que notar a preservação da memória, e mais do que isso, a sua intensidade, a sua pasmosa atividade, quando havia cessado toda a atividade física, quando tudo estaria indicando, conforme os dados biológicos, que a memória deveria desaparecer, uma vez que é ela o resultado da atividade das células. Convém nos reportemos aos casos semelhantes narrados pelos defuntos e por eles perceberemos como não será acolhida pelos verdadeiros psiquistas, a noção de que a memória é função do corpo e por isso transmissível hereditariamente. Ouçamos ainda o eminente filósofo italiano:

Lembro, diz o Prof. Bozzano, que o assunto dos fatos que entram nesta categoria não apresentam certo valor científico, dada a impossibilidade de controlar diretamente as afirmações das personalidades mediúnicas. Entretanto, semelhantes afirmações parecem-nos dignas de ser mencionadas, como complemento ao estudo do tema proposto. E isso, sobretudo, porque, em todos os episódios que vão ser relatados, verifica-se a circunstância de fazerem as personalidades comunicantes menção espontânea da visão panorâmica, pelas quais passaram na crise da morte, sem nunca falarem por solicitação dos experimentados. Como as sessões, onde estas indicações foram fornecidas, realizaram-se em tempos e lugares diferentes e, por vezes, em presença de indivíduos que ignoravam a existência de fenômenos desse gênero, esse concurso de circunstâncias reveste de certo valor as comunicações assim feitas.

Em apoio dessa consideração, pode-se dizer que se se tratasse de personalidades subconscientes, essas personalidades não poderiam ter descrito exatamente e ainda menos de modo concordante, um fenômeno real, de que os médiuns e a assistência ignoravam a existência. Admito que a fertilidade inventiva das personalidades sonambúlicas não tenha limites; não se pode crer, entretanto – diga-se em homenagem ao bom senso e ao cálculo das probabilidades – que grande número de personalidades sonambúlicas, em momentos diferentes, em continentes diferentes, e diante de pessoas que ignoram a existência de determinada categoria de fenômenos, tenham todas podido inventar a mesma história fantástica, em que os pormenores concordam admiravelmente, e sobretudo concordam com uma classe de manifestações autênticas.

Mais um exemplo dessa nova categoria e leiamos ainda Ernesto Bozzano:

O episódio que se segue é devido à mediunidade de um eminente pioneiro do movimento espírita: o Juiz Edmonds, de Nova York. Ele havia perdido um de seus mais caros amigos, o Juiz Perkham, da Corte de Apelação de Nova York, que se tinha afogado tragicamente com sua esposa, devido ao abalroamento entre dois vapores. Em uma experiência pessoal de escrita automática, manifestou-se o amigo defunto, forneceu boas provas de sua identidade e narrou a visão de sua morte como as condições da sua existência espiritual presente. Destaco aqui, da longa comunicação, a passagem que tem relação com o fato especial. O espírito comunicante declara: Tivesse eu que escolher o modo pelo qual deveria separar-me de meu invólucro corporal e certamente não teria adotado o que me conduzia ao trespasse. A falar verdade, isso agora não me importa muito, desde que me achei desde logo transportado a uma ambiência tão bela e tão extraordinariamente variada... No instante da morte revi integralmente toda minha existência.

Cada ação, cada cena, cada incidente dessa vida me passou diante dos olhos, tão vivamente expressos, que pareciam erguer-se em meu cérebro como se tivessem sido iluminados de luz viva. Nenhum dos meus amigos foi esquecido. Quando eu mergulhava nas ondas, apertando minha mulher entre os braços, apareceu-me meu pai e minha mãe; o primeiro tirou-me d’água com uma facilidade, que só agora chego a descobrir. (Juiz Edmonds – Letters and Tracts on Spiritualism, pág. 303). (145)

Era a primeira vez que o Juiz Edmonds ouvia falar de visão panorâmica e quando sua mão traçou a dita comunicação, ele estava só. É, portanto, evidente, que com a hipótese das personalidades subconscientes não se chegaria a explicar semelhante alusão espontânea a um fenômeno real ignorado do médium. Assim se confirma o que já se disse, que os fenômenos desse gênero só se podem explicar pela aceitação de sua origem espírita  Ernesto Bozzano deixou patente, na série de fatos semelhantes que apresenta, e na argumentação que despende, que as narrativas só poderiam provir dos falecidos. Valeria a pena indagar dos ilustres biologistas, que tão energicamente proclamam a hereditariedade das lembranças, como é que estas estariam nos Espíritos desacompanhadas das respectivas células. ________________ (145) Ernesto Bozzano – Mémoire Synthetique.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.