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Capítulo 63 de 65
As Vidas Infelizes
A Evolução · Carlos Imbassahy
O sofrimento do Espírito traduz-se em dores físicas e morais. Eles sentem, como acontece entre os suicidas e os grandes criminosos, não só os dissabores da alma como as agonias do corpo. Acreditam-se vivos, supõem conservar a matéria que lhes revestia os corpos; muitos pensam que serão eternas as suas penas, e a crença no Inferno aumentalhes as terríveis angústias. Uma longa prática da manifestação dos mortos faz-nos ver que os espíritos atrasados procedem mais ou menos da mesma forma, têm as mesmas dúvidas, mostram a mesma ignorância quanto à realidade de seu estado, desconhecem a condição em que se encontram, espantam-se e revoltam-se porque ninguém lhes presta atenção, supõem-se nos mesmos misteres, continuam nas costumadas atividades, habitam as antigas moradas. Folheando-se a literatura sobre o assunto e os anais do Psiquismo verifica-se que há perfeita concordância entre o que observamos e o que ali se relata.
Repelem energicamente a hipótese de que estejam mortos, haja vista se verem não só com o corpo físico como ainda com as mesmas faculdades; acham-se cansados, desmemoriados; muitos se dizem no escuro, queixam-se dos males físicos e morais que os atormentam, e tais lhes sejam a obstinação e a inferioridade, mantêm os mesmos sentimentos inferiores, mostram-se cheios de antipatias, de orgulho, de inveja, de ódio, de desejos de vingança. Os mais embrutecidos não vêem nada. As aflições são tremendas. Outros continuam praticando o mal e se comprazendo nele, tal como procediam na Terra. Os viciados conservam-se presos ao vício; o fato de não poderem satisfazê-los trálos em contínuos e insopitáveis desejos, e o desejo ansiado não satisfeito é uma tortura; a vista dos gozos mundanos produz-lhes o suplício do Tântalo. Quando conseguem, como vampiros, ligar-se a um mortal e participar das suas libações ou de quaisquer más tendências, ficam em piores condições dos que as tinham no invólucro carnal, porque o desejo é contínuo, a satisfação é incerta e a degradação infalível.
A falta de sentimento e até a vida inativa acarretam uma situação infeliz no Espaço. Apresentamos apenas os fatos, sem entrar em indagações filosóficas. Alguns pequenos exemplos do Além, de que fomos testemunha, talvez ilustrem as nossas asserções, embora possa parecer a muitos um tanto fraca a nossa prova e a inquinem de suspeição. Mas os que conhecem o assunto não estranharão os casos. Certa vez apresentou-se-nos um antigo carrasco; sofria muito e não sabia explicar porquê; compreendia que estava desencarnado; mas – dizia ele – se matei, foi por dever de ofício; era pago para isso, era minha profissão; não matava por gosto, nem por divertimento, nem por ódio; era funcionário do Estado, exercia uma função pública; tratava-se de um serviço... Ficamos sem poder responder-lhe e talvez dando-lhe um pouco de razão, sem compreendermos, por nossa vez, neste caso particular, onde estaria a justiça divina.
Mas, ou por inspiração, ou influência estranha, ou assistência espiritual, logo nos lembraram os assassinos assalariados, e lhe dissemos: - Meu amigo, provavelmente você está equiparado aos pistoleiros que matam por encomenda; aos profissionais da tocaia; aos homicidas pagos; esses a quem dão ordem de eliminar tal ou qual cidadão; ele nada tem com o outro, que nunca lhe fez mal; não possui ódios; está apenas recebendo o seu dinheiro. A diferença única é que não se trata de um
serviço público, mas de um serviço particular. Não lhe parece razoável o paralelo? E nem por isso deixam de sofrer as conseqüências. O carrasco chorou e retirou-se. Um simples matador de porcos, que se manifestou, não estava lá em boas condições. Antes, lamentava profundamente a profissão que escolhera. Um caçador, desses que matam por divertimento, não sabe que após o dia da folgança e da glória, em que eles impam de vaidade pela certeza da pontaria, virão outros de tristeza e opróbrio. Os amantes de brigas de galo ou quaisquer outras brigas, os toureiros e seus admiradores, os que rejubilam com as lutas sem lhes importar o sofrimento dos contendores, e mormente o do vencido, esses criam em torno de si uma pesada atmosfera espiritual, que lhes entorpecerá os movimentos e criará, após a morte, um ambiente triste e pesado.
Uma freira falecida queixava-se da vida monótona que levava, da sensaboria em que se achava mergulhada, ela que sacrificara a vida terrena por amor a Jesus e se cobrira de uma verdadeira mortalha em toda a sua existência. – Não tinha relações – dizia – ninguém a procurava, ninguém a estimava, permanecia em desolador silêncio. Eu sou uma isolada – exclamava pesarosamente; entretanto, exclamava com orgulho – esqueci o mundo, tinha o meu corpo imaculado, vivia rezando... - É, minha filha, lhe dissemos – Você colhe o fruto de uma vida egoísta. Tratou apenas da alma, querendo ir ao Céu pelo ascetismo, quando o nosso dever é vir para as agrestias da vida, para as lutas da existência, para o auxílio ao nosso semelhante. Quem não conheceu o calor do trabalho para o progresso e para o bem geral, há de encontrar o frio nas regiões em que a minha amiga se encontra. O dinamismo é uma necessidade imperiosa para a felicidade do ser. A verdadeira honestidade é a da alma. - Nunca me disseram isto – replicou ela com um suspiro. As dores crescem na proporção dos delitos.
O hipócrita, que aos olhos de seus coevos, passava por um indivíduo exemplar, limpo, honestíssimo, e que envidava esforços por manter essa reputação, encontra o castigo no se vir desmascarado, no ser apontado como um velhaco, no sentir-se exposto à irrisão e à galhofa públicas. O usurário, ao notar a maneira por que lhe dilapidam os bens que acumulou, muitas vezes à custa da desgraça alheia, sente ímpetos de ódio e de horror, é tomado de um furor impotente, e vê as notas tão laboriosamente amontoadas se irem gastando uma a uma, com a agonia de quem sente lhe tirarem um a um os pedaços do corpo. E assim os sofrimentos desdobram-se, ampliam-se, recrudescem na razão direta da falta, da maldade, da infâmia, do rancor, do crime. Os ladrões têm diante das vistas os furtos cometidos, a miséria que espalharam, a maldição dos espoliados. Eles que tiraram tudo, não terão nada.
Os assassinos se vêem cobertos de sangue, ouvem os gemidos e os gritos das vítimas, presenciam, como num filme interminável, as suas terríveis façanhas, sentem-se desprezados, injuriados, amaldiçoados, e à dor moral se juntam as dores físicas. Os suicidas se nos apresentam no mais lamentável estado; estão num pesadelo horroroso, de que não acordam; são farrapos humanos. Almerindo de Castro, que escreveu uma obra onde coligiu vários fatos e narrativas relativos ao caso, afirma com muito acerto:
Farta, eloqüente e autêntica é a documentação que os Espíritos têm trazido aos da Terra, cientificando-os dos horrores que os esperam se cometerem o crime do auto-homicídio. (238) _____________ (238) Almerindo Martins de Castro – O Martírio dos Suicidas, 1940, pág. 41.
As obras sobre o assunto, com as dolorosas mensagens que os Espíritos nos trazem e as conclusões a que a experiência conduz, já são em grande número, podendo-se destacar em língua portuguesa – No País da Luz, de Fernando de Lacerda, o Suicídio, de Frederico Figner, várias comunicações por Francisco Cândido Xavier, sem falar nas já citadas obras do Codificador. Por médium nossa conhecida, Camilo Castelo Branco, que já se manifesta pelo médium português, deu-nos vários escritos, onde, em meio ao seu inimitável estilo humorístico, notava-se a dor pungente que lhe ia n’alma, o golpe terrível por que passara depois do seu desvario. Como se sabe, não podendo suportar a cegueira, o notável romancista suicidou-se. E pedia-nos com muita humildade: - Estou prestes a reencarnar; devo passar por nova prova e serei submetido de novo à tentação do suicídio; não sei até onde irá a minha resistência. Rezem para que Deus me dê força e coragem.
E aqueles que leram a sua opulenta obra romântica, que se deleitaram com seus livros, que aprenderam com sua linguagem, não podiam nem podem deixar de orar pelo grande vulto das letras portuguesas, mormente os que souberam das belezas do seu coração, dos que sabem dos seus atos de generosidade e altruísmo, dos que não o conhecem apenas através das farpas de sua ironia. E nós lhe dizíamos: - Tu continuas a nos fazer chorar, Camilo. – Ao que ele respondeu: - A lágrima é diante de Deus o maior testemunho da nossa bondade; conservem esse tesouro.
Poderíamos, como temos feito no decorrer deste estudo, ilustrar as nossas asserções com exemplos de vária espécie. A literatura sobre o assunto é incomensurável. As mensagens recebidas de toda a parte, os constantes e lancinantes gritos que vêm do Espaço, os clamores do Outro Mundo que se ouvem de tempos imemoriais, formam inesgotável corrente. Estamos em frente a essas páginas refertas de sofrimento, de soluções, de ânsias indescritíveis, como o viajor que vê estender-se a sua vista pávida diante de inúmeros e atrozes caminhos, e sente-se paralisado pelo temor. Assim, preferimos afastar-nos dos angustiosos quadros. Que sobre eles se abaixe o pano e deixemos surgirem, em novo ato, cenários mais alegres e consoladores. Vamos a vidas mais felizes no Espaço.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.