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Capítulo 45 de 65
Universalidade da Manifestação — parte 1 de 2
A Evolução · Carlos Imbassahy
Iremos tratar, agora, da manifestação do Espírito sobrevivente, quando o corpo já não tem a centelha que o anima, ou seja, iremos demonstrar a existência do espírito do morto. Provou-se, preliminarmente, que o ser espiritual, ou a alma, poderia, em determinadas circunstâncias, mostrar a sua independência em relação ao organismo. E, sobretudo, ficou patente que no ser espiritual é que demoram as faculdades mentais. Assim, já no vivo se prova que a individualidade reside no Espírito; nele está a sede de todas as faculdades por onde se revelam a memória, a inteligência e a moral. Mais evidente, mais clara se tornará a demonstração com as provas da sobrevivência e suas manifestações, pois que aí se acha o Espírito completamente desligado da matéria. E enquanto esta jaz inteiramente morta, completamente desfeita, a personalidade continua a apresentar-se com todas as características de vida, sem que se lhe note, a não ser nos casos de perturbação devido ao grande trauma por que acaba de passar, ou as faltas que acaba de cometer, qualquer divergência no que se refere à sua mentalidade.
Ela evidencia a sua presença por todos os meios possíveis; as suas faculdades mantêm-se integrais, salvo bem entendido os motivos devidos à prova ou ao choque. A manifestação do defunto, além do que já vimos expendendo, torna irremessivelmente falida a tese de que se acham no corpo as faculdades do Espírito, ou de que são elas feitura de órgãos e funções, ou que se divide em parcelas o ser espiritual. De tempos imemoriais costumam os homens ver os seus antepassados e se comunicar com eles. Essa comunicação ostensiva se verifica no tempo e no espaço; em todas as épocas e em todas as regiões se conhecem e se relatam tais fenômenos. Essa universalidade é já uma prova segura da realidade de tais fatos; impossível essa concordância no fato psíquico, por parte de povos diversos, distantes, e em várias idades. Dizia Lombroso:
Il fatto che in tutti i tempi i popoli è sempre state viva la credenza in un qualche cosa d’invisible che sopravive allá morte del corpo e che sotto l’influsso di speciali condizioni può manifestarsi ai nostre sensi, ci rende proclivi ad accettare l’ipotese spiritica. (O fato de que, em todos os tempos e povos, é sempre viva a crença em algo de invisível que sobrevive à morte do corpo, e que, sob o influxo de condições especiais, pode manifestar-se aos nossos sentidos, leva-nos a aceitar a hipótese espirítica). (156)
Ernesto Bozzano, em importante monografia, citava inúmeros autores, contestes em afirmar que os fenômenos psíquicos supranormais, hoje submetidos a severo estudo, já se observavam de remotas eras, nos antigos povos. Destarte escrevia:
Basta consultar as obras dos mais eminentes antropologistas e sociólogos para verificar que todos esses autores reconhecem, de comum acordo, que a crença na sobrevivência do Espírito humano é universal. (157) ______________
(156) Cesare Lombroso – Ricerchi sui Fenomeni Ipnotici e Spiritirici, Torino, 1909, pág. 273. (157) Ernesto Bozzano – Delle Manifestazioni tra i Popoli Selvagi, Roma, 1926, pág. 5.
Grant Allan declarava que a crença universal primitiva de todas as religiões baseavase na sobrevivência dos trespassados. (158) E Brinton, indo mais longe, afirmava que as mais rudimentares religiões, sem altares, nem templos, nem ritos, crêem em Espíritos que se comunicam com os homens. (159) Essa crença provinha, precisamente, do fenômeno observado. Indagava o historiador Cesar de Vesme, diante das pesquisas etnográficas, a razão por que as doutrinas religiosas se desnaturavam entre os selvagens, ficando apenas de pé a crença em Espírito, em fantasmas, na sobrevivência da alma. E assegurava em resposta:
Ela se impôs, bon gré, mal gré, independente de seus desejos, pela observação dos fatos. (160)
Lapponi, o conhecido escritor italiano, em longa e erudita incursão histórica, demonstra-nos aquilo que já haviam observado os maiores estudiosos do movimento espiritualista, a crença geral nos Espíritos e suas manifestações, em virtude da realidade do fato. Diz ele: Da tempi remotissimi si è creduto e si crede a reali rapporti tra gli uomine ancora viventi e i defunti, non che tra quelli e altri essere immateriali di ordine superiore. E a giustificazione di cotesta credenza in tutti i secoli si sono sempre addotti ab immemorabili racconti di fati meravigliosi. (Desde tempos remotíssimos se tem acreditado e se acredita nas relações reais entre os homens ainda vivos e os defuntos, bem como entre aqueles e outros seres imateriais de ordem superior. E a justificação de tais crenças, em todos os séculos, está ligada a narrativas imemoriais de fatos maravilhosos).
Mas tais fatos maravilhosos não poderiam persistir através das idades, e em todas as raças, se não fossem alimentados, constantemente, pela reiteração do fenômeno. Lapponi principia por evocar a série de casos bíblicos, já bastante conhecidos entre nós. Na Índia sempre existiu e ainda hoje existe a prática da evocação dos mortos.
Toda a força da casta “sacerdotal” – diz o citado médico e professor de Antropologia Aplicada em Roma – dependia e depende de uma espécie de influência que os defuntos e a divindade exerciam naqueles que dela faziam parte. Entre os egípcios, o comércio com os Espíritos entrava na prática dos Iniciados e no culto de Íris e Osíris. A sua demonstração não deixa dúvida de que toda a antiguidade era povoada de Espíritos. (161)
Na Grécia eram constantes as evocações. Um dos exemplos mais antigos é o de Pausânias, general lacedemônio em Platéia, condenado a morrer de fome no templo de Minerva, 477 A-C, e cujo espírito lá se manifestava em gritos. ________________
(158) Grant Allen – The Evolution of the Idea of God, Pág. 42. (159) Brinton – Religions of Primitive Peoples, pág. 50. (160) Cesar de Vesme – Histoire du Spiritualisme Experimental, pág. 9-11. (161) Dott. Giuseppe Lapponi – Ipnotismo e Spiritismo, Roma, 1906.
Em uma obra ainda hoje lida pelos eruditos, conta Plínio, o Moço, o caso que se tornou quase clássico, do espectro de Atenas, em virtude do qual o filósofo Atenodoro adquiriu uma casa a baixo preço. Na primeira noite, lendo e escrevendo como de costume, ouviu um como arrastar de correntes no assoalho. Ergueu os olhos e viu um velho triste, carregado de ferros, que se aproximou e lhe fez sinal para que o acompanhasse, conduzindo-o a um ponto do corredor e aí desaparecendo. O filósofo levou o fato aos juízes, escavações se fizeram e acabaram encontrando um esqueleto acorrentado. Deram-lhe honrosa sepultura e cessaram os fenômenos... (162) Desde os tempos mais remotos – diz Flammarion, citando esses casos, tais descrições têm chegado aos nossos dias, sem solução de continuidade. (163) Reportando-se aos fenômenos psíquicos, “geralmente chamados místicos”, observa William James:
A filosofia nada quer com eles. A Psicologia ortodoxa lhes vira as costas. A Medicina os expulsa; ou, quando muito, se está em veia de anedotas, citam-se alguns casos como efeitos da imaginação. Entrementes, os fenômenos aí estão, vastamente espalhados em toda a extensão da História. Abra-a à página que quiserdes e achareis muitas coisas narradas sob os nomes de adivinhação, inspiração, possessão demoníaca, aparições, transes, estudos, curas miraculosas, malefícios, feitiçarias. Supõe-se que a mediunidade é originária de Rochester, U.S.A., e que o magnetismo animal data de Mesmer; mas, perlustrai um dia o avesso das páginas da história oficial, consultai as memórias, os documentos legais, as legendas, e os livros de anedotas populares, e vereis que não existe época em que esses fatos não deixem de ter sido tão abundantemente relatados como em nossos dias. (164)
Homero refere-se, na Odisséia, a Ulisses, que interrogava por intermédio de Circe, o espírito do tebano Tirésia. (165) Todo o povo grego fazia evocações e não só o povo, senão os próprios sábios. Periandro consulta a defunta esposa a quem mandara degolar (166) e Pausânias, o espírito de uma jovem a quem também fizera morrer. (167) Provavelmente pretendiam ver aplacados os remorsos com o perdão das vítimas. Também os magistrados se comunicavam com os mortos. Vários historiadores e beletristas referem-se a essas comunicações, e entre eles, Aristóteles, Flávio, Lucano, Filóstrato. Afirmava Cícero que seu amigo Ápio conversava freqüentemente com os trespassados. (168) Narra ainda Plínio, o Antigo, que Tibério mandou matar Druso porque este o interrompera numa sessão espírita. Tibério provavelmente já não devia estar bem humorado com que os Espíritos lhe diziam, na sua liberdade e impunidade de Espíritos. ______________
(162) Plínio, o Moço – Cartas LVII, carta 27. (163) Camille Flammarion – Maisons hantèes – Paris, Trad. De M. Quintão, pág. 128. (164) William James – Études et Reflexions d’un Psychiste. Trad. De E. Durandeaud, Paris, 1924, pág. 100. (165) Homero – Odisséia, cX. (166) Heródoto – V, 92. (167) Plutarco – Vida de Cimone. (168) Cícero – De Devinatione.
E o gramático Ápio costumava interrogar Homero. (169) Augusto, diz-nos Suetônio, fez queimar dois mil livros de evocação e encantamentos. Erato, mágico da Tessália, fazia aparecerem os Espíritos: “Che richiamava l’ombra ai corpi sui”. E Dante alude ao poder da magia. Eram comuns as práticas espíritas entre os druidas, nas Gálias, e demais países ao Norte. Tertuliano conhecia várias dessas práticas. (170) Já contava Maspero que no antigo Egito, A-C., um viúvo caiu gravemente enfermo por atuação da falecida esposa, que lhe conservava grande rancor. (171) Osterreich, tratando da possessão entre os povos primitivos, esclarece:
Pode-se dizer que sua extensão é ilimitada. Não há nenhum ponto do globo onde tais fenômenos não se tenham produzido... No que concerne à grande extensão da possessão involuntária da era cristã, já dei uma série de testemunhos que demonstram a semelhança de seus estados através dos séculos, e justificam a análise que fiz, baseando-me em documentos que pertencem a épocas muito diferentes. Às peças que forneci, acrescentarei provas novas pra mostrar que a possessão se produz fora e além da civilização cristã, em condições essencialmente idênticas. (172)
Precioso depoimento pela sua insuspeição. O que ele chama de possessão é a incorporação de bons ou maus Espíritos. Nos países católicos, quaisquer que fossem as manifestações, como ainda hoje acontece, eram elas atribuídas invariavelmente ao demônio. Ainda mesmo os evidentes sintomas mórbidos não escapavam à influência demoníaca. Quer os assistentes, quer os investigadores, quer os próprios médiuns, por sugestão, davam o nome de demônio às entidades comunicantes. Não importava que essa entidade desmentisse a honra que lhe conferiam, ou provasse, pelos meios a seu alcance, que não era o suposto ser maléfico; não importava, ainda, a ineficácia dos processos clássicos postos em prática para afugentá-la, como os exorcismos, as ameaças, as benzeduras, indo-se até a meios extremos como o do argumentum baculinum. Enfim, não havia processo que deixassem de lançar mão para espantar o abusado, teimoso e persistente obsessor infernal. No caso da Abadessa Teresa, por exemplo, o demônio se dava o nome de Peregrino e como Peregrino era tido e havido. Peregrina novidade em se tratando de demônios.
Uma das manifestações do mediunismo está na chamada feitiçaria. Nos ominosos tempos da Idade Média, e mesmo depois, ignorando a fenomenologia metapsiquica, levados pelo fanatismo, que via em tudo o dedo de Satanás, os religiosos da época faziam torturar e queimar todos os que apresentavam, por menor que fosse, o sintoma de faculdades anormais. Essas faculdades, desconhecidas, desvirtuadas, caluniadas traziam para os seus portadores o título de feiticeiros e lhes acarretavam as dolorosas e sangrentas conseqüências que a História registra. _______________
(169) Tusculane, I, 16, 37. (170) Tertuliane – Apologetic, XII, XXII. (171) Maspero – Études Egyptologiques. (172) T. R. Oesterreich – Les Possedés, Trad. De René Sudre, Paris, 1927, pág. 167.
Merece aqui apontado um trecho, a propósito, do Professor Joaquim Pimenta:
Como Jeová, o Diabo tem também o seu sacerdócio, cujos membros, os feiticeiros, tanto dão que fazer à Igreja. Por intermédio deles, o príncipe do mundo comunica à cristandade o seu misterioso poder infernal... Desde o século IV procura em vão a Igreja reprimir a feitiçaria: um Concílio proíbe que os padres e os clérigos sejam encantadores, matemáticos, astrólogos, façam amuletos, sob pena de serem expulsos da Igreja. No século VI, quatro Concílios anatematizam os feiticeiros e adivinhos; neste mesmo século instituemse contra eles violentas medidas repressivas, mas sem resultado. Sob Carlos Magno, a feitiçaria figura na legislação penal como um crime que é necessário extirpar pelos processos mais enérgicos; ela, porém, continua pelos séculos afora a estender o reino de Satã; vulgariza-se de tal forma, que entra a integrar-se às sutis divagações teológicas, às questões de lógica judiciária e ao incipiente empirismo dos conhecimentos médicos. A gente obscura como a de alta posição, ninguém contesta a influência ocultista e sobrenatural do feiticeiro. Os reis e os papas sentem o seu magnetismo, ora benfazejo, ora vingativo, a penetrar-lhes a epiderme, a infiltrar-se-lhes na veia. (173)
O professor Pimenta, a cujas luzes, aliás, prestamos as nossas homenagens, provavelmente desconhecedor do fenômeno metapsíquico, encara-o como simples efeito da superstição eclesiástica. O certo, porém, é que o feiticeiro, salvo as raras exceções de um estado patológico, e as mais raras ainda, de uma perigosa velhacaria, era um sensitivo, sob a influência de Espíritos, em geral, inferiores, muitas vezes obsessores, que, aproveitandose da crassa ignorância da época, senão de sua perversidade, exerciam essa influência provavelmente para vingar-se dos infelizes obsessos, talvez antigos adversários ou inimigos. Os ditos obsessores adunavam-se por vezes, em legião, aquela de que já falavam os Evangelhos, e temos, então, entre outros, os célebres casos de demonopatia dos claustros, as infestações, as epidemias epileptiformes, as alucinações coletivas...
Cremos que obra absolutamente insuspeita de laivos espiritistas é a do Professor da Universidade de Tubingue, T. K. Oesterreich, obra aliás, traduzida para o francês por outro cidadão menos suspeito ainda, o Sr. René Sudre. Não obstante o esforço do Autor por descobrir uma causa qualquer, dentro dos quadros científicos, que lhe permitisse a apresentação de uma teoria, não pôde eximir-se às seguintes considerações:
Percorrendo a série de casos de possessão que acabamos de citar, o primeiro e mais empolgante de seus caracteres é que o organismo do paciente parece invadido por uma personalidade nova. O organismo é governado por alma estranha. Tal fato fez que se designassem esses estados, desde os tempos em que nos foi dado conhecê-los, até a época presente, sob o nome de possessão. É como se outra alma houvesse penetrado no corpo e aí persistisse, em lugar ou ao lado do indivíduo normal. (174) ________________
(173) Prof. Joaquim Pimenta – A Questão Social e o Catolicismo, Rio de Janeiro, 1921, pág. 135. (174) F. R. Oesterreich – Obra cit.
“Essa possessão, diz o escritor, manifesta-se de três modos”. E para cada um deles apresenta grande cópia de casos, devidamente documentados. Em primeiro lugar o possesso (le possédé) toma fisionomia nova. Alteram-se-lhes os traços do rosto. Às vezes a possessão se mostra sob forma intermitente e igualmente com transformação da expressão pessoal. Metamorfoseiam-se as pessoas e os rostos com inaudita rapidez, tal como na “epidemia de Loudum”. Servem de exemplo, também, as experiências de Flournoy, com Helena Smith, que mostra uma série de personalidades diferentes. O segundo dos caracteres demonstrativos da mudança de personalidade é a alteração da voz. A entonação corresponde ao caráter da nova individualidade manifestada. Digno de nota é o caso registrado por Janet:
Era um espetáculo extraordinário para nós, que estávamos presentes, ver esse mau espírito exprimir-se pela boca dessa pobre mulher, e ouvir, ora o som de uma voz máscula, ora o de uma voz feminina, porém tão distintas, que não se poderia acreditar fosse só essa mulher que falasse. (175)
O caráter mais importante, observa o Autor, é o terceiro, da invasão do organismo por uma individualidade estranha. A voz nova não fala conforme o espírito da individualidade normal, porém segundo o espírito da intromissora. Seu “eu”, é o da última e o seu conteúdo oposto ao caráter do indivíduo normal. Baader, referindo-se a um desses casos, narra:
...Nessa má crise ela falava de si própria na terceira pessoa e lançava injúrias e motejos sobre si com o mesmo furor com que os lançava aos assistentes.
Aos que não têm idéias preconcebidas, tal observação corresponde ao que se observa nos médiuns modernos.
Na Idade Média os fenômenos dessa ordem passavam por demoníacos. Dominado o Ocidente pelo Catolicismo, inexistente qualquer critério ou independência por parte dos observadores, estavam todos mais ou menos imbuídos da crença de que só o demônio poderia intervir em tais manifestações; chamavam, invariavelmente, de Satã, o Espírito que aparecesse. Os próprios escritores não fugiam à norma que a Igreja, a fé, a ignorância ou o medo lhes impunham. Assim é que vemos nos relatos, batizadas com o nome de demônio, as entidades comunicantes, quaisquer que fossem. Alguns mais honestos nas narrativas não puderam esconder que essas entidades se diziam espíritos de defuntos, embora desconfiados, por vezes, de que havia por ali alguma velhacaria do Mafarrico. Enxameiam pois, assim nos velhos como nos novos documentos, os episódios em que o comunicante se diz Espírito, e consegue prová-lo, apesar da forte e sugestiva opinião dominante e da oposição que lhe faziam. Vamos vê-lo nas próprias páginas do escritor alemão que nos referimos:
(175) Pierre Janet – Nevroses et idées fixes, Paris, 1889, I, pág. 334.
Em uma época mais recente, particularmente no século XVIII, e ainda no XIX, onde a crença no diabo diminui, são, sobretudo, as almas dos defuntos que penetram nos vivos. Encontram-se, entretanto, desses casos entre os antigos. Justino fala de homens, “dos quais tomava posse a alma de um morto, que eram lançados ao chão, e que toda a gente dizia possuídos do demônio.” No que se refere às almas dos trespassados, a idéia de que elas podem penetrar no homem é tanto mais fácil de admitir, entre os primitivos, quanto eles concebem, muitas vezes, que a alma degradada dos criminosos vive errante. Em geral, é por essa razão que as almas ruins causam possessão, mas há também possessões boas. Kerner mostra, com suas próprias experiências, que, em muitas dessas narrativas, é constante darem-se os demônios como espíritos de defuntos infelizes, assim como quase sempre os bons demônios que se manifestam no agatomagnetismo (guias) se dão como espíritos felizes de defuntos. (176)
Como se vê, muitos anos antes de Allan Kardec, já a “doutrina espírita” se antecipara na manifestação dos mortos. Não é isolado o caso da Sra. Kaufmann, narrado por Justinus Kerner. Ponhamos outros exemplos: Num caso observado por Eschenmayer, o espírito possessor, manifestado por uma jovem, dirigia-se especialmente a um Senhor Durret, e quando não o podia atacar, por estar a médium segura, cuspia-lhe em cima. O autor conclui: Ela (a sensitiva) via ou ouvia tudo. Não perdia a consciência, mas, apesar dos seus esforços, não podia resistir ao demônio, quando este lhe tomava o corpo. Perguntamos-lhe se as lágrimas vertidas pelo demônio eram sentidas por ela. Ela o negava resolutamente. (177)
Um demônio a chorar é de enternecer. No caso das possessões da filha de Orlach, observa Gerber:
O espírito possessor, que sabe que ela está bem viva, pretende que ela não está lá; que é ele quem está; e derrama-se em injúrias e calúnias contra a moça, a quem só chama – a porca. (178)
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.