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Capítulo 44 de 65

No Terreno das Provas

A Evolução · Carlos Imbassahy

Passemos ao terreno das provas, a fim de mostrar a independência espiritual, e comecemos pelos fenômenos anímicos, ou seja, a manifestação dos vivos como os primeiros passos para a demonstração. Por enquanto é o vivo quem fala. Como pondera J. Freire “o corpo anímico, também chamado duplo, porque representa a configuração do corpo físico, quando projetado fora desse corpo físico, transporta com ele não só um princípio vital, mas também a inteligência, ficando o corpo físico desprovido de suas faculdades psíquicas”. (146) Esta grande verdade que iremos ilustrar, desmente por completo a noção de que “os caracteres dos filhos resultam da combinação dos caracteres ancestrais existentes nos pais”. Expliquemos que a nossa tese se aplica aos caracteres morais, neles incluída a memória. Mostraremos que os predicados psíquicos residem no Espírito, ficando o corpo privado daqueles predicados quando o Espírito dele se afasta, o que também destrói as demais doutrinas que assentam as perturbações morais nas perturbações orgânicas.

Para a demonstração de que a memória e as demais faculdades se conservam no corpo espiritual e são independentes da matéria, existe um prodigioso documentário, de que iremos apresentar alguns exemplos, dentro dos estreitos limites impostos pelo espaço. Trata-se de provas firmadas na observação, algumas hauridas na experiência, “provas em que se fundará a religião futura e a ciência futura, em vez de revelações estranhas à razão, raciocínios estranhos à lógica e fatos estranhos à Ciência”. Principiaremos pelos fenômenos anímicos, ou os provenientes do ser vivo, como o primeiro passo na demonstração de que o espírito é não só independente do corpo físico como é nele que residem as faculdades intelectuais, morais e mnemônicas. O seguinte caso é narrado no Journal of the Society for Psychical Research, e reproduzido no Phantasms of the Living, por um cônego que pediu não fosse o seu nome publicado. Eis o relato:

Há perto de vinte anos, em 1869, encarregaram-me de uma paróquia a Oeste de Yorkshire. Em agosto desse ano fui chamado ao leito de morte de uma de minhas amigas. Assentei-me, e logo a minha amiga levantou-se dizendo: “Ei-lo aqui! Mas acabo de chegar de B (minha paróquia). Que grandes embelezamentos introduziu o Senhor em sua Igreja!”. Pôs-se, então, a enumerar as transformações que eu tinha realizado na semana precedente e de que não falei a ninguém fora de minha paróquia. Fiquei surpreendido por ouvi-la referir-se a coisas que nunca vira. Dois ou três dias depois, a pessoa morreu, e eu esqueci tudo. Nada contei a ninguém. Mas, cerca de um mês, após a sua morte, ia sair para o meu passeio habitual à tarde, quando uma velha empregada me disse que queria falar-me de algo que a havia atormentado muito, mas que silenciara até então, com receio de que se rissem dela. E me contou que estava no coro da Igreja, ocupada em preparar uma lâmpada, quando, com grande espanto, viu uma senhora ajoelhada. Esta, ao fim de alguns instantes, levantou-se e retirou-se pela sacristia.

(146) Antônio J. Freire – Revista de Espiritismo, Lisboa, 1931, pág. 226.

Devo salientar que a minha empregada me assegurou que as portas da Igreja estavam todas fechadas à chave. Lembrei-me do que me dissera a minha amiga em seu leito mortuário e pedi à informante uma descrição da pessoa que tinha vista. Ela me fez um relato perfeito, completo, descrevendo, até, uma curiosa jaqueta, cheia de bolsos, que a minha amiga usava quando ia visitar os pobres. Perguntei-lhe se se lembrava da hora; ela respondeu que eram três horas. Fora o momento preciso em que eu chegava ao quarto de minha amiga. Dei-lhe em seguida vários retratos que conservava numa gaveta fechada à chave, em meu gabinete, e lhe disse que procurasse ver se reconhecia a pessoa da Igreja. Ela examinou cuidadosamente as fotografias, até que chegou à da pessoa morta. Examinou-a detidamente, viu as outras, e voltou à primeira. E disse: - É esta. Perguntei: - Por que não a reconheceu imediatamente? – Porque – respondeu, a dama que vi na Igreja era mais magra e tinha a fisionomia mais abatida que a da fotografia; suas maçãs de rosto eram mais salientes, mas estou certa de que não me engano. E descreveu-a tal como era antes de sua morte, e não como estava na fotografia, tirada quando se achava com saúde. Minha criada era a última pessoa do mundo capaz de imaginar tal aparição, e nunca vira a minha amiga, nem dela nunca eu lhe falara. (147)

No caso em apreço, enquanto o corpo doente jazia no leito mortuário, o espírito da enferma, arrastado pelo hábito, e pode-se dizer, desparafusado pela doença, ia à nave, observava o que lá se achava, reparava nos melhoramentos ali introduzidos, e voltava a envergar as vestes materiais, sem que lhe fugissem da memória os fatos que presenciara. Isto é o que valeria a pena fosse explicado pelos honrados biologistas, a quem causa tanto pesar a nossa ignorância a respeito dos princípios já assentes oficialmente sobre o assunto. O presente relato conduz-nos aos fenômenos de bilocação, a que ele pertence. Exemplos que tais podem ser colhidos a granel nos Anais do Psiquismo. Continuemos a demonstração. O seguinte caso é relatado pelo Professor F. E. Leaning, que o publicou no British Journal of Psychical Research, 1928, pág. 26.

Instalei-me numa pensão chamada Sheridan Inn, e fiquei todo o dia no quarto, à espera que o meu amigo Edwin me viesse buscar para a assinatura de um ato legal. Depois de haver comido, estendi-me na cama e comecei a ler. Fui, então, invadido por uma vaga de sono a que não pude resistir. Isto muito me contrariou, porque desejava ler o Jornal de Amiel, que me interessava bastante. Tudo foi inútil, porém, porque dormi bruscamente. Tive logo a impressão de haver deixado o meu corpo e voltei-me, percebendo-o, enroscado, em posição incômoda, e espantei-me de que se pudesse dormir em tal postura. Tive a idéia de sair, e fui para o corredor, passando pela porta, evidentemente pela força do hábito, haja vista que poderia ter muito bem atravessado a parede, desde que não abri a porta, mas passei através da madeira. Não mexia com os pés, pois que, para ir a qualquer lugar, bastava desejá-lo. Isso não impedia que me visse com as pernas, o braço e o corpo, e que me sentisse muito melhor que de ordinário.

Não havia ninguém no corredor, à exceção de um preto que encerava o assoalho. Afrontei-o, porém ele não pareceu ver-me. Compreendi que me devia ter tornado invisível, o que aumentou consideravelmente a minha curiosidade. Diverti-me em passar diante dele, atrás dele, em torno dele, roçando nele, porém ele nem sequer lançou um olhar. _______________ (147) Marillier – Hallucinations telepathiques.

A situação me divertia. Tive, porém, a idéia de que poderiam vir-me procurar e que acordassem o corpo de seu sono, enquanto eu me achava fora, e que daí poderiam resultar complicações pouco agradáveis. Voltei logo através da madeira da porta e quando cheguei perto da cama, o corpo me “chupou” imperiosamente, apanhando-me pelos pés. Foi feliz a idéia que tive, porque logo bateram à porta e a Sra. Canfield, dona da pensão, entrou e me pediu licença para apanhar o roupão. O hotel estava cheio e ela me tinha cedido o seu quarto. Quando ela saiu, notei um fenômeno inquietante: não conseguia ver normalmente. Ensaiei retomar a leitura de Amiel, e não distinguia as palavras. Via a sombra dos móveis e dos tapetes, mas não percebia mais o meu rosto no espelho. O fenômeno perturbador persistiu até que me assentei à mesa e pedi o cardápio. Finalmente, a vida voltou à normalidade.

O professor Leahing observa que esta última parte lhe sugere a idéia de que a fusão da segunda personalidade com o corpo físico ficou imperfeita e tal eventualidade está conforme com outras narradas em Occult Review. (148) Tais fenômenos nos preparam para melhor compreender o que se passa na crise final da morte. E as provas que os vivos nos trazem, com essas experiências, confirmam o que nos dizem, mostram e provam os defuntos. No caso presente, é digno de relevo o fato comum, nesse gênero de provas, da convicção em que se acha o paciente de que tem o espírito fora do corpo, convicção robustecida por inúmeros fatos, como o de locomover-se, de ver o corpo, de notá-lo adormecido e em determinada posição, de ir para onde quer, de atravessar paredes, de ver o que se passa fora do aposento, apesar das paredes e das portas fechadas, e, ponto capital que convém assinalar, pela sua importância na tese que defendemos, o de conservar a memória de tudo o que se passou.

Daí somos forçados a inferir, ou que as células cerebrais, ou células não importa de onde, acompanharam o Espírito na sua viagem, como as maletas acompanham o viajor, para que ele vá metendo ali o que encontra, - o que parece impossível, ou, pelo menos, é incompreensível, - ou chegaremos ao que queríamos demonstrar, que é no Espírito que se registram os fatos, idéias e imagens que formam o conjunto de nossas lembranças, e que no acompanham de vida em vida, acrescidas sempre de material novo, lembranças que irrompem por vezes do vasto lençol em que jazem, para provarem o nosso longo passado espiritual. Como os casos se multiplicam e os temos às centenas, não deverá restar dúvidas de que existe a extracorporeidade com os vários elementos demonstrativos que acabamos de expor, e as conseqüências que acabamos de tirar.

O seguinte episódio da Guerra de 14 foi trazido pelo protagonista a Sir Oliver Lodge, que o publicou integralmente nos Proceedings. O autor descreve a sua longa e dolorosa marcha, debaixo de chuva fria, ou sob a neve, por estradas lamacentas e escorregadias, até que chegou às trincheiras, transformadas numa gamela de estrume líquido, mal cobertas do fogo inimigo, estando ele e seus companheiros extenuados, enregelados, molhados, famintos. Passamos ligeiramente pela confrangedora e extensa descrição, para chegar ao episódio: __________________

(148) Ernesto Bozzano – Les Phénomènes de Bilocation, trad. De Gabriel Gobron, Paris, 1937, pág. 80.

Muitas horas transcorreram naquela horrenda situação, quando, de súbito, tudo mudou para mim. Tornei-me consciente, certissimamente consciente de achar-me fora do corpo. Comprovei que o meu eu real, consciente, o Espírito, se havia totalmente libertado do organismo corpóreo e, de fora deste, eu contemplava aquele mísero corpo vestido de cinza-verde, que era o meu, mas olhava-o com absoluta indiferença, pois que embora estivesse convencido de que o corpo me pertencia, já não havia laços que me prendessem ao seu martírio, e o considerava como se fosse de outrem. O meu espírito não sentia coisa alguma. Enquanto estive naquela condição, o fato me parecia natural; só quando entrei novamente no corpo é que me convenci de que passara pela mais maravilhosa experiência de minha vida. Nada, jamais, poderá abalar a minha convicção de que naquela noite de inferno o meu espírito se separou temporariamente do meu corpo. (149)

Do extrato se nota que o Espírito se liberta e vê o corpo adormecido; já não sente as agruras, a ansiedade e as angústias que o oprimiam, e voltando a si, de tudo se recorda. Há ainda outros fatos mais interessantes e seremos forçados a dá-los em síntese, depois de uma escolha feita ao acaso.

Este é relatado pelo famoso neurologista Dr. Eugenio Osty, na Revue Métapshychique, sob o título La Vision de Soi. O informante é L. H. Hysman que, por duas vezes, viu diante de si o próprio corpo inanimado. Da primeira vez achava-se na cadeira de um dentista. Sob a ação do clorofórmio sentiu-se de repente flutuando no ar e a contemplar, espantado, o dentista e o cloroformizador nos seus trabalhos. Tornou a si e à cadeira, tendo conservado, nítida, a impressão de tudo que sucedera. De outra feita, em Londres, teve uma síncope. Viu-se, ainda, no espaço, donde contemplava, tomado de pavor, o corpo inanimado, de olhos fechado. Pensando que estava morto, perpassaram-lhe pelas idéias as cenas que se iam desenrolar quando o vissem já sem vida. Preocupava-o o estado de seus negócios... E ele afirma: - É absolutamente certo que nada perdi da minha memória e da minha consciência. Certainement je n’avais perdu ni la mémoire ni la conscience de moi-même. Transcorridas duas horas, forçaram a porta do quarto, chamaram um médico e ele recuperou os sentidos, com a lembrança de tudo que se passara.

Não perdera a memória nem a consciência. (150) E quem tiver paciência que fique à espera do esforço que irão empregar os doutos para explicar isto e mais a manutenção da memória, com o corpo ausente. Outra comunicação é de Charles Quartier, cronista da Revue Métapsychique, psiquista conhecido e intransigente adversário de teses espíritas. Refere ele que, enfraquecido pela chamada gripe espanhola, debilitado, subalimentado pelo estado de guerra, desmaiara repentinamente. Certa vez, estava num sofá, enquanto sua mãe conversava num vestíbulo com visitantes. De repente, viu-se caído do canapé, com a cabeça para baixo e os pés ao alto, inteiramente desacordado.

(149) Oliver Lodge – Journal of the Society of Psychical Research, 1929, pág. 126. (150) Dr. E. Osty – Revue Métapsychique, 1930, pág. 190.

Invadiu-o um sentimento de bem-estar, de leveza, uma inverossímil euforia, e depois o terror, por se achar diante de um fato normalmente impossível, ver-se como num espelho, e mais, o de ter ficado com a cabeça para baixo, o que poderia ser perigoso. Depois, pareceu-lhe estar no vestíbulo, ansioso por atrair a atenção de sua mãe, quando esta, que, se diria, lhe estava percebendo a ânsia, declarou de repente: - Esperem, vou ver meu filho que me chama. Quando acordou, viu-se ele no canapé, com a progenitora ao lado, prodigalizandolhe os cuidados que se requerem em tais ocasiões. O fenômeno é documentado com o depoimento de várias testemunhas. (151) Quartier, adverso ao Espiritismo, procura umas hipóteses explicativas, que estão longe de se adaptar ao caso e muito mais longe de abrangerem outros da mesma espécie. Mas declara: - Uma coisa é certa, é que eu me vi a mim mesmo. As doutrinas pessoais de Quartier o tornam, por isso, menos suspeito na narrativa.

E para nós, o que é mais certo é ter ele conservado a memória do que acontecera, embora estivesse em síncope, vendo-se fora do corpo, apreciando o que se passava além do aposento; seguramente, os fisiologistas e biologistas não nos poderão ensinar como se teria, nesse caso, conservado a memória integral. Caso bem interessante é ainda o de haver conseguido impressionar, “telepatizar” a progenitora, ou seja, transmitir-lhe o seu pensamento, o seu pedido de socorro. Iremos encontrar um fato idêntico. Giuseppe Costa, na sua obra Além da Vida, descreve um caso semelhante, e tantos têm sido eles, que já merecem especiais monografias, e nomes especiais, como autoscopia, visão de si próprio, autovisão... O autor dá ao seu caso o título de Un misterioso avvenimento, acontecimento de fato misterioso para quem não conhece o fenômeno espírita ou anímico do desprendimento da alma. Principia por mencionar fatos particulares que precederam o fenômeno e as condições em que se achava quando lhe aconteceu o mais misterioso dos acontecimentos de sua existência.

“É oportuno che io accenni alle particolari condizioni in cui me trovavo quando mi accade il piu misterioso degli avvenimenti della mia esistenza...” O acontecimento se verificou em uma noite abafada do cálido mês de junho. “Era una notte afosa di un torrido giugno...” Preparava-se para exames e, exausto, atirou-se na cama, antes desmaiado que adormecido, sem apagar a lâmpada de querosene. Provavelmente, por um movimento brusco, fez que a lâmpada caísse; esta desprendia uma densa fumaça, que enchia o quarto de um gás pesado, irrespirável. Seu corpo seria encontrado exânime na manhã seguinte, se não sobreviesse o fenômeno. Foi quando teve a sensação de achar-se com o seu eu pensante no meio do quarto, completamente separado do corpo, que jazia na cama. Via-o e aos demais objetos, bem como as paredes, com os seus pormenores, os seus contornos, embora o quarto estivesse caliginoso. Não tinha de força de gravidade. Se dissesse que se sentia leve, livre, etéreo, não exprimia bem o que experimentava, e, de mesmo passo, tinha inexprimível angústia, vendo o soma na situação em que se achava.

Quis apanhar a lâmpada, abrir a janela, porém não o conseguia com os órgãos espirituais. Pensou, então, na progenitora, que estava em outro aposento. Viu que ela descia apressadamente da cama, corria à janela, abria-a, para depois sair do quarto, andar pelo corredor, entrar no seu, e aproximar-se-lhe do corpo inerte, tateando-o na escuridão. _______________ (151) Dr. E. Osty – Revue Métapsychique, 1930, pág. 191.

A esse contato, o seu eu espiritual entrou novamente na sua sede. Achou-se desperto, com a garganta seca, as têmporas martelando, o coração como a querer escaparlhe. O autor até então nada sabia de Espiritismo nem de fenômenos supranormais. Mas – declarou – jamais tive a sensação de existir de modo tão real, como no momento em que me senti separado da vestidura carnal. “Mai ebbi cosi la sensazioni di esistere in realtà come nel momento in cui m’ero sentito separato dal mio corpo”. Sua mãe, interrogada, confirmou que primeiro abrira a janela do seu quarto, haja vista que se sentia sufocada, antes de correr em auxílio do filho. Dal Costa, depois de estudar várias hipóteses, declara que só lhe restava a dedução lógica de que seu eu pensante houvera agido fora do corpo. (152) Mais um exemplo.

Sem sentidos, inerte, prostrado numa cama, em começo de asfixia, e tão sem ação física ou mental, que não pôde tomar qualquer providência, o seu espírito, entretanto, vê, sente, raciocina e torna à vida material com a lembrança do que vira, do que sentira, do que raciocinara. Era, portanto, no Espírito e não na matéria que jaziam as recordações. Era no Espírito que estava a memória. Outro caso, não menos elucidativo, é referido por Paul Gibier, médico e psiquista francês, naturalista do Museu de História Natural, oficial da Academia, além de outros títulos. Aqui o apresentamos sob a responsabilidade do grande cientista. Declara o percipiente: ...Estendi-me numa espreguiçadeira. No momento em que me virava de costas, senti que andavam à roda os objetos próximos; experimentei como que um atordoamento, um vácuo; depois, achei-me transportado ao meio do quarto. Surpreendido com este deslocamento, do qual não tinha consciência, olhei em torno de mim e meu espanto aumentou muito mais.

A princípio, dei comigo estendido no sofá, suavemente, sem rigidez, apenas tendo a mão esquerda acima de mim... A primeira idéia que tive foi a de que havia adormecido e sonhava. Entretanto, reconhecia que nunca sentira coisa semelhante e que, de maneira tão intensa, representasse a realidade. Tinha a impressão do real. Compreendendo que não se tratava de um sonho, o segundo pensamento que me acudiu à imaginação foi o de que estava morto. Lembrei-me, ao mesmo tempo, de ouvir dizer que há Espíritos e pensei que me tinha tornado um Espírito. Lembro-me, perfeitamente, de ter sido assaltado, então, por uma espécie de ansiedade; minha vida me apareceu como numa fórmula... Aproximei-me de mim, ou antes, do meu corpo, ou do que eu acreditava já fosse meu cadáver. Chamou a minha atenção um espetáculo que não compreendi logo: vi-me respirando, percebi o interior do peito, e meu coração batia lentamente, porém com regularidade; meu sangue, vermelho cor de fogo, corria nas artérias.

Compreendi, nesse momento, que devia ter tido uma síncope, de um gênero particular, e receei não me lembrar de nada quando voltasse a mim. Sentido-me um tanto tranqüilo, lancei os olhos em torno, perguntando quanto tempo iria durar aquilo; depois, não mais me ocupei com o corpo, o outro eu, que continuava repousando em sua cadeira; vi a lâmpada, alumiando silenciosamente, e refleti que ela estava muito perto da cama e poderia lançar fogo ao cortinado; segurei o botão, a chave da torcida, para apagá-la, e nova surpresa me tomou. Sentia perfeitamente o botão com a sua roseta, percebia, por assim dizer, cada uma de suas moléculas, porém, por mais que desse voltas com os meus dedos, só estes executavam os movimentos, sem conseguir mover o botão. _______________

(152) Giuseppe Costa – Di la della Vita, Torino, Gênova, pág. 18.

Coloquei-me, depois, diante do espelho, em face da chaminé, mas, em lugar de ver a minha imagem, reparei que a vista parecia estender-se sem estorvo, e apareceu-me, primeiro, a parede, e depois a parte posterior dos móveis e dos quadros que estavam na casa vizinha, e em seguida o seu interior. Notei a falta de luz nesses aposentos, que a minha vista lobrigava, e vi perfeitamente um raio de luz que partia de meu epigástrio e iluminava os objetos. Veio-me a idéia de penetrar na casa do vizinho, casa que aliás não conhecia; ele estava ausente em Paris. Apenas pensara em visitar o primeiro compartimento, e logo me vi transportado a ele. Como? Nada sei, mas me parece que varei a parede tão facilmente como com a vista. E me encontrei em casa do vizinho, pela primeira vez na vida. Examinei os quartos, gravei-lhes o aspecto na memória, dirigi-me a uma biblioteca, onde observei com cuidado muitos títulos das obras colocados numa prateleira, à altura de meus olhos.

Para mudar de lugar, bastava-me querer, e sem esforço, achava-me no ponto para o qual queria ir. Sei que andei por longe, para Itália, creio, sem saber como empreguei o tempo. Foi como se andasse de uma para outra parte, carregado para onde me dirigia o pensamento... O que, concluindo, posso acrescentar, é que acordei às cinco da manhã, na minha espreguiçadeira, rígido, frio, tendo ainda entre os dedos a ponta do charuto. A lâmpada apagara-se. Atirei-me à cama; quando despertei era dia claro. Por meio de inocente estratagema, nesse dia mesmo, induzi o porteiro do meu vizinho a examinar a casa, para ver se estava tudo em ordem. Subi com ele e pude rever os móveis, os quadros notados por mim na noite precedente, os títulos dos livros em que tão atentamente havia reparado. Evitei falar disso a quem quer que fosse, haja vista que não desejava passar por maluco ou alucinado...

Terminando a narrativa, o seu autor pergunta a Gibier: - Que pensa disto, doutor?... (153) A apresentação do fenômeno, com as mesmas modalidades, as mesmas fases, por médiuns diversos, em ocasiões diversas e em diversos lugares, deixa patente a sua realidade. A maneira por que se desenvolve, mostra, ainda que se trate de uma separação temporária do Espírito, que se desata das faixas que o prendem estreitamente ao corpo, continuando, entretanto, com as mesmas faculdades. A sua independência é manifesta, e ele vê, observa, reflete, calcula, prevê, induz, deduz e conserva a plenitude da memória; no caso presente, lembra-se de tudo o que se passou e pode comprovar as suas visões. O corpo jaz inanimado, inconsciente; é nestas condições que maior se lhe torna a atividade espiritual, como acontece em certos casos de coma, de que já nos falava e de que dava testemunha o pranteado neurologista Dr. Eugênio Osty. Na impossibilidade de compreendermos a transmissão de idéias pelos processos de que nos fala a ciência de Müller, força é concluir que a memória reside no Espírito e não nos órgãos materiais. Tratando desses casos, salienta Bozzano:

Psicologicamente falando, merece profundamente meditado o fato de o indivíduo sentir que existe pessoalmente, na plenitude de suas faculdades cientes e conscientes, fora do corpo e defronte do corpo. Trata-se de um sentimento dificilmente redutível a fórmulas elucidativas, deduzidas da psicologia universitária. (154) _______________ (153) Paul Gibier – Physiologie Transcendentale. Analyse des Choses – Durville, Paris, pág. 120. (154) Ernesto Bozzano – Animismo e Espiritismo, Trad. De Guillon Ribeiro, pág. 140.

Há casos de desprendimento do Espírito que passam despercebidos ao ser desprendido, mas que nem por isso deixam de ser vistos e testemunhados. É exemplo o que ora apresentamos, precedido de ligeira apreciação de Ernesto Bozzano. Dizia ele que os fenômenos anímicos, ou sejam, os fenômenos psíquicos entre vivos, robusteciam a tese espírita. Realmente, a existência do fato psíquico entre as pessoas vem provar a sua realidade, e, conseqüentemente, a sua possibilidade, quando se trata do morto, além de nos mostrar a existência do espírito independente da matéria. Vem a talho de foice um trabalho publicado por Delanne, relembrado por Picone Chiodo. Wolfang Goethe passeava, numa tarde de verão, com seu amigo K, em Weimar, quando, de repente, estacou, como diante de uma aparição que lhe falasse, enquanto o seu amigo K. não percebia nada. Goethe disse imediatamente: - Deus meu, se não estivesse convencido de que o meu amigo Frederico está neste momento em Francforte, juraria que era ele! Em seguida, desatou em risada franca: - Mas é bem ele, o meu Frederico. Tu aqui, em Weimar?

Mas por Deus, meu caro, como te vejo vestido! Com as minhas roupas de quarto, com o meu barrete de noite, com os meus chinelos, aqui na estrada real? K. não via absolutamente nada do que dizia Goethe e espantou-se, crendo que o poeta fora tomado de loucura súbita. Mas Goethe, preocupado, unicamente, com a sua visão, estendeu os braços e continuou: “... Frederico, por onde passaste? O’ Senhor! Meu caro K. não observaste por onde ele veio?” K., estupefato, não respondia coisa alguma. O poeta, então, olhando para todos os lados, declarou: - Sim, compreendo, é uma visão... Entretanto, qual pode ser a significação de tudo isso? Teria o meu amigo morrido, subitamente? Seria o seu espírito? Pouco depois, Goethe entrou em casa e encontrou Frederico; acreditando que lhe tivesse reaparecido a visão, os cabelos se eriçaram, e exclamou: - Para trás, fantasma! - É esta, meu caro – lhe disse Frederico – a saudação que fazes a teu sincero amigo? - Ah! – respondeu Goethe – rindo e corando ao mesmo tempo, - desta vez não é um espírito, é um corpo de carne e osso.

E os dois amigos se abraçaram efusivamente. Frederico chegara à habitação de Goethe ensopado pela chuva, e pusera as roupas do poeta. Depois, adormecera numa cadeira de braços e sonhara que havia encontrado Goethe, e este o interpelara com essas palavras: - Tu aqui em Weimar, com as minhas roupas de quarto, o meu barrete de quarto e os chinelos, na estrada real?... (155) Cumpre acrescentar que muitas dessas descrições são feitas pelos próprios pacientes, literatos ou cientistas, que os exaram nos seus livros, com a responsabilidade de seus nomes e dos seus títulos, sem ocultarem que o fenômeno se passou com eles próprios, e sem se acanharem de os reproduzirem minuciosamente. Outras vezes, o fato é trazido ao cientista por pessoa íntima e da máxima confiança do experimentador. Andemos um pouco mais, como quem continua a folhear um livro, estendamos a investigação, e vamos assinalar, não já o desprendimento ou a aparição do espírito do vivo mas a do falecido, que se apresenta, logo ao se fecharem sobre ele as portas deste mundo. É uma seqüência que vem pôr-nos diante dos olhos, com lógica irresistível, a imortalidade do ser. Principalmente por demonstrar a universalidade do fenômeno. __________________ (155) Picone Chiodo – L’Immortalitá dell’Anima, pág. 60.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.