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Capítulo 38 de 65
As Objeções de um Erudito Padre
A Evolução · Carlos Imbassahy
Tratando-se neste trabalho de um estudo sobre Reencarnação, parece-nos que não é possível deixar de lado as considerações de um ilustre Ministro da Igreja, o Padre Álvaro Negromonte, que já tem em segunda edição um livro sob o título O que é o Espiritismo. As nossas referências à sua obra não significam o desejo de combatê-la e muito menos ao seu autor, por quem nutrimos, sem favor nenhum, a mais franca admiração. Por isso mesmo que se trata de um grande escritor, estimado nas letras eclesiásticas e acatado nas letras profanas, é razão bastante para que sejam consideradas as suas observações. Que ele nos desculpe, portanto, os reparos, e veja neles somente o desejo de esclarecer o assunto. Principia o preclaro reverendo por mostrar que “as afirmações espíritas são contrárias ao ensino católico, o qual é baseado na Sagrada Escritura.” Matéria para dissertação especial. Deixemos, pois, a palavra de Deus, que não sabemos quem a ouviu, e a infalibilidade das “Santas Escrituras”, tão ao arrepio das falhas gravíssimas que lá se encontram, e atentemos nos argumentos. Diz o sacerdote, tratando da Filosofia:
a) Se fosse anterior ao corpo, a alma devia ser uma substância completa. Sendo, como é, uma substância incompleta, que se une ao corpo, outra substância incompleta, para formar um todo, que é o homem, a alma não pode existir antes do corpo. Se ela e o corpo fossem substâncias completas, a união dos dois não daria uma pessoa, mas um agregado de substâncias independentes, justapostas e unidas apenas acidentalmente.
Que elas estão unidas acidentalmente não pode restar dúvida. Acidentalmente, provisoriamente, temporariamente. Antes de chegarmos à letra b, veremos que já existe aqui uma série de equívocos, repetidos, aliás, por outros sacerdotes, que, melhor do que nós, deveriam saber o que é o Espírito, e, sobretudo, onde está a individualidade, onde reside o ser. A afirmativa de que a Alma é substância incompleta, que o ser só pode ser formado de corpo e alma, e até que o corpo é outra entidade, é o outro, nota-se em várias passagens do Autor, erro em cuja esteira velejam impróvidos navegadores, descuidados, até, pela paixão sectária, dos ensinos de seus respectivos catecismos. Assim, escreve o digno sacerdote:
Mas com a doutrina espírita, os castigos serão na outra encarnação. Se não sou eu que vou recebê-los, pouco farei para evitar o mal. Abrem-se, então, largos caminhos a toda espécie de satisfações ilícitas, de vícios e crimes... Também não temos estímulos para o bem... Ora, é isto o que ensina a reencarnação: eu pratico as virtudes e a recompensa vai para o outro, em outra encarnação. Boa essa... Quem vai então mortificar-se... Privar-se de satisfações e alegrias, deixar os agradáveis caminhos dos sentidos, escolher a penosa subida do Calvário, se, no fim, será para outro a recompensa? Ou, se afinal, tudo se conseguirá por meio de reencarnações indefinidas, sem trabalho?
Que outro? Não há outro. Quando o Padre for para o céu, o que, egoisticamente desejamos não seja tão cedo, haverá algum outro que fique em baixo da terra? O Padre é constituído pelo seu eu psíquico, eu formado pelo seu caráter, sua inteligência, sua memória, seu saber... O corpo desfaz-se. Destarte, se o Padre voltar ao nosso vale de lágrimas, quod Deus avertat, tomará outro corpo, igualmente mutável como o primeiro, transformável, dissolúvel, perecível. Não há outro padre. Será o antigo Álvaro, provavelmente com outro nome, seguramente com outro corpo, necessariamente com outras vestes. Mas o Espírito é esse mesmo que os seus amigos têm a felicidade de conhecer. Pela doutrina palingenésica, o ser, em nova encarnação, ao aproximar-se do ventre materno, adquire um corpo, aquele com que vai nascer, tal como o indivíduo que ao levantar do leito pega outras roupas diferentes das que usara na véspera.
Para o nosso amigo, como para tantos que lhe tomaram os argumentos por empréstimo, o indivíduo são as roupas, como na reencarnação, pela mesma lógica ele seria o organismo somático. E teríamos, destarte, tantos indivíduos quantas fossem as vestes. Diante das dúvidas da letra a cabe-nos, enfim, perguntar, que é o que vai para o Céu, para o Inferno ou para o Purgatório. Se é o Espírito, temos uma substância incompleta a encaminhar-se para essas estâncias. E como as substâncias incompletas não podem ser anteriores ao corpo, não se compreende como possam ser posteriores. Que é que irá então para aquelas moradas? Achar que o indivíduo só forma o todo com o corpo, o mesmo é achar que o homem só forma o todo com a sua camisa, e pormo-nos a clamar que sem ela se tornou outro, que ao tomar outra camisa se meteu num outro, ou numa outra. Seria risível.
O papel do corpo em relação à camisa é idêntico ao do espírito em relação ao corpo; e as metamorfoses por que este passa, mesmo em vida, o fazem irreconhecível aos que o viram anteriormente. Entretanto, essas transformações físicas não o tornariam outra pessoa. O ser é a individualidade imperecível, que é a alma. Ela progride, porém não se deteriora, nem aniquila, nem desaparece com o soma. Este é apenas o invólucro passageiro. E como ela dele prescinde após a morte, sem perda de qualquer de suas faculdades, e, ainda em vida, demonstra sua completa independência, é grave equívoco a afirmativa de que esta se trata de substância incompleta, como seria o de achar incompleto o móvel sem as capas com que as donas de casa costumam revesti-los contra a poeira.
Pelo contrário, quem conhece um pouco de Metapsíquica, sabe que o corpo diminui, enfraquece, entorpece as manifestações espirituais, e que estas só adquirem sua plenitude quando livres do seu incômodo revestimento físico: maior visão, mais ampla memória, maior lucidez, liberdade nos movimentos, rapidez no transporte, tal é o que sabemos do espírito desencarnado, pelo menos os de certa elevação moral. A um estudioso das ciências psíquicas difícil será compreender a razão de chamar ao espírito livre, ao espírito em toda a sua liberdade intelectual e cinemática, de substância incompleta. É incompleta para os efeitos da Terra, como o é o indumento para os efeitos da sociedade. Segundo, enfim, o que ensina em suas prédicas o próprio Reverendo, na alma é que residem os vícios e as virtudes, o mau ou o bom arbítrio. São aqueles, segundo a Igreja, que nos dirigem ao Inferno, enquanto estes nos levam ao Paraíso.
Nunca é demais repetir: a vontade, o discernimento, a inteligência, o caráter, a energia, os desejos, as inclinações, os pendores, a moral, acompanham o Espírito e são eles que o formam. Prová-lo-emos no capítulo competente. Este Espírito é que é a individualidade. Esta individualidade é que encarna, desencarna e reencarna. O outro é a matéria inerte, decomponível, insustentável quando lhe foge o espírito, espécie de sapato velho que se joga fora.
Ouça S. Rvma. e seus colegas, e tantos quantos o acompanham nessa história do outro, um testemunho insuspeito. Era o Padre Antônio Vieira quem dizia:
Quereis saber o que é uma alma? Olhai para um corpo sem ela. Se o corpo era de um sábio, onde estão a Ciência, a Filosofia, a Matemática? Foram com a alma por que eram suas.
O ser espiritual é que é a sede de tudo o que somos, o que fomos e o que seremos; é a entidade ativa, volitiva, pensante, raciocinante, responsável e imortal. Retire-se a alma e o corpo morre. Fira-se o corpo, maltratem-no, destruam-no e a alma subsistirá sempre. Pois será que estejamos a ensinar o Padre-Nosso ao vigário e mesmo a outros que não são vigários e que tinham o dever de conhecê-lo?... Ainda mesmo que pudéssemos manter essa esdrúxula idéia de que o corpo é essencial à alma em todas as instâncias e estâncias, formando com ela um todo indissolúvel, quando a Religião proclama a dissociação de ambos, pelo menos até o dia do Juízo, e a Ciência o demonstra, como iremos ver, ainda assim podemos dizer que outro corpo, ou pelo menos o seu fac-símile ou corpo astral, que os Espíritos se mostram, se deixam ver, que se nos apresentam, que provam a sua existência. Quando vemos fantasmas, almas errantes, almas de Outro Mundo, notamo-las como se encontravam em vida, com um corpo perfeitamente idêntico ao de sua vestidura carnal.
Eles se acham diante de nós em corpo e alma. Já vê o amigo ou os amigos que nem esse implemento falta ao Espírito para a unidade espiritual, que imprime ao outro muitas de suas características. Em síntese: A alma só depende do corpo ao âmbito da vida terrena; o corpo é apenas uma vestidura inconstante, mudável. Nesta vida, já a alma demonstra a sua independência e esta se firma inteira, absoluta após o desencarne. Logo, substância completa, para usar a expressão do nosso caro antagonista. A ser aceitável o argumento, deveríamos aplicá-lo em várias outras circunstâncias e cairíamos no disparate: uma calça, um paletó não poderiam subsistir antes do corpo que os tivesse de usar. Não saberíamos ainda porque a alma não poderia anteceder ao corpo e poderá sobreviver a ele, isto para os que não aceitam seja a alma formada com o corpo e que, entretanto, apresentam o mesmo argumento. Como se vê, o acerto filosófico das razões expendidas é absolutamente inapreensível. Lembraria, finalmente, que nos Evangelhos se diz que a carne nada vale. Se nada vale, como seria imprescindível ao Espírito? Voltem os amigos ao capítulo VI de João, vers. 64: O Espírito é que vivifica, a carne de nada vale.
Agora, a letra b:
b) Se as almas existissem antes dos corpos, exerciam ou não a inteligência e a vontade? Se não exerciam, sua existência era inútil e portanto contrária à existência de Deus. Se exerciam, tinham conhecimento dessa existência. Mas não há conhecimento dessa existência anterior. É que as almas não existiram antes dos corpos. Logo a Filosofia desmente as fantasias do Espiritismo.
A Filosofia não desmente nada.
Não havia razão para a dúvida ou para a alternativa apresentada, desde que se sabe, em Espiritismo, que as almas, antes, durante ou depois dos corpos, exercem a inteligência ou a vontade. Já se veria alguém, desde que não se trate de um dementado, deixar de exercer a vontade? Sempre se afirmou que somos seres que voltaremos a encarnar, logo exercendo a inteligência e a vontade, já antes de outros corpos. E antes de tomarem novos corpos, continuam exercendo vontade e inteligência, como o demonstra a variada gama da fenomenologia supranormal. Eliminada a primeira ponta, vamos à segunda. Se folhearmos os livros de Allan Kardec, veremos o caso devidamente explicado. O que competiria, pois, ao digno escritor sacro e àqueles que o seguem, dentro ou fora da Igreja, seria desfazer os argumentos do Codificador e não repisarem indefinidamente as mesmas afirmativas, como se nada se tivesse escrito até hoje sobre o caso.
As lições de Allan Kardec são por demais conhecidas e nos limitamos, portanto, a remeter o leitor ao respectivo texto. (82) Já em nossa obra mostramos que o esquecimento não é completo como parece; por vezes, a alma abre rasgões no nevoeiro que a envolve e desvela o passado. Vemos ainda o seguinte: Não temos consciência do que fomos, porque a memória fica apagada, obnubilada no seu novo entrajamento. Há milhares de fatos porém, que provam a revivescência dessa memória. Os anais do Psiquismo dele estão refertos. Já os mostramos no início e vê-loemos ainda. Pelo argumento expendido, o ser não deveria existir antes do tóxico que ingeriu, ou da moléstia que adquiriu, ou do abalo que sofreu, ou da pancada que tomou, ou da crise por que passou, quando esses acidentes lhe perturbam a razão, diminuem a memória ou mesmo a extinguem.
Em inúmeros casos, tidos em Psiquiatria como de dupla personalidade, personalidades alternantes ou não importa o rótulo, o indivíduo esquece por tempo indeterminado a personalidade anterior, ou a sua personalidade; não se lembra de mais nada; olvida por tal forma o passado, que é necessário aprender tudo de novo. Não se desconhece que existe o que se chama a amnésia, e que não se lhe marcam limites à duração. Ninguém, em bom juízo, poderá ter esses indivíduos amnésicos por inexistentes. E as suas culpas, por mais terríveis que fossem, ficariam apagadas com o esquecimento?... E se das suas faltas ou erros, surgissem graves conseqüências, como se justificariam elas diante da filosofia do digno opositor?... Só nos restaria, pois, demonstrar que o castigo, a sanção ou os efeitos, dependem da falta e não da memória, e que um criminoso desmemoriado não deixaria, mesmo no Catecismo do Autor, de prestar as devidas contas dos seus pecados. É muito contra a vontade que empregamos o vocábulo castigo, e o fazemos porque não se percebe falta sem a respectiva punição.
Mas o sofrimento é antes uma necessidade no progresso, espécie da terapêutica da alma. Essa terapêutica prescinde das faculdades mnemônicas. Não sabemos bem porque será assim; o caso é que o sofrimento é evidente. Como quer que seja, compreende-se que, com memória ou sem memória, a sua aplicação tem uma finalidade – a evolução do ser. O que dificilmente entra na cabeça de alguém, fora de certos círculos, já se vê, é a dor ministrada arbitrariamente, conforme as simpatias do Criador ou a cara da criatura, como não se compreende a benfeitoria do Inferno para o futuro do pecador. _______________ (82) Allan Kardec – Livro dos Espíritos, Cap. VII, Esquecimento do passado, nr. 392 e seguintes.
Eis-nos agora diante de matéria já muito ventilada e debatida, parecendo os nossos contraditores não só inteiramente alheios ao debate, como despercebidos de que as armas que lançam às doutrinas alheias revertem contra as próprias. Ouçamos o Padre conterrâneo:
Se os males que padecemos são punição de pecados de existências anteriores, quem me fizer qualquer mal está apenas me aplicando merecido castigo. E neste caso não tem culpa alguma, e sim merecimento. Que bela conseqüência da reencarnação! Quem procurasse aliviar os sofrimentos do próximo estaria impedindo a expiação dos crimes cometidos nas outras encarnações, entravando o progresso... Logicamente, a caridade espírita é contraproducente.
É mais ou menos do mesmo teor a opinião de eminente professor:
Se as provações para os adeptos de tal palingenesia são manifestações da justiça divina, todas as práticas de caridade devem ser absurdas, porque se opõem à vontade divina... ... Todo o socorro prestado a uma criatura que sofre é contraproducente. Tirar um homem do sofrimento deve ser para os Srs. Carlos Imbassahy e Mário Cavalcanti de Melo a maior das maldades, porque será privá-lo dos recursos de que dispõe para aperfeiçoar-se e resgatar as faltas... Em nossa filosofia o dever do rico é amparar o pobre, o do forte é proteger o fraco...
Dir-se-ia, sendo aquilo a filosofia deles, que a nossa consiste no dever de o rico desamparar o pobre e o do forte desproteger o fraco. Mas, perguntaríamos ao ilustre Padre católico e ao ilustre Professor cristão, se, amparando o pobre e protegendo o fraco, não estariam eles igualmente, praticando um mal, por se oporem à vontade divina, haja vista que os males oriundos da fraqueza ou da pobreza provêm daquela vontade? É dos Evangelhos, que ambos seguem e reverenciam, que não cai uma folha, que não cai um cabelo, que não cai uma asa, que não seja por vontade de Deus. Aí está como os preclaros opositores voltam contra si os argumentos com que pretendem embatucar-nos. Mas aquelas escachantes coartadas contra a reencarnação já haviam sido explicadas por nós. Há mais de vinte anos, eram lançadas por um colega do Padre Álvaro e nós já lhes respondíamos. Dizia o Padre:
Então quando um homem mau persegue o seu semelhante é sempre instrumento da justiça divina... Pois bem, caríssimos espíritas, segue-se que se matarmos, se roubarmos, se torturamos o próximo, não fazemos nada de mal. É apenas porque ele o mereceu. Hum!
E nós replicávamos:
Que o próximo o mereceu, não resta dúvida; quanto a que não fizéssemos nada de mal – hum!... dizemos nós agora. Se matarmos, se roubarmos, se torturamos, infringimos a Lei. Não é possível inferir-se que não fazemos nada de mal. O morto, o roubado, o torturado sofrem as provas que lhes cabem, e como ninguém nos mandou matar, roubar ou torturar, ou se mandasse não o deveríamos fazer, ficamos por nossa vez em dívida. Porque, com aquelas iniqüidades, não temos em mira limpar o próximo dos seus pecados, senão satisfazer as nossas baixas inclinações. Os que sofrem saldam os débitos; os que fizeram sofrer enchem-se de culpas. Aquele que está submetido à prova, experimentá-la-á de qualquer maneira e experimentá-la-ia, mesmo que não existisse o mau para servir de instrumento: o que teria de ser assassinado, morreria de desastre; em vez de roubado, o que por tal aborrecimento devesse passar, perderia os seus haveres; as torturas infringilas-ia o destino, a natureza com suas agrestias. Não havia escapar. Como porém existem os assassinos, os ladrões, os perversos, vão eles servindo de meio de reparação, de instrumento de progresso e suas iniqüidades revertem em beneficio da harmonia universal.
E terminávamos com palavras de Rui Barbosa. Transcrevemos grande parte de um seu discurso, em que falava dos seus inimigos:
E ainda quando aos olhos do mundo, como aos do nosso juízo descaminhado tenham logrado a nossa desgraça, bem pode ser que, aos olhos da Filosofia, aos da crença e aos da verdade suprema não hajam contribuído senão para a nossa felicidade.
O grande jurista já entrevia os caminhos por onde se processava a Justiça do Alto.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.