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Capítulo 37 de 65

A Reencarnação Vista por um Frade

A Evolução · Carlos Imbassahy

Aproveitamos para apresentar um apreciável resumo da Reencarnação feita pelo ilustrado frade e teólogo, Boaventura Kloppenburg, no seu folheto Por que não admito a Reencarnação. Esse por que veremos mais adiante. Vamos ao resumo, aliás bem feito: A teoria da reencarnação é o ponto básico e fundamental do espiritismo brasileiro (kardecismo, umbandismo, quimbandismo etc.), do teosofismo, do esoterismo e de todas as mais formas e variedade sob que se apresenta o ocultismo. Negada a idéia da Reencarnação, caem por terra todos esses vários sistemas que estão sendo propagados entre o nosso bom povo brasileiro. Quero, por isso, neste folheto, expor resumidamente as razões por que não posso admitir de modo nenhum a teoria da Reencarnação e, conseqüentemente, porque não posso ser espírita, nem umbandista, nem teosofista, nem esoterista ou qualquer tipo de ocultista. Antes de dar as minhas razões, resumirei as afirmativas principais dos defensores da teoria da Reencarnação.

Os postulados fundamentais dos reencarnacionistas se resumem nos seguintes pontos: 1) A vida presente não é a única do homem sobre a terra: nem é a primeira, nem será a última: “Nascer, viver, morrer, renascer ainda e progredir continuamente, esta é a lei”.

Segundo a maioria dos reencarnacionistas, nós homens, antes de sermos o que somos, passamos pelo reino animal, vegetal e até mesmo pelo reino mineral e depois ainda teremos que passar por outras muitas estrelas, reencarnando sempre de novo, até alcançarmos a perfeição final, igual para todos. 2) A alma humana, portanto, é o resultado de uma longa evolução pessoal e não foi criada por Deus no momento em que ela se uniu com o corpo. 3) O corpo humano é apenas um “envoltório temporal” que “serve de alambique para a depuração dos espíritos”; esse novo corpo, depois da morte, desaparece e quando alma se reencarnar toma um novo corpo “especialmente formado para ela e que nada tem de comum com o antigo”; mas o estado normal da alma perfeita é fora do corpo e por isso, quando tivermos alcançado a perfeição, viveremos definitivamente sem corpo, donde concluem: “Não se pode admitir a ressurreição da carne”. 4) Sendo a vida presente apenas uma das nossas muitas encarnações, ela evidentemente deixa de ser decisiva: a hora da morte é somente o termo

final de uma encarnação e não é verdade, dizem eles, que logo depois da morte deveremos comparecer perante o tribunal de Deus para prestarmos conta da vida passada e sermos, então, premiados com o céu ou castigados com o inferno. 5) Aliás, o inferno, no sentido do castigo eterno, é incompatível com a idéia da reencarnação e do progresso contínuo: portanto, dizem eles, o inferno não existe. 6) Todos os homens, mais dia, menos dia, hão de alcançar inevitavelmente a perfeição final; e este lento mas contínuo progresso da alma é fruto do seu trabalho e esforço: no fundo cada homem é o seu próprio salvador e redentor, pois a salvação não se obtém por graça nem pelo sangue derramado por Jesus no madeiro, mas é o resultado do esforço individual que cada um emprega. São estas as teses básicas do sistema reencarnacionista.

Aqui temos a bem lançada síntese, a que acrescentaríamos ligeiros reparos: ali se diz que teremos que passar por inúmeras estrelas; o que se sabe é que havemos de transpor vários planos até alcançar a perfeição; que esses planos sejam sempre estrelas é asserção que ainda não se fez. Dizendo-se que, segundo a doutrina, não devemos comparecer perante o tribunal de Deus, parece que as nossas contas não seriam prestadas, o que não é exato. Se os Espíritos não vêem Deus e não têm tribunais, nem por isso ficam inultos; não deixam eles de perceber as faltas cometidas nem de experimentar os efeitos da vida passada, quer nas alegrias pelo bem, quer nos sofrimentos pelo mal que fizeram. A vida do Espaço é um degrau na Evolução. A refutação do virtuoso escritor é baseada apenas nas Escrituras; as leis da Igreja são colocadas acima das leis naturais e os textos acima dos fatos. O ente, em regra, se inclina para tal ou qual teoria, por um pendor íntimo, por simpatia, por hábito, por hereditariedade, por sugestão, pelo meio em que vive. E ele segue e propaga a sua doutrina sem que as razões, as demonstrações e as provas em contrário lhe causem o menor abalo. Gustavo Le Bon, que era fraco metapsiquista mas ótimo psicólogo, diz em Psicologia das Multidões:

Cumpre não acreditar que a justeza de uma idéia, pelo fato de estar demonstrada, possa produzir seus efeitos, mesmo nos espíritos cultivados. Disso nos convencemos ao ver como a melhor demonstração influi mediocremente na maioria dos homens. A cintilante evidência poderá ser reconhecida por um auditor instruído; mas logo será levado pela sua inconsciência às concepções primitivas. Se o tornardes a ver, ao cabo de poucos dias, ele vos apresentará os seus antigos argumentos, exatamente nos mesmos termos. Acha-se, com efeito, sob a influência de idéias anteriores, que se tornaram sentimentos; só essas idéias atuam nos móveis profundos dos nossos atos e dos nossos discursos.

Dolorosa verdade. Depois de longa peregrinação no campo doutrinário, chegamos a compreender o pouco valor do arrazoado e a inutilidade das provas, diante de opiniões firmadas, de idéias arraigadas, de preconceitos religiosos, de noções a que o tempo emprestou raízes tenazes. As mais belas doutrinas, a mais sólida argumentação estacam naquela muralha e não há por onde abrir caminho. Do embate de convicções profundas, em vez de sair a orientação, a luz e a verdade, o que surge são os ressentimentos, os desaforos, os ódios, traduzidos muitas vezes em represálias, impropérios, injúrias, vinganças, atentados, e na série de crimes que mancham indelevelmente a história das religiões. Os antagonistas religiosos fecharão os olhos diante das provas, quaisquer que sejam e por mais convincentes que pareçam, para amparar-se aos versículos bíblicos. Ao esteio da documentação oporão a versatilidade dos textos, onde a infidelidade das traduções, a mobilidade das opiniões, a variedade das interpretações e a dificuldade das decifrações oferecem o caráter de permanente instabilidade. Não nos move uma opinião sectarista. Fiamo-nos dos ensinos da História e mesmo da opinião de vultos insuspeitíssimos. Ela corrobora o que vimos dizendo e justifica as nossas desconfianças.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.