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Capítulo 6 de 65
Prefácio — parte 1 de 2
A Evolução · Carlos Imbassahy
O Psiquismo experimental, já proclamado sobre bases da Doutrina dos Espíritos, vem abrir à humanidade um novo campo de fecundos estudos e realizações, onde os conhecimentos só terão de lucrar com a exposição desses ensinos doutrinários. A Ciência, por exemplo, verá nele um complemento indispensável ao seu progresso; a Religião terá nele o seu mais poderoso auxiliar; e a Filosofia tornar-se-á mais clara, mais lógica, mais concludente. Até as Artes, também receberão dele a sua indispensável contribuição: sobre o seu influxo o cinzel e o escopro falarão de uma Vida Superior que nos espera; a poesia motivará seus princípios na estesia do Belo e do Fraterno; e a música afinará seus instrumentos para cantar as melodias da Imortalidade e proclamar, pelos seus acordes, a universal glória de Deus. O Espiritismo – graças à grandiosidade dos seus princípios filosóficos, científicos e religiosos – demonstra-nos, com exuberância de fatos, que hoje já se pode perfeitamente aceitar e compreender esse entrelaçamento do material e do imaterial, sem, contudo, crer.
A crença geralmente pressupõe causas subjetivas; a compreensão as dispensa e se limita, quando não às causas objetivas, pelo menos às razões de ordem científica. O velho princípio filosófico de que, se queremos compreender, é necessário crermos (credo ut intelligam) não tem, depois dos ensinamentos espiríticos, razão de ser, pois o Homem, eterno investigador das coisas de Deus e de si mesmo, está sempre, e sempre esteve, às voltas com os problemas da filosofia espiritualista – “que primeiro preceitua crer para depois saber...” Contudo, devemos convir que se a Doutrina dos Espíritos ainda encontra opositores competentes, apenas isto é devido ao fato de que a inteligência humana constitui um elemento indispensável de individualização e de elevação da personalidade, quer tateando no caminho do erro, quer progredindo no caminho do conhecimento, consoante os méritos de cada um, não nos restando senão inclinar-nos ante os decretos dessa Sabedoria, que determina a cada ser aquilo que se torna necessário à sua evolução.
Mas a morte é a eterna soberania, e um dia os crentes e os descrentes, os sábios e os inscientes atravessarão os mesmos caminhos da vida errática e cada um há de se certificar do sentido das coisas do Espírito e que as qualidades humanas, boas ou más, são aquisições próprias, bagagens de suas encarnações próximas ou longínquas. Se admitíssemos, porém, o absurdo de que existe uma só vida e a evolução reencarnacionista é uma quimera, como deveríamos classificar esse Deus que deu vida e ainda a dá a crianças deformadas, cegas ou surdas-mudas, abandonadas às portas frias dos asilos? Não ficaríamos nós, humanas criaturas, muitos furos acima dessa Divindade, uma vez que se estivesse em nossas mãos aliviaríamos e alindaríamos todas as crianças tristes, todas as crianças disformes, todas as ceguinhas, todas as paralíticas? Que Deus seria esse, que não se comove com as lágrimas; que não se perturba com as súplicas de perdão; que não se compadece dos necessitados?
Nunca e jamais ninguém se arrependeu de praticar o bem, mesmo que para isso tenha que se desviar dos caminhos que vinha seguindo. Repartir com os outros um pouco da abundância de que se desfruta é o único meio infalível de acrescer um tanto mais a própria felicidade, porque o ser humano que sacrifica uma parcela de seu gozo para aumentar o bem-estar de seu semelhante, tem a verdadeira visão dos deveres que a condição humana impõe, pois a existência de um homem nunca será medida pelos anos
que viveu ou pelas riquezas que acumulou, mas pelas obras meritórias que conseguiu realizar. - Mas se nada, absolutamente nada, persistir após a morte do corpo, de que nos valerão todas essas qualidades do Espírito? Afirmaremos, então, com todos os recursos da nossa razão, que ao lado do seu aniquilamento integral, todas as verdades científicas também perderão seus atributos sancionados pela inteligência humana, e o próprio Universo – grandioso na sua monumental e perfeita organização – deixará de existir, tudo não passando de mera e fantástica ilusão... - Por quê? - Porque esse panorama extraordinário e genial, impregnado de inteligência e maravilhas, só é vislumbrado, concebido e sentido pelo Homem através da função transcendental de seu cérebro. Seria o infinito subordinado ao finito...
Todo este despretensioso intróito é um desafogo entusiástico da leitura de “A EVOLUÇÃO” – mais outra obra de Carlos Imbassahy, o qual fulgura em múltiplas fronteiras do conhecimento humano. É que Carlos Imbassahy sempre teve e ainda tem uma formação nitidamente científica. Pesquisador de uma lógica incomparável e de uma cultura indiscutível, os tesouros de conhecimentos e de experiências, que se escondem, continuamente, sob sua aparência singela, parecem entrar em contradição com a sua máscula dialética, que não raro palmilha os caminhos da temeridade, quando arrasa uma calúnia ou replica um libelo levianamente assacado contra a Doutrina dos Espíritos. É nesses momentos de crise doutrinária que ele se transforma, então, no Clemenceau de Niterói, no acertado dizer de Wandyck Freitas. Vencidos, todavia, aqueles instantes de crise, recolhe-se à penumbra. É natural o seu retraimento. Carlos Imbassahy, no fundo, sempre foi, é e será um tímido. Timidez dos simples. Simplicidade dos puros. Sua aversão à popularidade, às aglomerações, resulta de seu feitio arisco, incapaz de saborear o gosto da vulgaridade. O clima de seu espírito é todo recolhimento, imantado por vibrante ideal.
Ernesto Bozzano também era assim. Contudo, no que ele mais se distingue e nos toca mais de perto, é na compleição correta de seu espírito e na firmeza de seu caráter, ao lado de outras qualidades primorosas, que exornam a sua personalidade. Sente-se nele a constante preocupação de tornar-se útil à humanidade. Prega, conversando; e conversando, doutrina; e doutrinando, polemiza; e com a mesma elegância apologética de Monsabre e a mesma suavidade de Bernardes. Sábio e moderado, Carlos Imbassahy foi sempre o espírito cordato e apaziguador da Doutrina, pois a marcante doçura de sua simpatia e bondade já amainou muitas tempestades. É que, diante da repousante impassibilidade do seu espírito e da serena persuadição de seus conhecimentos, que servem de exemplos de que, com doçura e sabedoria, todos os objetivos são alcançáveis, as ondas crespas da eloqüência enfurecida “morriam como num quebra-mar de suaves contornos”.
Possuidor de vasta cultura, pode ele enriquecer as letras pátrias com obras de subido valor, que são verdadeiros monumentos de saber e repositários de admiráveis lições, os quais lhe conferem o justo título de filólogo, filósofo, sociólogo e pensador.
Viverá, portanto, o nosso Autor, nas antologias, na cultura da Língua, nos primores do estilo, na perfeição do dizer, como Mestre da mais difícil, da mais bela, da mais nobre e da mais empolgante das artes: a arte de escrever. Seu divulgador, seu defensor por tempo imemorial, os seus cabelos branquearam nas lides doutrinárias. Daí o tato, a experiência, o bom senso e a sabedoria com que, inúmeras vezes, dominou os simpósios tumultuosos, quando as velas das paixões se inflavam nos debates temáticos. Daí, também, os seus escritos primorosos, as pregações doutrinárias que são verdadeiras aulas, as suas palestras amenas, em tertúlias de amigos, sempre se distinguindo pelo traço inconfundível de sua infinita modéstia e pelo inabalável apego à ciência da Imortalidade da Alma.
“A EVOLUÇÃO” é uma de suas maiores obras. Ali está o Autor inteirinho, com as suas variadas e excelentes qualidades, já nossas conhecidas e acima discriminadas. Pôs nela todo o seu amor à Doutrina, que é único e inconfundível; todo o seu bom senso, que não se mescla nunca com toleimas; toda a sua cultura acadêmica e doutrinária, que se faz sentir ao contato das primeiras páginas. É obra que, não fora volumosa e maciça, se leria de uma só assentada. Tudo nela é motivo de atração – o que aliás constitui quase uma prerrogativa do Autor. São páginas consistentes, vibrantes, magistrais, como se o Autor, na centelha da emoção momentânea, jogasse sobre os temas um punhado de pedras preciosas, artisticamente lapidadas. A quem nos ler, poderá parecer que estamos até a endeusá-lo. Livre-nos Deus de tal palermice. Jamais endeusamos ninguém, e agora, mais do que nunca, seria isso inoportuno. Muito menos, porém, podíamos deixar de dar o seu a seu dono.
Neste livro, por exemplo, Carlos Imbassahy trata da evolução material e espiritual, procurando mostrar que elas caminham paralelamente, segundo as vistas do Criador, tendo por escopo e remate, o progresso e a felicidade universal. É seu intuito ainda destruir a tese materialista de que o espírito é função do corpo e dele depende; busca, sobretudo, comprovar a falência completa dos ensinos que apresentam os caracteres psíquicos como oriundos de fatores hereditários ou de anomalias orgânicas. Descrita a evolução física, segue-se a parte principal do trabalho, que é a evolução espiritual, evolução que se processa através das vidas sucessivas. Para o demonstrar, entra na descrição de vários fenômenos, todos conducentes à tese reencarnacionista. Estuda diversos casos, dando-nos exemplos especiais de cada um dos fenômenos, cujo conjunto nos leva à convicção da multiplicidade das existências. Passa, então, a mostrar a realidade da existência do Espírito e de sua liberdade em relação ao corpo: é o fenômeno anímico, idêntico em sua modalidade ao fenômeno espirítico, e por onde já podemos preparar-nos para compreender a comunicabilidade dos desencarnados.
E o Autor reforça a tese de Ernesto Bozzano, a de que a libertação do espírito vivo nos dá a convicção de que ele pode continuar vivo e independente após a morte. E aí já o Autor deixa patente que as faculdades morais e intelectuais não se acham no corpo, porque no espírito separado e independente elas também se manifestam. Acompanha, depois, o fato metapsíquico desde os albores da humanidade, estuda-o em várias regiões, verifica-o entre os selvagens e os civilizados, para concluir pela sua
absoluta, pela sua incontestável autenticidade, e mais ainda, pela certeza total de que essa identidade do fenômeno através dos povos e das idades, nos traz a prova irrecusável de que os mortos sobrevivem e que só os impávidos e fanáticos adversários do progresso espiritual podem continuar emperrados nas velhas e absurdas idéias de que a morte extingue tudo. Em suma: A obra de Carlos Imbassahy é a demonstração de que, tanto material como espiritualmente, viemos de ínfimas camadas, e fomos progredindo lentamente até o estado atual; que o espírito está temporariamente ligado ao corpo e logo mostra a sua independência em diversas circunstâncias da vida, nas quais se desprende do seu ergástulo, e principalmente depois da crise a que chamamos “morte”, em que se apresenta na plenitude de suas faculdades; que, diante do fenômeno espírita, é impossível sustentar a tese de que a nossa moral, a nossa memória, a nossa inteligência provém totalmente dos nossos avós.
O autorizado experimentador Gustavo Geley, por exemplo, numa síntese dos princípios doutrinários do Espiritismo, já afirmara que o Universo inteiro, no seu mínimo e no seu máximo, está sujeito a uma evolução constante e progressiva. Há evolução para o princípio material; há evolução para o princípio psíquico. À base da evolução, a Alma é um simples elemento de vida, uma inteligência em germe. É a força difusa que associa e mantém as moléculas minerais numa forma definida. No cimo da evolução, a Alma é um princípio vivo, consciente e livre, guardando apenas, da sua associação à matéria, o mínimo orgânico necessário à conservação da sua individualidade. E no curso da sua evolução progressiva, a Alma passa por organismos cada vez mais aperfeiçoados, numa série imensa de encarnações e desencarnações. A lei geral do Universo é, portanto, a da Evolução; por toda a parte o movimento e a vida se constituem os fatores de trabalhos decisivos para o nosso aperfeiçoamento.
O brasão do Cosmos é a luta pela sabedoria, o aniquilamento do erro, a extinção da ignorância, o preparo para a Evolução. É que a Vida, ansiosa por expandir-se e evolver, tem abertos os braços às forças ambientes, que nela penetram em caudais; multiplicam-se as criações, e a consciência, ávida de sensações, se enriquece e aperfeiçoa. Complica-se-lhe a estrutura; nada se perde, tudo evolui; nenhum ato, nenhuma prova passam sem que deixem a sua impressão. Transformam-se a consciência primordial, a forma que a veste, o ambiente que a circunda, por um processo lento de contínuas aquisições. Cada vez mais sapiente se torna o ser, por ter vivido e por efeito das experiências que acumulou; especializa suas aptidões. Nasce o instinto, consciência mais complexa, que recorda, sabe, prevê. Subamos mais agora, até ao Homem. Subsistem os precedentes substratos: a consciência orgânica, obscura, automática, mas atual, porque em funcionamento, se bem que abandonada na profundeza do ser; o instinto, vivo, presente, sapiente como nos animais, e recordador.
Mas uma nova estratificação se agrega, a razão, a inteligência, qual feixe de faculdades psíquicas, que formam a consciência propriamente dita. Assim como o germe sintetiza todo o organismo que dele resultará, assim como, para isso, a vida sempre se refaz, a fim de recomeçar desde o princípio em cada forma, repetindo o ciclo percorrido em toda a evolução precedente, tanto como fenômeno orgânico, quanto como fenômeno psíquico, assim também o Homem resume em si todas as consciências inferiores.
O psiquismo é, pois, a mais alta meta da vida. O seu desenvolvimento constitui o resultado final do recâmbio, da seleção, da transformação da espécie, de tanto saber, de tanta luta, de tanta tensão. Ele se fixa nos órgãos, nas formas, plasma-os e os anima, em todos os níveis, fazendo deles um meio para evolver ainda mais. Em síntese: Nas formas da vida, ele se revela e exprime e, observando-as, podemos remontar ao princípio psíquico, à centelha que se lhes agita no íntimo. É toda uma fatigante, dolorosa e lenta ascensão, do protozoário ao Homem, e além, até aos mais altos píncaros do psiquismo, onde se dá a gênese consciente do Espírito. Maravilhosa, progressiva obra, em a qual a Suprema Sabedoria, princípio infinito, está sempre presente, num ato constante da criação. Em o nosso modo de ver, quanto mais se eleva o Espírito, mais se purifica o seu invólucro: podemos, pois, em sentidos inversos, dizer quanto mais grosseiro é esse invólucro, menos adiantado é o Espírito.
Daí a conclusão de que a alma, antes de animar um organismo tão perfeito como o corpo do Homem, deve ter passado pela fieira animal; embora o orgulho humano tivesse cavado um abismo insuperável ente o reino hominal e o reino animal, a verdade é que não nos diferimos deles senão no grau da inteligência, por exemplo, o macaco, o cavalo e o elefante não estão mais do que um degrau abaixo de nós. Todavia, por mais que o homem se mascare e por mais polido que se mostre, não padece dúvida que o seu espírito atravessou a escala zoológica para poder despontar na humanidade. “Todos os espíritos têm a mesma origem e todos tendem para o mesmo fim” – eis uma lei inflexível no Universo, lei justa e sábia que regula a evolução e a vida das almas.
E para que essas idéias se firmem e permaneçam, está sendo desenvolvida, em todos os setores dos conhecimentos humanos, uma campanha decisiva e profícua no sentido de se esclarecerem as inteligências sobre o prolongamento evolutivo da existência terrena, dando assim um golpe letal às injunções neantistas que vedam o conhecimento dos problemas espirituais, pois se ficarmos restritos aos acanhadíssimos horizontes de uma única existência puramente material, os próceres dessa ciência e dessa religião, pelo modo com que se manifestam e sancionam virtualmente a velha ideologia que faz deste mundo a única esfera da Vida, não podem deixar de extinguir do humano coração todas as paixões nobres, todo o esforço para a evolução do Espírito, que é a nossa finalidade.
Afirmam os partidários da fé cega, que devemos crer sem investigar, “porque os justos vivem da fé...”. É bem verdade que um dos evangelistas dissera: “Tudo é possível a quem crer”, naturalmente a quem crê com conhecimento de causa, e o próprio Paulo, corroborando este ensino, dizia aos coríntios: “Creio, por isso é que falo”. Todavia, fé é conhecimento, afirma Allan Kardec. E mais: “Se a nossa fé se fortalece de dia para dia, é porque compreendemos”, (Livro dos Médiuns, n. 149), concluindo assim: “Para crer não basta ver, preciso é, principalmente, compreender. A fé cega já não é mais deste século”. (Livro dos Espíritos, pág. 253). Não temos, pois, nem dogmas, nem pontos doutrinários inabaláveis, que nos conduzam aos extremismos religiosos. Além dos princípios da comunicabilidade entre vivos e mortos, e da evolução através das reencarnações, que estão absolutamente demonstrados, respeitamos todas as filosofias que se ligam à origem da Alma e ao seu futuro, o que nos dá superioridade incontestável sobre as demais teorias, cujos adeptos estão circunscritos aos estreitos limites de seus dogmas religiosos e movimentos de fé, conforme se deduzirá das palavras do Autor quando pondera:
“Não são as religiões que pecam, mas os extremismos religiosos; o mal nem sempre está na fé, mas na intolerância, na acrimônia, na imposição da fé, com prejuízo do esclarecimento das consciências. Mantemos essa atitude franca de pesquisa, o direito de opinar, o dever de crítica, a liberdade de refletir, mesmo entre os nossos irmãos de crença. Nem sempre temos sido felizes, e essa nossa independência nos tem custado, além de objurgatórias e censuras, até represálias. Bem sabemos quanto é precário o entendimento humano, quanto é arraigado o espírito de seita, como é fraco o espírito filosófico, como é persistente a tendência para se firmarem os seres em determinados princípios onde não há firmeza nenhuma. A lógica não é material encontradiço e por isto não está barateada no mercado das inteligências. Tanto que o indivíduo se afasta do currículo das idéias, das proposições de grupo, das convenções, ou de doutrinas pessoais sem qualquer alicerce, é logo mal visto e posto à margem como rês contaminada”.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.