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Capítulo 35 de 65
Os Luminares das Igrejas e das Letras
A Evolução · Carlos Imbassahy
Nem todos estão com a Bíblia. Valemo-nos das páginas magistrais de um grande escritor católico, o erudito Padre Leonel Franca:
Quais são os livros que fazem parte da coleção sagrada? Como se pode provar que foram eles escritos por inspiração e sob o ditado do Espírito Santo? Por meio da mesma Bíblia? Mas a Bíblia não o diz, pelo menos de todos os livros. Onde afirmam S. Mateus e S. Marcos que os seus Evangelhos são inspirados? E se o afirmassem, deveríamos, sem mais exame, prestar-lhes fé? De ver está que não. Se um livro é divino, só porque ele o assevera, a quantos livros não se deveria estender essa prerrogativa? Toda a literatura religiosa da Índia, da China, da Caldéia, da Pérsia e do Egito entraria, assim de roldão, na categoria das diversas escrituras. Os Vedas, o I-King, o Zenda-Avesta e o Corão se imporiam à docilidade da nossa fé com o mesmo direito que o Pentateuco ou os Evangelhos, Isaías ou S. Paulo. (61)
Parece-nos, não há dúvida, ingenuidade manifesta apresentar a Bíblia como processo de convicção, quando ela, já por si, necessita que lhe demonstrem a origem, a autenticidade, a autoridade, a realidade, a decifrabilidade. Já o citado autor falava das dificuldades com referência a esse livro, dificuldades lingüísticas, críticas, gramaticais, exegéticas... E esclarecia:
Não se sabe se a versão é certa, se não erraram os copistas, se não houve mutilação, interpolação, adulteração, se mãos profanas não a macularam. Não se sabe mais donde proveio, qual o sentido de determinado texto, o literal, o teológico. É preciso conhecer os tempos, os lugares, os usos, os costumes, o ambiente social, político, religioso dos vários povos... Para o estudo bíblico deve o indivíduo aparelhar-se previamente de um verdadeiro arsenal de história, geografia, etnologia, lingüística, paleografia, arqueologia. Daí um sem-número de dificuldades... (62)
Com essas dúvidas todas, com essas dificuldades todas, como tirar conclusões categóricas, indubitáveis?... E outro erudito escritor católico, o célebre teólogo Krogh Tonning, declarava:
A Bíblia não pode ser o princípio universal do conhecimento religioso. Sua natureza o impede, nenhum dos seus textos o prova, muitos se contradizem. Tão alto quanto remontemos, ela nunca o foi; tão longe quanto vamos, ela nunca o será. É preciso ter-se ao alcance de todos uma garantia segura de sua origem, de sua pureza, de sua autenticidade, da segurança de seu texto, no todo e em parte, da segurança de sua tradução, de retidão, finalmente, de sua interpretação. (63)
(61) Leonel Franca – A Igreja, a Reforma e a Civilização, Rio, 3ª Ed. Pág. 242. (62) Leonel Franca – A Igreja, pág. 248. (63) Krogh Tonning – Le Protestantisme Contemporain, pág. 16 (Apud Franca).
Temos, portanto, padres católicos, teólogos, grandes conhecedores da doutrina, a duvidarem do pedestal em que estimado Frade, e outros não menos estimados, sem serem frades, e até irmãos doutrinários, firmam os seus pareceres. Nenhuma doutrina há que mais assente na Bíblia do que o Protestantismo. Para os reformados a Bíblia é infalível, é a palavra divina, a verdadeira regra de fé. Entretanto, vemos protestantes cultos que já começam a sentir-se abalados e a duvidar daquela infalibilidade. Ouça-se um dos maiores tribunos e escritores presbiterianos, entre nós, o pastor Miguel Rizzo. Principia ele declarando que teve a penosa incumbência de reconciliar dois cavalheiros, mas um deles, versado nas Escrituras, recusou a reconciliação, baseado justamente no ensino das mesmas, pois que o Salmo 69:24, diz:
Derrama sobre ele a tua indignação e prenda-o o ardor de tua ira; fique desolado o seu palácio e não haja quem habite nas suas tendas.
O Pastor achou que seria pior se o moço se lembrasse de apelar para o Salmo 59:
Consome-os na tua indignação, consome-os de modo a que não existam mais e dêem gemidos como cães rodeando a cidade.
Provavelmente tudo se resolveria pela melhor se o Pastor tivesse as chaves à mão. Outro caso: Um estudioso levou ao ilustre Pregador um problema: O profeta Natan atribui a Deus um ato chocante:
Eu te ungi rei sobre Israel e te livrei das mãos de Saul e te dei a casa de teu Senhor e as mulheres de teu Senhor...
E afirma:
Eis que suscitarei de tua casa o mal sobre ti e tomarei as tuas mulheres perante os teus olhos e as darei a teu próximo... (64)
Isto de andar Deus a distribuir as mulheres dos outros estarreceu o douto cultor da Bíblia, pouco entendido, necessariamente, do valor dos símbolos, e não soube descalçar a bota. Se o digno Pastor se dignasse prestar atenção a outras páginas e a outros textos, não saberíamos onde chegaria o seu pasmo. De Moisés a Davi não há o que escolher. Aquele, por ocasião do arrasamento dos midianitas e por ordem de Deus, manda matar todos os homens e todos os reis, destruir bens e rebanhos, queimar a fogo cidades e acampamentos, e pôr as mulheres em cativeiro com seus pequenos. Mais tarde, nem estes nem aqueles escapam, e as donzelas são distribuídas pela soldadesca. (Números 31). Davi destrona reis, toma coroas, a uns serra vivos, a outros faz passar pelo suplício das talhadeiras, degola, atira em fornos. (1. Sam. 12, 13, 29-31). Comete ele crueldades de estarrecer. Consulta Deus e Deus lhe diz: - Quando ouvires o ruído de marcha nas copas das balsamarias sairás à peleja, pois Deus saiu diante de ti para ferir o exército dos filisteus.
(64) Miguel Rizzo – Fé e Vida, S. Paulo, dez. de 1945, pág. 45.
E o exército foi ferido de Gibeon até Gezer. Depois daí, entra Davi a ferir a torto e a direito, a tomar, a espoliar, a escravizar. “Jeová dava a vitória a Davi para onde quer que ia”. (Crônicas, 18:13). Tira a coroa de um rei e como estivesse ela cheia de pedras preciosas, pô-la na própria cabeça e depois apanha o povo de toda uma cidade e manda cortar a todos com serras, grades e machados. “E assim fez a todas as cidades dos filhos de Ammon, depois voltou a Jerusalém.” (C. 20:3). Assa prisioneiros, esfola-os, associa-se a homens de má vida, saqueia a casa de Nabal, toma-lhe a mulher, e como achasse pouco, fica ainda com a de Betsabé; enche-se de amantes... Estando velho e não podendo aquecer-se, procuraram uma donzela formosa e a puseram dormindo em seu seio. (I, Reis, 1-5). E depois “morreu numa boa velhice, cheio de dias, de bens e de honras”. (C. I 29:28). Josué prende trinta e um reis e lhes toma as cidades. O Criador, como qualquer desocupado, faz chover pedras de Beteron a Azeca. Não escapou ninguém.
Jefete imola a filha e faz degolar quarenta e dois mil judeus. Por um levita apaixonam-se os gabaonitas, que o querem violar, e ele lhes entrega a mulher. Aod faz um punhal, esconde-o nas vestes, pede a Eglon uma audiência secreta, e quando este se ergue respeitosa e amigavelmente para recebê-lo, chanta-lhe a faca. Sansão apanha trezentas raposas, transforma-as em fachos vivos e lança o incêndio no plantio dos filisteus. O mais interessante é que, segundo informam os entendidos, as tais raposas viviam num lugar sem florestas, região inabitável, vulpinamente falando. Samuel corta Agag em pedaços. (Sam. 15:32). Porque Naboth não quis vender uma vinha a Ahab, Jezebel ordena: - Proclamai um jejum e dai a Naboth um lugar proeminente; ponde defronte dele dois homens que testemunhem contra ele, dizendo: Amaldiçoaste a Deus e ao rei. Depois levai-o para fora e apedrejai-o até que morra. (I. Reis, 21). Jeová manda a peste a Israel, envia um anjo para destruir Jerusalém, mas arrependeu-se a tempo. (C. 21:15).
Arrependeu-se também de ter constituído rei a Saul (I. Sam. 15:10), como já se havia arrependido de ter feito o homem na Terra e tanto que lhe pesou no coração. (Gênesis: 6:6). É justo, não há dúvida, o arrependimento, mas ao que parece, não fazia outra coisa, depois de ter criado toda esta tralha onde penamos, que não fosse arrepender-se. Samuel censura Saul por não ter obedecido ao Senhor quando este lhe ordenava destruísse totalmente os Amalekitas e pelejassem até consumi-los. (Sam. I: 15:18). Vê um pecado na adivinhação, como se houvesse culpa em adivinhar. (Id, 15:23). Saul, por seu turno, manda matar sacerdotes, faz passar a fio de espada em Nod homens, mulheres, crianças, bois, jumentos, ovelhas. (I Sam. 22). Amnou, filho de David, namora-se da irmã Famar, força-a, viola-a, e depois, enojado, repele-a. E lhe diz: - “Levanta-te, vai-te embora. E ela lhe responde – não, meu irmão, porque é esta injúria maior que a outra que me fizeste. Ele, porém, fê-la expulsar por um servo”. (II Sam. Cap. 13).
Em Números 31 relata-se a vitória sobre os Midianitas e as matanças que Moisés executa por ordem de Jeová, com o seu séquito de horrores. Basta por aqui. Como se vê dos relatos bíblicos, a bondade, o perdão, a moral, a justiça, o respeito à propriedade e à vida, não eram ali mercadorias de muito preço. A messe é longa.
Agora, algumas outras opiniões: Maurice Elliot publica em Londres, no Psychic News, uma espantosa série de artigos sobre os erros da Bíblia. Da Bíblia – diz ele – não temos mais do que cópias de cópias de cópias de cópias. (65) Demos agora a palavra a Huberto Rohden:
Há entre os autores dos livros bíblicos diversos que conceberam a Deus, ia dizendo como inquilinos de jardim de infância ou escola elementar. Assim, por exemplo quando atribuem a Deus todas as emoções e paixões do homem; quando admitem que Deus seja amigo daquela pequena tribo de Israel e ao mesmo tempo inimigo mortal de todos os outros povos do mundo, os milhões de habitantes do Egito, da Babilônia, da Assíria, da Pérsia, da Grécia, do Império Romano, da Índia etc.; quando admitem que Deus tenha dado ordem a Israel para exterminar todos os habitantes de Jericó, homens, mulheres e crianças, para que o “povo eleito” pudesse tomar posse do país banhado de sangue inocente; quando estabelecem, por ordem de Deus, que toda a mulher adúltera (não os homens adúlteros) fosse apedrejada sem piedade; ou quando Deus responsável pela monstruosa e anticristianíssima lei de Talião, olho por olho, dente por dente, ou quando o salmista, em nome de Deus, clama por vingança contra os babilônios, prevendo gostosamente o dia em que algum mensageiro de Jeová agarre pelos pés as criancinhas inermes dos malditos opressores e lhes quebre a cabeça contra os rochedos, como se lê no Salmo 137. Quem em face disto ainda exige que se aceite a Bíblia da capa a capa como infalível manual de religião e ética, deve ser verdadeiro analfabeto do espírito, embora seja talvez doutor da letra do livro sagrado. (66)
Que está dito admiravelmente, não há dúvida nenhuma. Refere Voltaire, ainda em relação à Bíblia:
Uma multidão de escritores, indignada com tantas imposturas, ainda as combate. Demonstra-se que não há uma página que não tenha um erro, ou contra a Geografia, ou contra a Cronologia, ou contra a História, ou contra as leis da Natureza, ou contra o senso comum, ou contra a honra, o pudor, a probidade. (67)
Escreve Ciro de Morais:
A Bíblia, em todos os seus livros, está cheia de relatos sem-vergonha, de crimes os mais hediondos, que não se encontram nos registros de nenhum outro povo da Terra. O abjeto de Sodoma e Gomorra e da história da mulher do Levita (Juízes XIX), os incestos, a rapinagem, a matança de mulheres e crianças por ordem de Jeová, o banditismo, a lubricidade impudente, a opressão e a covardia, recompensadas com a auréola de glória, o fanatismo estéril e provocador, tudo isso que marcou a Palestina para sempre com o selo do infortúnio, ofende pela grosseria descarada, a sensibilidade de qualquer criatura. (68)
(65) Sulyac – Revue Spirite, 1938, pág. 287. (66) Huberto Rohden – Unitas, n. 11, Nov. de 1951. (67) Voltaire – Obras, 65. (68) Ciro de Morais Campos – Civilização Cristã, pág. 310.
De Moisés diz Jacolliot:
Moisés, copiando as tradições antigas... e a fim de conduzir um povo embrutecido por longa servidão, teve que recorrer a todos os sortilégios, a todas as mentiras pelas quais reinavam os sacerdotes de sua época, e fazer de Deus um grosseiro espantalho. (69)
E ainda:
Não sabemos, em verdade, como se ousa falar da sublime revelação de Moisés. Que pregou Moisés? O medo em vez do amor de Deus. A pena de Talião, olho por olho, dente por dente. O roubo e a pilhagem. A carnificina de todos os povos que não se deixavam dominar. (70)
Vimos que o Velho Testamento, quer na sua infantilidade, quer nas suas cruentas descrições, quer nos seus lapsos científicos, quer, principalmente, no seu fundo moral, deixa-nos com a convicção de que pelo fruto se conhece a árvore. Religiosos, notados por sua honestidade e cultura, não se deixaram arrastar pela tradição ou pelo fanatismo, e expuseram o assunto com a lisura de quem põe a verdade acima das convenções. Escritores outros se manifestaram com a franqueza e o desassombro dos que não se acham ligados às facções doutrinárias. Compreende-se, agora, porque, na intenção de salvar a obra, os seus apaixonados propugnadores buscassem lançar mão de todos os recursos, a ver se a livrava do naufrágio onde a conduz a sua feição textual. Veremos que as dificuldades aumentam, quando procuramos lançar a sonda em maiores profundidades.
(69) Luis Jacolliot – Le Fils de Dieu, pag. 144. (70) Luis Jacolliot – Le Fils de Dieu, pag. 158.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.