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Capítulo 23 de 65
A Evolução Tal Como É
A Evolução · Carlos Imbassahy
Dizíamos que cada geração que surge é sempre mais adiantada que a precedente. E um professor indaga: - Adiantada em quê?- e se punha a mostrar que as matanças continuam; e disserta longamente sobre a escravidão econômica, o desrespeito à propriedade e a liberdade, e muitas outras coisas demonstrativas de não adiantamento. Em vista disso, parecerá que a humanidade de hoje é a mesma dos trogloditas; dirse-ia que ainda vivemos nas cavernas e nos troncos das árvores, a esconder-nos das feras e dos nossos semelhantes, servindo-nos da pedra como instrumento; sem utilidades, além das que se encontram in natura, compreendendo um único direito, o do mais forte, e o restrito objetivo de alimentar-nos, defender-nos e reproduzir-nos. A interrogação - adiantada em quê - faria supor que ainda estamos na idade préhistórica “na qual o homem se exprimia por meio de sons, rumores e monossílabos”. E para não deixar de citar um autor muito caro aos nossos antagonistas, leiamos Saint-Yves, quando se refere ao homem primitivo:
”Imperfeito quanto possível, selvagem, nu, quase mudo, antropófago, quase animal, não tinha nessa Terra terrível outros aliados visíveis senão ele mesmo, os cães gigantes e os elefantes colossais”. (15)
Deve haver um abismo entre esse bruto, que era o homem primitivo, e homem de hoje, criador da Arte, da Indústria, da Literatura, da Filosofia, da Ciência, das obras pias, das associações de caridade, dos empreendimentos altruísticos. É preciso nos lembremos das missões Rockefeller, dos sacrifícios da Cruz Vermelha, dos trabalhos do Exército da Salvação, da obra, enfim, quase anônima, onde milhares de criaturas, inspiradas no Bem, erguem asilos, organizam creches, fundam hospitais. Dir-se-ia ignorar que, depois do hirsuto animal que foi o nosso remoto avoengo, surgiram a Arte que encanta, as Letras que nos deleitam, a Ciência que nos ensina. E houve o buril de Fídias, e de Praxíteles, o pincel de Rafael e Miguel Ângelo; a tragédia com Ésquilo e Shakespeare, a erudição com Castelar, a lucidez com Spinoza, a sátira com Cervantes, a crítica com Voltaire, a graça com Eça de Queirós.
E ainda o estro com Schiller e Victor Hugo; a epopéia com Homero e Vergílio, a comédia como Aristófanes e Molière, a sinfonia com Haydn e Mozart, o classicismo com Bach, a melodia com Bellini, com Verdi, com Puccini; a ópera com Wagner; o poema sinfônico com Richard Strauss; a genialidade nos sons, na harmonia, na orquestração com o prodigioso Beethoven. Na pintura, de Polignote até hoje, brilharam astros de primeira grandeza, como Leonardo da Vinci, Tintoreto, Murilo, Velásquez, Van Dick, Rubens, Rembrandt... O progresso tem-nos apresentado, é verdade, uma série de apóstolos e mártires, desde os antigos desbravadores, na terra e nos mares, até os filósofos idealistas, que recebem hoje nos motejos e zombarias a paga dos seus esforços em prol da Humanidade, como ontem recebia no suplício, no potro, no garrote e na fogueira a ousadia de buscar a reforma do mundo moral ou procurar Deus nas visões do Infinito.
(15) Saint-Yves d’Alveydre – Mission des Juifs, Paris, Dorbon, I, pág. 19.
Anaxágoras foi perseguido porque teve a temeridade de achar que o sol era maior que o Peloponeso. Campanella esteve encarcerado por falar no movimento da terra, Kepler por se meter em Astronomia, os dois Bacons, embora em épocas diferentes, por suas idéias avançadas; o jesuíta Fabre, por achar que as escrituras deviam ser interpretadas no sentido figurado, e isto por não incompatibilizá-las com a Ciência. Outros, como Galileu, tiveram que retratar-se. Copérnico escondia os seus descobrimentos. Iríamos longe na enumeração. Inúmeras criaturas foram lançadas à chama, em vista de procurarem trazer a luz aos seus contemporâneos. Assim João Huss, Giordano Bruno, Ceco Dáscoli. Pedro d’Albano, mais feliz foi queimado apenas em efígie, e Antônio Dominici já era cadáver quando o incineraram. Plínio vai a Stábia salvar as vítimas do terremoto e é absorvido pelo Vesúvio. Outros são vítimas da ignorância e da maldade dos próprios semelhantes. Harvey, que descobriu a circulação do sangue, viu-se coberto de ironias e injúrias.
Galvani, um precursor dos mais interessantes descobrimentos da física moderna, foi cognominado o mestre de dança das rãs; ele dizia que era atacado por duas grandes classes - a dos sábios e a dos ignorantes. Jouffroy, porque quis aplicar o vapor à navegação, ficou sendo chamado Jouffroy la Pompe; e grandes gargalhadas provocou a sua inaudita pretensão de querer conciliar o fogo com a água. Moncel quase é estrangulado quando levou o fonógrafo à Academia de Ciências. Mayer, fundador da Termodinâmica, por tal forma se viu maltratado, injuriado, ridicularizado, que se atirou por uma janela. Ohm Não chegou a suicidar-se, mas passou por louco. Outros viveram em constante luta com a adversidade e não desanimaram.
Bernardo Palissy, o criador da cerâmica, queima os seus móveis e vende o último utensílio para continuar os seus inventos; acusado de huguenote é preso e remetido à Bastilha, onde falece; Blasco de Garey, que foi o primeiro a ensaiar a máquina com caldeira, paralisa as suas atividades por falta de recursos; Denis Papin, que inventou a máquina a vapor de pistão, viu em Mundem destruído o seu invento, isto é, o seu batel de rodas, pelos barqueiros alemães; Roberto Fulton dedica-se de corpo e alma aos inventos náuticos, e sente de perto a ruína quando lhe afundam o barco no Sena; não capitulou, e mais tarde, o Clermont, navio a vapor, sulca as águas de Nova York. A ascensão tem sido lenta, enredada de escolhos, cheia de empeços, mas segura. Ambroise Paré, o precursor da cirurgia, aboliu os processos bárbaros do azeite fervendo e do ferro em brasa; Guttemberg descobre a imprensa, Niepce, a fotografia; Daguerre, a fixação da imagem; Franklin, o pára-raios; Arkright, a máquina de fiação; Watt, a máquina a vapor; Stephenson, a locomotiva.
Pestallozzi instaura novos processos no terreno da Pedagogia; Hahnemann revoluciona a Medicina com o similia similibus curantur; Zamenhoff abre à comunhão dos povos, com o Esperanto, o mais fácil processo para transmissão da linguagem. O abade L’Epée e Luís Braille ensejam, respectivamente, aos surdos-mudos e aos cegos, a comunicação com o mundo exterior; os sinais daquele e o alfabeto deste mostram que o homem procura amparar o homem nas desgraças proporcionadas pelo destino. Bartolomeu de Gusmão descobre o Aeróstato e Santos Dumont, a sua dirigibilidade. Francis Galton é o criador da Eugenia. Graham Bell inventa o telefone, Édison o fonógrafo, a lâmpada incandescente, o megafone, o bonde elétrico, aparelhos vários de laboratório. O casal Curie nos deu as maravilhas do rádio, Marconi o telégrafo sem fio, Hertz as ondas que têm o seu nome; Clerk Maxwell e Eduardo Branly abrem caminho para a radiotelegrafia. Não ponhamos de lado, de Ptolomeu a Flammarion, a plêiade luminosa dos que sondam o espaço: Ticho-Brahe, Huyghens, os Cassini, Newton, Halley, Lagrange, Herschell, Laplace, Arago, Leverrier...
Impossível esquecer o impulso que teve a Filosofia com Platão, a Matemática com Cauchy, a Química com Berthelot, a Botânica com Jussieu, a Zoologia com Linneu, a Física com Bernouille, e especialmente a eletricidade com Volt, Watt, Ohm, Kirchoff; a Economia Política com Batista Say, a Mecânica com Laplace e Torricelli, a Biologia com Mendel, a Fisiologia com Richet e Pavlov. A esses se juntam os luminares dos descobrimentos médicos, os grandes benfeitores da sanidade física: Hansen descobre o bacilo da lepra; Koch, o bacilo da tuberculose, Pasteur, os microrganismos e a vacina da raiva; Jenner, a da varíola; Carrol, Agramante e Reed, os vetores da febre amarela; Grassi e Masson, o papel que representam as anofelinas na transmissão do impaludismo; Yersin, o da pulga na calamidade da peste; Richet a anafilaxia, Fleming a penicilina. É de causar vertigens o pego entre a medicina antiga e a de nossos dias. Cada ano fornece maiores e mais maravilhosos descobrimentos.
Não resiste a malária aos processos profiláticos; os vírus perdem o seu poder; o veneno do micróbio diftérico transforma-se num toxóide e este passa a ser um defensor da vida; a escarlatina, a pneumonia, o tifo já não causam terror; a tuberculose entra a recuar ante as armas modernas de combate, assim como o raquitismo diante das vitaminas, os pneumococos e outras Cocáceas diante das sulfas. E agora, os grandes valores morais, Lau Tseu, Confúcio, Buda, Sócrates, Jesus, o Cristo, e o cortejo dos vultos do Cristianismo, onde se inscrevem Francisco de Assis, Antonio de Pádua, Vicente de Paulo, Francisco de Paula... Como duvidar-se da Evolução? Certo, ainda estamos longe de possuir uma estância de felicidade, de sabedoria, de bondade, de honradez. Certo, os homens ainda são ruins. Campeia a maldade. Di-lo bem o professor – as matanças continuam. Mas a natureza progride lentamente. A noção do Bem vai-se infiltrando nas almas com as dores e com o tempo.
Já dizia Merimée – “O que é considerado crime em um estado de civilização avançada, não passa de um rasgo de audácia em uma sociedade rudimentar, e talvez uma ação louvável em época de barbárie”. E Cabanes: - “Cada século, quase se poderia dizer – terá sua moral, e certos fatos que provocariam, talvez, um simples sorriso a nossos ancestrais, nos fazem cobrir o rosto em acesso de indignação virtuosa”. Antigamente... Tito sentia-se confrangido, ao morrer do dia, e o julgava perdido, quando não tinha feito um bem, quando via não ter produzido uma obra útil. E destruiu Jerusalém. Um rei bárbaro da Gália foi beneficiado por Deus, para quem apelara, e consegue em Tolbiac espetacular vitória sobre os Alamanes. Converte-se ao Cristianismo e faz-se batizar com o nome de Clóvis. Já no fim da vida, quando estava mais perto do Criador e devia estar mais inclinado à bondade e à justiça, opera uma colossal matança. Marat, o mais feroz, o mais trágico dos Revolucionários, tinha o Evangelho constantemente sobre a mesa, refere Lamartine. L’Evangile était toujours ouvert sur sa table.
A Revolução – dizia ele àqueles que com isso se espantavam (à ceux qui s’en étonnaient) está inteiramente no Evangelho. Jesus Cristo – repetia, inclinando-se respeitosamente diante deste nome – Jesus Cristo é o nosso Mestre, é o Mestre de todos. (16) E saía a cometer os mais hediondos crimes contra adversários inermes, crimes que ainda hoje espantam pela ferocidade. ________________ (16) A. de Lamartine – Histoire des Girondins, II, 407.
O lema da fraternidade e da liberdade foram afogados no sangue do Terror, época assim chamada pelas atrocidades cometidas, época tenebrosa da Revolução Francesa. Os ideais de Justiça e de Igualdade, que, de quando em quando, voltam ao mundo, lhe dão certo impulso, embora a fraqueza dos homens determinem, por vezes, a falência deles e até da missão de que foram incumbidos. Podem-se ver por aí as tentativas do Espírito no bom caminho; são os revérberos que por vezes o iluminam; é a semente que mais tarde irá desabrochar no sazonado fruto, de onde saem os mártires, e que com o martírio se redimem, e com a luz que espargem iluminam os seus coevos. Sem dúvida, inolvidáveis pioneiros pereceram na miséria, no cárcere, na forca, nas chamas. Das tochas de Nero às de Torquemada a diferença é pequena. Na Pátria de nossos avós, Luís de Camões morreu à míngua; o primoroso poeta Antonio José da Silva passou da masmorra à cremação; Maximiano Torres acabou os seus dias no ergástulo, e a mesma sorte tiveram Garção e o inesquecível Bocage.
Nobel, que descobriu a dinamite, morre de desgosto por ver como lhe haviam desviado e desvirtuado o objetivo. A orgia sanguinária de Marat, Danton e Robespièrre afogou, lanceou, guilhotinou, metralhou, indistintamente, sábios e medíocres, reis e vassalos, adversários e inocentes. Não escapou a fina flor da inteligência, das artes e do saber. Não foi poupado Rouget de Lisle, o autor da Marselhesa, André Chenier, o vate da Liberdade, Lavoisier, um dos criadores da Química moderna. É o mundo das provas, de que fala Allan Kardec; é o presídio e o hospital que tanto fizeram rir um acatado biologista. Mas evolução não é perfeição. Evolução é o caminhar constante para frente. E estamos nos primeiros degraus. Pelletan disse - le monde marche. E o mundo marcha, através das guerras, do morticínio, porém marcha. Entre o grunhido dos nossos primitivos pais e a eloqüência de Demóstenes; entre um selvagem analfabeto, até Aristóteles, o Pai da Sabedoria, até Einstein, o maior concepcionista do mundo; entre o antropófago e Ghandi, vai um pego que mal podemos medir.
Necessariamente, não se encontra entre os coevos da pedra lascada o estilo de Alexandre Herculano. Aos séculos de lutas, opróbrio e obscurantismo se podem opor o período de paz de Marco Aurélio, o século de Péricles, a Renascença, os tempos de Wilson. Comparemos os divertimentos de hoje com os dos tempos dos Césares. O próprio jogo do boxe, infinitamente menos divertido, se levarmos em conta o diminuto número de mortos, em relação aos do coliseu, é um embate voluntário. Vai ao rinque quem quer e quando quer, e se o cidadão morre por gosto, lá diz o ditado, que acaba por seu regalo. Uma partida de futebol com suas assuadas e vaias, cascudo e bofetões, e mesmo algumas garrafadas, ou uma surra no juiz, ou um sujeito atirado de uma arquibancada, faz mofina figura diante das imponentes matanças do circo romano.
Os gladiadores contavam-se por centenas; eram lançados na arena aos pares; na luta, um caía ferido, mutilado, estropiado, nadando em sangue, vencido; quando podia, levantava um dedo a pedir clemência; o povo raramente a concedia; o comum era bradar com gritos ferozes: occide, mata! O Imperador aprovava, virando para baixo o polegar, e então o vencido terminava ali a sua triste, dolorosa, terrível jornada, enquanto o vencedor, coberto de palmas, lhe enterrava o ferro no corpo. Depois, um indivíduo vestido de Caronte, o barqueiro do Inferno, lançava-lhe formidável pancada na cabeça, não fosse estar a fingir de morto.
Havia o combate das feras umas contra as outras e o combate entre feras e criaturas humanas; e enfim, o mais atraente dos espetáculos, que era o de lançarem homens e mulheres inermes aos animais famintos. Quando o povo se amotinava bradando panem et circenses, logo o imperador tratava de multiplicar as festas do circo, que eram tanto mais prolongadas quanto maior era o clamor; e tanto mais simpáticas, quanto maior era o morticínio. O grande Trajano festejou uma de suas vitórias com jogos que duraram mais de quatro meses consecutivos; foram sacrificados dez mil animais e um número igual de gladiadores. Como aquilo já se estivesse tornando monótono, havia os combates de olhos fechados, as lutas em grupos, a luta entre indivíduos armados e outros desarmados, as refregas de antemão preparadas para que não escapasse ninguém. Os que sabiam que iam morrer, saudavam o imperador com a célebre frase: - Ave, Cesar, morituri te salutant. Representavam-se, por fim, cenas mitológicas, em que alguns eram queimados, outros crucificados, outros despedaçados por animais bravios, outros a quem arrancavam as entranhas. Tudo pura Mitologia.
Até que Honório suspendesse a inefável diversão, o sangue que ali jorrou deixou evidente o que era a perversidade e a estupidez da época. Tais cenas hoje provocariam protestos gerais. As simples touradas, que diante daquilo são menos que “café pequeno”, vêem adunar-se contra si os intelectuais, os religiosos, a elite social; contra elas se levanta a campanha humanitária e bovinitária de milhares de seres. Positivamente o mundo marcha.
Na doutrina de Brama se mandava, pela boca de Crisna, que fôssemos como o sândalo que perfuma o machado que o corta. Confúcio mandava que não fizéssemos aos outros o que não queríamos que fizessem conosco. O Cristo pregava amor de Deus e o amor do próximo. No templo de Delfos se achavam inscritas estas palavras divinas - liberdade, lei e paz. Foram os lampejos precursores. É esperar o correr dos tempos que esses princípios que vieram até nós como hinos de esperança, se converterão numa imponente sinfonia, e da sublime orquestração surgirá época da Solidariedade, da Fraternidade, da Felicidade. É isto a Evolução.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.