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Capítulo 26 de 65

Instinto

A Evolução · Carlos Imbassahy

Já vimos que é de assustar a maneira porque muitos dos críticos entram na liça: prometem escalpelar, eviscerar... Estamos vendo uma tal martelada, como ainda não experimentara a bigorna de Pittsburgh, que pesa 180 toneladas. Para esfriar levou nada menos de três meses. Necessariamente, esfriaremos em menos tempo. Vejamos um golpe. Em matéria de instinto, ensina-nos o seguinte os antagonistas:

A mente está sujeita a duas influências aparentemente antagônicas: a dos instintos e a da consciência. Os instintos são forças cegas da natureza, a consciência é manifestação espiritual. No Éden, além do casal humano, fazia-se ouvir duas vozes, a de Deus e a da serpente.

O casal do Éden e uma serpente a tagarelar em colóquio com o Criador devem alterar os conhecimentos que possuímos a respeito do homem primitivo, bruto, animalizado, vivendo em árvores e cavernas, sem já falar do antropopiteco. Continuemos com as lições ministradas:

Todos os que forem egotistas, sensuais, astutos, dissimulados e sem escrúpulos, os que agirem imaginativamente, impulsiva e emocionalmente, vivem no plano da instintividade e têm uma mentalidade desta natureza.

Mas o que sabemos é que há no ser inteligência, ou instinto, ou ambas as coisas. O instinto, nos seres atrasados, supre as faculdades intelectuais. Era o recurso da natureza para impedir fôssemos vítimas de nossa fraqueza mental. Tem grande semelhança com ato reflexo com o qual, por vezes, se confunde. Dizia Richet:

Finalidade, fatalidade, espontaneidade, encadeamento de movimentos sucessivos, que são a conseqüência necessária do movimento primitivo e por conseqüência da iniciação, tais são com efeito os caracteres do instinto.

E ainda:

Quando a consciência é advertida e, conseqüentemente, a inteligência, a escolha, a vontade, o capricho intervêm, não há mais instinto.

Pensamos, pois, que com Richet estamos em boa companhia, achando que não vivem no plano da instintividade, egotistas, astutos, dissimulados... Desfiam-nos ainda um rosário de falhas e crimes, provenientes da “mente instintiva”, “mente que impede a reencarnação”. O que dizem os que se têm dedicado à Criminologia é que o ato belicoso se reveste, por vezes, de uma trama, de uma urdidura, de precauções e preparos, de umas combinações de tal ordem, que denunciam uma esperteza e inteligência invulgares. Como lançar isto nos atos instintivos? De acordo com as noções expostas pelos não-reencarnacionistas, teríamos os grandes velhacos da Política e da Diplomacia como indivíduos dominados pela ação instintiva. Maquiavel, Richelieu, Fouché, Talleyrand, o Príncipe de Metternich, Bismarck, o

doutor Goebels e quanto velhaco há e ouve por aí, foram indivíduos que não passaram do plano da instintividade, o que não é possível admitir. Vale notar, ainda, a seguinte crítica:

Basta compreender que os instintos se manifestam pelos desejos e saber que desejo e vontade são coisas diferentes... Para logicamente concluir que à vontade cabe impedir que os maus desejos se concretizem e que é a fraqueza da vontade diante da força dos desejos que leva o homem ao pecado... Espiritualidade e animalidade são estados que se excluem. O Sr. Carlos Imbassahy se admira de terem os homens dupla natureza. Kardec, Dellane e outros encarnacionistas admitem a existência da natureza animal e da natureza espiritual...

Como se excluem se há coexistência?... A vontade só impede que os maus desejos se concretizem quando o indivíduo já se acha em grau superior espiritual. Nos estados inferiores não há aquela vontade; nem sempre espiritualidade e animalidade são estados que se excluem. O indivíduo pode estar adiantado em determinados pontos e atrasado em outros. Na ópera Rigoleto, extraída do trabalho de Victor Hugo, Le Roi s’amuse, um facínora declarava que não poderia deixar de matar o Duque de Mântua porque já havia empenhado a sua palavra e não iria desonrar-se. Hugo foi muito fiel na pintura do personagem. A evolução não se faz, uniformemente, superpondo-se as camadas de espiritualidade como camadas geológicas. Pode haver, portanto, no indivíduo espiritualidade e animalidade, bons sentimentos num sentido e maus em outros, tendência para umas tantas falhas e progresso em determinados erros. Não nos lembramos daquela nossa admiração diante da dupla natureza. O que se diz é que não há naturezas duplas, mas estados evolutivos, e esses estados vão da mais baixa animalidade, dos seres brutalizados, imbecilizados, tarados, saídos de pouco dos reinos inferiores, até os grandes espíritos, embora raros, que se encontram nas páginas da História, como verdadeiros modelos de bondade, virtude, humildade e altruísmo.

Podíamos dizer como Milnes-Edward, que os instintos são disposições mentais que fazem com que alguns animais executem atos sem os haver aprendido e os levem a termo sem serem guiados pela inteligência. Ou como Fabre, que reconhece a existência de um elemento hereditário nos instintos, quando os considera como impulsos mentais que, sem inteligência e sem a previsão do resultado, determina, combina e regulam ações, como se existisse tal previsão; ou Ribot, que o instinto é uma soma de costumes hereditários; ou Hartmann, que é um impulso que se dirige a determinado fim; ou Claparède, que é o ato realizado uniformemente sem aprendizagem; ou, finalmente, como Pierantoni: - atos que todos os indivíduos da espécie executam do mesmo modo, em virtude de uma necessidade hereditária e inata. Mas, estaríamos ainda muito longe de explicar ou compreender o instinto, sem a noção do passado, sem os atos aprendidos e repetidos em vidas anteriores, até que, em vez de se tornarem mecânicos, como uma necessidade para a manutenção da vida, passam a inteligentes, e ficam dependentes da vontade e do arbítrio do indivíduo.

Para mostrar o efeito do passado, vale mencionar uma consideração de Wells:

Há homens de grande inteligência que não conseguem distinguir o God Save the King do Pop Goes the Weasel e há outros que, passando das mais simples operações aritméticas, não logram assimilar mais coisa alguma de matemática. Outra diferença importante é a que existe entre as habilidades cerebrais e manuais, intelectuais e motoras. Toda a gente sabe que certas crianças, estúpidas para aprender nos livros, dão excelentes carpinteiros ou revelam conhecimentos incríveis acerca dos brinquedos mecânicos e do interior dos carros motores, enquanto outros acham que, sendo os primeiros da classe, têm as mãos desastradas e se desinteressam de qualquer trabalho. (44)

Como se vê, o autor acha que, segundo os testes, as crianças inteligentes são retardadas em suas habilidades motoras, enquanto as outras estão abaixo da média no que toca à inteligência. Entretanto, o que se dá é o seguinte, que passou, é bem de ver, despercebido ao cientista: os excelentes carpinteiros e os que revelam conhecimentos acerca de mecânica trazem do passado esses conhecimentos. E muitas vezes os intelectuais, por falta de exercícios manuais, e sua prática, no correr da existência, deixam os dotes anteriores adormecidos, e daí parecerem esquerdos ou desastrados quando se entregam a tais misteres. Não há nada de surpreendente nem de espantoso no caso. Um pouco de conhecimento, no que toca às vidas passadas, explicaria o que aos autores parecem desconcertantes. Em suma, é necessário deixar claro que nas primeiras fases da vida predominam o instinto, como uma proteção previdente da natureza; noutras, ele é o reflexo ainda da vida nos estágios inferiores, e o ser os conserva por atraso; noutras, supre as nossas deficiências e serve para a manutenção e perpetuidade da espécie. Com o progresso, vai cedendo lugar à inteligência.

Costumam, inteligência e instinto, atuar no mesmo indivíduo, conforme o equilíbrio entre o seu atraso e o seu adiantamento. Por fim, nos altos graus da espiritualidade, a inteligência reina soberana, e de par com o caráter, é o farol para a conduta. Tudo porém são fases, gradações e nunca diversidade de seres.

(44) H. G. Wells. J. Husley, G.P. Wells – A Ciência da vida. A nossa vida mental. VIII.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.