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Capítulo 8 de 65
A Título de Prólogo
A Evolução · Carlos Imbassahy
Caminhava o mundo a passos largos para o abismo da incredulidade. A Ciência tomava grande impulso, e ao passo que se iam desvendando os mistérios do corpo, mais impenetráveis se mostravam os mistérios da alma. A escola experimental, dirigida por verdadeiros gênios, afirmava que os nossos conhecimentos só se poderiam basear na experiência e na observação reiteradas. Não era mais a fé a nossa bússola senão o conhecimento. O sol das velhas religiões, que haviam iluminado o mundo, descambava. E a essa penumbra veio juntar-se o desprestígio em que caíam os dogmas, até então o sustentáculo das religiões. As lutas religiosas eram o mais formal desmentido às pregações divinas. Não se procurava esclarecer as consciências, mas forçá-las a aceitarem determinados princípios, ainda que fossem inadmissíveis pelo seu absurdo, ainda que a Ciência lhes provasse o erro flagrante. Ninguém se poderia insurgir contra um ponto de fé. A base de tudo era o mistério.
Ora, constantemente baixavam à Terra vultos aureolados por missão divina, e eles se chamavam Lao Tseu, Confúcio, Sócrates, Zoroastro, Buda, Jesus Cristo. E a humanidade fechava os ouvidos a esses missionários. Para que a fé fugisse por completo, via-se imperar o fanatismo, a ignorância, o atraso mental, a maldade, a cupidez, o egoísmo, a desonestidade. Os seres, ainda os que melhores provas deveriam dar do respeito à lei, viviam guerreando-se uns aos outros, cometendo atrocidades, trazendo por toda a parte o facho da discórdia, e deixando, por vezes, nos espíritos, a convicção de que, onde entra a Religião, entra o desconhecimento, a ortodoxia, o exagero, a incoerência, o absolutismo, a injustiça, a fereza, a separação. Surgira, no firmamento espiritual, Jesus, o Cristo; trouxe-nos o seu Evangelho de paz e de perdão, e os homens o transformaram em bandeira de discórdia, em pendão de guerra. As gerações estavam caminhando para a completa descrença de Deus, esse Deus que não divisavam em parte alguma, que os desiludia pelas injustiças flagrantes, que criava seres fadados à desgraça. Marchávamos de olhos vendados para o ceticismo.
Foi nesse momento catastrófico que apareceu o Espiritismo. Chegava a época, já prenunciada nos próprios evangelhos. O Espírito de Verdade, que o Cristo nos prometeu enviar, é essa plêiade de Espíritos Superiores que nos vêm avivar os conselhos de Moral, retificar os pontos que nos faziam descrer da Divindade, trazer-nos os sofredores do Espaço, para que eles nos atestem, nos seus sofrimentos, a verdade dos ensinos espirituais; eles nos vêm confirmar a lei, onde se diz que expiaremos o mal que houvermos praticado. Já não é a época do crê ou morre, mas do vê e aceita. Já não se constrangem as consciências, esclarecem-se. Já não se trata de pessoas, mas de idéias. A nova revelação surge por uma revolução nos processos doutrinários; aparece-nos por um novo método, o da convicção pela prova. Vem com o fato; é-nos apresentada pelo fenômeno. Surge com os métodos que a Ciência preconiza. A Ciência espírita tornou-se o pedestal de uma nova filosofia. Que nos ensina ela?
A razão de nossas dores, o porquê de nossas existências num planeta cheio de agrestias, avassalado pelos cataclismos, e onde temos, lado a lado, as asperezas da natureza e a maldade dos semelhantes. Nada disso, ainda, nos haviam ensinado, assim como de onde viemos e para onde vamos. E só poderão dizer para onde iremos aqueles que baixam, até nós, dos lugares a que teremos de aportar.
Veio então o albor de novos ensinos fazer-nos compreender a razão da vida neste planeta de expiações e ao qual teremos de voltar tantas vezes quantas forem necessárias ao nosso progresso. E contribuiremos para a evolução geral à custa de nossas dores, de nossas energias, de nosso esforço, evolução que será do nosso mundo, que atingirá as gerações porvindouras, evolução que será nossa. Os males não nos são lançados sobre os ombros por arbítrio divino, por injustificável determinação; não somos acolhidos às cegas pela sorte, nem os favores são distribuídos por acaso, mas tudo obedece a uma sábia pré-ordenação. A tudo preside a justiça divina. Sofre-se para evolver. Evolvemos remindo as faltas. A missão dos que vieram ao planeta com uma parcela de responsabilidade espiritual não é pregar a desarmonia, apodar os díscolos, injuriar os contrários, anatematizar, concitar à revolta e ao extermínio, lançar os adversários à execração, fulminar os que pensam livremente, senão buscar a solidariedade, pregar a fraternização, porque a lei é nos amarmos uns aos outros.
Há que aconselharmos a tolerância, porque a tolerância é uma das mais belas virtudes do espírito. Temos que sacrificar até as idéias, antes de imolar o nosso semelhante. É preciso ter sempre, não só nos lábios, senão principalmente nos corações, o sentimento da benignidade; é preciso vencer o da hipocrisia, da farsa, da mentira e lembrarmo-nos de que o Mestre, tantas vezes benévolo e generoso para com as fraquezas da carne, era, entretanto, muito severo para com as faltas do espírito e, conseqüentemente, para com os velhacos e dissimulados, que tanto mais rezavam quanto mais virulentos eram nas apóstrofes, ferozes nas vinditas, implacáveis nas ações. Era vê-los e admirá-los pela santidade que mostravam por fora e pela triaga que conservavam por dentro. Infelizmente os exemplos são muitos. Os Espíritos nos estão chamando a atenção para essas fraquezas, que convém evitar, modificar, reformar a todo o custo.
Devemos ser firmes em nossas convicções, sinceros em nossos sentimentos, leais em nosso proceder, honestos na mais lata acepção do vocábulo, altruístas, sem interesses, e sobretudo, caritativos, de uma caridade sem restrições, que devemos estender até aos animais. Em troca dos nossos sacrifícios, já pela nossa melhoria, já pela de nossos irmãos planetários, teremos a esperança de uma vida melhor, quando os acicates do infortúnio, sem remédio, forem de molde a nos encher de desespero. Coube a Allan Kardec a tarefa de codificar esses ensinos. E quando as setas ervadas da crítica, e por vezes da contumélia, lhe são lançadas, lembramo-nos que são poucos os benfeitores que não tenham tido o seu quinhão de martírio ao lado de sua trajetória de glória.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.