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Capítulo 15 de 65

Crianças que Lembram o Passado

A Evolução · Carlos Imbassahy

No ocidente, onde nada se conhece do assunto e tais recordações passam por fantasia, superstição ou perturbação mental, em vez de procurarem os pais ou parentes do menino esclarecerem o caso; em vez de puxarem por ele, de o interrogarem, de verificarem a exatidão do que diz, muito pelo contrário, buscam impedir por todos os meios o surto das evocações. No oriente, o processo é inverso; deixam que os filhos discorram à vontade e procedem depois as investigações. E o passado se desvenda e prova. Descobrem-se os antigos parentes do reencarnado, a região, a rua, a casa onde morou; verifica-se a exatidão

do que referiu, como as pessoas que amou, os costumes que teve, os divertimentos de que gostava, os brinquedos que possuiu. A senhorita Panigot, numa carta a Dellane (Reencarnation), diz que ela e sua filha foram a um cemitério; e ao passarem por uma tumba, a criança parou, apontou para umas flores brancas e declarou: eram assim as flores que estavam na sepultura de minha primeira mamãe. Admirada, a mãe perguntou o que ela queria dizer. Contou a menina que perdera a sua mãe, que ela era má, que tinha uma irmã muito boa... Mais tarde a filha escreve: - O que vou contar está ainda presente à minha memória, apesar de ter mais de trinta e dois anos. A que eu chamo minha primeira mãe era alta, morena, magra; não era boa. Ia eu muitas vezes às vizinhanças de uma torre, com dois galgos. De minha irmã não tenho recordações. Não me lembro de ter crescido. Creio que morri pequena. Aprendo o inglês facilmente e por intuição. Provavelmente vivi na Inglaterra. Esta é uma narrativa simples, desprovida de documentação. Outras existem, entretanto, onde a prova é exuberante.

Haja exemplo no importante inquérito do Dr. Innocenzo Calderone, enfeixado em interessante monografia e citado em várias obras de Psiquismo. Esses fatos, só por só, darão por terra com a doutrina das lembranças hereditárias, dos clichês ancestrais, do plasma germinal eterno, porque não se trata de simples transmissão de lembranças, hipótese, além de indemonstrável, difícil de aceitar e compreender. Mas de fatos que constituem verdadeiras e insofismáveis identificações, e que só se podem atribuir a recordações de uma outra vida. A criança, muitas vezes, em tenra idade, não tem a menor noção do que seja a pluralidade das existências, a vida anterior, assunto que não é comum às conversações, antes o repele. Entretanto, ela se reporta aos fatos de outra vida, dizendo-se aí presente, declarando ter vivido nessa época.

Refere-se a vários episódios, que se verificam; a casa que mostra era a sua; diz onde estavam os seus brinquedos, as suas vestes, os seus objetos; declara o nome que tinha e os de seus parentes; narra acontecimentos que com ela se passaram; vai a lugares mais ou menos ocultos da casa para provar que ali se guardavam tais ou quais utensílios; conhece os escaninhos do edifício; aponta os antigos progenitores, o cônjuge, ou os filhos, ou diz quais foram, quando já não existem. Mostra, às vezes, mais apego à antiga residência e amor aos antigos pais que aos da atualidade. Tal é o que se encontra no longo Inquérito Calderone. Não há nada, pois, que justifique o tratar-se de uma transmissão por cromossomas, nem que denuncie o vago das recordações que se dariam com essa transmissão. O fenômeno tem os característicos inconfundíveis da volta do espírito.

As cenas são muito vivas, as impressões muito nítidas, os sentimentos muito fortes para serem tomados como frutos da hereditariedade, ficando-se ainda sem saber por que a transmissão, tão fidedignas no que diz respeito aos fatos, havia de enganar-se soezmente, declarando-se pessoa reencarnada. Alguns sucintos e rápidos exemplos: Foi no Thanan Bhangore. A tia de Manmohim tem uma filha. Saem a passeio, ao acaso. Ao passarem por uma casa, diz a menina que ela pertenceu a seu marido, em vida anterior. Penetram na casa. A criança saúda uma velhinha e declara. – Esta foi a minha avó, aqui está meu quarto, esses foram meus filhos. Aponta o antigo marido, já velho, e pretende desposá-lo. Diante do sorriso dos presentes, propõe-se provar o que diz e narra, entre outros acontecimentos, terem cozido seis rupias no forro de suas vestes, quando ela estava para morrer; que pedira dinheiro ao filho mais velho; declara onde deixara uns tantos objetos e o que se encontrava em determinada mala, encafuada num canto da sala. Descobriu-se

tudo. Alguns objetos estavam envelhecidos, outros cobertos de poeira, tudo a demonstrar ancianidade e abandono. Uma das pessoas presentes perguntou à menina quem ela era. A menina contou um incidente remoto passado entre ambos, o que deixou a interlocutora comovida.

Sob o título - A Reencarnação do Major Welsh – transcreve a Révue Spirite, de Paris, uma notícia publicada pelo Rangoon Times, da Índia. Esse periódico refere-se a uma criança de olhos azuis e cabelos louros, que vivia em Meiktilia, filho de pais burmeses, de condição humilde, e admirável pela frescura da pele e seu tipo físico, nessa família de indígenas. Quando tinha 4 anos espantou sua mãe, dizendo-lhe, de repente, que fora o Major D. J. Welsh, do Border Regiment, morto havia longos anos. Descreveu minuciosamente a casa do dito major e outros sítios que jamais conhecera. A mãe, alarmada, chamou os vizinhos, e o garoto recomeçou as suas narrativas, acrescentando que, com duas outras pessoas, se havia afogado num lago, na precedente existência, isso na noite de março de 1904. De fato, o Major Welsh, o Sr. Reade e o Lugar-Tenente Quinlan haviam morrido dessa maneira. A abundância dos pormenores fornecidos e a sua comprovada autenticidade fez considerável impressão nas populações da província.

A notícia que se segue é do Milwaukee Sentinel: O senhor J. C. Horster vivia no condado de Effingham, no Illinois, e perdera uma filha em tenra idade. Teve outra filha e foi residir no Dakota; esta chamava-se Nellie, mas logo que começou a falar disse que queria chamar-se Maria, que foi o nome que tivera na primeira vez. O Sr Horster, obrigado a voltar a Effingham, levou Nellie consigo. A menina reconheceu logo a antiga casa, onde declarou que tinha vivido, e designou diversas pessoas que conhecera na existência anterior. Ela quer rever sua antiga escola e para lá vai sem hesitação; instala-se num banco e afirma - era aqui que eu me assentava. Por muitos outros detalhes desconcertantes tornou-se evidente que a criança não improvisa nem mistifica. Nenhuma explicação plausível pode ser fornecida pelas testemunhas do fato, a não ser a de que se trata de uma reencarnação. (11) Em Havana, vivia o casal Cabrera, que teve um filho de nome Eduardo. Este declarou, com pormenores, o local e casa em que vivera, o seu antigo nome, Ponche, e outras particularidades.

Risadas, gracejos, ironias, mas foi tal a insistência do pequeno, que os pais se puseram em indagações. O que descobriram deixaram-nos estarrecidos. Os casos se multiplicam. O que está minguando é o espaço e o tempo. Ficamos nestes exemplos.

(11) Revue Spirite, 1925, pág. 275

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.