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Capítulo 54 de 57

Parte 51 de 54

A História do Espiritismo · Arthur Conan Doyle

E diz: “Assim a Igreja Protestante, quando procurada pelos famintos espirituais — e há milhões nessas condições, das profundidades de cuja natureza se ergue uma poderosa demanda de alimento espiritual, — nada tem para oferecer, ou, pelo menos, nada mais que cascas... Hoje se encontra o Protestantismo premido entre as mós do Materialismo e do Catolicismo. Cada uma dessas forças sobre ele vem exercendo uma pressão crescente e ele deve penetrar-se de uma ou de outra, ou será reduzido a pó. Nas suas condições atuais falta-lhe a necessária força e vitalidade para resistir à ação dessas forças e sua única esperança está no sangue novo que só o Espiritismo é capaz de injetar em suas veias esgotadas. Acredito piamente que esta é parte da missão que o Espiritismo tem que realizar; e essa crença se baseia nas necessidades palpáveis do Protestantismo, e numa clara concepção da adaptabilidade do Espiritismo a essa tarefa, bem como a sua habilidade para a realizar.” Declara o Doutor Crowell que a difusão do conhecimento não diminuiu a curiosidade do homem moderno pelas questões relativas à sua vida espiritual e à existência futura; mas hoje eles querem prova daquilo que outrora era aceito pela fé.

A teologia é incapaz de fornecer esta prova e milhões de mentes alertas, diz ele, ficam reservadas, à espera de provas satisfatórias. O Espiritismo — sustenta ele — foi mandado para dar essa prova, que de nenhuma outra fonte será fornecida. Algumas referências deveriam ser feitas ao ponto de vista dos Espíritas Unitários, O seu habilíssimo e sincero dirigente é Ernest W. Oaten, editor de The Two Worlds. O ponto de vista de Mr.

Oaten, que é esposado por todos, exceção de um pequeno grupo de extremistas, é antes de uma reconstrução do que de uma destruição do ideal cristão. Depois de um relato muito respeitoso da vida de Cristo, conforme a explicação por nosso conhecimento psíquico, continua ele: “Dizem que desprezo a Jesus de Nazaré. Confio mais no julgamento do Mestre do que no dos homens. Penso, porém, que conheço sua vida mais intimamente do que qualquer cristão. Não existe em toda a História uma alma que eu tenha em mais alta estima.

Detesto o lugar falso e errado no qual Ele foi posto por aqueles que não mais são capazes de O entender do que são de ler os hieróglifos egípcios. Mas eu amo o homem. Eu lhe devo muito, e Ele tem muito que ensinar ao mundo e que o mundo não aprenderá enquanto não tirar do pedestal de adoração e de idolatria, e O passear num jardim. É preciso dizer que minha leitura de Sua vida é ‘naturalista’. 233 “The Identity of Primitive Christianlty and Modern Spiritualiam”, volumes 2º. Edition, New York, 1875. Estou satisfeito de que assim o seja.

Nada há de mais divino do que as leis que governam a vida. O Deus que estabeleceu essas leis as fez suficientes para todas as suas finalidades e não necessita de as alterar. O Deus que controla os processos 234 terrenos é o mesmo que controla os processos da vida espiritual.” Aqui há que deixar o assunto. Esta história procurou mostrar como especiais signos materiais têm sido dados pelos regentes invisíveis da Terra, a fim de satisfazer a necessidade de provas materiais, que vêm da crescente mentalidade do homem. Também foi mostrado como esses sinais materiais foram acompanhados de mensagens espirituais, e como essas mensagens se voltam para as grandes forças religiosas primitivas do mundo, o fogo central da inspiração, que foi extinto pelas cinzas mortas daquilo que outrora fora crença viva.

O homem perdeu o contacto com as vastas forças que o rodeiam e seu saber e inspiração ficaram amarrados por penosas vibrações que constituem o seu espectro, bem como às oitavas elementares que limitam a faixa de suas percepções auditivas. O Espiritismo, o maior movimento produzido em 2000 anos, colhe-o desta condição, enxuga o orvalho que o encharcou e lhe mostra novas forças e ilimitados horizontes em seu redor e mais acima. Já os picos das montanhas se iluminam. Em breve até os vales estarão inundados pelo sol da verdade. 234 “The Relation of Modern Spiritualism to Christianlsm”, página 23.

O Depois-da-Morte visto pelos Espíritas eva o Espírita uma grande vantagem sobre os das velhas dispensações. Quando entra em comunicação com inteligências do Outro Lado e que já viveram em corpos terrenos, naturalmente as interroga, curioso, sobre suas L atuais condições, bem como sobre os efeitos de suas ações terrenas sobre a sua sorte posterior. As respostas a estas últimas perguntas, de um modo geral, justificam os pontos de vista sustentados em muitas religiões, e mostram que o caminho da virtude também é a estrada para a felicidade final. Entretanto um sistema definido é apresentado à nossa consideração, o qual elucida a vacuidade das velhas cosmogonias. Esse sistema apareceu em vários livros que descrevem a experiência dos que viveram a nova vida.

Devemos lembrar que tais livros não são produzidos por escritores profissionais. Deste lado está o chamado escritor “automático”, que recebe a inspiração; do outro lado, a inteligência que o transmite. Mas nem foi dotado pela Natureza com a menor capacidade literária, nem jamais fez a experiência de reunir narrativas. Também devemos ter em mente que o que quer que venha é resultado de um processo complicado, que em muitos casos deve ser incômodo para o compositor. Se pudéssemos imaginar um escritor terreno que tivesse de usar uma ligação interurbana em vez da pena, poderíamos estabelecer uma grosseira analogia com as dificuldades do operador.

E ainda, a despeito dessas grandes inconveniências, em muitos casos as narrativas são claras, dramáticas, intensamente interessantes. Raramente deixam de o ser, desde que o caminho que descrevem hoje é o que teremos que palmilhar amanhã. Tem-se dito que essas narrativas variam enormemente e são contraditórias. O autor não achou tal. Num longo período de leitura, no qual examinou muitos volumes de supostas experiências póstumas, e também num grande número de mensagens obtidas particularmente em famílias e sem público, ele ficou chocado com a sua concordância geral.

Aqui e ali aparece alguma história contendo êrros claros e, ocasionalmente há lapsos no sensacionalismo; mas em geral as descrições são elevadas, razoáveis e concordantes, entre si, mesmo quando diferem nas minúcias. As descrições de nossas próprias vidas naturalmente seriam diferentes nos detalhes e um crítico de Marte que recebesse histórias de um camponês hindu, de um caçador esquimó ou de um professor de Oxford bem poderia recusar-se a crer que tão divergentes experiências se encontrassem no mesmo planêta. Essa dificuldade não existe no Outro Lado; e não há, tanto quanto o saibamos, tão extremos contrastes na mesma esfera de vida — na verdade deve dizer-se que a característica da vida presente é a mistura de tipos diversos e dos graus de experiência, enquanto que a da outra vida é a subdivisão e a separação dos elementos humanos. O céu é diverso do inferno. Neste mundo e atualmente o homem devia fazer — e por vezes o consegue por algum tempo — o céu. Mas há longos períodos que são muito intoleráveis imitações do inferno, enquanto purgatório deve ser o nome dado à condição normal.

No Outro Lado as condições devem ser, esquemàticamente, divididas em três. Há os que se acham presos à Terra e que trocaram os seus corpos mortais por corpos etéricos, mas que são mantidos na superfície deste mundo, ou próximos dela, pela grosseria de sua natureza ou pela intensidade de seu interesse mundano. Tão áspera deve ser a contextura de sua forma extra-terrena, que devem ser reconhecidos mesmo por aqueles que não possuem o dom especial da clarividência. Nessa infeliz classe errante está a explicação de todos aqueles fantasmas, espectros e aparições, as casas assombradas que têm chamado a atenção da humanidade em todas as épocas. Essa gente, até onde podemos compreender a sua situação, ainda não começou a sua vida espiritual, nem boa, nem má.

Somente quando se rompem os fortes laços da Terra é que se inicia uma vida nova. Os que realmente começaram aquela existência encontram-se naquela faixa da vida que corresponde à sua própria condição espiritual. É o castigo do cruel, do egoísta, do fanático, do frívolo, que se encontram em companhia de seu semelhante e em mundos de luz que, variando do nevoeiro à escuridão, tipifica o seu próprio desenvolvimento espiritual. Esse ambiente, entretanto, não é permanente. Os que não fizeram um esforço ascensional, entretanto, ficarão aí indefinidamente, enquanto outros que dão ouvidos ao ensino de Espíritos auxiliadores, mesmo de baixos círculos da Terra, cedo aprendem a lutar para subir a zonas mais brilhantes.

Em comunicações dadas na própria família do autor, ele aprendeu o que era ter contacto com esses seres das trevas exteriores e teve a satisfação de receber os seus agradecimentos por uma visão mais clara de sua situação, as suas causas e os meios 235 de cura. Tais Espíritos pareceriam uma ameaça constante à humanidade porque se a aura protetora do indivíduo fosse de certo modo defeituosa, aqueles poderiam tornar-se parasitas, estabelecendo-se nela e influenciando as ações de seu hospedeiro. É possível que a ciência do futuro possa verificar que muitos casos de inexplicável mania, de insensata violência, de súbita inclinação para hábitos viciosos tenham essa causa, o que oferece um argumento contra a pena capital, de vez que o resultado deve ser dar mais forças para o mal do criminoso. Deve admitir-se que o assunto ainda é obscuro, que é complicado pela existência de pensamentos-forma e de formas de memória, e que, em todo caso, todos os Espíritos presos à Terra não são necessàriamente maus. Parece, por exemplo, que os monges devotos de qualquer venerável Glastonbury deveriam estar presos às suas ruínas assombradas pela simples força de sua devoção.

Se o nosso conhecimento das exatas condições dos que estão presos à Terra é defeituoso, maior ainda é o dos Círculos de punição. Há uma história de certo modo sensacional em “Gone West”, de Mr. Ward; há outra mais temperada e crível na “Vida Além do Véu”, do Reverendo Vale Owen; e há muitas corroborações nas 235 Em “Trinta Anos Entre os Mortos”, do Senhor Wickland, e no Apêndice de “Glimpses of the Next State”, do Almirante lisborne Moore, temos um relato completo da situação dos que se acham presos à Terra. visões de Swedenborg, no “Espiritismo”, do Juiz Edmonds e em outros volumes. Nossa falta de informações de primeira mão é devida ao fato de que não somos Hamlets e que não temos contacto direto com os que vivem nessas esferas inferiores. Delas temos notícias indiretamente, através dos mais altos Espíritos que nelas realizam trabalhos missionários, trabalhos que parecem ser realizados com tamanhas dificuldades e perigos quanto os que rodeariam o homem que tentasse evangelizar as mais selvagens raças da Terra.

Lemos histórias da descida de Espíritos elevados às mais baixas esferas, de seus combates com as forças do mal, de grandes príncipes do mal que são formidáveis em seus próprios reinos e de toda uma imensa cloaca de almas nas quais os esgotos psíquicos do mundo são derramados incessantemente. Entretanto tudo isto deve ser considerado antes do ponto de vista do remédio do que do castigo. Essas esferas são as salas de espera — hospitais para almas doentes — onde a experiência punitiva é intentada para trazer o sofredor à saúde e à felicidade. Nossa informação é mais completa quando nos voltamos para regiões mais felizes, nas quais parece que a beleza e a felicidade são graduadas conforme o desenvolvimento espiritual dos seus habitantes. A coisa se torna mais clara se substituirmos a bondade e o altruísmo pela expressão “desenvolvimento espiritual”, pois nessa direção se encontra todo o crescimento da alma.

Por certo que é um assunto muito diverso do intelecto, embora a união das qualidades intelectuais com as espirituais naturalmente produzam efeitos mais perfeitos. As condições de vida no além normal — e seria um reflexo da justiça e da misericórdia da Inteligência Central se o além normal não fosse também o feliz além — são descritos como extraordinariamente felizes. O ar, as vistas, as casas, o ambiente, as ocupações, tudo tem sido descrito com tantos detalhes e geralmente com o comentário de que as palavras não são capazes de lhes pintar a gloriosa realidade. Pode ser que haja algo de parábola e de analogia nessas descrições, mas o autor se inclina a lhes dar inteiro valor e acredita que a “Summerland”, como Davis a chamou, é tão real e objetiva aos seus habitantes quanto o nosso mundo para nós. Fácil é levantar uma objeção: “Por que, então, não a vemos?” Mas devemos imaginar que uma vida etérica se exprime em termos etéricos e que, exatamente como nós, com cinco sentidos materiais, nos afinamos com o mundo material, eles com seus corpos etéricos, se afinam com as vistas e os sons do mundo etérico.

Aliás o vocábulo “éter” só é usado por conveniência, para exprimir algo muito mais sutil que a nossa atmosfera. Absolutamente não temos prova de que o éter dos físicos seja também o meio no mundo espiritual. Pode haver outras essências finas, muito mais delicadas que o éter, como é o éter em comparação com o ar. O céu espiritual, pois, pareceria uma sublimada e etérica reprodução da Terra e da vida terrena, em condições melhores e mais elevadas. “Embaixo — como em cima, dizia Paracelso, e fez soar a nota fundamental do universo, quando o proclamou.

O corpo leva, consigo, suas qualidades espirituais e intelectuais, imutáveis pela transição de uma sala da grande mansão universal para a vizinha. É inalterado na forma, salvo que o jovem e o velho tendem para uma expressão normal de completa maturidade. Garantindo que assim é, devemos admitir a racionalidade da dedução de que tudo o mais deve ser do mesmo modo e que as ocupações e o sistema geral de vida deve ser tal que permita oportunidades para os talentos especiais do indivíduo. O artista sem arte e o músico sem música seriam figuras trágicas e o que se aplica a tipos extremos deve estender-se a toda a humanidade. Há, de fato, uma sociedade muito complexa, na qual cada um encontra o trabalho a que mais se adapta e que lhe causa maior satisfação.

Por vezes há uma escolha. Assim, em “O Caso de Lester Coltman”, escreve o estudante morto: “Algum tempo depois que eu tinha passado, tinha dúvidas sobre qual seria o meu trabalho: se música ou se ciência. Depois de muito pensar determinei que a música deveria ser um passatempo e minha maior atividade deveria dirigir-se para a ciência em todos os aspectos”. Depois de uma tal declaração naturalmente a gente deseja detalhes de como um trabalho científico era feito e em que condições. Lester Coltman é claro em todos os pontos: “O laboratório sob a minha direção é inicialmente ligado ao estudo dos vapores e fluídos que formam a barreira que, penso, por meio de profundo estudo e experiência, somos capazes de atravessar.

O resultado dessa pesquisa, pensamos nós, provará o ‘Abre-te Sésamo’ da porta de comunicação 236 entre a Terra e essas esferas.” Lester Coltman dá outra descrição de seu trabalho e do ambiente, que bem 237 pode ser citada como um modelo de muitas outras. Diz ele: “O interesse mostrado por seres terrenos em relação ao caráter de nossas casas e dos estabelecimentos onde se realiza o nosso trabalho é, aliás, natural, mas a descrição não é muito fácil de ser feita em termos terrenos. Meu estudo servirá como um exemplo, do qual deduzirei o modo de vida de outros, conforme o temperamento e o tipo de mente. Meu trabalho continuou aqui como tinha começado na Terra, por canais científicos e a fim de prosseguir meus estudos, visitei com frequência um laboratório que possuía extraordinárias e completas facilidades para a realização de experiências. Tenho a minha casa, extremamente agradável, completada por uma biblioteca com livros de referência — histórica, científica e médica — e, de fato, com todos os tipos de literatura.

Para nós tais livros são tão substanciais, quanto os usados na Terra. Tenho uma sala de música, contendo todos os modos de expressão dos sons. Tenho pinturas de rara beleza e móveis de desenho esquisito. Atualmente vivo só, mas frequentemente os amigos me visitam, assim como os visito, e se um pouco de tristeza por vezes se apodera de mim, visito aos que mais amei na Terra. Da minha janela se avista um campo ondulante de grande beleza e a pouca distância da casa existe uma comunidade, onde boas almas que trabalham em meu laboratório vivem em feliz concórdia...

Um velho chinês, meu assistente-chefe, de grande valor nas pesquisas químicas, é o diretor, como o era, da comunidade. É uma alma admirável, de grande simpatia e dotado de enorme filosofia.” 238 Eis outra descrição que trata do mesmo assunto: “É muito difícil dizer-vos a cerca do trabalho no mundo espiritual. A cada um é designada a sua tarefa, conforme o progresso que haja realizado. Se uma alma tiver vindo diretamente da terra, ou de algum mundo material, então deve aprender tudo quanto haja desprezado na passada existência, a fim de desenvolver o seu caráter para a perfeição. Como tiver feito sofrer na terra, assim 236 “Case of Lester Coltman”, by Lilian Walbrook, página 34. 237 Ibid. páginas 3233. 238 “Thought Lectures from The Spiritualist Reader”, página 53. sofrerá.

Se tiver muito talento, levá-lo-á à perfeição aqui. Porque se tiverdes muito talento musical ou qualquer outro, nós os temos aqui e maiores. A música é uma das forças motoras do nosso mundo. Mas, conquanto as artes e os talentos sejam desenvolvidos ao máximo, o grande trabalho das almas é o seu aperfeiçoamento para a vida eterna. Há grandes escolas que ensinam os Espíritos-criança.

Além de aprenderem tudo acerca do universo e de outros mundos, acerca de outros reinos sob as leis de Deus, aprendem lições de altruísmo, de verdade e de honra. Os que aprenderam antes como Espíritos-criança, se tiverem que voltar ao mundo, aparecem como os mais elevados caracteres. Os que passaram a existência material em menores trabalhos físicos tem que aprender tudo quando aqui chegam. O trabalho é uma coisa maravilhosa e os que se tornam mestres de almas aprendem consideravelmente. As almas de literatos se tornam grandes oradores e falam e ensinam em linguagem eloqüente.

Há livros mais de forma muito diversa dos vossos. Um que estudou as vossas leis terrenas entraria na escola espírita como professor de justiça. Um soldado que tenha aprendido as lições da verdade e da honra, guiará e ajudará, as almas, de qualquer esfera ou mundo, a luta pela correta fé em Deus. No grupo doméstico do autor, o Espírito íntimo falou de sua vida no além, respondendo à pergunta: ‘Que faz você?’ — ‘Ocupo-me de música, de criança, amando e cuidando de uma porção de outras coisas. Mais muito mais do que na velha Terra.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.